Pesquisar este blog

25 de ago de 2013

O Deus Grego e as filhas da viúva

                             
Assim que Eliete coloca a chave na fechadura e abre a porta, Julinha pergunta :
- E aí mãe, como ele é ?
Eliete suspira. Joga a  bolsa para um lado, sapato para o outro, e esparramando-se  no sofá , olha com ar sonhador para a filha  :
- Um Deus Grego ! Meu novo chefe é um Deus Grego de 50 anos, corpo atlético e cabelos grisalhos.
-  Se for solteiro, com essa idade,  é gay....
- Divorciado !  Livre  para um compromisso sério.
 Viúva há três anos, Eliete confessara a Julinha que seu sonho atual era arranjar um namorado, pois sentia-se muito sozinha.
Quando Doutor Josuebaldo , chefe de Eliete, morreu e ela foi informada que  viria alguém  de Brasília para substituí-lo, Julinha, com seus  poderes  paranormais, sentenciou  :
- Seu novo chefe será importante na sua vida. Aposto : será seu marido !
Carente e entediada, Eliete encheu-se de esperança. Contou os dias para conhecer o homem que substituiria o antigo chefe.
Quando Doutor Nogueira se apresentou ao trabalho, seguiu-se um alvoroço entre as mulheres, pois além de rico e bem cuidado , o cinquentão era  divorciado e bonito. O sonho das solitárias e desamparadas.
Eliete , secretaria direta , passou a tratá-lo  com a servilidade de uma escrava.  Nogueira  conversava  gentilmente  com ela durante os intervalos para o café. As colegas  deram asas a imaginação   :
-  Acho que o doutor Nogueira se interessou por você.   Por que não o convida para um café na sua casa ?
Com medo de  Nogueira achar o convite um abuso, se aconselha com  as filhas.  Sandrinha, que completara 16 anos recentemente e era a mais desinibida , incentiva :
- Convida mãe ! Deixa de ser boba. Se você não convidá-lo, outra convida.  Quero conhecer meu padrasto. – Brincou.
Eliete passa  duas semanas fantasiando e  enchendo-se  de coragem :
-Doutor Nogueira....
- Já disse que não precisa me chamar de doutor . Para você sou apenas Nogueira.
Eliete ruborizou e deu uma risadinha nervosa  :
- Queria convidá-lo para um jantar na minha  casa.
E para mostrar que o jantar não tinha segundas intenções e era  respeitoso, completa :
 -  Faço questão que conheça minhas filhas adolescentes.
-  Claro.  Quando ? Também tenho um filho adolescente.
Atencioso , no dia do jantar,  Nogueira levou um buquê de rosas para  Eliete e flores do campo para as filhas.  Foi simpático  e fez questão de deixar a formalidade de lado.  
Depois da visita educada, Nogueira passou a tratar Eliete com mais intimidade no escritório. Conversavam e riam durante o expediente.  Só.  A amizade não evoluía para algo mais . Eliete fala de seu desencanto  a uma amiga de  trabalho :
- Ele é gentil, me dá carona ,vai lá em casa... mas não se declara .
- Será que é impotente ? Mas hoje tem o viagra...Seria tímido !?
- Tímido ? Um homem de 50 anos , tímido ?
- A moda agora é homem tímido.  Atrai as mulheres. Convide –o  para o aniversário da Julinha.
Julinha reuniria os amigos e parentes num restaurante para comemorar seus 18 anos . Eliete faz o convite a   Nogueira. Ele  responde  de maneira enigmática :
- Estarei presente, com certeza.  Você terá uma surpresa neste jantar.
O coração de Eliete dispara.
No dia do aniversário de Julinha,  Eliete sente-se apreensiva e comenta com a filha mais nova :
- Meu coração está apertado. Tenho mau pressentimento.
A jovem  deixa Eliete com a pulga atrás da orelha :
- O Nogueira não vale o prato que come !
Eliete pega –a  pelo braço :
-  Você sabe de alguma coisa ? Responda !
-    Não. Algo me bateu no coração.
Quando Nogueira chega ao restaurante,  Eliete fica  ao lado dele como um cão de guarda.  Depois de muito wisky,  Nogueira  vai  até o palco durante a apresentação de um Grupo de Forró, pede o microfone emprestado  e começa um discurso  inusitado :
- Hoje é um dia muito especial pra mim........
Eliete engole em seco . – O que será que ele vai falar ? Vai me pedir em casamento ? Não me preparei para isso. Estou nervosa  ! – Pensa
Nogueira continua  o discurso : - Gostaria de em primeiro lugar agradecer a Eliete, essa funcionária dedicada, a acolhida que tem me dado no Rio de Janeiro..... –
 Em seguida, depois de chamar Eliete  de querida sogrinha, pede  a  mão de  Julinha  em casamento !
Depois dos brindes, os noivos  dançam agarradinhos e comemoram a união surpreendente.
Ninguém nota a ausência  de  Eliete que sai  do restaurante carregada por uma amiga.  
Enquanto a comemoração continua , Sandrinha vai até Nogueira  e entrega-lhe um bilhete. Ele lê : - “ Vi você beijar a estagiária no dia em que fui  à empresa visitar  minha mãe. A foto está no meu celular. Se não me beijar com tal desejo, vou mostrar  pra todo mundo.”  –

 Nogueira procura Sandrinha com os olhos. Trocam olhares de cumplicidade. Depois, ele  passa a língua pelos lábios e dá um sorriso de satisfação .


18 de ago de 2013

Insatisfação

                                                       
- Lauro, quero me separar !
- Como, Verinha ?
- Não se faça de surdo. É isso mesmo que você escutou.
- Qual o motivo ?
- E precisa existir motivo para se separar de alguém ?
- Claro ! Fiz  alguma coisa que você não gostou ?
- Tá aí, não fez.
- Então...
- Sei lá...somos muito diferentes.
- Diferentes ?  E nossas afinidades ? Gostamos de ler, de Goethe, de Neruda..de vinho..
- Sim, mas não é o suficiente para continuar uma relação.
- Não ? E na cama ? Você delira quando estamos juntos.
- Verdade. Gosto mesmo. Mas...
- Já sei, arrumou outro !
- Até que não...
-  Então não me ama mais ?
- Não sei...amor não é o suficiente. É preciso algo mais..faltando algo mais.
-  Que algo mais é esse ? Você sabe pelo menos o que é ?
- Preciso pensar. Saber...
-  Tudo bem. Não vou insistir. Queria só saber o que eu  fiz de errado.
- Talvez seja esse o problema : você não fez nada de errado !
- Não entendi !??
- Você já me traiu ? Seja sincero !
-  Não preciso de outra mulher para me satisfazer sexualmente. Além disso, você é minha melhor amiga.
- Isso mata um relacionamento !
- Tá maluca ? Pelo contrário !
- Lauro, você me liga todo dia. Lembra da data do meu aniversário. Quando eu ligo pra você, atende sempre. Isso é chato.
- Ué e não tem que ser assim ?
-  Não !! Eu preciso de mais adrenalina pra viver. Nossa relação está  monótona !
- Ela é perfeita. Sem estresse. Eu não acho monótona.
- Eu acho e por isso quero terminar ! Preciso de  emoções fortes !
- É isso o que você quer ? Tem certeza ?
- Tenho.
- Então tá bom ! Não insisto mais. Acabou.
- Ótimo. Acabou. Podemos ficar amigos. Pode ser ?
- Claro, não vejo motivos para ficarmos inimigos. Respeito sua escolha.

Um mês depois Verinha  ligou para Lauro. Queria reviver os bons momentos.  Lauro não quis :

- Sabe o que é ? Estou começando uma relação com a Carminha. Ela é muito ciumenta. Não quer nem ouvir falar de você.
- Com a Carminha ? Aquela  sem graça ?
- A Carminha é uma mulher muito interessante !
- E como fica nós dois ?
- Não fica.
- E a nossa amizade  ?
- Continua. Cada um vivendo sua vida.
-Mas precisamos conversar pessoalmente.
-Não vai dar. Fica para a próxima. Desculpe, Verinha.


Verinha não se conformou com a recusa.  Passou a ligar todos os dias para Lauro.  Ele  mudou o número do celular. Verinha  ia esperá-lo na porta do trabalho. Para fugir do assédio, ele passou a sair em horários diferentes.  Verinha não desistiu. Persegue Lauro nas redes sociais. Manda  recado pelos  amigos. Insiste em beber, pelo menos, um chope.  Lauro está no terceiro relacionamento. Verinha continua atrás dele. 

15 de ago de 2013

Amores e lagartixas

A festa no apartamento de Marcelo estava animada. Som, bebida, comida e reencontro com amigos. Silvia conversava com o namorado e dois amigos, quando avistou  Débora, na varanda, sozinha, com um vestido vermelho , e uma taça de vinho na mão direita. Silvia admirava Débora. A amiga tinha 30 anos, era alta, magra, cabelos pretos e longos, pele branca, olhos verdes, além de um corpo bem feito. Não se viam há dois meses. Silvia pediu licença ao namorado e aproximou-se dela :
- Débora,  tudo bem  ?
Débora estava distraída e quase deixou a taça com o vinho cair no chão :
- Silvia, que susto ! Estava longe. Eu estou bem e você ?
Empolgadas com o encontro surpresa, logo começaram a contar as novidades. Curiosa, Silvia  perguntou :
- Está sozinha ?
- Sim e você ?
- Estou com o Ricardo. E  o seu namorado ?  César ..o nome dele , né ?
- Terminamos.
- Ué, vocês não estavam tão  apaixonados ? Vivendo quase uma lua de mel ?
- Sim. Verdade
- O que aconteceu ?
- Não nasci para amar.
- Como assim ? Todos nós nascemos para amar .
- Quem disse ? Está escrito em algum manual quando nascemos ?
- Ah, Débora, toda mulher quer ser amada.
- Concordo. Mas junto com o amor vem tantos outros problemas.
- Já sei, foi traída  ?
-  Não .  Amava e era correspondida. Mas gosto de ser livre. Amor e liberdade não combinam. Essa coisa de ter que dar satisfação. De ter que esperar ligar. De ligar.
- Mas relacionamento é assim mesmo.
- Amiga, relações são muito complicadas.
- Sei lá, acho que você é que está complicando.
- Nada. Quero simplificar. Gosto de sexo casual. Gosto de conhecer gente nova. Homem quando pega intimidade fica muito folgado.
-Como assim ?
- Ai, amiga, no início é tudo um paraíso. Depois o homem começa a ficar rabugento , reclama e eu odeio esperar por ligação. Por SMS. Não quero isso na minha vida mais . A gente se acostuma e a pessoa vai embora.
- Mas você não era correspondida ?
- Até quando ? Tudo acaba, né ? E se acabar primeiro para ele ?
- Nossa, mas você é muito pessimista !
 - E tinha uma outra coisa : o César estava metido com um movimento SALVEM AS LAGARTIXAS AMARELAS ...e era reunião em cima de reunião..
-  Devia sentir orgulho dele. Afinal, ele está ajudando a salvar o planeta.
- Salvar Planeta ?  A gente não consegue nem se salvar e vai salvar planeta ? Não delira. Ele era até meio fanático com essa história de lagartixa.
- Você não foi egoísta ? Quem ama tem que entender o outro.
- Outro problema. Eu não consigo nem me entender , como vou conseguir entender o outro ?
- É  , eu acho que você complica demais.
- Tô simplificando.  Não  preciso mais esperar por ligação, SMS, não me preocupo se devo ou não ligar e quando ligo não me preocupo se o celular vai dar caixa postal. Acabou minha agonia.
- É, cada um é feliz a sua maneira. E não tem ninguém em vista ?
- Muitos. Amanhã vou sair pela terceira vez para transar com um rapaz incrível. Será a última vez. Depois dispenso. Só sexo.
- Cheia de poder !!
-  Variando o cardápio. Tenho mais uns dois na fila. Só sexo. Nada mais.
- A gente se fala outro dia. Deixa eu ir lá.  O Ricardo está me chamando.
-Vai lá. Foi ótimo te encontrar. Vamos marcar de almoçar.

- Isso. Aí você me conta seu novo caso.
- Combinado.

Despediram-se. Débora ficou na sacada da varanda respirando ar puro. A brisa da noite refrescava-lhe o rosto. Aquela sensação de liberdade combinava com ela.O celular tocou. Ela puxou o aparelho da bolsa e atendeu com um sorriso na voz.

2 de ago de 2013

Metade

Estavam na casa dele.  Quinto andar . Apartamento de frente para o mar. Depois de  três taças de vinho, transaram com a janela aberta. O cheiro de maresia  alimentava os  instintos.  Estavam juntos há um ano, entre brigas e reconciliações. Os desentendimentos esfriavam o amor. Mas  não apagavam  o fogo sexual.  Da parte dele era só tesão. Ela  tinha também paixão. Mesmo contrariada, , aceitava o vai e volta dele. Depois do sexo,  discutiam  a relação. Ele queria descansar. Ela queria falar. Precisava desabafar  :

Ela – Por que você me procurou mais uma vez ?
Ele  - Por que senti tesão.
Ela – Tesão é muito pouco.
Ele – Pouco ? O maior sentimento que um homem pode ter por uma mulher é o tesão.
Ela- Eu quero mais .
Ele – Mais o quê ?
- Ela  - Casar , ter filhos, família. Visitar a sogra dia de domingo.
Ele – Meu amor, assim não  há tesão que resista.
Ela – Como você sabe ?
Ele – Vejo pelos meus amigos. Melhor assim como estamos. Manter sempre a chama do tesão aceso.
Ela – E se eu te disser que não quero só isso ?
Ele – É só o que eu tenho para te dar.
Ela – Só ? Sabe...eu tenho a impressão.....
Ele – Fala. Completa a frase.
Ela – Deixa pra lá.
Ele – Deixa de bobagem. Fala o que você ia falar.
Ela – Não sei...eu tenho a impressão que você me quer pela metade.
Ele – Não entendi ! Quero você inteira. Todinha pra mim !
Ela – Mentira ! Você me quer pela metade. Quer e não quer, entendeu ?
Ele – Você está muito confusa.
Ela – Confuso é você.
Ele – Sou nada. Sou tão simples.
Ela – Um  homem que quer uma mulher pela metade não é simples.
Ele – Fala em português. Não entendo que metade é essa.
Ela – Você me quer e não quer, entende ?
Ele – Não.
Ela – Você não quer ficar comigo, mas também não quer me perder.
Ele – É, você tem razão.  Concordo.
Ela – Ainda por cima é cara de pau !
Ele – Sou sincero.  Não quero te perder, mas também não quero nada sério.
Ela – isso é egoísmo.
Ele – E quem disse que eu não sou egoísta ?

Ela ficou em silêncio. Pulou da cama e pegou a roupa na cadeira. Vestiu-se lentamente, enquanto se recuperava das palavras que lhe feriram o ventre . Ele apenas olhava. Em seguida, ela apanhou a bolsa no cabideiro e saiu sem se despedir. Ele não fez nada para impedir. 
Ela trocou o número do celular. Saiu  de circulação. Ele ainda ligou para ela umas três vezes. Depois desistiu. Nunca mais se viram. Três meses  depois, estava apaixonado por outra. Pela metade. Ela ainda tinha esperanças de esbarrar com ele pelas ruas. Quem sabe ?
.......................................................................................