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15 de fev de 2012

Dia Estranho

Tudo aconteceu numa  quinta-feira, quando fiquei sozinho no escritório. Precisava entregar um projeto com urgência no dia seguinte, antes do almoço.

Olhei o relógio mais uma vez : onze da noite. O prédio estava vazio. Os andares solitários e o silêncio, me deixaram melancólico. Como companhia , apenas a garrafa de café. O vigia da noite, seu Antonio, estava na portaria vendo televisão. Interfonou duas vezes para saber se eu precisava de alguma coisa.  Eu trabalhava numa sala de fundos, no vigésimo terceiro andar. Deixei a janela aberta. Gostava de  respirar o ar fresco  da noite. O vento de outono  me fazia lembrar de  Elisabeth. Era ficar  sozinho para lembrar dela. Do cheiro. Dos cabelos . Da boca carnuda.

Lembranças. Faltando um mês para o casamento, descobrimos que ela tinha  um câncer no pâncreas. Dois anos de luta. A doença venceu.  Ela morreu num dia triste e chuvoso de inverno. Inconformado, espalhei os retratos dela pela casa. Na minha mesa no escritório, coloquei três porta-retratos. Nos três, estávamos abraçados, lembrando os dias felizes.

Não dizem que os mortos podem voltar ?  Eu tinha esperanças de vê-la novamente. Nosso amor era muito forte.

Antes de fechar o escritório,  me sentei no sofá,  para admirar em paz, a foto de Elisabeth. Peguei a do nosso passeio de barco.

As lembranças chegaram com força. O vento  frio da noite, aumentou . A persiana balançou, quase entortando. Fiquei esperançoso. "Será que finalmente ela apareceria pra mim ?"  Senti então,  o perfume de Elisabeth. Percorri a sala com o olhar. Ela estava por perto. Minhas narinas farejaram  o cheiro adocicado da mulher amada .

Ainda amava Elisabeth. O corpo ausente. Os momentos vividos. Os  não vividos. Nossas lembranças  felizes bailavam todos os dias na minha mente." Uma obsessão", dizia um amigo. Talvez fosse. O fato é  que, naquele momento, eu a sentia no ambiente. Tive vontade de beijá-la. Tocá-la. Fazer amor . Embora minha mente se esforçasse, eu não conseguia tê-la de novo em meus braços. Mas agora eu sentia o perfume de Elisabeth. Eu tinha esperança. O vento aumentou. Fechei a janela. Desci a persiana e quando voltei para o meio da sala,  não senti mais o perfume de Elisabeth .  Olhei para a minha mesa.  A caneta que ela me deu, presente de aniversário, rolou pela mesa e caiu no chão.

Ela estava ali. Mas não conseguíamos  uma comunicação direta.  Na  foto em cima da  mesa, ela sorria . Fiquei desnorteado. Fui até o banheiro e coloquei a cabeça debaixo da pia. Precisava me refrescar.  Ainda fiquei  uns quinze minutos esperando algum sinal . Não ia acontecer mais nada. Eu sabia. Fechei a sala, peguei o elevador e desci . Quando cheguei no saguão , me assustei . O vigia estava caído  no chão , com os olhos arregalados. Morto. O sangue escorria da boca.

Um policial se aproximou. Mostrei meu crachá. Ele disse que eu era um sujeito de sorte. Se eu tivesse descido meia hora antes, podia estar morto junto com o vigia.

Um mendigo viu a cena . Dois homens entraram no prédio quando seu Antonio abriu a porta para  o gato sair. Ele ainda  tentou impedir a invasão, empurrando a porta. Os assaltantes foram mais ágeis.  Houve luta corporal e ele levou um tiro.

Impressionou-me o acontecimento. Desceria  no momento da confusão.  Desnorteado pensei que o perfume de Elisabeth talvez tenha salvado minha vida. Elisabeth salvou a minha vida.  A partir daquele estranho dia, entendi que a mulher amada,  me queria vivo. Cheguei  no meu apartamento, recolhi todas os retratos dela e coloquei num baú. Precisava recomeçar.

Dois meses depois conheci minha esposa num festa. Estamos casados há algumas semanas.
O nome dela ?
Elisabeth.

7 de fev de 2012

A filha do verdureiro

                                                     
Neidinha acorda angustiada no meio da madrugada e chama pelo marido :
-Aderbal, acorda Aderbal..me responde uma coisa !
- O que houve ? Incêndio ? A casa foi assaltada ? As crianças...
- Você me trai ?
-  O quê ?
- Ela grita : VOCÊ TEM AMANTE ?
- Que horas são ?
- Três .
-Você me acorda três da matina  com essa pergunta ? Levanto  6 para trabalhar.  Boa noite.
Vira para o lado e coloca o travesseiro no ouvido.
Neidinha  sacode Aderbal :
- Acorda . Tive um pesadelo. Você beijava outra mulher.
- Amanhã a gente conversa. Não enche, tô com sono.
- É a filha do verdureiro ?
Aderbal perde a paciência e aumenta o tom de voz  :
- Aquela morena gostosona ?
- Sabia . É ela não é ? Sabia ! Olha que voz empolgada. Só porque falei dela.
Aderbal não responde. Respira fundo e adormece.
Durante o café da manhã, Neidinha fala do pesadelo e questiona o marido mais uma vez :
- Você  e a filha do verdureiro estão de caso, né ?
- De novo ? Você tá precisando trabalhar para deixar de enfiar merda na cabeça.
- Me diz. Só me diz. Não gosto de ser enganada.
Aderbal se aborrece. Sai de casa batendo a porta. Neidinha fica sozinha e pensa : “ é ela. Quem cala , consente. “
Antes do almoço vai no hortifruti e de longe observa Rosilene, a filha do verdureiro. Uma raiva toma conta de Neidinha . Quando vê Rosilene falar ao telefone, imediatamente liga para o celular do marido. Ocupado. Neidinha tem certeza que Rosilene fala com Aderbal. Movida pelo ciúme vai até o supermercado onde trabalha Ribeiro, o noivo de Rosilene :
- Como vai dona Neidinha ? Em que posso ajudar ?
- Sua noiva e meu marido são amantes.
- O quê ? – Ribeiro espantou-se. Acreditou que estivesse ouvindo mal.
- Não se faça de surdo. Você entendeu. E precisa tomar uma atitude.
- Como a senhora sabe? A Rosilene é fiel... um anjo de mulher.
-  Anjos não existem.  Não confie em mulher de rosto angelical. É tudo fingimento. São as piores. O rosto angelical é para enganar trouxas como você.

Quase convence  Ribeiro que a noiva o trai. Vai embora satisfeita. Em casa, depois de colocar as crianças para o colégio, conversa com a amiga Estelita ao telefone :
- Me paga. Descobri tudo. Sexto sentido de mulher.
- Tem certeza ?
- Absoluta. O pesadelo foi claro. Um aviso.
- E esse Ribeiro vai fazer alguma coisa ?
- Eu espero que tome uma atitude.
Em casa Neidinha não toca mais no assunto. Aderbal  estranha pois conhece o temperamento da mulher. Por outro lado,  sente-se aliviado das cobranças.
Neidinha  prefere investigar por conta própria. Persegue. Vigia. Quando o marido sai para trabalhar e ela vê Rosilene sair do hortifruti arrumada, imagina os dois juntos. Com o coração apertado e envenenado pelo ciúme doentio  pensa : vai se encontrar com meu marido.
Neidinha volta a  procurar Ribeiro :
- Já decidiu o que fazer ?
- A senhora pode estar enganada.....
Para não deixar dúvidas, mente :
- Vi com meus próprios olhos. Aquele safado entrou no motel com Rosilene.
Estavam aos beijos no carro.
Acredita na própria mentira e começa a chorar.
Os lábios de Ribeiro perdem a cor. Sente como se a vida o abandonasse por alguns segundos. Ele ainda tinha esperança de tudo ser fantasia da cabeça de Neidinha, mas diante daquele choro , não tem dúvida.
Neidinha não dá mais  sossego a Ribeiro. Todos os dias vai  ao Supermercado desafiar-lhe :
-Não vai fazer nada ? Você é um merda mesmo ! Um corno manso !
Merece  o par de chifres !
 Neidinha chegava ao exagero de dar  dinheiro para os meninos de rua passarem em frente ao supermercado gritando :
- o Ribeiro é corno manso ! O chifre do Ribeiro está crescendo...o chifre do Ribeiro está queimando....

Os meninos se divertiam e ganhavam uns trocados. Ribeiro ficava furioso. Além de ficar  conhecido como corno estava ameaçado de demissão por causa da algazarra das crianças em frente ao supermercado. Resolveu mostrar que não levava desaforo para casa.

Enquanto isso o telefone toca na casa de Neidinha , era a amiga Estelita :

- Descobri Neidinha ! Fonte quente. A filha do verdureiro é amante do gerente do supermercado onde trabalha o noivo. O Aderbal é fiel a você. Te ama.

Neidinha treme dos pés a cabeça :
-Tem certeza ?
-Tenho.

Neidinha desliga  o telefone e corre para  o  supermercado. Precisa desfazer o equívoco. No caminho , em frente ao hortifruti , encontra Ribeiro com uma arma na mão ameaçando Rosilene.  A jovem desaba em choro ajoelhada aos pés do noivo :

 - Eu te amo ! Fui fiel a você todos os dias da minha vida ! Você foi meu único homem !

- Vagabunda. Cínica.Não acredito em mulher com rosto de anjo  !

Num gesto impensado, Neidinha se mete na frente de Rosilene :

- Ela é inocente. Não mata !

Neidinha recebe o tiro que era para a filha do verdureiro.
Ribeiro se joga no chão e dá um urro delirante:
- O que é que eu fiz ? Matei uma mulher ! Sou um assassino cruel.
Antes de ir preso é linchado pela multidão que se aglomera em frente ao hortifruti.

Rosilene faz questão de ir ao enterro de Neidinha. Na volta para casa, Aderbal oferece uma carona. São observados de longe por Estelita. No caminho Aderbal e Rosilene trocam olhares eróticos. 

( O conto faz parte do livro de minha autoria " Só as feias são fiéis)