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26 de ago de 2012

O enxugador da vizinha


                                    
Neidinha acordou as três da madrugada e quando apalpou os lençóis não encontrou o marido. Levantou-se e foi procurá-lo pelo apartamento. Esteves estava na área de serviço olhando pela janela:
-  Posso saber o que  você faz aí a essa hora ?
- Caramba Neidinha, que susto ! Parece uma assombração.
- Quem parece uma assombração é você. Tenho reparado que toda madrugada você faz ronda pela casa. Está com insônia ?
- Não é nada...não é nada....
Saiu reclamando e voltou para o quarto. Neidinha foi atrás :
- Você está com problemas ?  Fala pra mim...
- Neidinha, dorme, papo cabeça a essa hora, não...depois eu falo. Boa noite.
Virou–se  para o lado e dormiu deixando Neidinha curiosa.
Pela manhã, enquanto tomava  café , Neidinha  pegou Esteves novamente olhando pela janela de serviço. Estava tão concentrado que nem piscava. Quando o marido saiu para trabalhar, Neidinha foi verificar o que tanto ele olhava. Ficou irritadíssima ao descobrir que no enxugador  da vizinha havia  várias camisolas e baby dolls sensuais. Bem diferente das roupas de dormir que ela usava.  Finalmente – pensou – descobri o interesse do Esteves nessa área de serviço e tudo depois que a oxigenada depravada veio morar aqui em frente.
Quando o marido chegou do trabalho foi recebido com bronca:
-Descobri o que tanto você faz olhando pela janela da área de serviço. São as camisolas indecentes da oxigenada, não são ? Fala.....desembucha logo !
Pego de surpresa, Esteves ficou vermelho, disfarçou, piscou os olhos várias vezes e recuperado mentiu :
- Camisolas ? Quê camisolas ? Você tem cada uma.....
- Esteves, não mente pra mim. Conheço você. Quando seus  olhos piscam desse jeito é porque está mentindo...
- Virou psicóloga agora ? Eu lá sei do que você está falando.
Pegou o marido pelo braço e o levou para a área de serviço apontando para  as camisolas penduradas no enxugador :
- Olha...tudo camisola de depravada.. de  galinhona sem vergonha...vou falar com o síndico...
- Falar o quê ? Vai proibir a vizinha de colocar as camisolas pra secar  ? O síndico vai rir na sua cara.....tira isso da cabeça. Eu nem tinha reparado...você que me chamou a atenção....precisa arrumar algo de útil para ocupar a cabeça.

O marido  foi tão convincente que Neidinha acreditou na inocência dele  e ainda achou que sua mente é que era  depravada.
Esteves continuou olhando as peças íntimas. Porém, agora, tomava cuidado para que a mulher estivesse num sono profundo para não ser pego em flagrante.

De madrugada ficava horas  se deliciando com as camisolas  . A vizinha tinha uma coleção. De todas as cores, textura,  curtinhas, de seda, de alcinhas, transparentes....ele adorava quando ela colocava uma mini camisola preta de renda para secar. Voava em pensamento  até o outro apartamento. Acreditava que as fantasias inconfessáveis eram o tempero da vida .
Com o tempo, a obsessão cresceu .  Certa noite sonhou que corria por uma rua estreita de paralelepípedo perseguido por baby dolls e camisolas. Quando as roupas se aproximavam, transformavam-se em Neidinha. Esteves acordava assustado e gritando  :
-  Sou inocente ! Não tenho culpa . Juro . Não olho mais...não olho mais...
A esposa  também acordava :
- Tá maluco ? Quer me matar do coração ?
Ainda sonolento, Esteves ia  até a cozinha beber água e aproveitava para namorar a área de serviço vizinha.  E lá estavam elas. Secando, sensuais e coloridas,  chamando-o  para um mundo de fantasias. Engolia em seco, voltava para a cama e antes de pegar no sono, olhava decepcionado para Neidinha.
Numa sexta –feira, voltando do trabalho, Esteves deixou o carro na garagem e caminhava em direção ao elevador, quando sentiu um toque suave nos braços. Olhou arrepiado. Era ela : a dona das camisolas . Mais bonita de perto do que  imaginara . Ela sorriu e lhe falou :
- Boa noite..sou sua vizinha Lúcia.... estou cheia de compras de supermercado no carro, o senhor pode me ajudar ?
- Com muito prazer ! Me dá, por favor,  eu levo todas..
- Desculpe, não queria incomodar...
A força de Esteves duplicou. Pegou três sacolas em cada mão . Subiram em silêncio no elevador. Quando chegaram no apartamento de Lúcia, ela perguntou como poderia agradecê-lo. Ele respondeu enternecido :
- Foi um prazer. Quando quiser é só chamar.
Ela insistiu tanto que ele arriscou. Com uma voz rouca falou timidamente o que desejava . Lúcia o convidou para entrar  :
- Só isso ? Tem certeza ?
- Tenho !
Esteves sentou-se no sofá. Lúcia gritou do quarto :
- Aumenta o som ! Lá vai a primeira.
Saiu desfilando com um baby doll vermelho transparente, bordado de rendinhas. Em seguida desfilou com um lilás, um prateado , um preto, um branco...
Esteves parecia um menino  ganhando o primeiro presente de aniversário: soltava  gritinhos, batia palmas  e pulava no sofá dando mordidinhas nas mãos.

19 de ago de 2012

O e-mail


                                                           
Laurinéia chegou no trabalho furiosa. A colega que trabalhava na mesa ao lado notou a alteração e perguntou :
- Menina, o que houve ? Que cara é essa ?
Laurinéia segurou a  outra pela mão :
- Vem comigo, vamos no banheiro . Quero te mostrar uma coisa.
Divanilce entrou no banheiro esfregando as mãos de curiosidade.
 Laurinéia  entregou  para ela um monte de papéis e disse :
- Leia. Vamos lá. Leia.
- E-mails de amor. E-mails do Leão Encantado para a Bella da Tarde.
- Pois então. Meu marido tem uma amante virtual. Ele é o Leão Encantado. Vigarista !
- E daí ? Hoje virou moda. Ela é virtual . Não vai arrancar pedaço do seu leãozinho.
- Mas você não está vendo aí ? Eles querem marcar um encontro real.
- Aí danou-se.
- Eu vou matar o Soares. Aliás, Leão Encantado. Que ridículo !  Hoje eu mato ele.
- Que mata nada. Deixa de bobagem. Arruma um amante virtual também . Paga na mesma moeda.

Laurinéia passou a tarde pensando em como resolveria a situação. Nem trabalhou direito. “ Falar para o marido que sabia de tudo ? Ficar calada ? Arranjar um amante virtual ?"
Teve uma ideia. Ela não gostava de Internet e mundo virtual, porém,  estava disposta a gostar, para salvar seu casamento. Chegou em casa, procurou fotos de um homem bonito num site de busca, fez um perfil falso masculino nas redes sociais e se aproximou de Bella da Tarde, a amante virtual do marido.

Todas as noites, assim que chegava do trabalho, se conectava para falar com a rival. Um mês depois, olhou os e-mails do marido e viu que o caso virtual deles esfriara. Bella da Tarde estava apaixonada pelo perfil falso que ela criara. Descobriu que era um pessoa convincente. Descobriu facetas adormecidas. Encantou-se por ela mesma.

Laurinéia percebeu que as mulheres carentes eram um alvo fácil. Acreditavam em tudo o que ela dizia. Gostou da brincadeira e especializou-se em destruir corações femininos, virtualmente. Marcava encontros e não aparecia . Dizia que ia ligar e não ligava. Mandava torpedos carinhosos.  E elas acreditavam. Acreditavam que do outro lado da tela , mesmo não vendo o amante, existia um homem bonito, romântico e muito ocupado.  Alérgico a webcam . Laurinéia se viciou em enganar . Esqueceu do casamento. Dos programas nas noites de domingo. Só então percebeu que a vida a dois era entediante fazia tempo. Um ano depois, se separou.

Laurinéia trocou a vida de esposa, para viver a vida de um homem virtual que ela mesma criara.  Era tão perfeito. Assim como as suas conquistas virtuais,  também se apaixonou por ele.

9 de ago de 2012

Pensamentos femininos


De tanto ser tratada como cachorra, acabei me tornando uma vira-lata no cio . Não me apego a homem nenhum. Toda semana arranjo um novo dono para amar. A experiência tem sido ótima. Num dia , caipirinha. No outro, uísque com gelo. Vinho. Cerveja. Martini. Refrigerante. Bares engordurados. Restaurantes chiques. Motéis  de beira de estrada. Casas  de luxo. Pousadas. Meia- fina. Perfume francês.  Vestido de seda. Calça jeans. Blusa básica.

Invento personagens. Posso ser  divertida, sofisticada, sedutora, mas sempre boa  ouvinte. Os homens falam demais. São vaidosos. Gostam de ser ouvidos. E  nunca  damos a chance deles falarem. Homem também sente angústia. Gosta de desabafar. Contar casos. No fundo, são carentes. Descobri a essência masculina. Hoje ela está em mim. Sou feliz. Amo sem compromisso. Faço sexo por desejar ardentemente sentir meu corpo sendo penetrado. Não tem maior sensação na minha vida do que sentir o corpo masculino apertando o meu.

Não existe rotina sexual na minha vida. Quanto mais homens eu conheço, mais tenho vontade de experimentar novas experiências  e variar posições na cama. Tamanho de pau. Cheiro.  Musculatura. É viciante. Tudo excita. Não consigo parar. Quando acaba o  sexo, acaba também minha curiosidade  e já penso no próximo. Sexo liberta. Amor , escraviza.

Já vi  amigas perderem  a dignidade por causa de paixão. Ou o que pensavam ser amor. Acabaram com suas vidas. Emagreceram.  Ficaram loucas. Ou velhas antes do tempo. Eu mesma cheguei a sofrer algumas vezes, por fim, aprendi . Blindei meu coração. Não consigo me apaixonar. Envolvimentos estão fora dos meus planos. A aventura me estimula. Paixão e amor são sinônimos de sofrimento. Desisti de tentar. Tornei-me inapaixonável. Aliás, deveria existir uma vacina contra dores de amor. Quem inventar fica milionário.

Não. Não me venham com a  história surrada de  que o importante é viver um grande amor. E quem disse que um amor que faz sofrer é grande ?  Falar de amor pra mim hoje é inútil. Sou movida a tesão. A carne me inflama. Não sou ressentida e nem mal humorada. Felicidade é uma questão de escolha. E eu escolhi ser feliz variando toda a semana o cardápio sexual . Odeio convenções. Não suportaria passar um domingo almoçando fora com o marido, rodeada de crianças barulhentas.

 A sedução  me move. Um dia , caviar. No outro, arroz com feijão. Há quem prefira salada.

Gosto de tudo. Quanto maior a variedade, melhor.

1 de ago de 2012

Cadê a Aparecida ?


Acordei com a cabeça girando e o estômago parecendo uma bomba relógio prestes a explodir. A boca seca e amarga denunciava que na véspera eu bebera além da conta. Não fazia  idéia das horas. Levantei e  abri a cortina. A claridade me cegou. Olhei o relógio e vi que já passava de uma da tarde. Caramba – pensei. Que dia é hoje ? Sentei na cama, coloquei a cabeça  entre as pernas. A  náusea  piorou. Me tranqüilizei quando  me dei conta de que era domingo e não precisava trabalhar. Não lembrava o que acontecera  na véspera. Deitei e refiz meus passos .  Pela manhã fui na oficina e enquanto o carro consertava , almocei na casa da  minha mãe. No final da tarde peguei o carro e  passei na  ex para deixar o dinheiro para o  dentista das crianças. Cheguei em casa depois das  seis. Ia tirar um chochilo, quando o telefone tocou. Era o  Carlão,  amigo de copo, lembrando da festa na casa dele   :
- Tô te esperando logo mais !
- Pra quê ? – Respondi cheio de sono.
- Porra cara, a festa do meu aniversário !
- Putz, sabe que eu tinha me esquecido ?
- Então tô te lembrando, porra ! Vem curtir a vida de solteiro ! Vai rolar muita bebida, mulher bonita e sacanagem !
Saí de casa dez da noite querendo ficar .  Sabe quando bate aquele pressentimento sinistro ?
No caminho vi um bêbado ser  atropelado . Foi pedaço pra tudo quanto é lado. A motorista atropeladora saiu do carro gritando por  socorro. Eu dei ré e caí fora. Cheguei na festa com o estômago embrulhado. A cena não me  saía da  cabeça. Comentei com o Carlão e  levei um esporro :  
- Caraca, vai ficar  baixo astral por causa de um bêbado babaca ? Não ferra , cara ! Vem aqui que eu vou te apresentar a Aparecida.
-  Deixa eu beber alguma coisa  primeiro.
- Depois que você conhecer a Aparecida você vai esquecer que existe bebida !
Saiu me arrastando pela festa. Quando vi a Aparecida, os pensamentos mais depravados me vieram á cabeça. Fazia tempo que não via um mulherão daqueles. De onde saiu essa  sua amiga  ? – perguntei empolgado.
- Posso garantir que não foi de nenhum conto de fadas.
- É  garota de programa ? Se for, tô duro. Acabei de dar um dinheirão pra minha ex levar as crianças ao dentista.
- Quê isso ! Aparecida é descolada. Transa pelo prazer de transar.
Estava com  duas amigas feiosas. Aparecida chamava a atenção.  Alta,  cabelos lisos e negros, lábios grossos  pintados de vermelho, uma calça branca que marcava o corpo perfeito, blusa prateada de alcinha e sandálias de salto alto, num pé delicadíssimo. Adoro pés. Sou tarado por mulheres com unhas bem cuidadas. Me aproximei meio sem graça. Carlão nos apresentou e me deixou conversando com ela e as amigas. Cinco minutos depois, estávamos bebendo e conversando a sós.
Antes das três da manhã saímos da festa com o fogo dos amantes queimando por dentro. Convidei Aparecida para tomar café na minha casa e entreguei a chave do meu carro pra ela :
- Toma. Dirige você . Se eu dirigir , não vamos chegar a lugar nenhum.
Aparecida deu uma risada excitada, apertou minhas coxas, pegou a chave fazendo charme e lá fomos nós em direção ao meu território nos entregarmos aos frágeis prazeres da carne.
Abri a porta do apartamento e  nos agarramos freneticamente. Levei-a direto para o meu quarto. Ela perguntou onde era o banheiro.  Demorou dez minutos. Apareceu nua na minha frente  e a gente foi se agarrando. A mulher  era uma fêmea  insaciável. Não se contentou com uma. Queria mais. Reclamou cheia de dengo  porque neguei fogo. Adormeci com ela me acariciando e pedindo mais sexo . Foi a última vez que a vi . Não sei nem se dormiu comigo ou se foi embora quando adormeci. Será que  ainda estava no apartamento ? Cheirei meu travesseiro. Tinha o gosto doce de Aparecida. Deve ter ido embora decepcionada com a minha performance sexual. – Pensei. Procurei no banheiro e no quarto dos fundos, onde fica o escritório . A janela estava aberta. Fechei –a  e fui até a cozinha. Nem sinal da mulher . Fiz um café bem forte, enquanto tentava me lembrar se ela  despedira-se ante de ir embora.  Na sala encontrei sua  bolsa jogada  em cima do sofá. Abri  e quando ia fuçar ,  o interfone tocou, insistente. Atendi apreensivo :
- Seu Aníbal, aqui é o Amarildo !
- Já sei ! Deixei o carro mal estacionado na garagem ?! Tô descendo.
- Não,  seu Aníbal. A polícia tá aqui embaixo e vai subir pra  falar com o senhor. Tentaram mais cedo, mas eu disse a eles que o senhor acordava tarde.
-  E o que a polícia quer comigo ?
- A moça .
- Que moça ? O que tem a moça ?
A campanhia tocou. Desliguei o interfone na cara do Amarildo e corri pra porta. Dois homens sisudos me olhavam com olhos de lince prontos para o ataque  :
- Boa tarde ! Inspetor Almeida e  Inspetor Souza. Precisamos lhe fazer umas perguntas.
- Sim, podem falar. Do que se trata ?
- Aníbal Vasconcelos ?
- Sim, sou eu.
- Sua situação está complicada. O senhor  terá  que nos dar detalhes da mulher que está morta  na área interna do seu  prédio.
- Mulher morta ? Quê mulher ?– Meu coração disparou. Precisava ganhar tempo. A boca ficou ainda mais amarga.
-  Vou refrescar sua memória – Falou o inspetor Almeida com cara de poucos amigos :
- Por volta das nove  horas de hoje , uma mulher morena, trajando apenas uma calcinha branca, caiu ou foi jogada da sua janela  . O vizinho do segundo andar subiu no elevador com o senhor e a vítima, por volta das quatro da manhã . Agora ela está morta . O que o senhor tem a nos dizer ?  
Eu não fazia  idéia de como Aparecida caíra lá embaixo.  Naquele momento compreendi que estava fodido. Minha cabeça rodou e meu estômago deu um nó. Deixei os policias na porta e corri para o banheiro. Meu vômito fedia a  uísque misturado com cerveja.  Meu suor tinha cheiro de medo.