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19 de nov de 2013

A festa do meu melhor amigo


Como sempre fazia, saí do apartamento me ajeitando. Coloquei  o tênis no elevador. Cheguei à  garagem  e procurei na mochila a chave do carro. Joguei  minha mochila de estimação  no banco de trás e enfiei a chave na ignição. Girei e dei a partida. Estava indo pra casa do meu melhor amigo. Aniversário de 35 anos. Jonas era bem casado há cinco anos. Ao contrário de mim. Aos 33, continuo solteiro e feliz. Tive poucos namoros sérios, uns três,  e vários  casos.  As mulheres me fascinam,  me adoram , mas me chamam de problemático.  Devo ser. Não consigo manter relacionamentos a  longo prazo. Não sei se o problema é meu, ou delas. Talvez seja o ciúme. Mulheres são muito ciumentas. Detesto ciúme e quando sou cobrado, tenho crises de ansiedade. Não demoro muito a trocar uma pela outra. Talvez seja por isso, que eu  estou cada  vez mais entediado, amorosamente.

Cheguei  a casa de Jonas meia hora depois de vários sinais fechados e interessantes  digressões. Não gosto de festas. Muito sorriso falso e pouco calor humano. Mulheres  com roupas mínimas, cabelos esvoaçantes e coloridos e bocas vermelhas e desfrutáveis. E claro, o melhor,  amigos e bebidas. É o que me conforta. Não, não sou machista e nem é minha intenção denegrir a imagem do sexo feminino. Sou mesmo é entediado.

Fui recebido por Jonas e percebi assim que pisei na sala,  o olhar devastador de uma morena alta, de cabelos lisos e longos.  Apesar do meu ar blasé, faço sucesso com as mulheres.  Sou bonito . Pense num homem bonito. Sou exatamente como você me imaginou. Além de bonito, tenho um olhar distante e misterioso. Enlouqueço as mulheres com meu charme. Distribuo carinho , atenção e um bom sexo.  Mas minha empolgação tem  prazo de  validade . Um iogurte no supermercado ,em época de promoção, talvez seja mais vantajoso. Ou a tinta de uma caneta vagabunda.

Como disse antes, enjoo rápido das mulheres, aliás, de quase tudo. Vivo trocando de emprego, apartamentos, carros e não tenho paciência para digressões alheias. Ás vezes, nem as minhas  . Jonas aconselha-me dizendo que sou muito jovem para  tanto ranzinismo. Mas não dá para me transformar em alguém que não sou. Nem  faço questão de ser de outro jeito.

Voltemos ao aniversário do meu amigo.

Eu e Jonas trocamos informações e depois de cumprimentar alguns amigos, peguei  uma bebida e fui para a varanda conversar com um colega  da época da faculdade. Cinco minutos depois apareceu a morena de cabelos longos . A do olhar devastador. Ela vestia  um  short jeans,  sandálias  de salto alto  e uma blusa frente única. Fez questão de colocar os  cabelos na frente e deixar as costas nuas,  para mostrar a tatuagem da deusa têmis, imagem mitológica , representante da justiça.


Enquanto meu colega discursava, indignado, com a  atual situação do país , eu me distraía com o jogo de cintura da morena : “ por que fez questão de me mostrar a tatuagem ?” Talvez quisesse se exibir. Mostrar  que era advogada. Inteligente. Engajada em alguma causa. Direitos Humanos. Quem sabe ? Agora é moda.

Talvez quisesse me dizer que não era vazia. Sabia conversar. Mulheres que sabem conversar são problemáticas. No início até gosto de ouvi-las. mas um mês depois ficam chatas e repetitivas . Não param de falar. Desisti. Jamais sairia com uma mulher tatuada com o símbolo da justiça. Sim, já me chamaram de machista . Não ligo. Devo ser mesmo. Será  pecado ? Se for, então sou um grande pecador. E se existe mesmo o tal de céu e inferno, meu lugar no inferno  estará reservado. Com certeza ao  lado de mulheres bonitas.

Enquanto eu pensava,  meu colega falava. Eu não prestava atenção. Só balançava a cabeça. Estava numa briga invisível com a morena. Ela se aproximava , com as costas nuas e eu recuava. Não estava interessado na tatuagem dela e se antes a achava  bonita, depois de tanto se oferecer, perdi o interesse.  Dei uma de antipático. Chamei meu amigo para pegarmos uma bebida e me afastei. Mulheres oferecidas e atrevidas me causam tédio. Gosto da paquera sutil. Da troca de olhares. De sedução elegante. Sedução barata não me agrada. Ainda tentei mais duas paqueras. Uma ruiva com a pele cheia de sardas. Fumava e bebia muito. Detesto fumaça de cigarro.A  outra era magrinha, cabelinhos pretos e curtos. Muito sorridente. Trocamos alguns olhares. Mas  o relógio deu o sinal . Três da madrugada. Hora de voltar para o conforto do meu apartamento. Ligar meu ar. Esticar minhas pernas.


Saí sem me despedir. Jonas estava acostumado. Não iria reparar na minha ausência. Talvez a tatuada reparasse. Sentiu-se rejeitada. Não parava de me olhar. Passou por mim duas vezes e da segunda vez, esbarrou em meu braço, derrubando meu copo. Foi quando olhei o relógio e decidi  ir embora. Ao mesmo tempo que admiro as mulheres, me entedio fácil . Minhas amigas feministas vivem me criticando. Levei  todas elas  pra cama. Nunca me apaixonei . Até me esforcei. Fiz poemas . Rimava palavras, olhando a chuva batendo no vidro da janela. Nunca saiu nada de bom. Não tenho talento para a poesia. Talvez o tédio me paralise. Não sei. Não procuro saber.

Abri a porta do apartamento e me senti aliviado por estar seguro sem precisar ser agradável. Sim, sou fóbico. Tenho fobia a chatice. Lugares com muita gente e falatório além do suportável. Sinto-me mais confortável quando estou  sozinho. Em paz.

E assim fiquei.

Banho tomado, deitado na cama, luz do abajur acesa, pernas esticadas, peguei um livro na mesa de cabeceira, entre vários que aguardavam na fila. Escolhi um  de Freud, A interpretação dos sonhos. Estava curioso. Nos dois últimos meses  sonhava muito com castelos e bosques. Era um sonho repetitivo e chato. Acordava sufocado. Como se tivesse uma  espada na minha garganta. Talvez a leitura me desse respostas. Poderia ser um desejo reprimido . Quem sabe ? Ou uma raiva contida. Vontade de voltar à Idade Média . Teria eu vivido outras vidas ? Ou sonho não passa de sonho e não  tem explicação ?

Freud poderia me dar algum  diagnóstico ?

Dormi na terceira página. Sonhei com um castelo no alto de uma montanha. Acordei com a garganta seca.

6 comentários:

Mara Narciso disse...

Você entende muito bem, e escreve com primor sobre o universo masculino, Celamar. Alguns homens que conheci se enquadram nesse perfil exigente e cheio de críticas às mulheres. Boa história. E que eu não me encontre com esse personagem.

Conde Vlad disse...

"Minhas amigas feministas vivem me criticando. Levei todas elas pra cama."

KKKKKKKKKKKKKKKKKK Não dava para esquecer que lí isso. HAUHAUHAUHAUHAUHHUAHUAH Foi engraçado.

Então... Esse maluco aí é parecido comigo hein. Odeio cobranças de mulheres e mulheres que se oferecem facilmente. Gosto das que cedem facilmente, das que se oferecem não. Porém, não descartaria uma mulher com conteúdo, pois conversas também me atraí, sobretudo se a conversa tem outras questões inteligentes envolvidas e não só aprazíveis.

Abraços do Conde.

_CarmeN_BenteS_ disse...

Nossa! se conversas tb me atrái, sobretudo se a conversa tem outras questões inteligentes envolvidas...
Que tal começar pela concordância correta? conversas também me atraem.

Aff!!!

òtimo conto, parabéns. Bons contos sempre me atraem rsrsrsrs.

_CarmeN_BenteS_ disse...

Conversas também em atrái sobretudo se a conversa tem...
Que tal fazer a concordância correta? conversas também em atraem.

À autora pbs. Ótimo conto. Boa literatura sempre em atraí. rsrsrsrs

jpfilho disse...

De onde VC tirou essa porcaria de historia não sei! mas q é um lixo é
!

valgr disse...

Acho que sou sua gêmea, e nem acho machista. Só blasè mesmo... E acredite, tem mulher assim kkk...Ah, a propósito, não sou vazia, gosto de boa conversa, mas com interlocutoes efêmeros. E minha tatuagem é só uma borboleta, sem significado oculto algum, só uma morpho azul, só porque é bonita... Pena que você é só um personagem, eu adoraria uma guerra de "ignoração blasè" com você, antes de voltar para minha própria caverna precisamente às 3h! Bj...Rssss