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24 de mar de 2012

O segredo das feias

                                            
Quando Edinéia e Maciel entraram no supermercado, chamaram  a atenção de Rosângela. Imediatamente ela comentou com a amiga:
- Marta, olha que homem lindo acompanhado de uma  mulher horrorosa.
- Vai ver é só amiga.
- Não é não. Estão abraçadinhos.
Na verdade, o casal sempre foi vítima  da maledicência alheia. Edinéia  chamava a atenção por causa da sua feiúra e sem-gracice. Os olhos caídos , o nariz grande e os lábios finos, davam-lhe um  ar depressivo. Já Maciel, era alto, moreno, olhos verdes e corpo esculpido em academia. As ex-namoradas, maliciosas, acreditavam que Edinéia fizera macumba para casar-se com  ele. Os amigos também estranhavam-lhe o gosto, mas respeitavam-lhe a esposa. Maciel acostumara-se  com o espanto das pessoas e achava graça.
Assim, logo que entrou no supermercado, reparou que a morena alta, de seios fartos e quadris generosos, olhava para ele. Quando ficou sozinho na fila da carne,  flertou com Rosângela e ia pedir-lhe o telefone , mas foi interrompido pela chegada de Edinéia .
Enquanto o casal fazia as compras, era vigiado  pelos olhos cubiçosos de Rosângela. Invejosa, não  parava de comentar com a amiga :
- Esse homem deve ter algum defeito. Não é possível. Bonito demais para desfilar com essa baranga com cara de limão chupado.
-  Vai ver é amor.
- A cara de limão chupado  deve ter dinheiro. Quer apostar ?
- Pede o telefone do cara, assim você se certifica – Brincou a amiga.
Edinéia e Maciel acabaram as compras e foram para a fila do caixa. Rosângela foi atrás . Quando Edinéia saiu para pegar a maionese , ela aproveitou  para puxar assunto com Maciel. Trocaram o número do celular e combinaram um encontro.  De longe, Edinéia viu a cena mas voltou para a fila e nada disse. Pelo contrário, tratou o marido de forma mais carinhosa.
No domingo, pouco antes da hora do almoço, o celular de Maciel tocou. Edinéia estranhou :
- Ué, celular ligado no domingo ?
- Deve ser o Moreira que trabalha comigo. Ficou de ligar para irmos ao Maracanã.
Quando viu o número de  Rosângela, atendeu  falando alto e sem hesitar :
- Então está marcado. Duas  da tarde em frente a estátuta do Beline .
Do outro lado, Rosângela  reclamou :
-Estátuta do Beline ? Que falta de romantismo !
Maciel ignorou o comentário e despediu-se :
- Até lá, então . Abração, Moreira. Beijo nas crianças.
Desligou e falou para a esposa :
- Você se importa se eu for ao Maracanã com o Moreira, amor ?
- Claro que não, meu dengo. Vai sim, você precisa se distrair.
Duas da tarde Maciel passou em frente a estátuta do Beline e Rosângela, ansiosa,  esperava por ele. Quando entrou no carro, comentou espantada  :
- Camisa do Fluminense ?
- Para minha esposa não desconfiar. O jogo termina ás 6. Temos até umas 6 e meia para aproveitar.
Rosângela ofendeu-se :
- Nossa, você está me tratando como uma qualquer !
- Impressão sua. Você sabe que não vai acontecer nada do que você não queira.
Depois de fazer um doce habitual, Rosângela foi para o motel. Passaram a tarde juntos. Seis horas, Maciel começou a se arrumar  e brincou:
-  Foi uma partida gloriosa,mas é hora de ir embora. Você foi  perfeita! Obrigado pela tarde inesquecível, de muitos gols.
Rosângela,  colocando a calça, olhou nos olhos de Maciel e perguntou  dengosa  :
- Posso lhe fazer uma pergunta ?
- Até duas.
- Por que um homem tão bonito como você,  se casou  com uma mulher tão feia ?
- Estratégia.
- Como assim ? Não entendi ?!
-  Com uma mulher feia , eu consigo várias bonitas, que se vêem desafiadas a me conquistar, para me tirar da feia .
Rosângela colocou a blusa e falou emburrada :
- Que idéia podre ! Você é muito escroto .
- Nada disso. Sou um homem sincero. Não é disso que as mulheres  gostam ? SINCERIDADE ?
Maciel deixou Rosângela na esquina de casa. Ela saiu do carro batendo à porta com raiva :
- Não me procure mais ! Você é um babaca !
Maciel deu de ombros e partiu assobiando. Antes, ligou o rádio para saber o resultado do jogo . Chegou em casa comemorando :
- Gostou do meu Flusão, Edinéia  ?
A esposa sorriu e abraçou o marido carinhosamente :
- Adivinha o que eu fiz para o jantar em homenagem AO SEU FLUSÃO  ?
-  Caldinho de feijão no capricho !?
- Isso. Com direito a  bacon, salsinha e  pimentinha  !
- Edinéia, você é divina !
- E depois tem  prorrogação. – Provocou.
- O que você está aprontando ? – Gritou empolgado
- Hoje, na hora da cama,  você escolhe a fantasia ! – E riu libidinosamente.
Maciel  beijou  a esposa e respirando enternecido, teve mais uma vez certeza de que, apesar das bonitonas , Edinéia  era a mulher ideal.  

Do livro  " Só as feias são fiéis "

12 de mar de 2012

A cueca do doutor Adolfo

                                     
Assim que Irene entrou no escritório, Rita resmungou :
- Doutor Adolfo já perguntou por você duas vezes.
- Ai meu Deus ! E o humor  ?
-   Péssimo .
Bateu na porta, pediu licença e entrou. Doutor Adolfo navegava pela internet e quando a viu, levantou a cabeça e franziu a testa :
- A senhora está atrasada, dona Irene.
- Desculpe, é que meu marido....
- Tá desculpada. Próximo atraso leva uma advertência.
- O que o senhor deseja ?
- Quero que a senhora  troque essa cueca  por um número menor.
A secretária pegou a roupa íntima  e saiu da sala ofendida com o pedido.
Ficou um tempo olhando para o nada.  Rita sacudiu Irene tirando-a  do transe:
- O que houve? Você está pálida.
- Acredita que doutor Adolfo  pediu para  trocar uma cueca ? Não ganho pra isso !
- Quer manter o emprego ? Troca e não reclama. Aproveita e coloca pimenta no fundilho  .
- Pó de mico é melhor !
Riram, tomaram café e foram preparar os relatórios. O excesso de trabalho fez Irene esquecer do pedido inusitado . Na hora do almoço demorou no restaurante e não conseguiu fazer a troca.  Prometeu a si mesma que depois do expediente passaria na loja. Saiu do escritório depois das nove. Na volta pra casa, adormeceu na condução. Quando chegou, encontrou o marido com a cara fechada :
- Isso são horas, Irene ?
Com dor de cabeça , ela  abriu a bolsa para pegar um comprimido e a cueca  caiu no chão. Cardoso pegou :
- Uma cueca ? O que significa essa pouca vergonha ?
A mulher  ficou sem fala. Arregalou os olhos e  gaguejou.
- Anda, estou esperando a explicação !
Contou a verdade. Cardoso duvidou:
- Acha que sou burro ? Chega onze da noite  com uma cueca na bolsa e quer que eu acredite nessa mentira ?
- Tá duvidando ? Então liga para o celular do doutor Adolfo.
- Vou ligar.
- Liga. Amanhã tô na rua e quero ver quem vai pagar as contas.
Diante da ameaça , Cardoso desistiu . Passou a andar de um lado para o outro revirando os olhos. Precisava de uma prova de que a mulher falava a verdade.
Enquanto ela  tomava banho, ele  sentou-se  no sofá e ficou balançando  as pernas. Pensava em uma solução . Quando a esposa vestiu a camisola  e colocou a janta na mesa, Cardoso gritou  :
- Já sei ! Você vai desfilar com essa cueca pra mim.
- Tá maluco ? E como vou trocá-la  depois ?
- Se você não desfilar, vou achar que é mentira.
A mulher  obedeceu . Desfilou para o marido , que olhava cinicamente. Quando pensava em parar , ele debochava e pedia :
- Mais uma voltinha. Só mais uma.
- Tô cansada.
- Continua  !  Me excita  saber que o cuecão é do seu chefe. Só mais uma voltinha.
Foram mais de cinqüenta voltas. Quando Cardoso adormeceu, Irene estava exausta. Deitou-se vestida com a cueca. Dormiu pesado. Roncou.
Acordou atrasada. Pulou da cama . Não tomou nem café. Colocou a cueca  na bolsa e saiu apressada. Chegou antes do doutor Adolfo. Dez minutos depois, o chefe passou por ela e nem deu bom dia . Irene rezou para que o homem não lembrasse da troca.  Pegou o terço na bolsa e resmungava  baixinho quando ouviu o grito :
- DONA IRENE, venha até aqui , já !
Assim que entrou na sala com ar desanimado , doutor Adolfo deu um sorriso irônico :
- Trocou ?
- Desculpe. Houve um problema. Mas  prometo que na hora do almoço...
- Não precisa dizer mais nada. Me dá ela , AGORA !
- Doutor Adolfo,  vou trocar...me dá uma chance.
- AGORA, dona Irene !
Pegou a cueca, entregou ao chefe e saiu da sala. Chorou baixinho . Rita  tentava consolá-la. Foi chamada de volta. Estremeceu. Ficaram trancados durante uma hora.  Irene saiu ajeitando os cabelos. Rita perguntou curiosa  :
- E aí ? Demitiu ? Levou sermão ?
Irene pegou um espelhinho na bolsa, passou  batom e respondeu descontraída :
- Não. Recebi um aumento. Doutor Adolfo é um homem muito carente.

1 de mar de 2012

As joias da tia Zélia

Comia bolinhos de chuva  na cozinha, quando a campanhia tocou. Minha esposa  correu para atender.
- Quem é,  Dolores ? – Gritei da cozinha quase me engasgando com o bolinho e engolindo o último gole de  café.
- Vem aqui na sala.
Com o coração aos pulos, quase derrubei o café  : “ O que teria acontecido ?”.  Fiquei surpreso  ao ver em  pé, no meio da sala, a  tia da minha mulher.  A velha, que se chamava Zélia,  estava  com cara de sabiá depois da chuva, acompanhada de uma mala enorme. “ O que aquela  velha sebosa fazia  na minha casa ?  Contrariado,  tomei conhecimento de que ela ficara viúva  e passaria uns  tempos no  quarto de hóspedes. Não gostei da notícia, mas fazer o quê  ?  Seria desumano colocá-la para fora de casa.  Era da família  Mas eu não gostava dela. Tinha cara de bruxa e ainda um bigodinho que insistia em conservar . O  cheiro insuportável  de naftalina que exalava dala, me enjoou. Perdi até o apetite. Aquela aparência desleixada me causava repugnância.
Maria Dolores acomodou a tia no quarto de hóspedes. Em seguida foi para a cozinha esquentar  a sopa de legumes para o jantar.   Durante  a refeição  não conversamos. Nem toquei na comida direito.  A velha parecia esfomeada. Tomou dois pratos  da sopa   e devorou as torradas. Antes das onze, ela  deu  boa noite e seguiu  para o quarto. Perguntei  a Maria Dolores  até quando teria que aturar  a tia dela  .  Chateada com minha má vontade , ela explicou que a tia  precisava ficar longe dos   três  filhos.  Viúva há dois meses,  os filhos descobriram que o pai  deixara uma gorda pensão , além de joias,  para ela. Meus olhos cresceram. Queria saber qual o valor da fortuna.  Maria Dolores não sabia e  me respondeu  “ que  nem  queria  saber”.   Ela apenas desconfiava  que era muito dinheiro.  Já que a tia  queria ir para Portugal , se livrando de vez, do assédio dos filhos . “ Vou verificar  até  que ponto a história é verdadeira” .  – pensei  intrigado
O dia amanheceu ensolarado. Depois de tomar café, fui molhar as plantas. A velha  apareceu na varanda com uma xícara de café na mão e com o mesmo cabelo ensebado a  enfeiar-lhe  o rosto esquelético. Aproveitei para sondá-la e perguntei até quando ficaria na minha  casa. Conversamos amistosamente  e ela caiu na minha armadilha . No final da conversa,  me pediu um favor . Precisava   guardar as joias e o dinheiro que o marido deixara, em lugar seguro . Prometi  levá-la ao  banco no Centro da Cidade,  no dia seguinte. Expliquei  que  o gerente era meu amigo . Naquele momento , minha intenção era ficar com as joias.  Eu pagaria minhas dívidas e se sobrasse, gastaria com bebidas e mulheres. Empolgado, fiz planos otimistas.

 Depois do almoço fui até a cidade procurar um amigo para me ajudar a simular um assalto quando eu estivesse levando  a velha ao banco.  Seria durante o percurso. Sem violência. Ele teria apenas que pegar as joias e o dinheiro.  O revólver poderia ser de mentira. Eu iria pela estrada mais longa e deserta.  Meu amigo topou na hora. Roubar a velha seria mais fácil do que pegar doce de criança – me garantiu.   Cheguei  em casa  com falta de ar. Meter  a mão numa boa grana  me deixou  excitado.

Falei pra velha que no dia seguinte poderíamos ir ao banco. Maria Dolores não desconfiou de nada.   Jantamos em silêncio. Comecei a ficar abafado e percebi  um forte cheiro de vela vindo da cozinha. Odiava cheiro de vela. Lembrava-me  de cemitério. Do enterro do meu pai. Do acidente quando eu era criança. Do sangue saindo dos olhos dele. Da gritaria. Dele estendendo as mãos e  me pedindo socorro. “ Quem acendeu  vela aqui em casa ? “ . – Perguntei  agoniado.
- Tá doido , homem ? Que vela ?
-Eu tô sentindo o cheiro . Vem da cozinha, Maria Dolores.
Zélia  fez cara de espanto , limpou a boca com guardanapo e se dirigiu para o quarto, em silêncio. Rodei a casa toda.  Nenhuma vela acesa. Fui dormir com meu nariz ardendo. Acordei durante a madrugada com falta de ar. Lembrei  das joias. “ Não é possível que logo agora que eu vou meter a mão numa boa grana , vou  ter um troço.”
Amanheci  enjoado e indisposto. Com vontade de ficar na cama. Mas já tinha combinado com o meu parceiro e ás  três  da tarde,  ele estaria me esperando no local marcado.  A ansiedade tomou conta de mim. Passei a manhã olhando o relógio. Na  hora do almoço nem toquei na comida. Por volta de três horas, enquanto  pegava as  chaves  do carro, vi a  velha ensebada separando  uma valise “ é lá que estão o dinheiro e as joias” – pensei. Chamei-a para entrar no carro.
Dei um beijo em Maria Dolores e abri a porta. Minha esposa segurou minhas mãos :
- Tem certeza que não quer que eu vá ?
- Resolvo tudo num instante  . Antes das cinco estamos de volta.
Dirigia em silêncio. Um pouco tenso.  De vez em quando olhava para o colo da velha ensebada e a  via segurando a  valise com as duas mãos. Peguei o caminho mais longo. A estrada estava vazia. Começou a chover. Diminuí a velocidade. A pista estava escorregadia. Novamente o cheiro de vela. Agora dentro do carro. A velha  estava com a respiração ofegante. De repente um homem apareceu na frente do carro.  Eu conhecia aquele homem.  Era o marido da velhota. “ Mas o velho não morreu  ? O que ele fazia ali ?“. Meti o pé no freio. Estava confuso. O carro rodou na pista e capotou.  Não conseguia me mexer. Não sentia meu corpo. O cheiro da vela. O sangue escorria pelos meus olhos.  Fumaça . Muita fumaça. Desmaiei.

Acordei  no hospital. A Tia da minha mulher estava  vestida de preto, com os óculos na ponta do nariz me olhando.  “ Cadê Maria Dolores ? “.  Perguntei, tentando  me lembrar do que acontecera. A velha me respondeu  secamente : “ Morreu”.  “
- Morreu ?  Como ?
- Quando soube  do acidente,  teve um ataque cardíaco. Ainda ficou internada uma semana na UTI,  mas  não  resistiu.
Fiquei sem saber o que pensar.  Tudo me pareceu um grande pesadelo. A velhota  me deu um sorriso macabro, virou as costas e saiu do quarto. Não consegui  dormir de noite.  Virava de um lado para o outro . Só me vinha na cabeça  a cena do acidente. O velho na estrada, depois o carro rodando na pista, em seguida ,  capotando. Não sentia minhas pernas.  No meio da noite a enfermeira veio até  meu  quarto, me aplicou uma injeção e eu dormi. Passei  mais um mês  no hospital. Quando anunciaram que eu ia para casa, fiquei  surpreso :
- Não vou mais  andar ? Vou   ficar pra sempre na cadeira de rodas ?
- O senhor tem sorte de ter uma tia como Dona Zélia. Ela vai lhe ajudar a superar  esse momento dificil. – disse a enfermeira com meiguice.
- Ela não é minha tia ! – gritei apavorado.
A velha  ensebada  entrou no quarto sorridente :
- Você está paralítico, meu rapaz,  e quem vai  cuidar de você, sou eu. Quando chegarmos na sua casa você terá uma surpresinha.

Aquelas palavras  me soaram como ameaça. Os enfermeiros me ajudaram a entrar num táxi.  No banco da frente   a cadeira de rodas dobrada, me esperava. Fiz a viagem chorando pra dentro.  Quando cheguei  em casa, senti um nó no estômago. Quem me esperava sorridente era meu parceiro. Aquele mesmo  que ia roubar as joias e o dinheiro, quando eu simulasse um problema de motor no carro e parasse na estrada. O filho da puta  ajudou a velha ensebada a empurrar a cadeira até a casa. Não entendi nada.

Os dois me largaram na sala, jogado em cima da cadeira de rodas, e foram pra cozinha. A velha ensebada foi preparar  alguma coisa para o jantar. Ficaram de segredo na copa, e eu olhando para as paredes do corredor.  Enquanto ela  arrumava os pratos , notei um par de  brincos de rubi brilhando nas orelhas dela . "Será que ela  e  o  filho da puta mataram Maria Dolores ?  E eu ?  Serei  o próximo ?"

Na hora do jantar,  novamente senti  um  cheiro de vela. Vinha da minha roupa.  Com o estômago embrulhado, pedi  ao  ex- parceiro, era no que ele se transformara  naquela altura dos acontecimentos,  que empurrasse minha cadeira até o banheiro.
Percebi  pelo espelho do corredor,  que ele  estava com  um  facão na cintura.  Quando me aproximei  do  vaso sanitário cheirando a mijo, vomitei o pouco que tinha no estômago.