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23 de abr de 2012

Na Fila do Paraíso


Final de noite. Renato e a namorada rodam a cidade de carro.

- Pára ali, Renato. Aquele ali.
-Tá cheio também, Heleninha. Olha a fila.
- Mas já fomos a quatro, todos cheios.
- Calminha, hoje é sexta-feira, lua cheia.

Heleninha fez biquinho.

- Droga, quero ficar sozinha com você.
- Então vamos parar naquele mesmo. Com sorte, antes de uma, a gente entra.


Renato deu a volta com o carro e parou na fila do motel. Três automóveis aguardavam a vez .
- Pronto, agora é esperar. Enquanto isso, amor, vem cá, me dá um beijo.

Heleninha empurrou o namorado com jeitinho e pegou a bolsa.
- Calminha. Quero mostrar uma coisa pra você.

Deu um sorriso malicioso, abriu a bolsa e tirou uma máscara, um perfume afrodisíaco e uma cinta–liga.
- Que tal? Gostou? Nosso presente de um ano de namoro.
- Você é demais! Vai ser uma comemoração inesquecível. Gostei, pensou em tudo.
- Fala a verdade, sou ou não sou a melhor namorada que você já teve?
- Deixa eu pensar. Hummmmm.
- Precisa pensar, Renato? Não entendi.
- Tava brincando. Deixa de ser tolinha
.-E a Silvia?
- O que é que tem a Silvia?
- Você ainda gosta dela?
- Pra quê tocar no nome da Silvia agora? Estamos tão bem aqui, nós dois. Tá chegando nossa vez. - Você esqueceu a Silvia? Responde, sinceramente.
- Que pergunta sem sentido!
- Mas você está demorando muito a responder.

O clima ficou pesado. A vez deles se aproximava e o mal-estar aumentava.
Heleninha era birrenta. Quando cismava com alguma coisa, se tornava chata e Renato, orgulhoso, não se rendia aos caprichos da namorada.
- Estou ficando irritado. Isso não vai terminar bem. Vamos parar.
- Naquele sábado que a gente brigou você ligou para ela, eu vi o número no seu celular, eu vi, Renato, não mente.
- Qual é Heleninha, inquérito agora?! Na porta do motel?!
- Só entro nesse motel se me disser a verdade.
- Tá bom! Liguei sim. Qual o problema? Somos amigos. A Silvia foi a namorada que mais gostei. Mas passou, acabou.
- Então eu tinha razão. Por isso que você não queria falar, né?
- Nada disso. Não queria tocar no assunto. Você que insistiu. Como não sei mentir...
- Não sabe mentir?! Me engana que eu gosto – debochou.
- Pára com isso! Esquece. Vem cá.

Renato puxou Heleninha. Ressentida, ela se desvencilhou e colocou o rosto para fora do carro.
- Gente, meu namorado não sabe mentir. É um homem sincero demais. Vocês acreditam em homem sincero?

A fila crescia. Nos outros carros, os casais comentavam. Renato envergonhou-se. Puxou a namorada.
- Olha o vexame! Nós estamos na porta de um motel! Isso é escroto.
- Escroto é você. Faz um ano de namoro comigo e pensa em outra.
- Mas quem disse que eu penso em outra? Você que começou com esse papo.

A vez deles chegou. Heleninha abriu a bolsa e jogou a cinta-liga, o perfume e a máscara no rosto de Renato.
- Você vai comemorar sozinho.
Saiu batendo a porta. A recepcionista deu a chave do quarto. Renato não sabia se ia atrás da namorada, se pegava a chave, se ia embora, se entrava no motel. Heleninha foi embora de táxi. Os motoristas dos outros carros começaram a buzinar.

- Bora, cara! Vai atrás da mulher. Sai da fila. A gente quer entrar!
- É isso aí. Anda. Ficou na mão. Se manda! Dá a vez para outro.


Furioso com a gritaria, entrou no motel de pirraça. Ligou para Heleninha, mas o celular estava desligado. Pensou durante alguns segundos e tomou coragem.
- Silvia, sou eu, Renato.
- Aconteceu alguma coisa? Ligar para a minha casa a essa hora.
- Tá fazendo o quê?
- Tava quase dormindo.
- Sabe onde estou?
- Sei lá! Não tenho bola de cristal.
- No paraíso.

Silvia se chateou e nem deixou o ex completar a frase.
- Você é muito cara-de-pau. Me liga do motel para me sacanear?
- Estou ligando para chamar você pra vir pra cá, recordar os velhos tempos.

Silvia se calou durante alguns segundos. Respirou fundo e decidiu.
- Me dá o endereço. Estou indo.
- Ah, sim, eu tenho aqui comigo uma máscara, uma cinta–liga...
- Tô indo. Até já!


Enquanto espera Silvia, Renato enche a banheira de hidromassagem, liga o rádio e sai dançando pelo quarto.
- Mulheres! Quem as entende?! Eu quero é mais! Ulálá!!

15 de abr de 2012

Dias atuais

Encontraram-se na rua. Fazia tempo que precisavam resolver algumas  diferenças. Eram amigas até aparecer Rosemberg na vida delas. Apaixonaram-se e passaram a disputar o mesmo homem.
Marília convidou Luciene para almoçar. Luciene aceitou. No restaurante, com ares de superior,  Marília pediu o cardápio e disse que fazia questão de pagar o almoço. A outra não se importou . Marília falou primeiro :
- Acho uma bobagem você insistir na relação com o Rosemberg. Nós estamos namorando.
Luciene  respirou fundo, olhou para a rival entediada e respondeu :
- Querida, engano seu.Eu não insisto em nada. Quem insiste é ele. Ele me liga e eu saio.
- Ah é ? - engoliu em seco mas continuou disfarçando o despeito - Só quer sexo.
-Eu também. Quem quer casar é você. Eu só quero sexo.
- Mas não gosto de ser traída - disse com uma ponta de irritação.
Luciene sabia que a amiga, ou melhor, ex- amiga, se irritava por pouca coisa e continuou provocando :
- Querida, isso não é um problema meu. Gosto de transar com o Rosemberg. Não gosta de ser traída ? Então fala com ele.
- Ontem passamos uma noite ótima - tentou mudar o discurso.
- Que bom ! Não sou ciumenta.
- Você não tem é vergonha na cara !
- Eu ? Ou será você ?
- Quem está com o meu homem é você !
- E quem disse que ele é seu ? Tem algum papel assinado dizendo que ele é seu ?
Marília ficou sem fala. Não conseguia mais argumentar com o cinismo de Luciene. Resolveu partir para a agressão.  Justo na  hora em que o garçom chegou com o pedido. Quando  se levantou para agredir Luciene, derrubou a bandeja com o almoço. A comida se espalhou pela chão do restaurante. O garçom escorregou e caiu. Marília chorava irritada. Luciene pegou a bolsa, olhou para a outra e lançou o veneno :
- Você paga a conta, né ?
Enquanto Marília xingava o garçom, e Luciene comia um sanduíche no bar da esquina, Rosemberg ligava para Cíntia :
- Então está combinado ? Assim que eu sair do trabalho , seis da tarde, eu passo e te pego. Beijos, minha linda !

5 de abr de 2012

A mulher da cachoeira

- Vem. Você não confia em mim ?
- Tenho medo de cair.
- Segura na minha mão. Anda.

Segurei firme na mão de Amanda, enquanto caminhávamos por  entre as pedras. A água gelada da cachoeira batia em nossos pés, arrepiando nossos corpos. De repente, senti uma dor alucinante no meu dedão  . Uma pedra pontuda entrou na minha unha. Gritei . Meu pé ficou dormente. Assustada,  Amanda soltou minha mão e caiu na água gelada. A correnteza estava forte. Não consegui alcançá-la. Ainda a vi esticando os braços e tentando gritar enquanto era levada pela fúria das águas .

Cinco dias de buscas. O corpo de Amanda nunca foi encontrado.

Agora, sempre que tenho um tempo livre, visito a cachoeira na esperança de encontrar Amanda sorrindo e jogando os cabelos para trás.

No final de um sábado nublado, depois de várias lembranças na minha cabeça, eu estava distraído olhando  a queda d` água, quando senti uma mão fria apertar meu ombro direito. Olhei sobressaltado. Uma mulher de cabelos pretos e  longos, olhos verdes , boca carnuda , vestida de branco, sentou-se ao meu lado. Ela ficou  em silêncio durante alguns minutos  olhando para o infinito. Do nada  começou a rir em voz alta. Uma risada nervosa :
- Sabe quem eu sou ?
- Não. Deveria ? - Respondi com uma ponta de curiosidade
- Sou o seu sono eterno.
-  Sono ? Que bobagem.. - fiz sinal para continuar
- Há uns vinte anos , fui jogada nesta mesma cachoeira pelo homem que dizia me amar.
- Como conseguiu se salvar ? – Ri da mulher.
Ela  não moveu um músculo da face.  Ignorou a minha pergunta e continuou :
-  Éramos casados há pouco mais de três meses. Ele me trouxe pra esse lugar, para fazermos um piquenique.
- E aí ?
- Aí que ele  me jogou das pedras .
- Poxa, que coisa horrível. - eu disse sem muita convicção -  Ele tá preso ?
-  Preso ? Todos acham que foi um acidente.
- Mas você não o denunciou ?
- Como ? Ele me empurrou das pedras e eu morri.
- Morreu ?
-  Sim.
- Que brincadeira é essa ? Você está aqui falando comigo.
- Qual o problema ? Meu espírito está preso a esse lugar e você pode me ver e falar comigo. Nem todos podem.
- Tô ficando louco, então ? Hora boba para fazer brincadeira.  O que acha ? Melhor ir embora.
-  Não . Precisa conhecer  a verdade.  Estou preso a este lugar. Levo todas as mulheres que se aproximam com seus namorados e maridos. Se eu não fui feliz, ninguém será . A cachoeira é amaldiçoada.
- Você quer dizer que levou a Amanda  ? Já disse, não estou para brincadeira. Você deve ser louca.
- Talvez seja louca mesmo. Não gosto de gente feliz. Gente que vem expor a felicidade , onde fui traída.
Sem acreditar em nada , me levantei sacudindo a terra e me preparando para ir embora. Franzi a testa e segurando a respiração falei  :
- Você é cruel, fantasminha. Mas tudo bem, está perdoada. Os loucos merecem perdão. Melhor que seja louca.  Nunca gostei de história de fantasmas.
Ela  deu um sorriso  pálido e  novamente  ficou do meu lado. Aproximando-se ainda  mais :
- Fantasmas não existem.  Me dê suas mãos .
- O que você pretende fazer ?
- Vamos. Está com medo ?
Estiquei minhas mãos. Ela agarrou com força. As mãos dela estavam con geladas. A pele  transparente deixava as veias á mostra. Quando olhei nos olhos daquela estranha mulher, fiquei confuso. Dentro deles, via o olhar  de Amanda. O mesmo olhar de pavor sendo levado pelas águas. Tentei me soltar, mas a mulher me segurava com força.
- Que brincadeira é essa ? Me larga.
- Você dúvida de mim ? Acha que sou louca  ?
-  Não sei de mais nada.  Me solta.
- Sou o seu sono profundo. Não acredita ? Quem sabe um fantasminha ?
- Fantasma só existe em filme pra criança.
- Uma morta vida. O que acha ?
 - Mortos não falam. Morreu, acabou.
- Quer saber se é assim ? Então vem...
- Me larga. Eu não quero saber de nada. Larga.  Assim serei obrigado a ser grosso com você.

Um riso ensurdecedor fez meu corpo tremer.  Aproveitando a minha distração, me puxou , e me jogou na cachoeira.

Comecei a me debater desesperado, gritando o nome de Amanda. A água gelada deixou  meu corpo paralisado. Senti que perdia as forças. A mulher sumiu. Fiquei sozinho e era arrastado ferozmente pelas águas.

Acordei no hospital. Perguntei aos enfermeiros como conseguiram me salvar  . Não obtive resposta. Continuaram conversando baixo. De vez em quando, me  olhavam e balançavam a cabeça negativamente. Gritei. E nada. Nenhuma reação. “ Todos mal educados” – pensei.
Olhei em volta tentando encontrar explicação. Só via tubos de oxigênio. Bacias com água. Gases.
 Na cama ao lado, uma mulher gritava com dor de cabeça. Os enfermeiros saíram e me deixaram sozinho. Quis ir atrás deles. Mas não tinha  forças para sair da cama. Estava fraco.
Entrei em pânico quando vi doutor Valdir  se aproximando com um sorriso no rosto.  Ele tinha sido meu professor de anatomia  na faculdade de medicina .  Detalhe :  Estava morto há mais  de cinco anos.  "Será que eu também morri ?  Como ? Eu vejo. Penso. Sinto meu corpo. Falo com vocês ?!!"
Só pode ser  um pesadelo. " Será " ?