Pesquisar este blog

27 de mai de 2012

Os Amantes de Gisele


Quando Rafael fechou a porta, a velha sensação de fracasso tomou conta de mim . Estava sozinha novamente. Pensei: “o que Rafael havia me acrescentado nos 4 anos de relacionamento?” Me magoava com desconfianças e humilhações. Implicava por pequenas coisas.... muitas vezes, depois de pintar os cabelos no salão, quando chegava em casa, ao invés de elogios, era recebida com deboche:

-Gastando dinheiro com besteira? Você nunca vai ficar bonita.....só se fizer plástica!


As agressões de Rafael me deixavam paralisada. Lembrava da minha infância na Baixada Fluminense, quando brincava nas ruas enlameadas de Caxias, de pés descalços e vestido de chita. Meu pai chegava bêbado, tropeçando nas pernas. Quando me via rindo com outras crianças, me pegava pelo braço e me empurrava para dentro de casa:

-Vadia, é isso o que você é. Gisele: a exibidinha. Vai esquentar minha janta que sua mãe ainda não chegou do trabalho e eu estou morto de fome!

Lá ia eu, de cabeça baixa, ombros caídos e descalça, fazer o que papai queria. Esquentava a comida, com lágrimas caindo pelos meus olhos pequenos e entristecidos. Antes de servir o jantar, limpava meu rosto magro molhado pelo choro, com um pano de prato. Colocava a mesa sem dizer uma palavra. Meu pai comia feito um bicho. Pedia mais. Era insaciável. Depois, enquanto eu lavava a louça, ele puxava meu vestido e me acariciava por cima da calcinha. Sentia uma mistura de nojo e prazer.

Me tornei adolescente, tomei corpo e nunca falei para minha mãe dos momentos íntimos com meu pai. Se eu contasse, não ganharia balas. Quando me tornei adolescente, papai me dava dinheiro. Em troca, eu o acariciava. Tinha verdadeira repulsa. Mas precisava da grana para comprar cigarros e bijuterias. A cada trepada, eu ia para o banheiro, ligava o chuveiro e deixava a água fria banhar meu corpo curvilíneo. Tinha ânsia de vômito quando lembrava do pescoço azedo de papai perto da minha boca.

Minha vida mudou quando completei 18 anos. Eu, meu pai e minha mãe jantávamos na sala. Como sempre, papai falava alto e gesticulava muito. A comida escorria pelo canto da boca se misturando à saliva. Numa fração de segundos ficou vermelho.... tombou da cadeira, caiu no chão e colocou a mão no pescoço. Queria buscar fôlego e não conseguia. A língua arroxeada caiu pelo canto da boca. Me esticou uma das mãos pedindo socorro. Mamãe ficou impassível. Tentei fazer alguma coisa. Me abaixei, sacudi, gritava num misto de medo, desespero e alegria:

-Papai... para de brincadeira!? Levanta daí...

Morreu. Envenenado. Duas semanas depois, eu e minha mãe assistíamos televisão quando a polícia prendeu mamãe . Ela saiu algemada de casa. Chorei convulsivamente. Fui morar na zona norte na casa do irmão de minha mãe e da esposa dele. Eles não tinham filhos.

Só então tive uma vida igual à das moças da minha idade. Festinhas, namoros e estudo. Meu tio pagou meu curso de Nutrição. Aparentemente sou feliz. Dentro de mim, porém, um buraco negro de dias torturantes me acompanha sempre. Lembro das cenas de sexo com meu pai. Da agonia da morte. Das algemas lustradas nos pulsos de mamãe. Cada relacionamento que acaba, as recordações voltam à minha mente. Vejo papai na minha frente, com dedo em riste, bronqueando comigo:

-Você ainda é a minha vadia. A minha Gisele exibidinha!

Outro dia recomendava uma dieta para uma cliente obesa. E ela reclamava do marido:
-Depois que engordei meu marido arranjou uma amante. Me despreza. Mas não tem coragem de se separar. O dinheiro é meu... se ele pede a separação fica pobre ... então cheguei para ele e disse: ou fode comigo ou não tem mais dinheiro!

Me contou essa história escrota e depois ainda fez cara de poderosa. Levantou as sobrancelhas e começou a rir. Fiquei com raiva da gorda. Lembrei que tinha nojo de meu pai, mas transava para receber balas e dinheiro. Encaminhei a gorda para um colega de profissão. Quando penso nessa anta filha da puta e chantagista, me dá asco.

O problema é que, apesar das relações conturbadas lembrarem meu pai, só me relacionei com homens problemáticos. O primeiro homem com quem vivi era viciado em drogas. Me batia, me chamava de vagabunda e roubava meu dinheiro para comprar cocaína. Me livrei dele quando foi assassinado. Chorei a morte do desgraçado. Porém, logo esqueci meus dias de calvário. Meus sofrimentos sempre foram descartáveis. Assim como as pessoas.

Vivi com meu segundo amante um ano apenas. Eu o conheci na fila da padaria. Comprávamos pão no mesmo horário. Era mecânico perto da minha casa. Aquela mão suja de graxa me excitava. No dia que me deu o cartão da oficina onde trabalhava, fiquei mal intencionada. Dois dias depois levei o carro para revisão. Em uma semana, o mecânico se deitou na minha cama e entrou na minha vida. No início era dócil. Me enlouquecia de prazer. O cheiro de fumo lembrava meu pai. Os dois misturavam água de colônia com cheiro de cigarro. Eu me envergonhava de apresentá-lo às minhas amigas. Ele me cobrou:

-Só por que não tenho canudo você não me apresenta às suas amigas? Fresca. Convencida. Babaca!

Quando me agrediu fisicamente dei parte à polícia. Me mudei. Nunca soube o que aconteceu depois. Não apareci na delegacia e nem vi mais o mecânico. Senti falta do sexo gostoso quando o abandonei. Mas se eu não tomasse uma atitude, um dia ele me matava. Foi o melhor homem que tive na cama.

Meu terceiro amante, antes do Rafael, foi o mais velho de todos. Fisicamente era parecido com meu pai. Tinha um olhar petulante, as sobrancelhas grossas e os lábios bem vermelhos. Era gerente de banco. Me decepcionei quando um dia cheguei em casa e o peguei na cama com o caixa . Expulsei-o da minha casa com as calças na mão.

Me senti um barco naufragado. Na profissão meus clientes são compulsivos e querem dietas milagrosas. Bando de ansiosos depravados! Na vida sentimental não me acerto com ninguém. Meu passado me persegue. O cheiro de azedo de meu pai. Ele caindo da cadeira e se debatendo. Minha mãe algemada. Eu preciso de um psicólogo. Urgente! Quero sair de mim.

Pensei que Rafael pudesse me transformar. Quando o conheci era bem-humorado e fazia piada de tudo. Aprendi a rir com o Rafa. Ria de fazer cócegas no esôfago. Menos de um ano e já morávamos juntos. Durante um tempo fomos felizes. Embora debochasse das minhas roupas discretas e sem graça. Só que das roupas, passou a implicar com as amigas. Me descartei de todas. Desconfiava dos meus clientes obesos. E quando eu não queria foder, se masturbava na minha frente. Isso me lembrava papai quando pedia que eu o masturbasse. Acabava de masturbá-lo, corria para o banheiro e lavava as mãos durante 10 minutos. Ás vezes mamãe chegava do trabalho e me via no banheiro me lavando. Impaciente gritava para papai:

-Que porra essa menina tem que tanto lava as mãos? Vou levar essa garota ao médico. Ela é muito esquisita.

As semelhanças entre papai e Rafa aumentaram. As agressões verbais viraram rotina. Optamos pela separação. Ele já tinha outra:

-Tenho outra sim e trepa muito melhor do que você!

Novamente o buraco negro. A porta bateu. Ele partiu. Não volta mais. Sempre foi assim. O cheiro de azedo. papai se debatendo.... mamãe algemada.....

Corri para o quarto, abri meu armário e peguei com as duas mãos minha caixinha mágica. Depois deitei na cama e me encolhi toda. Fiquei admirando a caixinha de madeira, de fios dourados nas laterais, pintada com uma rosa no meio e cadeado prateado. Ganhei a caixinha de mamãe quando tinha 8 anos. Ela disse que eu a guardasse e quando estivesse triste, abrisse. Nela encontraria a felicidade. Nunca abri a caixinha.

Quando Rafael fazia as malas para ir embora, ligaram do presídio para avisar da morte de mamãe. Uma saudade do que ainda estava por vir me invadiu. Com cuidado, coloquei a chave no cadeado, rodei e abri a caixinha. Não tinha nada. Lágrimas de emoção escorreram pela minha face. Pela primeira vez entendi o que mamãe quis me dizer.

10 de mai de 2012

As Rosas


Assim que Valdete apontou na esquina da rua, Olinda saiu da janela e foi para a porta da Vila. Quando a vizinha colocava a chave para entrar em casa , ela gritou :
- E aí, como foi ?
- Psiuu...olha o escândalo .  Entra  aqui  que eu te conto as novidades. Meu marido ainda não chegou.  
Olinda caminhou miudinho até a casa da vizinha. Sabia que Valdete tinha novidades. Ela chegava de mais um encontro com o amante As duas riam. Um riso cúmplice, um riso de satisfação. Entraram na casa de Valdete . Logo ela  confidenciou, para a inveja da outra:
-Senta no sofá para você não cair para trás. Vou te mostrar o anel de ouro que o Esteves me deu .

Abriu a bolsa, tirou o anel da caixinha e sorrindo de orelha a orelha colocou na mão de Olinda:

-Pode babar.  Não é uma preciosidade ?
A outra arregalou os olhos e com a boca mole respondeu  :
- Nossa,  é  lindo. Será que é  verdadeiro mesmo ?
-Tudo o que o Esteves me dá é verdadeiro. Você não acha que eu mando avaliar ?
- Teu  marido não desconfia  ?  
-  Acha que eu sou boba ? Quando eu saio com a besta do Januário, digo que é bijuteria. E ele lá sabe avaliar joia ?

Valdete era casada há 15 anos com Januário, um funcionário público, que gostava de ver televisão, e dormir cedo .  Há um ano, ela conheceu  Esteves, o amante.  Vinte e cinco anos mais velho e rico. Muito rico.  Cada encontro era uma joia. Valdete queria ganhar muitas joias e quanto juntasse bastante daria um chute bem dado no  marido e no amante. Já tinha planos. Venderia as preciosidades e faria um cruzeiro com um homem jovem e bonito.

 Olinda, sua confidente, invejava a esperteza de Valdete. Queria também  arrumar um amante com dinheiro , e fazer a mesma coisa: chutar o marido. Ela não o amava mais e o apelidara de “ porco dorminhoco”. Com os olhos de cachorro faminto, ela confidenciava a vizinha :

- Valdete, invejo você. Quero  um amante rico também . De preferência um velho  para me dar  mordomia e não exigir tanto sexo.
-Deixa de ser boba. É  fácil. É só você caprichar no visual, sair de casa e frequentar lugares de velhos com dinheiro. Deixa eu pegar uma lista de lugares para facilitar a sua vida .

Olinda seguiu o conselho . Dois meses depois, quando quase desistia, conheceu numa tarde primaveril, num café no Centro da Cidade, um senhor distinto chamado Clodoaldo. Ele pagou-lhe o café  com  torradas e geléia. Trocaram telefones.” Tinha dinheiro. Finalmente acertara " - pensou.  Excitada procurou  Valdete e contou a novidade :

- Conheci o homem que vai me tirar do sufoco. O nome dele é  Clodoaldo. Distinto. Unhas feitas. Paletó impecável. Trocamos telefone . Vou esperar ele me ligar.

- Agora é colocar o plano em execução. Ele vai adorar presenteá-la. Ainda mais sendo mais velho.

Dois dias depois Clodoaldo ligou para Olinda. Ficaram  duas horas conversando pelo telefone. Olinda aproveitou para sondar a situação financeira do futuro amante. Tinha dois apartamentos. Uma casa de praia. Carro. Jogou uma indireta para Clodoaldo, querendo levar vantagem já no primeiro encontro. Não podia perder tempo :

- Minha vizinha tem um amante, homem bom. Dá tudo pra ela.  Até joias caríssimas. Estão juntos faz tempo.
 Clodoaldo murmurou:
- Hummmhummmm...mulher merece ser bem tratada.

Os dias correram. Olinda preparou  o espírito de Clodoaldo para o primeiro encontro. Sempre que podia falava de  Valdete e do amante dela. “ ele é um perfeito cavalheiro.”
Depois de muita conversa, marcaram o primeiro encontro. Olinda se enfeitou toda. Gastou dinheiro com roupa e colocou perfume francês.   Antes,  passou na casa de Valdete. Queria causar inveja na vizinha. Mostrar que também podia ter um amante rico :

- É hoje nosso primeiro encontro. Já preparei o espírito do homem. Vamos ver qual a joia que ele vai me dar.
A vizinha desejou boa sorte e as duas se despediram.
Os futuros amantes marcaram  no Centro da Cidade. No mesmo café em que se conheceram. Quando Olinda chegou no bar, Clodoaldo esperava por ela, com um sorriso, acolhedor. Na mão uma dúzia de rosas vermelhas, cuidadosamente embrulhadas em papel celofane.
Olinda beijou Clodoaldo e ele lhe entregou as rosas:
- São pra você. Para marcar nosso primeiro encontro. “Rosas para uma rosa !”

Olinda pegou as rosas e procurou  o embrulho com a caixinha de joia. Nada. Ela então , perguntou apreensiva  :
- E o  presente, Clodô  ? O que você comprou pra mim ? Para de suspense.
- Minha doçura., sei que você é romântica como todas as mulheres. Pois então. Não existe nada mais singelo do que dar rosas para uma mulher. Ainda mais uma mulher linda como você.

Com a voz decepcionada, Olinda retrucou :
- Mas só rosas ? E as joias ? Não tem um anelzinho de brilhantes ? Um cordão de ouro ? Nada ?

- Amorzinho, o preço das joias está nas alturas  e mesmo assim,  não provam o amor que um homem sente por uma mulher. Rosas são perfumadas. Têm vida.

Olinda se enfureceu. Pegou as rosas, jogou no chão e amassou uma por uma com a  sandália salto agulha, que comprara especialmente para a ocasião:

- Sabe o que você faz com as rosas ? Enfia  garganta adentro. Rosa por rosa. Entendeu ?  
- Você não gostou, minha florzinha ?
- NÃO ! Prefiro as que o meu marido compra todo sábado na feira para colocar no jarro da mesa da sala.  

Cuspindo nas rosas amassadas , pegou a bolsa e saiu do restaurante derrubando as cadeiras.  Clodoaldo balançou a cabeça e comentou com o garçom :

- As mulheres são mesmo um mistério ! Por favor, me vê um chopinho pra relaxar !