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20 de set de 2012

Com que calcinha eu vou ?


Rosemary tinha tara por calcinhas. Adorava comprar calcinhas. Tinha um armário cheio delas. De todas as cores, tecidos, textura, tamanho. Não usava nem a metade. Mas tinha compulsão. Não podia andar pelo  Centro da Cidade na hora do almoço. Via uma vitrine e puxava a colega pelo braço , dizendo encantada :
- Vamos entrar naquela loja, gostei daquela calcinha.
No Shopping,  fazia a festa nos finais de semana. Gastava quase todo o dinheiro.

As amigas acreditavam  que a compulsão de Rosemary  era sinal de loucura. Recomendaram um  psiquiatra. Ela ia a duas, três sessões. Mudava de médico.  Nenhum conseguia entendê-la. Fora as calcinhas, Rosemary era uma mulher sem grandes excentricidades. Trabalhava, saía com as amigas, presenteava os sobrinhos, gostava de ler. Escutar música. Sol. Praia.

Porém, o que já era uma estranha compulsão, se agravou,  quando Rosemary se apaixonou pelo novo colega de trabalho. Assim que ela o viu entrando no escritório, cismou com o coitado:
- Foi para ele que eu comprei tanta calcinha. Moreira é o homem da minha vida !

As colegas de trabalho preocuparam-se:
- Calma Rose, você nem conhece o cara direito, pode ser casado, ou quem sabe, tem namorada ?

Rosemary  investigou . Moreira era solteiro. Passou a investir olhares, sorrisos e  gracejos. Ele correspondeu .  Encantou-se  com a meiguice de Rosemary. Passaram a almoçar juntos. Ficavam  conversando horas num barzinho, perto do trabalho, depois do expediente.

Rosemary estava apaixonada. As amigas , com uma ponta de inveja, fingiam incentivar o namoro com voz despeitada :
- Finalmente vai poder gastar seu estoque de calcinhas.....
Outra falava:
-Que tipo de calcinha será que o Moreira prefere ?

Divagavam  com as calcinhas de Rosemary. Acompanhavam o namoro como se acompanha uma novela de enredo duvidoso.  Começaram a namorar. Um mês de namoro. Iam ao cinema, jantavam em bons restaurantes, mas nada de sexo. As amigas cobravam:

- E aí, já foram ao motel ?

Rosemary sorria:
- Calma meninas,  ele jogou indiretas. Mas é homem raro. Não quer só sexo e eu  sou moça direita . Para deixar o homem apaixonado,  tem que fazer um doce primeiro.

Finalmente, depois de dois meses de namoro, o casal decidiu  ir pra cama .  Queriam que fosse um momento especial. Estavam no telefone conversando,  quando Rosemary  perguntou com voz melosa :
- Amor.....que tipo de calcinha você prefere ?
Moreira não entendeu  :
- Calcinha ? Como assim?

Rosemary repetiu :
-  Ué, para a nossa primeira noite de amor. Gosta de calcinha cavada ?  De renda ? Preta ? Branca ? Cetim ? Algodão. Quero te agradar amor. Causar boa impressão.

Moreira deu uma sonora gargalhada:
- O quê ?  Calcinha ? Que calcinha  nada !! Eu adoro quando a mulher coloca um vestido e na hora que ela tira, está nuazinha. Me dá o maior tesão . Se quer me agradar está aí a dica.

Rosemary perdeu a fala .  Desligou na cara do namorado. Ele ligou para o celular. Caixa postal. Voltou a ligar para o telefone fixo.  Ela gritou com o pessoal de casa:
- Ninguém atende. É o Moreira!

Não quis mais ouvir falar no nome dele. No trabalho, evitava contato.  Pediu demissão.  Sentia  nojo ao olhar para o ex-namorado. Moreira não entendeu nada.  Só compreendeu a situação, quando, duas semanas depois, visitou  a ex-namorada num hospital psiquiátrico . Rosemary estava cercada de calcinha por todos os lados.






12 de set de 2012

Acordo entre amigas


Tereza entrou na casa da amiga , nervosa e  com o coração acelerado :
 - Lucinda, pelo amor de Deus,  o que você tem pra me falar de tão urgente ?
- Você vai se casar.
-  Mas nem namorado eu  tenho. Como vou me casar ? Tá maluca ?
- Nunca tive tão lúcida na minha vida. Você e Joel vão se casar.
- Eu e seu cunhado  ? Mas vocês não são amantes ?
- Exatamente. E o Jorge está  desconfiado.
- E quem disse que eu quero casar com o Joel ?
- Você não é minha amiga ?
- Sou.
- Então, não vai me ajudar ?
- Eu não amo o Joel.
-  Dane-se o amor. Você está aí solteirona, jogada às  traças. Vive reclamando que está entediada.
- E só por causa disso tenho que me casar com o Joel ?
-  Ele precisa arrumar alguém . E a única pessoa em quem eu confio é em você.
- E ele ?
- Para não magoar o irmão, aceitou.
Tereza pediu um copo com água, se dirigiu  até o banheiro, olhou-se no espelho, espremeu uma espinha, voltou pra sala e pediu dois dias para pensar.  Em casa,  imaginou-se casada com Joel.  “ Até que ele era bonitão. Mas preferia o Jorge.  – Pensou  ressentida . “ A danada tem dois homens gostosos , enquanto eu estou sozinha. “ –A inveja  era tanta que ressecou a boca e  o estômago começou  a doer.”
No dia seguinte quando tocou a campanhia na casa de  Lucinda, já tinha a resposta.
- Eu me  caso, por você, amiga.
Satisfeita, Lucinda recomendou :
- Vou logo avisando : sem sexo, tá ? Joel é meu amante. Só não me separo do Jorge para ficar com ele, porque seria uma tragédia  em família.
Para reforçar o plano e abrandar a desconfiança do marido, Lucinda convidou familiares e  amigos  para a comemoração do aniversário numa churrascaria. Aproveitou  para brindar ao novo casal  e fingindo  alegria, comemorou .

Depois que Joel e Tereza começaram o namoro de mentirinha, Jorge deixou de vigiar os passos de Lucinda . Feliz, ela comentou com  Joel :
- Sou ou não sou um gênio ?
- Você é divina. Uma  verdadeira deusa.
Em busca de mais liberdade, Joel e Lucinda apressaram o casamento dele com Tereza.
Ela e Jorge foram os padrinhos. A festa teve direito a vestido de noiva, salgadinhos, bolo e champanha. Só não teve lua-de-mel.
No primeiro mês de casamento, os dois dormiram em camas separadas. Mas numa segunda-feira chuvosa, depois de beberem duas taças de vinho, após o jantar,  Joel viu Tereza sair do banheiro de camisola e se aproximou com jeito carente :
- Posso dormir com você hoje ?
Passaram a dormir na mesma cama. Preocupada , Tereza fez um pedido ao marido :
- Promete que a Lucinda nunca vai saber?
-  Por quê  ? Você é minha esposa. Vou terminar com ela.
- Nunca. Você vai continuar sendo amante dela. Foi por isso que casamos . Lembra ?
- Não se importa ?
- Não . Ela é amante. Eu sou a  esposa. Quem dorme com você sou eu.
Com o ciúme a corroer-lhe o peito e sentindo a indiferença de Joel , Lucinda questionou a amiga :
- Você e Joel nunca dormiram juntos ?
Tereza cruzou os dedos e com olhar mortiço respondeu :
-  Nunquinha. Juro por essa luz que me ilumina. Ele é meu irmãozinho e você  minha amiga.
Quando Joel viajou á trabalho e Tereza ficou sozinha em casa, Jorge foi procurá-la. Ao abrir a porta e ficar frente a frente com o cunhado, tentou disfarçar a emoção:
- Seu irmão não está. Viajou.
- Eu sei.  Precisamos conversar só nós dois.
Sentindo-se à vontade, entrou, abriu a camisa, pediu uma taça de vinho e  foi direto ao assunto  :
- Sei de tudo.
- Tudo o quê ?
- Do seu casamento arranjado com meu irmão. Estou cansado de saber que Joel e Lucinda são amantes.
Tereza tentou disfarçar :
- Coisa da sua cabeça....
- Não adianta fingir.  Eu sei.
-  E por que nunca fez nada ?
- Não me importo . Sou um marido liberal e sempre tive tesão em você.
Tereza estremeceu. Jorge olhou-a com ternura :
-  Sempre quis  ter você em meus braços. E pelo seu olhar, você também quer.
-  Mas você é marido da Lucinda.  –  respondeu fazendo biquinho.
- E daí ?  O fato de ser casado com ela, não impede de vivermos nossos desejos.
Tereza desarmou-se e provocou Jorge com o olhar.  Naquele momento, sentiu que a vida poderia ser mais emocionante. “Com dois homens ficaria livre do tédio.” – Imaginou. O cunhado continuou o discurso provocando  :
- Quer  ser minha  amante ? As amantes  são mais felizes ! Será um segredo nosso.
Tereza  entregou-se a  Jorge e ao amor platônico guardado durante anos .
Duas horas depois o cunhado despediu-se, levando  com ele o sorriso dos  amantes e a promessa  de um novo encontro.
Tereza  trancou a porta da sala com ar sonhador.  Encaminhou-se para o quarto com rosto sereno e enquanto trocava os lençóis, imaginou como a amiga era ingênua ao subestimar sua  malícia de mulher. Coitada – pensou – “a Lucinda não aprendeu que poder, dinheiro e luxúria corrompem as  almas  mais bem intencionadas.”   
Abriu o gavetão ao lado da cama e  pegou o edredon. A madrugada prometia ser fria, apesar do canto da cigarra.
Virou –se para o lado, puxou a coberta  e murmurou as últimas palavras da noite : “ Dane-se Lucinda !”


4 de set de 2012

Festa de aniversário


                                             
Clarinha olhou-se mais uma vez no espelho. Dona Geny entrou no quarto e avisou :
- O Juliano já está na sala esperando você.
- Tô bonita , mãe ?
- Linda. Vai ser a mulher mais bonita da festa.
A jovem chegou na sala, Juliano tirou os olhos da TV e disse :
- Vamos ?
- Ué, só isso ?
- O que você queria mais ?
- Não vai me elogiar ?
- Não precisa. Você sabe que é bonita.
- Tá bom  ! Quer dizer que eu faço um sacrifício para ir na festa de aniversario do seu amigo chato e você me vem com historinha ?
- Vamos logo que eu quero aproveitar .
Saíram discutindo. Meia hora depois já estavam na festa, bebendo e conversando. Abraçado a Clarinha, assim que chegou, Juliano colocou os olhos numa morena de vestido vermelho, que bebia uma caipirinha. Pensou passando a língua pelos lábios : “ Que morena é essa !” Encantado com a mulher que acabara de ver, deixou a namorada conversando com algumas amigas e foi até o dono da festa :
- Cara, que morena é aquela de vermelho ?
- A Natália ?
- É. O nome dela é Natália ?
- Ex- colega de faculdade. Gente boa.
- Nossa, me apresenta!
- Quê isso cara. Toma vergonha, a Clarinha tá aí. Ela já não gosta de mim e você inventa ideia.
Juliano voltou para o  lado de  Clarinha, mas discretamente, passou a flertar com a morena que correspondia, jogando a cabeça para trás e passando a mão pelos cabelos.
Juliano se excitou. Imaginou milhões de coisas. Clarinha o fez voltar a realidade ;
- Ei , acorda ! Você  tá  longe.
- Tô nada. Tô deixando você falar. Tô escutando. Fala amor.
E novamente Clarinha contou sobre a última briga com o chefe, enquanto Juliano continuava o flerte com a outra.
Provocante, Natália deixou o copo de caipirinha na mesa e passou por ele, esbarrando de propósito . Com a voz sensual sorriu :
- Ah desculpe ! Machuquei ?
- Não. Quê isso.
Quem não gostou foi Clarinha :
- Nossa, que mulher cega !
- Coitada, foi sem querer Clarinha.
- Eu sei. Sem querer. Exibida, isso sim.
Com medo que a namorada desconfiasse de alguma coisa, começou a reclamar :
- Acho que  aquela coxinha que eu comi agora não me fez bem.
- O que aconteceu ? – Disse Clarinha inocente.
-Tô com dor de barriga.
-Poxa, coxinha fulminante, hein ?
- Acho que sim. Vou até falar com  o Souza....
- É , tem que falar mesmo. Assim ele mata os convidados. Você come e cinco minutos depois passa mal. – Disse Clarinha ironicamente.
A verdade é que Juliano começou a se contorcer de dor. Com pena do namorado, ela mesma deu a ideia ?
- Vamos embora ?
- É pra já.
Saíram. Juliano deixou a namorada em casa e se despediu .
- Ué, Juliano, não vai dormir aqui em casa ?
- Hoje não, tudo o que eu quero é ir pra casa. Não serei boa companhia. Quando chegar , ligo pra você.

Voltou pra festa. Ligou para a Clarinha do celular avisando que estava em casa, ia tomar um remédio e dormir. Os amigos espantaram-se :
- Ué , não estava passando mal ?
- Melhorei.
E sorriu cheio de malícia procurando a morena . Natália estava num grupo de amigos. Juliano se aproximou. Conversavam e flertavam. Juliano já imaginava a morena tirando o vestido na frente dele. Meia hora depois ficaram sozinhos. Ela perguntou :
- E a sua namorada ?
- Deixei ela em casa e voltei por causa.
Natália sorriu. Conversaram um pouco mais. A morena pediu licença e foi falar no celular. Voltou e com a mão no lábio pediu :
- Você podia me deixar em casa ?
Juliano pensou : “ É agora “.
- Claro. Vamos ?
Entraram no carro. Empolgado, Juliano nem perguntou o endereço da morena. Ela pegou no braço dele e falou :
- Ei, eu quero ir pra casa.
- Claro. Desculpe. Seu endereço.
Não desanimou. Deixou a morena na porta do prédio.
-Tá em casa  . E aí ? Quando nos vemos novamente ?
- Nunca mais.
- Não entendi !
- Queridinho, não gosto de  canalhas !
Colocou a mão no queixo de Juliano, deu um sorrisinho e saiu do carro . Foi em direção a um homem alto e forte que esperava-a na portaria. Abraçaram-se. Beijaram-se e desapareceram entre as portas de vidro.
Juliano saiu cantando pneu. Pensou em Clarinha que devia estar dormindo aquela hora. Sentiu raiva de si mesmo. Detestava fazer  papel de otário. Ficou com tanta raiva, que nem percebeu o sinal fechado  para ele.