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25 de mar de 2013

Prova de amor


                                               Quando Juarez  chegou no barzinho de música ao vivo, para comemorar o aniversário do amigo  Cláudio, as mulheres  entraram em êxtase  :
- Débora, olha quem chegou....cada dia mais gostoso !
- E olho o  corpo , é muito lindo !
- E veio  sozinho.....com quem ele  fica hoje ?
- Comigo ! Vou partir para o ataque !
- Eu também ! Vamos apostar.
O burburinho das desacompanhadas cresceu e fez-se um intenso desfile de peitos, bundas , pernas e cabelos .
Educadamente Juarez  cumprimentou  as amigas e foi abraçar o aniversariante :
- Rapaz, quase que não pude vir ,  tive prova na Faculdade....
- Deixa eu te  apresentar  o pessoal que você não conhece....
Os olhos de  Juarez  brilharam quando cruzaram com os olhos de Lúcia . Foi paixão á primeira vista. Dessas  que acontecem raramente na vida de um homem .
 Empolgado ,  perguntou a Cláudio :
- Quem é aquela de olhos verdes e cabelos pretos sentada  na ponta ?
- É a Lúcia.....peraí , vai me dizer que se interessou por ela ?
- Qual o problema ? É casada ?
- Não reparou ? Ela está numa cadeira de rodas. É paraplégica.
- E daí ? Isso não impede que eu me interesse por ela. Amor não tem explicação.
Foram apresentados. Juarez  puxou uma cadeira e ficou conversando com Lúcia.  As  amigas do rapaz exibiam um misto de inveja e despeito. Juliana era a mais inconformada :
- Não estou entendendo a do Juarez ....eu aqui, toda gostosa, me oferecendo....
-  Mas parece que se interessou por Lúcia. Uma  paraplégica...
-  Acabo com isso já .  Vou chamá-lo para uma dança  .
Juliana se aproximou exibindo os fartos seios siliconados e fez o convite :
- Tudo bem ? Quanto tempo a gente não se fala.....
- Pois é meu anjo, desculpe. Estou tão empolgado na minha conversa,  que não falei direito com você. Me perdoa, Ju ?
- Só se dançar comigo....
- Dessa vez não vai dar. Machuquei meu pé no futebol....
Sem graça , Juliana pegou a bolsa e foi embora. As  falsas amigas  exibiram um sorriso interno de satisfação.

No final da comemoração, Lúcia e Juarez  trocaram o número do telefone.

Passaram a se falar diariamente. Juarez  convidou-a  para sair . Lúcia  recusou  e chamou –o para ir até sua casa
As visitas tornaram-se freqüentes . A amizade cresceu. A mãe, observadora, comentou  :
- Esse rapaz está apaixonado por você.....percebo pelo olhar...
- Que nada mãe. É só amizade. Não posso amar e nem ser amada.
- O que é isso, Lúcia ? ! Você é uma mulher....tem sentimentos...
- Mãe, vamos acabar com esse assunto. Está resolvido e assim será.

 Num sábado, os pais de Lúcia saíram e eles ficaram  sozinhos. Comiam brigadeiro, quando  Juarez fez o pedido cheio de ternura :
- Lúcia, gostei de você desde a primeira vez que a vi . Quer namorar comigo ?
- Namorar ?
- Sim e quem sabe mais tarde casar ?!
- Não posso.  Somos amigos.
- Não gosta de mim ?
- Sou incapaz . Não vê ?
- E daí ? Isso não impede o nosso amor.
-   E quando  se  cansar  ? Quando sairmos, terá que carregar minha cadeira. As pessoas  vão olhar e comentar  : que  homem bonito e com uma aleijada !
- Nunca ! Nunca  deixarei que humilhem   você.
- Um dia se enche  de tudo . As mulheres ficam a sua  volta  como moscas  no mel..... E eu , inválida,  não  poderei impedir o assédio histérico.
-  Mas  gosto  de você !
- Gosta agora. Mas pode me responder se vai gostar amanhã ? Pode ?
Abraçou Lúcia com sofreguidão. Ela não correspondeu e pediu que ele fosse embora. Ainda implorou, mas Lúcia foi enérgica. Não teve pena. E ainda gritou :
- Hoje é você quem chora . Amanhã, pode ser eu !
Saiu confuso e procurou Cláudio  para desabafar:
-  Sofrendo  por causa daquelazinha sem graça ? Você é boa pinta, pode ter a mulher que quiser .
- Quero ela ! Gosto dela !
- Isso passa !
Não passou. Durante um mês  tentou contato com Lúcia . Sem sucesso.  A dor da saudade desnorteou Juarez. Perdeu o apetite e a vontade de viver. Foi abandonado pela razão. Tornou-se um mendigo do amor.
Numa sexta –feira á noite Lúcia e a mãe viam novela , quando a campanhia tocou. Dona Inês olhou pelo olho mágico :
- É Juarez .
-  Não atende !
Ele  sabia que estavam  em casa.
 Escutava o som da televisão. Começou a gritar do lado de fora  :
- Lúcia, te amo ! Me deixa entrar !  Eu faço o que você quiser para provar que meu amor é verdadeiro !
Uma hora de choro e gritaria. Lúcia não se comoveu . Os vizinhos  reclamaram . Juarez  só foi embora porque o porteiro ameaçou  chamar a polícia.

 Na calçada, andava cambaleando, embriagado pela tristeza. Atravessou a rua sem olhar . Foi atropelado por um micro-ônibus.  O barulho da freada e de vidros quebrando chamou a atenção dos pedestres. Logo uma multidão de curiosos se  aglomerou  em volta de Juarez . A ambulância chegou . Os paramédicos colocaram  o atropelado na maca e comentaram comovidos :
- Tão novo ! E é  grave.  Parece que o coitado fraturou a coluna.

Ao ouvir a frase, os olhos de Juarez brilharam. Consciente, chamou baixinho  pelo médico que estava verificando-lhe a  pressão e com um  sorriso de satisfação nos lábios, perguntou com empolgação adolescente  :
- Estou paralítico doutor ? É pra sempre  ?