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25 de jun de 2012

A esposa dedicada


Domingo chuvoso, 11 horas da manhã. Nercina preparava o almoço. Ela e o marido esperavam os pais, sobrinhos e cunhados para comemorarem os 5 anos de casamento. Nercina estava distraída , com a geladeira aberta, quando Genildo passou pela  porta da cozinha e falou :
-          Tchau. Estou indo embora.
Distraída , Nercina respondeu :
-          Vai na rua comprar cerveja ? Compra mais refrigerante também. Você sabe que a Cremilda não gosta de cerveja. E ainda tem as crianças......Genildo.. ei Genildo....
Não obteve resposta. Pegou um pano de prato, limpou as mãos, e foi até a sala. Só então reparou nas malas :
-          Genildo, que malas são essas ?
Genildo, que abria a porta de casa , respondeu  secamente:
-          Não reconhece ? São minhas.
-          E o que você está fazendo com as suas malas na porta de casa ?
-          Não ouviu ? Me despedi de você  !?  Vou me embora.
-          Embora ? Que brincadeira é essa ? Daqui a pouco seus pais estão aqui, irmãos, sobrinhos...todo mundo... vamos comemorar nossos cinco anos de casamento e..
-          E nada Nercina. E nada. Eu disse para você que eu não queria comemoração nenhuma. Eu disse para você que não queria  continuar casado . Mas você forçou a barra, fez esse  almoço, chamou a família  e vai comemorar sozinha porque eu estou indo embora.
Os olhos de Nercina se encheram de lágrimas. Seu coração disparou. Começou a esfregar uma mão na outra :
-          Que brincadeira é essa ??? Você está de brincadeira comigo . Não tem graça...você não vai fazer isso comigo na frente da sua família, na frente da minha irmã, dos meus sobrinhos...
-          Vou fazer , sim. Já estou fazendo.
Genildo abriu a porta e quando  pegava as malas, Nercina voou em cima dele e começou a socá-lo :
-          Não vai não. Entra. Sua casa é aqui. Fecha essa porta.
Começaram a brigar. Genildo empurrava a mulher, que empurrava Genildo e chutava a porta. Genildo se desvencilhou  dela . Aproveitou para pegar as malas. Ela novamente voou para cima do marido. Dessa vez agarrou a canela dele. Parecia uma cadela chamando a atenção do dono. Se agarrou no calcanhar de Genildo gritando alucinada:
-Não vai. Não me deixa. Eu te amo. Pelo amor de Deus não faz isso comigo ! Eu imploro.. eu imploro...
Chorava . Parecia um chafariz. Estava descontrolada.
Genildo empurrava Nercina com o pé :
-          Me larga , mulher ! Me solta. Deixa eu ir embora. Olha o escândalo. Os vizinhos...o que os vizinhos vão dizer ?
Os vizinhos já abriam as portas. Comentavam. Uns com pena. Outros querendo interferir. Martinha, a vizinha mais chegada se aproximou :
-          Nercina, não faz isso. Olha o vexame.  Depois vocês conversam. Vocês estão de cabeça quente.
Nercina gritava completamente fora de si :
-          Nãoooooo ! Ele é meu ! Não vou deixar ele ir embora para ficar com vagabunda !
Genildo tentava se desvencilhar . A confusão estava formada. Enquanto alguns vizinhos apenas assistiam ao impasse da porta de suas casas, outros tentavam ajudar. Até que alguém falou :
-          Cheiro de carne queimada. É a comida queimando.
Martinha entrou em casa para desligar o fogo. Enquanto isso Nercina, com uma força descomunal, continuava agarrada á canela de Genildo que pedia ajuda a vizinhança :
-          Me ajuda seu Almeida....tira essa mulher do meu pé.
-          Eu ? Tiro não. Em briga de marido e mulher não se mete a colher.
Virou as costas e se foi. Genildo conseguiu tirar as mãos de Nercina . Ela , no chão, com o cabelo  desarrumado gritava e chorava ao mesmo tempo  :
-          Não vai....não vai.....
Com raiva, Genildo humilhou mais a mulher  na frente da vizinhança que a  tudo assistia, como se a briga fosse mais um capítulo de novela  :
-          Louca, você é louca varrida ! Não quero nunca mais olhar para tua cara. Que vexame !!
A vizinha Martinha ajudou Nercina a se recompor. Os vizinhos se dispersaram comentando. Era o assunto do dia na rua.
Duas horas depois a família estava toda reunida na casa de Nercina para o almoço que não aconteceu. A mãe de Genildo, com um lencinho na mão, chorava num canto sem dizer nada. Os pais de Nercina culpavam Genildo:
-Eu falei minha filha. Eu falei para você não casar com ele. Não presta . Nunca prestou.
O pai de Genildo se doeu. Começou a bater boca com os pais de Nercina. As crianças corriam em volta da casa, alheias a tudo. A irmã de Nercina, Cremilda, alertava:
-          Vocês não vão querer  brigar também!  Daqui a pouco os vizinhos chamam a polícia.
Os ânimos não se acalmavam. De um lado o pai de Genildo defendia o filho. Do outro, os pais de Nercina acusavam o genro . Nercina permanecia sentada no sofá olhando para o nada. Estava fora de órbita. Para acabar com  a discussão Cremilda foi até a cozinha, pegou duas panelas, chegou no meio da sala e bateu com uma panela na outra :
-          Calma ! Vamos nos acalmar. Agora não adianta brigar. Onde é que o Genildo está ? Ele disse para aonde ia Nercina ?
Nercina não respondeu. Continuava olhando para a televisão desligada. A irmã comentou:
-Pronto . Pirou !
Procuraram  por Genildo. Nenhum amigo sabia do paradeiro de Genildo.  O celular na  caixa postal.
A família se agitou. Todos á procura de Genildo. Menos Nercina que , sentada no sofá, olhava atentamente para a televisão desligada. Pensava. As brigas que tiveram nas ultimas semanas passavam pela cabeça de Nercina. Não era de hoje que Genildo queria abandonar o casamento. Ela tentou de tudo para ficarem juntos. Só restava fazer uma coisa para manter Genildo a seu lado. Queria o marido de qualquer maneira. Pagava qualquer preço . Queria continuar casada. 
Enquanto a família procurava Genildo, Nercina foi até o quarto, pegou a caixa de tranquilizantes e enfiou tudo garganta abaixo. Deitou na cama e esperou o resultado.
Quem encontrou o vidro de tranqulizantes jogado na cama ao lado de Nercina foi o sobrinho mais velho, Geninho, de 9 anos. O garoto saiu pela casa gritando com o vidro de tranquilizantes na mão, enquanto a família estava mobilizada para procurar Genildo:
-          A tia Nercina tá dormindo ! Tia Nercina tá dormindo ! Olha o que eu encontrei, o remédio que a mamãe toma para dormir...
Cremilda pegou da mão do menino :
-          Me dá isso aqui. Pelo amor de Deus ! Gente....chama uma ambulância, a Nercina  se suicidou.
O filho mais novo se agarrou na saia de Cremilda :
-Mãe, tô com fome !
-Agora eu não posso . Não vê que tua tia tá passando  mal ?
A ambulância chegou . Mais espetáculo para a vizinhança. A casa de número 52 estava comentada naquele domingo  no bairro.
Nercina foi para o hospital. Tomou lavagem. Ficou internada de um dia para o outro.   No caminho de volta para a  casa, no carro da  irmã,  falou:
-          Cremilda, se o Genildo não voltar para mim,  tento o suicídio novamente.
E tentou mais duas vezes. Queria chamar a atenção de Genildo. Deu certo.
O romance com a amante terminara. Então Genildo voltou para Nercina mesmo sem amor.  Conhecia Nercina e sabia que, pelo menos,  ela  era boa dona de casa. Durante os 20 anos de casamento ainda teve muitas amantes. Nercina sabia de todas. Quando ela desconfiava que Genildo tinha outra, arrumava as roupas do marido com cuidado. Comprava perfumes novos. Cuidava dele com uma dedicação canina, para deixá-lo impecável para passar ás tardes nos braços da rival.
Martinha, a  confidente,  questionava o comportamento da vizinha amiga:
-          Você sabe de tudo e não faz nada ? Toma uma atitude ! Acorda !
-          Isso é amor. Quando a gente ama aceita todas as humilhações do mundo.
E assim, encerrava o assunto com olhar de mulher perdida em devaneios.
Quando Genildo ficou doente, contratou os melhores médicos... ... Cuidou dele dia e noite. Dava os remédios na hora certa. Pagou até uma empregada para fazer comida e arrumar a casa , enquanto ela se dedicava ao marido doente 24 horas . No momento de sua morte,  Nercina segurava-lhe ás mãos com força. 
No dia do enterro, Nercina,  não se constrangeu quando apareceram cinco ex- amantes de Genildo. Duas inclusive disseram  que ele era pai de seus filhos. Atendeu as  rivais com uma educação absurda. Não fez a menor menção de interferir, quando se aproximavam do caixão do  falecido. Na hora que o padre encomendou o corpo, chorou discretamente.
Antes de sair do cemitério, amparada pela fiel amiga Martinha, olhou mais uma vez para a lápide com as inscrições: aqui jaz o melhor marido do mundo. Em cima da sepultura o retrato de Genildo sorria para ela. 

9 de jun de 2012

Amores passageiros


...e ele distraía a solidão inventando amores passageiros. Amava todas intensamente por algumas horas. Noites, talvez. Mas não ficava com nenhuma. Não era de ninguém. Nem dele. Virou especialista em destruir corações.  Machucava sem querer.  De início, acreditava ser amor o que sentia.  Apaixonava-se quase todos os dias por mulheres diferentes. Fazia promessas. Falava dos  sentimentos com sinceridade. Comprava  rosas no vendedor simpático  do quiosque e oferecia  à amada com um sorriso encantador . Os olhos brilhavam.  A boca abria-se com fome  para receber o beijo da nova paixão  .  Coração  acelerava.  Corpo enrijecia de tesão.

No dia seguinte, quando acordava, a magia sumia junto com a lua.  Parecia feitiço . As lembranças da noite evaporavam-se.  Talvez  fossem para um lugar distante. Quem sabe iam parar  no fundo do mar ou junto com as  estrelas  ?  Promessas  esquecidas . Restava uma taça de vinho ou outra, caída no chão . Frustrava-se. Queria amar.  Porém, não conseguia  sentir a emoção que todos  diziam sentir  ao amar.  Até sentia. Mas  durava pouco.  O suficiente para magoar a ex-amada .  Despedia-se com um beijo  seco.  Para não se chatear, dizia que ia ligar no dia seguinte.  Sumia. Nem atendia as ligações para não ter que se explicar. As  orgulhosas entendiam o silêncio. As  carentes  o procuravam   esperançosas, talvez.  Algumas  insistiam.  Acreditavam  que o  amor  se consegue  implorando.  Nessas horas, ficava com medo de escândalo. Detestava precisar se defender.

No fundo,  era indeciso. Amar apenas uma, seria o ideal .  Mas eram muitas mulheres interessantes  que o cercavam todos os dias. No trabalho.  No restaurante, na hora do  almoço. Nas redes sociais. No avião. Na vizinhança. Por vezes,  acreditava que não daria conta delas. Amava todas as mulheres,  talvez por isso, não conseguisse amar nenhuma de verdade. Preferia não ser tão bonito. Talvez chamasse menos a  atenção. Talvez fosse mais fácil escolher .  A beleza o corrompia.

O fato é que não conseguia amar. Todo final de semana era uma mulher diferente.  Poderia escolher uma  diferente por dia. Já cometera tamanha ganância. A  pressão era grande. Decidiu limitar os encontros às sextas, sábados e domingos.  Não podia satisfazer a todas. Era um só. Que fossem procurar outros. Apesar do assédio, a solidão era sempre a mesma. Quanto mais mulheres, mais aumentava a solidão. Mais aumentava a possibilidade de nunca vir a amar.

Num dia chuvoso, depois que voltava do almoço, atravessando a rua , se encantou pela morena que estava ao seu lado. Esbarrou o braço , sem querer,  nos seios dela. Ela o olhou espantada. Chegaram na calçada, ele sem graça, lhe pediu desculpas. Ela abriu um sorriso lindo, acenou com a cabeça e saiu andando sem olhar para trás. Ele queria lhe chamar. Ficou com um grito sufocado na garganta. Nunca mais a viu. Sonhava encontrá-la. Talvez, quem sabe, fosse o amor da sua vida. Talvez, quem sabe, conseguisse tirá-lo da solidão. A imagem dela o acompanhava, tornando sua vida menos vazia sentimentalmente.