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11 de abr de 2013

A vizinha


                                                     Sexta-feira chuvosa. Saí do trabalho cinco da tarde com o céu carregado de nuvens escuras, anunciando uma tempestade. Peguei um trânsito infernal. Quase três horas depois, entrei  em casa com  um mau humor do cacete.  Ainda bem que moro sozinho, assim não descontaria minhas queixas  em cima de ninguém.  Tomei um banho para esfriar a cabeça, coloquei a carne assada do dia anterior no micro-ondas e abri  uma cerveja . Depois do jantar, relaxei sentado no sofá , pensando na vida.  Acendi um cigarro e prometi mais uma vez que ia parar de fumar.

Nada interessante para passar o tempo na televisão. Resolvi ligar o computador para ler  e-mails .  Só tinha porcaria : e-mails de correntes e pedidos para responder pesquisa.  Nunca respondi  nada . Mas não desistem . Como tem gente chata e inconveniente no mundo.  Mandei tudo para a lixeira. Li alguns sites de notícias .  Só violência e briga de egos. As reclamações  e mentiras  de sempre. Nas redes sociais os internautas não cansam de dar opinião sobre todos os assuntos. Os religiosos anunciam  a volta de  Cristo.  Mulheres e homens carentes se exibindo em poses de modelo. A humanidade está cada vez mais desequilibrada.

Olhei pela janela. A chuva apertou. A brisa que veio de fora  me  fez respirar fundo. Quase meia-noite. Só então me dei conta que não tinha mais cigarros. Uma boa chance de parar de fumar. Quem sabe amanhã ?  Comecei a pensar nos problemas. Nas contas. Na vida  solitária e cheia de cobranças e  a ansiedade cresceu. Precisava comprar mais um maço. Pensei  onde poderia encontrar um botequim aberto aquela hora. “ O pé sujo da esquina. Geralmente fica aberto até 2 da madrugada. Sempre me salva. Vou tentar.”

 Desci pela escada para fazer um pouco de exercício. Encontrei o porteiro cochilando com a cabeça em cima da mesa. Abri a porta devagar para não acordá-lo.  A chuva continuava, teimosa. Andei pelas marquises . O botequim estava aberto. Pedi logo dois maços e ainda bebi um copinho de cerveja com um conhecido que estava por lá. Quando voltava  pra casa, presenciei uma cena escrota : um homem e uma mulher discutiam encostados num carro. Os ânimos ficaram  exaltados. Nas janelas dos prédios, os curiosos acompanhavam a cena. Talvez esperando ver sangue. De repente, o homem estufou  o peito e  se aproximou dela, enfiando-lhe o dedo no rosto. Gritava e balançava o dedo. A mulher com medo, recuava. Eu não sabia se ia até lá ou ia embora. Num ataque de fúria, ele puxou a mulher pelos cabelos. Aos gritos , xingou-a de puta e vagabunda. Depois a empurrou no meio fio, abriu a porta do carro e saiu cantando pneu.



Ela  era bonita.  Corpo bem feito. Cabelos  cacheados e ruivos. Adoro ruivas. Devia ter quase trinta anos. O que uma mulher daquelas fazia ao lado de um homem ignorante  ? Penalizado, me aproximei para ajudar. Ela esticou as mãos, e chorando ,  desabafou :
- Viu o que ele me  fez ?
- É um covarde, filho da puta. Vocês se conhecem há muito tempo  ?
- Meu namorado. É sempre assim. Quando brigamos ele fica violento.
-  Quer que  a leve a um hospital  ? Seu rosto está machucado.
- Não ,  vou pra casa.
- Tem dinheiro para o táxi ? É tarde.

Só então a mulher notou que estava sem a bolsa.

- Bom –  falei – não tenho dinheiro aqui. Só trouxe uns trocados para o cigarro , mas se quiser ir até o meu apartamento, moro naquele prédio de  esquina,  te dou dinheiro para o táxi.
Ficou em silêncio , me olhando nos olhos. Devia estar pensando. Mesmo desconfiada, aceitou o convite. Não tinha saída. 
- Qual o seu nome ?
- Marina.
- O meu é Jorge.
Fomos em silêncio até o meu prédio. Convidei-a para subir :
- Se não quiser, pode esperar aqui na portaria. Eu não demoro.
- O senhor, quer dizer, VOCÊ  foi tão gentil. Vou subir.

Abri a porta do apartamento e convidei-a para esperar na sala, enquanto ia até o quarto pegar dinheiro.
-  Toma.  Dá para o táxi.
- Eu volto para lhe devolver  com juros. Pode deixar.
- Não precisa. É seu. Posso também levar você em casa. Quer ?
- Não há necessidade. Você poderia me dar um copo de água ?

Dei água para  Marina e  lhe  ofereci  uma taça de vinho para relaxar. Começamos a conversar. O tempo passou rápido. Quase quatro  da manhã. Precisava  acordar cedo. “ Como mandá-la embora ?"
 Não sei se foi o efeito do vinho, mas começamos a trocar olhares. Não consegui resistir. Era um fraco.   Marina me seduziu com seu olhar carente.  Nos  beijamos  e acabamos na cama. Ela tinha a pele macia. Era doce e selvagem . Com curvas generosas e cheiro bom.

Dormimos com o dia clareando. Acordei  nove da manhã. Minha vontade era pular em cima de Marina. Mas não podia. Estava atrasado. Sábado é dia  de visitar minha mulher  no presídio. Tomei um banho rápido. Fiz café e acordei  Marina. Ela bocejou e se virou para o lado. Queria ficar mais.

Precisei quase expulsá-la da minha  casa. Saiu resmungando e batendo  a porta . Nem tomou café.  Não podia fazer nada.Em primeiro lugar estava minha esposa. Eu ainda precisava passar no supermercado para fazer compras e levar para Dorothéia. 

 Dorothéia  é mulher muito  ciumenta.O cíúme levou-a para a cadeia.   Ela  desconfiava  que eu tinha um caso com a vizinha do quinto andar. Numa sexta-feira ensolarada, elas se encontraram  na portaria do prédio e depois de uma discussão, a vizinha chamou Dorothéia  de cara de jaca. As duas começaram a brigar. Rolaram no chão. Minha mulher estava com uma faca na bolsa. Partiu pra cima da rival e  deu-lhe três facadas.  A coitada morreu na hora . Ficou  se estrebuchando na frente do filho de oito anos.

Quando ligaram para o meu trabalho contando o que havia acontecido, gritei um palavrão no meio da repartição e quase levei uma advertência. Depois, para não me sentir tão culpado, jurei  a Dorothéia que nunca tive nada  com a vizinha. Mentira. A morta era minha amante. Dorothéia, acreditando ter cometido uma injustiça, tentou até o suicídio. Ela foi julgada e condenada e agora, eu vou visitá-la todos os finais de semana.

Por causa de Marina, cheguei atrasado para a visita. Lá estava Dorothéia me esperando de banho tomado e cigarro na mão .  Reclamou chorosa porque cheguei  meio-dia . Depois, mordeu os lábios,  mexeu nos cabelos e  me  deu um beijo .  Durante um tempo  ficou em silêncio. Parecia remoer a dor de ter perdido a liberdade. Abriu a sacola das compras, pegou uma maçã, deu uma mordida, sorriu e se abraçou comigo.  Então, começou a chorar.

Peguei o lenço no bolso da calça e enxuguei suas lágrimas. Como sempre, me emocionei. Dorothéia  é o amor da minha vida.