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20 de jan de 2012

A fuga

               

Passava das quatro da madrugada quando desligou o computador. Nos últimos meses sua vida transformara-se num tormento. Não definia mais o que era real e o que era  virtual. Não conseguia dar conta dos mais de três mil amigos das redes sociais. Passava o dia tentando ser simpático a todos que lhe mandavam mensagens.

Tinha mais de 50 namoradas virtuais. No início, até  era   divertido, alguns meses  depois,    sentiu-se enfastiado. Saía com mulheres diferentes, todos os dias.  Não conseguia  satisfazer a sede de amor feminina. Era muita candidata  mandando SMS. E-mails.   Xingando-o  nas redes sociais.  Por vezes, acreditava ter perdido a capacidade de amar.  A vida virara do avesso.  O chefe o demitiu. Não conseguia entregar os projetos dentro do prazo.

 Desempregado, a obsessão virtual aumentou.  Dormia de madrugada.  Acordava  cedo e ligava o computador.  Precisava saber das novidades.  Ficaria apenas uma hora. Pensava. Só que, falava com um , com outro, e quando olhava o relógio , era  hora do almoço. Comia pouco.  Esquecia   de jantar. Muita coisa para fazer no mundo virtual. Ler as notícias. Selecionar as mais importantes. Escutar música. Dar opinião nos assuntos mais polêmicos do momento.  Responder aos amigos.

A mãe reclamava que ele sumira da casa dela . Bebia uma cervejinha na frente do computador.  Ir ao banheiro era um sacrifício. Segurava até o último momento. Prendia a respiração. Culpa da ansiedade. Não podia perder tempo.   Mais de cem e-mails para responder. A cabeça girava.  O  msn piscava demoníaco . Até a mãe pediu autorização .

  Reencontrara , nas redes sociais, amigos de infância. Do mesmo prédio. Colégio.  Um destes amigos, coleguinha de turma,  um branquelo, que usava aparelho nos dentes, atualmente casado, pai de  dois meninos,  queria saber  se  ele colara na prova de português sobre análise sintática. Ele foi o único a tirar dez na turma. Não lembrava.  Faria  alguma diferença lembrar   ? Teve vontade de  gritar.  Sentiu pela primeira vez, que precisava se desligar do mundo .  Planejara milimetricamente  a liberdade  .  Morreria virtualmente. Com o dinheiro da indenização,  viajaria para um lugar distante. Com dificuldade de acesso a internet .  Adeus Bill Gates.  Steve Jobs.  Zuckerberg . Branquelos e namoradas carentes. Queria reencontrar a identidade. Sentir novamente,  o gosto da liberdade.

2 de jan de 2012

Confissões de uma mulher moderna

Lua cheia de uma noite de verão. As luzes da rua multiplicaram-se tomando formas monstruosas. Minha vista embaçou. A azia queimou minha garganta. Abri a porta do carro e vomitei . Acabara de ser abandonada no altar. Casa montada e sonhos desfeitos. Auto-estima em frangalhos. O noivo ? Fugiu com a prima. A notícia veio ao som de My Way no celular do padrinho .

Duas semanas depois, tentei matá-lo quando me procurou para devolver as chaves do apartamento. A faca de pão com a lâmina brilhando, olhava-me convidativa em cima da mesa . Meu irmão chegou na hora impedindo-me de me tornar uma assassina.


Histérica , minha mãe me mandou para um analista. Com três meses de tratamento, suspendi as sessões. A musculação substituiu Lacan. Passei a freqüentar baladas e bares da moda. Virei predadora. Homem só para sexo ocasional. Uso e sou usada. Conquisto e jogo fora. Homem não ama. Deseja. Sente tesão.


Aprendi a me excitar com o jogo da conquista. Dá poder . Faz bem ao ego. Massageia a auto-estima. Seduzo-os com promessas e fantasias sexuais. Satisfeita a vontade, descarto-os. O descompromisso me encoraja. Quando não dá certo, só deixei de ganhar alguns momentos de prazer, recuperados em outra transa. Saio no máximo três vezes. Não crio vínculos.


Adoro tirar foto dos homens que levo pra cama. Depois coloco-as em um painel e escrevo o nome e a data da saída debaixo das fotografias. Já tenho mais de cinqüenta na galeria. É meu hobbie. Fazem parte da coleção solteiros, casados e bis. Não tenho medo de perder, porque não preciso ganhar. O que vale é o momento. Sou livre. Não me preocupo se vai ligar no dia seguinte. Não peço e nem dou telefone . Vivo o presente, a noite e o mistério que ela me proporciona. Se penso muito num homem , no dia seguinte ligo pra outro. É uma ótima tática.


Adoro cafajestes. Não se prendem a ninguém. São machistas, sempre disponíveis. Me divirto com a idéia estúpida que têm a respeito das mulheres. Na cama gostam de dar tapinhas. Batem. É divertido. Excita. Fazem o que eu peço.


Detesto mulheres medíocres que desfilam ao lado de seus maridos infiéis, exibindo-os como mercadoria. Minhas amigas viraram ex. Não aceito recrimininações. Mulheres sonham com impossibilidades . Criam expectativas e se frustram. Acreditam em homem ideal. Não existe.
Minha única amiga é gay. Nunca fomos pra cama. Ela sabe o quanto gosto de homem . Do cheiro. Da voz e das mãos firmes em meu corpo. Mas nada impede que um dia eu tente outras possibilidades. Sou aberta. Não tenho preconceito. Meu sonho é ter dois
machos viris dividindo os lençóis. Disputando-me.


Os homens não são iguais. Alguns são irritantemente metódicos. Outros, perdidos. Existem os inseguros. Os neuróticos. E até os românticos que acreditam em mulher perfeita. Cada um me leva ao prazer de maneira diferente . São poucos os que conhecem o corpo de uma mulher. Alguns não sabem tocá-lo.


Já saí com tímidos que se revelaram ótimos de cama. Com fanfarrões que na hora H broxaram. Culpa da bebida. Alguns têm fetiches. Outros se excitam quando faço striptease e gozam sem me tocar. Entram no jogo da sedução. Comem com o olhar. Os maridos insatisfeitos são burocráticos.


Na hora de transar já fui bailarina, odalisca., melindrosa, jogadora de tênis, estudante. Amo inovar.


Uma colega de trabalho, que reclama da falta de sintonia sexual no casamento, diz que penso como homem e vingo as mulheres. Questão de estilo. Sou bem resolvida.
Minha mãe me chamou de prostituta. Não sou prostituta. Não vou pra cama por dinheiro. Não tenho clientes. Tenho amantes. Sou moderna. Cabeça aberta. Preciso espantar o tédio. Sexo ajuda. Mexe com a adrenalina. A cada homem novo, uma história diferente. Encontrei uma maneira de ser feliz. Felicidade é um estado de espírito.


Dez da noite. Hora de me arrumar. Vestido justo, perfume doce, maquiagem suave e salto agulha. Viver é muito sem graça. Detesto rotina.


Antes de sair verifico se deixei meu antidepressivo na mesinha de cabeceira. É a primeira coisa que procuro quando volto pra casa. Não vivo sem ele.