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17 de dez de 2012

Pesadelo assassino


Novamente sonhei com baratas voadoras. Acordei  assustada  e dando tapas no meu corpo.  Tinha a  impressão de  que as baratas ainda andavam pelos meus cabelos, escorregando pelos meus seios.  Senti  um alívio ao perceber  que era mais um de meus pesadelos. Sonolenta, olhei o relógio, ainda não eram nem seis horas, mas tinha perdido o sono.  Levantei da cama, e  fui até a cozinha  fazer um café. Deixei a máquina ligada, enquanto  escovava os dentes e lavava o rosto.
Peguei o jornal debaixo da porta. Dei uma olhada na primeira página. Nada de novo. Joguei- o  no sofá e voltei pra cozinha. Enchi uma caneca de café, peguei um biscoito e abri a janela da sala. O tempo nublado me deixou desanimada . Fiquei pensativa.  Há quase um mês  vinha tendo pesadelos  assustadores. Sempre com insetos gigantes, rostos enrugados e lugares escuros e sombrios. Estava precisando consultar um psiquiatra. Tudo começou depois que ele me trocou por outra. Liguei mais uma vez para o celular dele. Caixa postal. Todo dia a mesma coisa.
Deixei a caneca em cima da mesa da sala, tomei um banho frio e me vesti. Chegaria cedo ao escritório.  Adiantaria o trabalho. Sete e meia da manhã .  O Trânsito já estava intenso.  Olhei para o céu pelo vidro do carro. As nuvens pesadas  avisavam a chegada de uma  chuva forte. Entrei  no prédio antes dela. Sorri para  o  porteiro , peguei o elevador  e entrei no escritório vazio. A faxineira limpava as mesas.  Fiz um café, liguei o computador e fui ver os e-mails.  Correntes e bobagens. Nada sério. Desanimada,  comecei a ver o que tinha para fazer. Todo o dia a mesma  coisa.
Trabalho sem graça. Vida sem graça. Dias repetitivos.  Seria amor o que faltava na minha vida? Talvez fosse . Precisava sair do marasmo.  Esquecer  o antigo amor.  Então. Como  arranjar um grande amor se o  ex  não me  saia  da cabeça. ?  Mágoa. Raiva. Decepção. Era tudo o que eu tinha guardado em  mim.  Precisava sonhar para não enlouquecer. Viajava por praias com águas azuis, areias brancas e barcos pintados  de amarelo, quando ouvi a voz do meu chefe  me dando bom dia. Logo depois chegou o boy,  os dois sócios do escritório e por último, a  recepcionista. Sempre chegava atrasada reclamando do trânsito.
Uma da tarde. Eu e Cleonice, a recepcionista, fomos almoçar num botequim perto do trabalho, onde a comida era mais barata. Precisava  economizar. O apartamento que eu morava era próprio, presente do meu pai, mas quem arcava com as despesas  era eu.
Voltamos do almoço.  Meu chefe e os sócios passariam o resto da tarde na rua. Ótimo. Aproveitava para não fazer nada. Só anotava recados e navegava pelas redes sociais.
Precisava  de movimento. Dormi mal e comecei a ficar com sono. O olho fechava. Sabia como  acordar.  O ódio me alimentava.  Entrei na rede social e fui  direto na página do meu ex. Olhei a foto da nova namorada. Haviam tirado novas fotos. Os dois  estavam  alegres e sorridentes. Um sorriso que me incomodava.  Eu estava descartada.  Cleonice passou e me viu socar a mesa de raiva :
- Você é masoquista. Deleta  logo o  cara da tua vida. Fica olhando as fotos dele na internet.
- Não posso. A raiva me consome. Quando olho a felicidade dele , meu sangue esquenta. Como ser feliz, vendo a felicidade dele ?
-  Isso é inveja.  Não fala bobagem.
- Acho que a minha raiva só vai passar se eu matar um dos dois.
- Tá  maluca ? Você não é uma assassina.
- Não sou. Mas posso ser. Para se tornar uma,  basta matar alguém.
Cleonice  saiu  se benzendo e resmungando :
- O mundo está mesmo enlouquecendo. Vê se pode.
A ideia de matar a nova namorada do meu namorado começou  a tomar forma no meu pensamento. Era a solução. Noites mal dormidas. Pesadelos. Calmantes. Tédio. Quem sabe se eu acabasse com a vida dela não melhorasse meu  sono ? Meus pesadelos iriam embora. Desliguei o computador com raiva. Saí do escritório com chuva.
O trânsito e a chuva me fizeram chegar em casa quase dez horas da noite. Passei no botequim do Moacyr e comprei seis  latinhas de cerveja. Dia seguinte era sábado. Podia beber. Depois de tomar um banho, comi um sanduíche e fui pra frente do computador. Lá estavam os dois pombinhos exibindo a felicidade nas redes sociais. Queriam me desafiar. Só podia ser.  Fiquei com ódio. Passei a madrugada bisbilhotando a vida do meu  ex .  Dormi já era dia claro. Acordei cinco horas depois. Tive outro pesadelo. Milhares de  moscas sobrevoavam meu corpo.  Eu tentava me levantar, e quando olhava para os lados estava rodeada de lixo. Lixo e rato.  Acordei  com falta de  ar , sentindo a ratazana me arranhar.
Então era isso. Precisava acabar com a felicidade do meu ex. Não era justo. Os pesadelos eram sinais. Nem tomei  café. Vesti uma roupa. Peguei uma faca afiada na gaveta da cozinha e saí determinada a acabar com o meu sofrimento. Logo veio a minha cabeça os filmes de suspense que eu via nos canais fechados. Dei um sorriso irônico e parti pra casa dele.
O porteiro não queria me  deixar  subir. Houve discussão. Empurrei-o  com força, abri a porta do elevador e apertei  o décimo andar. Toquei a campanhia umas  quinze vezes.  Nada. Passei a gritar e a esmurrar a porta :
- Covarde ! Tá com medo de mim ? Abre a porta. Quero pegar minhas coisas que estão na sua casa.
De repente a porta se abriu. Era ele enfurecido. Jogou uma bolsa no corredor.  Grande era meu ódio, que consegui  empurrá-lo e entrei pela sala. Ele me pegou pelo braço para me jogar de volta  no corredor . Abri a bolsa e tirei a faca. Passei a ameaçá-lo, como quem ameaça um porco indefeso. Vi nele o olhar  de pavor. Queria se aproximar para me desarmar. A atual namorada saiu do quarto e quando chegou na sala e me viu com a faca na mão, ficou histérica. Meu ex se distraiu. Então me aproximei e dei-lhe uma facada no pescoço. Ele caiu. Naquele instante a raiva me consumia. Eu dei mais de dez facadas nele, enquanto a histérica gritava e tentava me tirar de cima dele.
Quando eu acabei de esfaqueá-lo, ensanguentada, e fora de mim, eu corri atrás dela. Consegui pegá-la tentando fugir pela porta da sala. Foram cinco facadas no peito  daquelazinha. Ao abrir a porta para fugir, dei de cara com o porteiro e dois policiais. Presa em flagrante  não resisti. .
Os dois estavam mortos. Era  o que eu queria. Não me importava de ir presa. Sentia apenas alívio por ter coragem de fazer o que era preciso. Não aguentava mais olhar o sorriso de felicidade deles  nas fotos das redes sociais. Não aguentava mais ligar para ele e não ser atendida. Não aguentava mais desprezo. Não queria mais ter  pesadelos. Fácil. Algumas facadas e resolvi o problema.
Depois de passar o dia prestando depoimento, dormi minha primeira noite de assassina na carceragem da delegacia. Não me deixaram nem tomar banho.  Uma desumanidade. Suja  de sangue , logo adormeci. Um sono reparador.


5 de dez de 2012

Sonhar não custa nada


Carmelita era uma mulher comum : nem feia , nem bonita . Passava dos 30, chegando aos 40. O maior sonho dela  era casar e ter filhos. Invejava as poucas amigas  casadas e com filhos. Nos finais de semana elas se divertiam reunidas  com a família, enquanto ela passeava sozinha no shopping.

Para amenizar a dor da solidão, depois do trabalho , ligava a televisão para acompanhar os capítuos da novela preferida. Na casa de Carmelita hora da novela era sagrada: não atendia telefone. Vivia os passos  da heroína preferida. Chegava ao exagero de imitar o  corte de cabelo, as roupas, acessórios e até cacoetes.
Era  conhecida pelas colegas de trabalho como Bela Adormecida. Cansavam de convidar Carmelita para sair  depois do expediente : 
-Hoje não dá. A Alice beija o Alberto pela primeira vez.
- Deixa de ser boba. Coloca para gravar e vamos nos divertir. Como você quer um homem,  se vive enfiada em casa assistindo  novela ?
- Que homem ? Esses que andam por aí ? Prefiro o Alberto....o homem perfeito !
- Queridinha, cai na real : o Alberto é fruto da imaginação do autor. Não existe.  Você precisa de vida. Sair. Conhecer gente nova.
- Minha vida é essa. Cada um tem a vida que deseja e a minha é essa. Não me censure.

Carmelita não tinha  vontade de sair. Cada homem que aparecia , comparava ao  personagem principal das novelas . Queria perfeição. Não encontrava. Decepcionava-se  e optava pelos  amores platônicos . Esses não machucavam e podiam ser fantasiados– dizia para as amigas.

Quando Reginaldo  se mudou para o apartamento em frente, depois de anos,  Carmelita saiu do mundo televisivo e prestou atenção no vizinho. Bonito, solteiro e  simpático. Sem aquela arrogância dos homens bonitos que namoram a si mesmos. Reginaldo passou a fazer parte dos sonhos de Carmelita.  Quando se encontravam no elevador, Carmelita suava de nervoso. De noite, na hora da novela,   imaginava  beijar Reginaldo.
Num Domingo  estava sozinha em casa e a campanhia tocou. Era Reginaldo : 
-Desculpe  atrapalhar seu sossego. Minha mãe vem me visitar. Eu esqueci de comprar açucar.... você pode me emprestar uma xícara  ? Minha mãe adora cafezinho com açucar..
Carmelita não sabia onde enfiava as mãos, por um momento pensou que fosse um sonho:
-          Quer entrar ? Vai ficar aí na porta ? Peraí...já trago o açucar pra você.

Depois do episódio do açucar, passaram a se falar com frequência. Reginaldo pediu o telefone da casa de Carmelita.  Ligava na hora da novela :
- Mãe....diz que não posso atender. Pede para ligar mais tarde.....
- Mas  você não está interessada no rapaz ? Ele vai achar que é pouco caso ....
-          Hora da novela é sagrada.....deixa eu prestar atenção nessa cena ....a senhora está me distraindo...
Virava o rosto e tornava a acompanhar atentamente mais um capítulo da trama.

Reginaldo não telefonava de volta. Ficava sem graça.  Foram quatro meses nesse desencontro : Reginaldo querendo se aproximar de Carmelita e ela  o trocando  pelos capítulos da novela.  Desistiu. Pensou que a vizinha não estava mesmo interessada. Tinha medo de rejeição.
A mãe ainda alertou a filha :
-Carmelita ....esse moço se interessou por  você.....está jogando a sorte fora.
-          - Que nada ! É amizade. Só me liga na hora da novela . Você diz para ele ligar mais tarde e ele não liga. Está apenas sendo educado por causa da xícara de açucar......
-          É por isso que está solteira até hoje. É teimosa ! Vai morrer solteirona.
-           - Não me iludo mais com sorriso fácil e gentilezas. Coisas assim só acontecem em novela......

Reginaldo  não telefonou  mais para a vizinha. Evitou  os horários de Carmelita para não encontrá-la. Não se viram durante um mês

Numa sexta-feira, Carmelita  se sentia cansada e solitária. Vazia. A novela preferida chegara ao fim. Chegou do trabalho e  tomou coragem para tocar a campanhia na casa de Reginaldo. Quem atendeu foi uma jovem bonita de sorriso encantador :
-          Pois não senhora ???
-          Queria falar com o Reginaldo. Ele está ?
O coração de Carmelita disparou.  Reginaldo apareceu e ficou surpreso ao ver a vizinha:
-          Nossa !! Que milagre é esse ?
-          Não vi mais você. Fiquei preocupada e vim saber se precisa de ajuda.
-          Não Carmelita, obrigado. Estou de mudança. Daqui a duas semanas estou indo morar em outro bairro. Minha namorada veio me ajudar a embalar meus objetos pessoais. Deixa eu apresentá-la a você.
 - Luana vem aqui conhecer minha vizinha....

Decepcionada, Carmelita foi mais rápida...
-Não desculpe,estou com pressa. Boa mudança..tchau...foi um prazer conhecer você. Boa sorte....

Chegou em casa aos prantos. Não falou com a mãe  e foi direto para o quarto. Jogou-se na cama, soluçando.  A mãe foi atrás :
-Carmelita , o que aconteceu ? Foi demitida ? Assaltada ? Brigou com alguém ?

Entre um soluço e outro , ela demonstrou toda a sua desilusão :
-          O Reginaldo arrumou uma namorada  ! Vai se mudar. Ele  nunca gostou de mim. Sabia, droga ! Amor entre vizinhos é coisa de novela ! 
-           
Uma hora depois Carmelita já se recuperara da decepção. Em frente a televisão, acompanhava o primeiro capítulo da nova novela :
- Não posso perder. Adoro os atores e o autor é ótimo !