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10 de jan de 2013

O enterro do Vasconcelos


Silvinha sai da cama contrariada :
- Quando é que você vai pra Campos ?
- Amanhã cedo. Volto sexta.
- Sexta ? Que horas ?
- Final da tarde.
Ela respira fundo, aperta os lábios e passa a mão pela boca :
- Vai direto para casa ou  passa aqui antes ?
- Vou pra casa. Sábado é aniversário do mais velho.
- Não aguento mais essa vida de amante, Vasconcelos !
-  Isso vai acabar. Mais cedo do que imagina. Vou resolver nossa vida.
- Resolve mesmo. Teu filho está com 8 anos e eu quero que ele cresça com uma família normal. Não aguento o papo de sempre que vai resolver e nada.
Silvinha  e Vasconcelos eram amantes há 10 anos. Ele sempre prometendo a separação. Enquanto não cumpre o prometido,  se reveza entre as duas famílias. Silvinha,  a outra e  Edinéia ,a oficial , com quem tem dois filhos.
Há seis meses Silvinha vêm pressionando Vasconcelos insistentemente :
- Se você não se separar até o final do ano, sumo no mundo com teu filho.
- Vou resolver, já disse . Mais cedo do que imagina. Tenha paciência.
Vasconcelos beijou Silvinha na boca para que ela não falasse mais. Transaram como da primeira vez. Na hora da despedida, Silvinha demonstra temor :
- Estou com um pressentimento estranho....você vai de carro ou de ônibus ?
- Vou de ônibus. Não posso dirigir. As tonteiras voltaram.
- Te amo, Vasconcelos. Sei que você é um sacana indeciso, mas te amo. Sentirei saudade.
- Deixa de bobagem. Campos é aqui do lado. Logo estarei de volta.Mesmo contra a vontade de Deus, te garanto.
Silvinha arrepiou-se :
- Nossa, não fala desse jeito, fico com medo !
Assim que o amante  bateu a porta, Silvinha sentiu uma pontada no coração. Ligou a televisão para se distrair . Durante a noite teve um pesadelo com um ônibus rolando um barranco. Acordou suando .
No dia seguinte, Vasconcelos ligou para ela do celular:
- Daqui a pouco o ônibus sai. O que você tem ? Está estranha.
- Não viaja Vasconcelos. Tenho mau pressentimento. Já disse.
- Deixa de bobagem. Essa viagem é importante. Nada vai nos separar.
Despediram-se:
- Preciso desligar. Juízo.
- Te amo. Desliga, vai .
- Não, desliga você primeiro.
 Silvinha desligou chorando.De tarde recebe a notícia do acidente.O ônibus de Vasconcelos caiu numa ribanceira e pegou fogo. Não há sobreviventes.
A irmã de Silvinha é quem dá a notícia:
- Você tem que ser forte . Teu filho não pode perceber nada.
- Vou contar para ele. Vou ao enterro do Vasconcelos e ele vai comigo.
- Enlouqueceu ? A mulher dele  está no cemitério.
- Não interessa. Quero ver o Vasconcelos pela última vez.
Quando chega no velório, o ar misterioso de Silvinha chama a atenção :
- Quem é essa mulher  de preto com essa criança pela mão ?
-Acho que é a amante do Vasconcelos.
- A Edinéia  sabe  ?
- Claro . Finge-se de morta. Qual a mulher que não sabe que está sendo traída ?
O burburinho começa. Edinéia aproxima-se de Silvinha com o coração aos pulos :
- De onde você conhece o Vasconcelos ?
Silvinha tira os óculos escuros, assoa  o nariz e olha nos olhos da rival:
- Sou a amante do Vasconcelos e o menino é o  Carlinhos, nosso filho.
Edinéia muda de cor, jamais imaginou tamanha petulância. Grita furiosa :
- Tirem a vagabunda mentirosa daqui. Já não me basta a morte do pai dos meus filhos e vem essazinha dizer que é amante do MEU MARIDO ? E ainda por cima  puxando um bastardinho pela mão ?
Silvinhaéingiaabi gosto.ou nososinha.m num canto :
 olhosst Denegriu sua imagem diante da famdele.  pega as fotos dela ao lado de Vasconcelos na praia, num restaurante, passeando com o filho  e mostra no velório :
- Vejam. Meu amante. Sou a  mulher que ele amava. Sabe porque ele não se separou ? PENA ! Ele tinha pena dessazinha .
Fala e aponta para Edinéia com ar de desprezo.
Carlinhos puxa a mãe pelo vestido  gritando :
- Cadê meu pai ? Quero ver meu pai morto. Nunca vi gente morta. Porque o caixão tá fechado ? Quero ver meu pai !
Edinéia espumava de raiva. Revirava os olhos, se arranhava e agredia Silvinha com palavras, fulminando-a com um olhar de mulher traída :
- Tirem  essa piranha daqui ! Vagabunda ! Rasteira ! O Vasconcelos é MEU marido. Pai dos MEUS FILHOS !
- E é pai do meu filho também. O homem que eu amava e que me fazia gozar gostoso !
Silvinha enfia os dedos pela cara de Edinéia :
-  Gozava três..quatro , cinco vezes com ele. Ás vezes orgasmos múltiplos.  E ele me  dizia que mulher nenhuma fazia ele gozar gostoso, como eu .
Edinéia estremecia, trincava os dentes e andava de um lado para o outro com as mãos na cabeça :
- Filho da puta ! Nunca gozei com ele ! Abre o caixão. Vou matar o Vasconcelos !
Carlinhos, na sua ingenuidade de criança, faz Edinéia espernear  de ódio  :
- Precisa não moça, ele já tá morto !
O irmão de Vasconcelos se aproxima de  Silvinha :
- Vai embora, por favor. A nossa dor é grande. Depois do enterro eu procuro por você e a gente acerta.
- Acertar o quê ? Vou ficar para o enterro ! Ninguém me tira daqui. Se tocarem em mim ou no meu filho, chamo a polícia.
Dois sobrinhos de Vasconcelos comentam baixinho :
- Caraca, titio era taradão ! Até que a amante dele é bem gostosinha.
O cortejo fúnebre saiu ás 5 da tarde. Silvinha voltou para casa no início da noite. Estava exausta, confusa e deprimida. Sentiu-se só. Teve medo.
Carlinhos foi o primeiro a entrar em casa. O menino corre para o quarto dela e volta gritando eufórico:
- Mãe....mãe....papai tá vivo ! Papai ta lá no quarto dormindo.
O coração de Silvinha acelera. Uma corrente de ar passa pela porta. O jarro que estava  em cima da mesa cai.  Engoliu em seco :
- Teu pai tá morto Carlinhos!
- Não tá mãe, vem ver !
Puxou a mãe pelos braços. Silvinha  acende a luz e vê Vasconcelos deitado na cama dormindo.  Fica confusa. Não sabe mais o que é real. Sente-se num pesadelo. Ela tem medo de mortos. Desde criança era assim: via espíritos. Já ouvira falar de mortos que voltavam para se vingar.  Sim -  pensava - Vasconcelos queria se vingar dela porque ela aprontou um escândalo no enterro dele. 
Enquanto o garoto acorda Vasconcelos, Silvinha vai até a cozinha e volta armada  com um facão. Segurando o facão  com as duas mãos, ataca o  amante :
- Vou te matar ! Volta para o inferno. Você não vai me assustar ! Veio me infernizar só porque sabe que tenho medo de alma penada? Quer se vingar ?
Vasconcelos acorda e vê Silvinha por cima dele. Tenta se defender. Explicar. Tarde demais.
É atingido com  três facadas na barriga. Ele ainda estica os braços tentando respirar, dá um último suspiro e morre. Silvinha só toma consciência do que fez, quando o sangue espirra nos olhos dela . Ouve ao longe, os gritos do filho . Em meio ao desespero, aponta a faca para o próprio peito. 

3 de jan de 2013

Brigas

                                                            
Quase duas da madrugada. Bernadete cumprimentou o porteiro, abriu a porta do elevador e apertou o décimo andar. Não avisou ao marido que chegaria de viagem um dia antes. Queria fazer  surpresa.
Tirou a chave da bolsa sem fazer barulho , rodou na fechadura bem devagar e entrou. A sala estava escura. Preferiu não acender  a luz. Tomou cuidado para não esbarrar nos móveis. Deixou a mala perto da estante e se encaminhou para o quarto.
“ Provavelmente” - pensou- “ o marido acabara de dormir”. Entrou no quarto e acendeu a luz. Ismael estava coberto até a cabeça . Dormia profundamente, com o  ar-condicionado ligado. Bernadete percebeu que do lado dele  havia uma mulher. O coração dela  acelerou. Correu para o lado esquerdo da cama . Puxou o edredon. Deu um grito. O marido acordou. A intrusa também.
Ismael arregalou os olhos ao ver a esposa :
- Ué, você não chegaria amanhã ?
- É...queria te fazer uma surpresa e quem me faz uma surpresa é você !! O que você estava fazendo na nossa cama com essa vagabunda ?
- Vagabunda, não. A Silvinha é sua amiga.
- E ainda por cima é sonso. Cínico ! Filho da puta !!
Percebendo que Bernadete partiria para a agressão, Silvinha empurrou o edredon e se levantou em posição de ataque:
- Vem que eu enfrento ! Não tenho medo de você.
- E eu lá quero sujar minhas mãos na sua cara de vagabunda  ? E aí, Ismael o que significa isso ?
Ismael estufou o peito e começou a se explicar, enquanto Silvinha, nua, com a mão na cintura, olhava pra ele :
- Sabe o que é ? É que eu e a Silvinha queríamos fazer uma surpresa pra você. Eu pensei que você chegasse só amanhã , aí chamei a Silvinha pra vir aqui em casa bolar umas surpresas, só que já era tarde...e aí...
Bernadete interrompeu Ismael, gritando com a voz trêmula :
- Além de me cornear , ainda me tira como burra ? E essa calcinha suja aqui no chão ? E essa vagabunda nua ? Nem se raspa em Silvinha?! Além de falsa , é porca !
- Não me ofende, não ! Aconteceu sem querer ! Você está sendo radical !
Bernadete pegou a calcinha de Silvinha no chão e cheirou :
-Além de não se raspar , ainda usa uma calcinha fedorenta ! Sua fedida !
- Eu sou fedida ? Pior é você que é mal comida ! Teu marido não é isso tudo, não !
Ismael se ofendeu :
- Não foi isso que você disse na hora que a gente tava na cama !
Bernadete começou a se arranhar de nervoso :
- Calem a boca ! Vocês vão me pagar pela humilhação que estão me fazendo passar!
Silvinha arrancou a calcinha da mão de Bernadete :
- Despeitada. A calcinha é minha. Seu marido manda muito mal  na cama.
Ismael se defendeu :
- Não vem , não, Silvinha. Não mente, você gostou, revirou os olhos e ainda pediu mais.
Bernadete correu pra sala, abriu a mala e voltou para o quarto :
- Tá vendo o celular novo que você pediu para eu  comprar ? Olha bem seu desgraçado. Olha o que eu vou fazer com ele.
Bernadete voltou pra sala. Ismael foi atrás. Ela abriu a janela e jogou o aparelho na rua.
Eles escutaram o aparelho se quebrando na calçada. Ismael colocou a mão na cabeça :
- Você é louca ! E se caiu na cabeça de alguém ?
- Foda-se , Ismael. Foda-se ! Eu quero é mais que todo mundo morra mesmo !
Bernadete voltou para o quarto com Ismael reclamando atrás dela. Ela pegou as roupas de Silvinha, jogou no colo da ex-amiga e empurrou-a  pelo corredor do apartamento :
- Some da minha frente. Vai embora sua vagaba de beira de estrada.
- Calma, deixa eu vestir minha roupa.
- Veste a roupa no corredor. Sai daqui com essa calcinha suja e essa roupa suada.
Bernadete abriu a porta e atirou Silvinha no corredor :
- Vai embora sua puta. Não quero nunca mais olhar pra essa sua cara horrorosa. Nunca mais me peça dinheiro emprestado.
O Interfone tocou. Ismael correu para atender.:
- Tá bom, tá bom. Pede desculpas. Pode deixar.
- O que é que  foi  agora, Ismael ?
- É o porteiro. Ligou pra dizer que o vizinho está reclamando da gritaria e do barulho que a gente está fazendo na cabeça dele .
-  Ele tá reclamando ? Pois então agora vai reclamar mais ainda.
Bernadete começou a pular no apartamento. Ismael tentou  impedir. No corredor,  Silvinha colocava o vestido . O vizinho do andar  de baixo subiu pelas  escadas e se deparou com ela seminua :
-- A senhorita podia me explicar o que está acontecendo  ? Eu vou chamar a polícia !
- Pode chamar, eu  já estou indo embora. O senhor toca lá e reclama. Com licença.
O vizinho tocou a campanhia sem tirar o dedo.  Ismael olhou pelo olho mágico :
- É o vizinho !
- Ué, você não é o gostosão ? O machão ? Então, abre a porta e se entende com ele… eu vou dormir. Boa noite !
Ismael abriu a porta. O vizinho ia iniciar uma discussão.  Ismael pediu desculpas :
- Calma, o senhor tem toda razão. Sabe o que é ? Minha esposa esqueceu de tomar os controlados dela. Mas eu já acertei tudo. Ela foi dormir.
- Ah desculpe, não sabia que a sua esposa era doente. Mas e essa aí que estava quase nua no corredor ?
- A Silvinha ? Então. Ela estava fazendo uma visita para a minha esposa, mas a minha esposa teve um surto e tirou a roupa da amiga.
- Tá bom. Tá bom. Mais uma vez perdão. Eu não sabia. Boa noite ! Desculpe !
Ismael olhou o relógio . Quase quatro da manhã. “ Que noite !! Vou tentar dormir.”
Abriu a porta do quarto . Bernadete já estava deitada.
- Pode ir saindo. Você não vai dormir aqui no quarto comigo, seu traidor.
- Deixa de bobagem , Bernadete. Esquece isso. Traição é normal. Todo homem trai. Mulher também. Vai me dizer que você nunca me traiu ?
- Eu ???
- É . Aquele loiro, meio gordinho que trabalhou com você. Confessa. Agora é o jogo da verdade.
- Só uma vez. Mais era muito ruim de cama.
- Viu ? A Silvinha foi a primeira vez também. E olha, praticamente ela se jogou em cima de mim.
- Mentira?!
- Verdade. Veio aqui em casa com a desculpa de que queria falar com você. Eu falei que você estava viajando, ela pediu para entrar . Tinha uma garrafa de vinho, nós bebemos e aí..
- Chega , não quero saber do resto.
- E aí, amor, você me perdoa ?
- Ela é boa de cama ?
- Não. Você é melhor !!?
- Jura ?
- Juro.
- Então vem cá Ismael e prova que você estava com saudade de mim.

Aliviado, Ismael começou a beijar Bernadete.  Era sempre assim. Brigavam, mas  acabavam na cama. As brigas ajudavam o casamento a não cair na rotina. Durante uma semana a esposa falaria sobre a traição. Depois,  esquecia e se duvidasse, até perdoaria Silvinha. Logo a esposa arrumaria outro motivo para brigar. No fundo , ele sabia que se amavam. Silvinha não tinha sido a primeira e nem seria a última traição dele. " Quem não trai ? - pensou.

Quando o dia clareou, Bernadete e Ismael dormiam abraçados. O domingo prometia ser de muitas novidades.