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23 de jul de 2012

A alma gêmea


A astróloga olhou mais uma vez o mapa astral de Roseane e afirmou :
-          Sim, é ele mesmo. Os signos combinam perfeitamente. Encontrou sua alma gêmea. Acontece uma em 10 mil vezes.
Roseane saiu da consulta com o  coração  em rebuliço com a notícia ! A amiga que esperava na ante-sala foi a primeira a saber :
-          Esteves é minha alma gêmea. Sabia ! Assim que olhei para ele  senti um calor intenso  subir  pelo meu corpo. Pensei :  é o homem da minha vida!
Aurealina, curiosa ,perguntou :
-          Madame Nercina tem certeza  ?
-          Me garantiu. Disse que nossos mapas se encaixavam. Nossa sinastria amorosa  é perfeita.
-          Engraçado – disse Aurealina com ar de descaso –  Madame Nercina  me  revelou  apenas que  vou demorar a casar... na certa não foi com a minha cara.... !
Quando Roseane chegou em casa contou  a novidade para a mãe  :
-          A astróloga que fui hoje  disse que o Esteves é minha alma gêmea !
Dona Damiana deu um risinho de canto de boca:
-           Essa astróloga não deu  os números da mega-sena ? Não falou que você vai receber aumento...?!
Roseane se irritou com a mãe :
-          Astrologia não funciona assim....Sabe de uma coisa ? Vou tomar meu banho. Não temos diálogo mesmo.
-  Isso mesmo, vai  tomar banho, e pára de sonhar....!! Melhor estudar para sair detrás daquele balcão de loja . Que Esteves que  nada ! Vê se pode....alma gêmea.
Antes de dormir, Roseane ligou para Esteves:
-          Amor preciso  contar uma coisa  para você.
-          Fala princesa, conta.
-          Só pessoalmente.
-          Mas hoje ainda é quinta. A gente só vai se ver no domingo.
-          Domingo ? E sábado ?
-          Sábado não vai dar princesa. Tenho cursinho de tarde e a noite é o batizado da minha sobrinha.
-          E eu não posso ir ao batizado ?
-          Princesinha, sabe como é, festa de família.... Não vou submeter você a uma tortura.
Roseane ficou sentida. Tortura ou não , queria estar ao lado de Esteves. Bronqueou. Houve  início de discussão. Esteves acalmou a fera:
-          Para não brigar,  faremos o seguinte : domingo a gente vê aquele filme que você queria tanto , combinado ?
-          É , tá. Fazer o quê ?
-          Faz beicinho não...abre um sorriso gostoso. Eu sei que você está de biquinho....
Roseane movimentou o corpo fazendo charminho como se Esteves estivesse olhando . Com voz meiga se despediu do namorado.
-          Tá bom amor.  Conto a novidade no domingo. E não se esqueça : você  prometeu ver o filme...beijo nessa boca linda !
Roseane pegou o mapa astral e fantasiou até adormecer. Sonhou que se casava com Esteves.
No domingo, quando Roseane entrou no carro do namorado, ele logo perguntou   :
-           O que você queria  me falar na quinta-feira!?
-          Depois do cinema. Vou fazer um suspense básico.
O  filme acabou e o casalzinho foi para a praça de alimentação do shopping:
-          Queria fazer uma pergunta para você, Esteves !
-          Fala amor. Sou todo seu.
-          Você acredita em alma gêmea ?
-          Alma gêmea ? Não sei...nunca pensei nisso.
-          Acredita ou não ?
-          Sei lá. Você vem com essa novidade....acho meio bobo esse negócio...
-          Fiz uma pergunta e quero que você responda. Sim ou não ?
-          O que você quer que eu diga ?
-          A verdade.
-          Tá bom. Acho que esse troço não existe !
-          Existe, sim.
-          Ah é ? Então porque perguntou ?
-          Você é minha alma gêmea !
-          Euuuuuuuu ? E quem falou uma coisa dessas para você ?
-          Uma astróloga. Fiz meu mapa astral e também a sinastria amorosa.
-          Sina..... o quê ? Que viagem Roseane.... .
-          Não é viagem. É verdade. Ficaremos juntos para sempre...combinamos em tudo !
-          Sei, entendo.....
A conversa esvaziou. Esteves mudou de assunto, deixou Roseane em casa e se despediu com um beijo frio. Saíram mais três vezes. Na terceira saída,  Esteves terminou o namoro.
-          Como ? Você é minha alma gêmea !
-          Até posso ser. Mas no momento estou  ocupado: estudo para concurso, trabalho e não tenho tempo para ser a alma gêmea de ninguém.
Roseane bateu o pé. Se descabelou. Ameaçou. Esteves se despediu e não atendeu nem o telefone quando ela ligou.
Com raiva, pegou a amiga Aurealina pelo braço :
-          Eu vou na Madame Nercina  tomar satisfação !
-          Eu disse Roseane, eu disse para você desconfiar...., olha no que deu. Ficou sem namorado. Essa conversa de alma gêmea assustou o cara .
-          Cala a boca Aurealina ! Já estou p da vida e você enchendo  meus ouvidos.
A astróloga relutou em atender Roseane. Alegou que não tinha horário.
Roseane fez plantão na porta da casa dela. 
-          Entra Roseane, arranjei uma vaga para você. Vou consultar os astros .
Durante um tempo desenhou, fez mapas, pegou canetas, Roseane  olhava curiosa e ansiosa na esperança de que os astros lhe dessem uma boa resposta :
-          Já tem o resultado ? O que aconteceu ?
A astróloga franziu o cenho. Balançou a cabeça......mordeu o lábio inferior..
-          É....., os astros se enganaram.
-          Se enganaram ? Como ?!
-          Uma conspiração interplanetária numa fase da lua inconstante levou a esse equívoco.... vocês não tem nada em comum...os signos combinam , mas se chocam no ar, formando um gás....uma espécie de conjunção planetária  diferenciada.....
-          Pera aí....não entendi nada. Dá para explicar melhor ?
-          Resumindo : vocês não são almas gêmeas. Enganos acontecem.
Roseane se levantou da cadeira furiosa.  Se preparou para sair. A astróloga segurou a jovem pelo braço:
- Ei, mocinha : 50 reais a consulta !

13 de jul de 2012

Tragédia de amor


Acordei  com o som estridente do telefone e cheio de dor no corpo. Dormi  de mal jeito no sofá. Estiquei as pernas e derrubei as almofadas. O apartamento estava uma bagunça. Louça, enfeites e bibelôs espalhados  pelo  chão.  Jarro quebrado.  O arranjo de flores  jogado perto da porta da entrada. Queria saber  as horas.  Não  encontrei meu celular. “ Cadê o relógio ?”  Eu precisava  sair dali. E rápido.

 A persiana fechada deixava a sala escura e  eu não tinha noção das horas. Corri até o quarto. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava nove e meia.  Voltei pra sala. Acabei me cortando num pedaço de vidro na entrada do corredor.  Queria que tudo fosse um pesadelo.  O sangue  grudado no meu corpo e minha cueca rasgada e suja denunciavam que eu não vivia um pesadelo.  Coloquei a mão no meu braço direito . O corte estava lá. Ardia. Entrei no  banheiro. O corpo de Nara  continuava na  mesma posição. A cabeça recostada no vaso sanitário e  as pernas abertas e jogadas no chão frio . O vômito,   misturado ao sangue seco,  me deu náusea.  Aproximei-me  da mulher amada. Coloquei meu ouvido na esperança de sentir o coração batendo. Ela estava morta e eu precisava sair do apartamento.

O telefone voltou a tocar. Estridente. Sinistro. Corri até a sala , tirei da tomada e joguei o aparelho em cima do sofá. Sentei no chão, encolhi minhas pernas, abaixei minha cabeça e segurei  entre as mãos. Não sabia o que fazer.  As imagens da noite passada passeavam pela minha mente a todo instante.  Uma obsessão.
Por que tudo  aconteceu ?  Podia ser diferente. Um gesto , um pequeno gesto,  mudaria o destino .  
Final de domingo. Eu bebia  num bar perto de casa,  quando   Nara apareceu , fazendo mais uma cena  de ciúme. Desequilibrada, gritava comigo na frente de todos .   Tudo porque não atendi  o celular. Saiu me caçando pelas ruas  e me encontrou no bar rindo e brincando. Que merda ! Com raiva porque tinha uma amiga na mesa, a Gabriela, Nara pegou meu copo de cerveja e jogou no chão. Um vexame.  Decidi cair fora.  Deixei  o dinheiro da cerveja com um amigo, me levantei e saí. Nara, óbvio, me seguiu gritando pela rua.

Perguntei se ela estava de carro  .  Não  podia deixa-la ir  embora sozinha , naquele estado de demência.  Meu erro. Nara continuou o espetáculo.  Dirigiu chorando e me xingando. Fiquei calado. Podia ser pior se abrisse a boca. Chegamos na porta do prédio dela. Saímos do carro e  fiz sinal para um táxi. Novo escândalo. No meio da rua, Nara se ajoelhou pedindo para eu ir até o apartamento dela. Outro erro.  Sabia que teria discussão. Eu a amava. Mas não suportava mais as cenas de ciúme. Assim que  entramos na sala, nova discussão. Ameacei  sair. Ela  pegou a chave. Tentei tirar da mão dela.

Nara correu até  a cozinha e voltou  com um facão . Passou a me ameaçar. Tentei  desarmá-la. Ela me cortou o braço. Minha intenção era tirar a faca  da mão dela, antes que acontecesse uma tragédia.  Começamos a brigar. Ela parecia uma fera.  Tentei me desvencilhar . Caí e bati com a cabeça na mesinha de centro  da sala. Vi tudo rodar.  Nara partiu pra cima de mim me acusando de traidor. Só lembro que peguei a faca da mão dela e depois de empurrá-la, ela caiu no sofá. Enfiei a faca na barriga de Nara. O sangue espirrou no meu rosto. Outra facada. E mais outra.  Ela vomitou .  Ainda dei  mais umas dez  facadas nela.  Fiquei  descontrolado.  Quando acordei da fúria que me tomou, arrastei  o corpo de  Nara até o banheiro. Queria dar um banho nela. Na minha loucura, pensei  que, se eu  limpasse o sangue , ela acordaria. Por fim, desisti e recostei a cabeça de Nara  no vaso sanitário , ajeitei  suas pernas e perdido, andei  de um lado para o outro dentro do apartamento.

“ E agora ? Chamar a polícia ? E se me prenderem  ? A culpa foi dela. Eu amo a Nara. Um médico.  Talvez possa ajudar . Será que ela tá viva ? Mas se eu chamar o médico ele vai querer saber o que aconteceu....”
Mexi  no corpo de Nara na esperança de que ela respirasse. Morta. Mortinha.  Ainda fiquei uma hora andando pelo apartamento. Cansado, recostei no sofá. Adormeci  pensando que precisava sair da cena do crime.

As imagens da noite passada rasgavam meu cérebro,  mais uma vez, no exato instante em que  campanhia tocou.“ Foda . Quem podia ser ?” Expiei pelo olho mágico. A  vizinha. Fiquei quieto para não me denunciar. Tocou mais algumas vezes. Desistiu. Corri para o banheiro , tirei a roupa e entrei no chuveiro. Eu esfregava meu corpo com força para tirar as manchas de sangue .  Virou compulsão. Eu via sangue em todas as partes do  corpo. Vomitei.  O vômito escorria pelo ralo junto com o sangue. Eu cheirava a morte. Eu fazia parte de um pesadelo. A minha vida não era a minha vida.

Novamente a  campanhia  . Era o síndico. Ele mexeu na maçaneta . “ Filho da puta. Será que tem a chave ? “  Parou. Silêncio. Entrei no quarto de Nara e comecei a procurar no armário as  roupas que eu deixava no apartamento  dela. Peguei uma calça jeans e uma camiseta branca. Lembrei  do meu celular. ‘ Precisava ligar para um amigo. “

Encontrei o aparelho embaixo da mesa. Merda. Sem bateria. Peguei  os  documentos, tranquei a porta e apertei o botão do elevador. Andava de um lado para o outro. A vizinha abriu a porta e me chamou. O elevador chegou. Fiz um sinal pra ela e entrei.  Ainda ouvi a voz dela dizendo que  a  polícia estava a caminho.

Precisava sair dali. Coloquei a mão no bolso da calça. As chaves do carro da Nara. Tudo certo. Cheguei  na portaria. Tarde demais.  Três homens do corpo de bombeiros subiam  pelo elevador de serviço, enquanto  um policial conversava com o síndico. Tentei passar despercebido. O síndico gritar meu nome. Apertei o passo e entrei  no carro .

Olhei pelo retrovisor. A polícia me seguia. Acelerei . Começou a perseguição. Avancei  o  sinal. Quase bati num ônibus . Atropelei um idoso. Entrei no túnel. O carro da polícia atrás. Precisava parar em algum lugar. Despistar.  Segui pela Lagoa. Entrei numa rua do Leblon. O barulho da sirene novamente. O sinal fechou. Larguei o carro e corri para a praia. Nunca corri tanto.

Tirei as  calças e entrei no mar de cueca e camiseta. Queria nadar até cansar. Logo a sirene parou de ecoar nos meus ouvidos. A cena de Nara morta no banheiro fugiu da minha mente.  Cansei de nadar. A água salgada entrou pela minha boca. Não conseguia pensar em nada. Vazio. Tudo o que eu tinha pela frente era água. A água e o infinito.

3 de jul de 2012

A obra


Matilde estava com 44 anos. Viúva há seis, depois que o marido morreu, nunca mais quis saber de outro homem. As amigas incentivavam-na a deixar a viuvez:
-Mulher...você ainda é nova. Precisa conhecer outros homens...sair mais...se divertir...vai ficar se guardando para quem ?
- Não consigo me interessar por outro e não vou  para a cama só  por ir...tem que existir amor....ou tesão. E ainda não apareceu ninguém que mexesse  comigo. As amigas se espantavam :
- Não é possível. Tantos homens interessantes no mundo.

Mas ela dizia a  verdade. Apesar de sentir calores  e desejos quase que incontroláveis,  Matilde ainda não tinha encontrado quem a fizesse sair do sério. Não faltava torcida :
-Olha aquele ali, Matilde !  Quer tirar você para dançar. Não tira os olhos da nossa mesa. É com você.

A viúva  fazia  pouco caso:
-Não  gostei . E mesmo assim, nem sei dançar....venho só para fazer companhia para vocês.

Parecia apática.  Quando não gostava, não queria aproximação e nem conversa.
E assim  vivia . De casa para o trabalho, do trabalho para a casa e de vez em quando, uma saída com as amigas . Numa vida de viuvez monótona.  Sem cor. Sem novidade. De vez em quando, sentia falta do finado marido. Ele movimentava a casa . Inventava sempre um bom programa para a relação não cair  na rotina.
Pensando nisso,  nas férias,  Matilde resolveu que , ao invés de gastar o dinheiro viajando, pintaria  a casa, faria umas arrumações , trocaria móveis. Talvez assim, conseguisse se desprender do passado. Cada canto da casa lembrava o falecido. Cada canto da casa tinha o jeito dele.
Contratou  um pedreiro.  O homem era de confiança. Já havia feito obra na casa de uma amiga . Rochinha era um rapaz simpático . Devia ter uns 26....27 anos.
Depois de duas semanas convivendo com o pedreiro, entre massas e tintas,  foram adquirindo  intimidade. Matilde passou a fazer café toda tarde e oferecia ao trabalhador. Adorava a companhia do rapaz :
- Seu Rochinha.....café fresquinho.....vem beber comigo....para a obra . Hora do lanche.
Ficavam conversando na mesa da cozinha durante horas . Matilde foi se encantando com aquela simplicidade de pedreiro.  Rochinha  era casado há oito anos  e tinha quatro filhos. Contou a vida toda para a viúva. Falou da esposa com  brilho nos olhos. Matilde sentiu inveja . Aos poucos, se apegou ao trabalhador de rosto fino e mãos grossas.
Cada vez que ele misturava   as tintas e saía  pintando a casa com os  braços fortes, ela entrava em transe. A imaginação voava. De noite sonhava com ele beijando-lhe o corpo. Acordava excitada . Precisava  ser acariciada por aqueles  braços fortes.  
Decidiu que,  assim que a obra terminasse, atacaria-o. Seria inesquecível ser possuída por aquele homem rude e ao mesmo tempo delicado. Não aguentava mais os sonhos eróticos com Rochinha.  Chegou a sonhar que os dois se misturavam  as tintas e faziam amor como dois selvagens, rolando no chão . Acordava pensando :” trabalhador braçal deve ter um apetite sexual aguçado”.
Desconfiava dos intelectuais. Tirava pelo marido. Professor respeitado, carinhoso e dedicado, o coitado não era  um bom amante.  Na cama  fracassava. O sexo era morno.

A obra terminou no penúltimo  dia das férias  de Matilde . Tudo aprovado, ela combinou que o  pagaria  no dia seguinte.
Esperou o dia seguinte ansiosa. Nem dormiu direito.  Pela manhã, se preparou para receber o pedreiro. Fez uma mesa linda de café da manhã, vestiu     uma camisola vermelha sensual, e esperou Rochinha  chegar.

Quanto ele tocou a campanhia, Matilde abriu a porta e logo se insinuou:
- Vem cá seu  Rochinha.....Seu Rochinha, não. Rochinha. Posso te chamar assim ?
-Pode dona...tem problema não....
-Vem cá....senta aqui no sofá......
Desconfiado, o pedreiro  sentou afastado de Matilde. Respeitava a  viúva. Só que  ela não queria respeito e se aproximou mexendo nos cabelos. Ele se afastou....Ela se aproximou  e agarrou-o. Salivava de desejo:
- Vem aqui. Deixa de ser envergonhado.  Já já te pago. Mas antes me dá um beijo.  Você não imagina o quanto sonhei com esse beijo . O cheiro do teu suor me deixa louca.
Apavorado com a ousadia da viúva, o pedreiro  empurrou Matilde com força e ficou de  pé:
-Quê isso dona !? A senhora tá pensando que eu sou o quê ? Sou um trabalhador....sou um homem casado, religioso, pai de filho...não traio minha esposa não..... ela merece respeito e a senhora também dona. Sou homem disso não.
Matilde acreditava que fazia parte do jogo de sedução e  insistiu:
-Você não vai trair sua esposa.....a gente só vai fazer umas carícias...ninguém precisa saber. Não conto para ninguém.
-Não senhora, dona....sou um homem de palavra.....amo minha esposa....faço isso com ela não...por favor...a senhora me paga e eu saio por aquela porta de cabeça erguida.

Não adiantou insistir. Seduzir. Quase tirar a roupa. O pedreiro  continuava vociferando  sua fidelidade canina. Venceu pelo cansaço. Matilde pagou o que devia com um aperto no coração e o pedreiro saiu sem olhar para trás.   Andou tão rápido que quase caiu.
Matilde ficou na porta de casa, com os olhos cheios de lágrimas, emocionada com a sabedoria  daquele homem simples  e leal.  

A viúva continuou sozinha. Sozinha e  ainda mais desiludida. O homem a quem resolvera se entregar depois de seis anos de viuvez, era honesto e simplório. Amava  sinceramente, a esposa.