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17 de dez de 2012

Pesadelo assassino


Novamente sonhei com baratas voadoras. Acordei  assustada  e dando tapas no meu corpo.  Tinha a  impressão de  que as baratas ainda andavam pelos meus cabelos, escorregando pelos meus seios.  Senti  um alívio ao perceber  que era mais um de meus pesadelos. Sonolenta, olhei o relógio, ainda não eram nem seis horas, mas tinha perdido o sono.  Levantei da cama, e  fui até a cozinha  fazer um café. Deixei a máquina ligada, enquanto  escovava os dentes e lavava o rosto.
Peguei o jornal debaixo da porta. Dei uma olhada na primeira página. Nada de novo. Joguei- o  no sofá e voltei pra cozinha. Enchi uma caneca de café, peguei um biscoito e abri a janela da sala. O tempo nublado me deixou desanimada . Fiquei pensativa.  Há quase um mês  vinha tendo pesadelos  assustadores. Sempre com insetos gigantes, rostos enrugados e lugares escuros e sombrios. Estava precisando consultar um psiquiatra. Tudo começou depois que ele me trocou por outra. Liguei mais uma vez para o celular dele. Caixa postal. Todo dia a mesma coisa.
Deixei a caneca em cima da mesa da sala, tomei um banho frio e me vesti. Chegaria cedo ao escritório.  Adiantaria o trabalho. Sete e meia da manhã .  O Trânsito já estava intenso.  Olhei para o céu pelo vidro do carro. As nuvens pesadas  avisavam a chegada de uma  chuva forte. Entrei  no prédio antes dela. Sorri para  o  porteiro , peguei o elevador  e entrei no escritório vazio. A faxineira limpava as mesas.  Fiz um café, liguei o computador e fui ver os e-mails.  Correntes e bobagens. Nada sério. Desanimada,  comecei a ver o que tinha para fazer. Todo o dia a mesma  coisa.
Trabalho sem graça. Vida sem graça. Dias repetitivos.  Seria amor o que faltava na minha vida? Talvez fosse . Precisava sair do marasmo.  Esquecer  o antigo amor.  Então. Como  arranjar um grande amor se o  ex  não me  saia  da cabeça. ?  Mágoa. Raiva. Decepção. Era tudo o que eu tinha guardado em  mim.  Precisava sonhar para não enlouquecer. Viajava por praias com águas azuis, areias brancas e barcos pintados  de amarelo, quando ouvi a voz do meu chefe  me dando bom dia. Logo depois chegou o boy,  os dois sócios do escritório e por último, a  recepcionista. Sempre chegava atrasada reclamando do trânsito.
Uma da tarde. Eu e Cleonice, a recepcionista, fomos almoçar num botequim perto do trabalho, onde a comida era mais barata. Precisava  economizar. O apartamento que eu morava era próprio, presente do meu pai, mas quem arcava com as despesas  era eu.
Voltamos do almoço.  Meu chefe e os sócios passariam o resto da tarde na rua. Ótimo. Aproveitava para não fazer nada. Só anotava recados e navegava pelas redes sociais.
Precisava  de movimento. Dormi mal e comecei a ficar com sono. O olho fechava. Sabia como  acordar.  O ódio me alimentava.  Entrei na rede social e fui  direto na página do meu ex. Olhei a foto da nova namorada. Haviam tirado novas fotos. Os dois  estavam  alegres e sorridentes. Um sorriso que me incomodava.  Eu estava descartada.  Cleonice passou e me viu socar a mesa de raiva :
- Você é masoquista. Deleta  logo o  cara da tua vida. Fica olhando as fotos dele na internet.
- Não posso. A raiva me consome. Quando olho a felicidade dele , meu sangue esquenta. Como ser feliz, vendo a felicidade dele ?
-  Isso é inveja.  Não fala bobagem.
- Acho que a minha raiva só vai passar se eu matar um dos dois.
- Tá  maluca ? Você não é uma assassina.
- Não sou. Mas posso ser. Para se tornar uma,  basta matar alguém.
Cleonice  saiu  se benzendo e resmungando :
- O mundo está mesmo enlouquecendo. Vê se pode.
A ideia de matar a nova namorada do meu namorado começou  a tomar forma no meu pensamento. Era a solução. Noites mal dormidas. Pesadelos. Calmantes. Tédio. Quem sabe se eu acabasse com a vida dela não melhorasse meu  sono ? Meus pesadelos iriam embora. Desliguei o computador com raiva. Saí do escritório com chuva.
O trânsito e a chuva me fizeram chegar em casa quase dez horas da noite. Passei no botequim do Moacyr e comprei seis  latinhas de cerveja. Dia seguinte era sábado. Podia beber. Depois de tomar um banho, comi um sanduíche e fui pra frente do computador. Lá estavam os dois pombinhos exibindo a felicidade nas redes sociais. Queriam me desafiar. Só podia ser.  Fiquei com ódio. Passei a madrugada bisbilhotando a vida do meu  ex .  Dormi já era dia claro. Acordei cinco horas depois. Tive outro pesadelo. Milhares de  moscas sobrevoavam meu corpo.  Eu tentava me levantar, e quando olhava para os lados estava rodeada de lixo. Lixo e rato.  Acordei  com falta de  ar , sentindo a ratazana me arranhar.
Então era isso. Precisava acabar com a felicidade do meu ex. Não era justo. Os pesadelos eram sinais. Nem tomei  café. Vesti uma roupa. Peguei uma faca afiada na gaveta da cozinha e saí determinada a acabar com o meu sofrimento. Logo veio a minha cabeça os filmes de suspense que eu via nos canais fechados. Dei um sorriso irônico e parti pra casa dele.
O porteiro não queria me  deixar  subir. Houve discussão. Empurrei-o  com força, abri a porta do elevador e apertei  o décimo andar. Toquei a campanhia umas  quinze vezes.  Nada. Passei a gritar e a esmurrar a porta :
- Covarde ! Tá com medo de mim ? Abre a porta. Quero pegar minhas coisas que estão na sua casa.
De repente a porta se abriu. Era ele enfurecido. Jogou uma bolsa no corredor.  Grande era meu ódio, que consegui  empurrá-lo e entrei pela sala. Ele me pegou pelo braço para me jogar de volta  no corredor . Abri a bolsa e tirei a faca. Passei a ameaçá-lo, como quem ameaça um porco indefeso. Vi nele o olhar  de pavor. Queria se aproximar para me desarmar. A atual namorada saiu do quarto e quando chegou na sala e me viu com a faca na mão, ficou histérica. Meu ex se distraiu. Então me aproximei e dei-lhe uma facada no pescoço. Ele caiu. Naquele instante a raiva me consumia. Eu dei mais de dez facadas nele, enquanto a histérica gritava e tentava me tirar de cima dele.
Quando eu acabei de esfaqueá-lo, ensanguentada, e fora de mim, eu corri atrás dela. Consegui pegá-la tentando fugir pela porta da sala. Foram cinco facadas no peito  daquelazinha. Ao abrir a porta para fugir, dei de cara com o porteiro e dois policiais. Presa em flagrante  não resisti. .
Os dois estavam mortos. Era  o que eu queria. Não me importava de ir presa. Sentia apenas alívio por ter coragem de fazer o que era preciso. Não aguentava mais olhar o sorriso de felicidade deles  nas fotos das redes sociais. Não aguentava mais ligar para ele e não ser atendida. Não aguentava mais desprezo. Não queria mais ter  pesadelos. Fácil. Algumas facadas e resolvi o problema.
Depois de passar o dia prestando depoimento, dormi minha primeira noite de assassina na carceragem da delegacia. Não me deixaram nem tomar banho.  Uma desumanidade. Suja  de sangue , logo adormeci. Um sono reparador.


5 de dez de 2012

Sonhar não custa nada


Carmelita era uma mulher comum : nem feia , nem bonita . Passava dos 30, chegando aos 40. O maior sonho dela  era casar e ter filhos. Invejava as poucas amigas  casadas e com filhos. Nos finais de semana elas se divertiam reunidas  com a família, enquanto ela passeava sozinha no shopping.

Para amenizar a dor da solidão, depois do trabalho , ligava a televisão para acompanhar os capítuos da novela preferida. Na casa de Carmelita hora da novela era sagrada: não atendia telefone. Vivia os passos  da heroína preferida. Chegava ao exagero de imitar o  corte de cabelo, as roupas, acessórios e até cacoetes.
Era  conhecida pelas colegas de trabalho como Bela Adormecida. Cansavam de convidar Carmelita para sair  depois do expediente : 
-Hoje não dá. A Alice beija o Alberto pela primeira vez.
- Deixa de ser boba. Coloca para gravar e vamos nos divertir. Como você quer um homem,  se vive enfiada em casa assistindo  novela ?
- Que homem ? Esses que andam por aí ? Prefiro o Alberto....o homem perfeito !
- Queridinha, cai na real : o Alberto é fruto da imaginação do autor. Não existe.  Você precisa de vida. Sair. Conhecer gente nova.
- Minha vida é essa. Cada um tem a vida que deseja e a minha é essa. Não me censure.

Carmelita não tinha  vontade de sair. Cada homem que aparecia , comparava ao  personagem principal das novelas . Queria perfeição. Não encontrava. Decepcionava-se  e optava pelos  amores platônicos . Esses não machucavam e podiam ser fantasiados– dizia para as amigas.

Quando Reginaldo  se mudou para o apartamento em frente, depois de anos,  Carmelita saiu do mundo televisivo e prestou atenção no vizinho. Bonito, solteiro e  simpático. Sem aquela arrogância dos homens bonitos que namoram a si mesmos. Reginaldo passou a fazer parte dos sonhos de Carmelita.  Quando se encontravam no elevador, Carmelita suava de nervoso. De noite, na hora da novela,   imaginava  beijar Reginaldo.
Num Domingo  estava sozinha em casa e a campanhia tocou. Era Reginaldo : 
-Desculpe  atrapalhar seu sossego. Minha mãe vem me visitar. Eu esqueci de comprar açucar.... você pode me emprestar uma xícara  ? Minha mãe adora cafezinho com açucar..
Carmelita não sabia onde enfiava as mãos, por um momento pensou que fosse um sonho:
-          Quer entrar ? Vai ficar aí na porta ? Peraí...já trago o açucar pra você.

Depois do episódio do açucar, passaram a se falar com frequência. Reginaldo pediu o telefone da casa de Carmelita.  Ligava na hora da novela :
- Mãe....diz que não posso atender. Pede para ligar mais tarde.....
- Mas  você não está interessada no rapaz ? Ele vai achar que é pouco caso ....
-          Hora da novela é sagrada.....deixa eu prestar atenção nessa cena ....a senhora está me distraindo...
Virava o rosto e tornava a acompanhar atentamente mais um capítulo da trama.

Reginaldo não telefonava de volta. Ficava sem graça.  Foram quatro meses nesse desencontro : Reginaldo querendo se aproximar de Carmelita e ela  o trocando  pelos capítulos da novela.  Desistiu. Pensou que a vizinha não estava mesmo interessada. Tinha medo de rejeição.
A mãe ainda alertou a filha :
-Carmelita ....esse moço se interessou por  você.....está jogando a sorte fora.
-          - Que nada ! É amizade. Só me liga na hora da novela . Você diz para ele ligar mais tarde e ele não liga. Está apenas sendo educado por causa da xícara de açucar......
-          É por isso que está solteira até hoje. É teimosa ! Vai morrer solteirona.
-           - Não me iludo mais com sorriso fácil e gentilezas. Coisas assim só acontecem em novela......

Reginaldo  não telefonou  mais para a vizinha. Evitou  os horários de Carmelita para não encontrá-la. Não se viram durante um mês

Numa sexta-feira, Carmelita  se sentia cansada e solitária. Vazia. A novela preferida chegara ao fim. Chegou do trabalho e  tomou coragem para tocar a campanhia na casa de Reginaldo. Quem atendeu foi uma jovem bonita de sorriso encantador :
-          Pois não senhora ???
-          Queria falar com o Reginaldo. Ele está ?
O coração de Carmelita disparou.  Reginaldo apareceu e ficou surpreso ao ver a vizinha:
-          Nossa !! Que milagre é esse ?
-          Não vi mais você. Fiquei preocupada e vim saber se precisa de ajuda.
-          Não Carmelita, obrigado. Estou de mudança. Daqui a duas semanas estou indo morar em outro bairro. Minha namorada veio me ajudar a embalar meus objetos pessoais. Deixa eu apresentá-la a você.
 - Luana vem aqui conhecer minha vizinha....

Decepcionada, Carmelita foi mais rápida...
-Não desculpe,estou com pressa. Boa mudança..tchau...foi um prazer conhecer você. Boa sorte....

Chegou em casa aos prantos. Não falou com a mãe  e foi direto para o quarto. Jogou-se na cama, soluçando.  A mãe foi atrás :
-Carmelita , o que aconteceu ? Foi demitida ? Assaltada ? Brigou com alguém ?

Entre um soluço e outro , ela demonstrou toda a sua desilusão :
-          O Reginaldo arrumou uma namorada  ! Vai se mudar. Ele  nunca gostou de mim. Sabia, droga ! Amor entre vizinhos é coisa de novela ! 
-           
Uma hora depois Carmelita já se recuperara da decepção. Em frente a televisão, acompanhava o primeiro capítulo da nova novela :
- Não posso perder. Adoro os atores e o autor é ótimo !

25 de nov de 2012

Desconfiança de pai


Deocleciano Eduardo andava de um lado para o outro esfregando as mãos. A respiração ofegante incomodava quem estava por perto. Olhava para o relógio impaciente.  Até que a sogra o fez sair do transe :
-Deocleciano, pára de andar de um lado para o outro ! Tá me irritando.
-          Dona Adélia, a senhora  não está nervosa ? É seu primeiro neto !?
-          Mas não nessa ansiedade. Quase derruba a enfermeira. Você devia estar na sala de parto junto com a minha filha !?
-          Não tenho coragem !  Se aqui fora estou assim, imagina  lá dentro ? 
Os dois travavam um diálogo nervoso , quando  chegou a enfermeira  com um sorriso  largo :
-          Parabéns ! O meninão nasceu com  3 quilos e 800 gramas.
Quando Deocleciano viu a pediatra com o bebê no colo,  gritou maternidade á fora:
-Meu filho...meu filho..!!
 Tios, cunhados, sogro, sogra, todos num abraço apertado comemoraram  a chegada ao mundo de Deocleciano Eduardo Junior.
Eduardinho Junior foi para  casa num clima de amor e aconchego. Com um mês de vida, o menino esbanjava saúde. Tio Noel , irmão de Esmeralda, mãe do bebê, era o único da família que ainda não tinha  visitado Eduardinho.
Noel chegou a casa da irmã acompanhado da esposa . Estava  cheio de presentes para o sobrinho:
-          Deocleciano, cadê o garotão ? Tô doido para conhecer meu sobrinho. Não via a hora de chegar de viagem....
Noel correu para o quarto da irmã e foi direto ao berço de Eduardinho Junior. Pegou o menino nos braços, beijou, abraçou e fez gracinhas. Esmeralda aproveitou a presença do irmão e da cunhada e foi até a cozinha pegar a mamadeira do menino. Nisso , quando entra no quarto, Deocleciano escuta um comentário de Noel para a esposa :
-          Não acredito Mirtes :  Eduardinho vai ser gay.
-          O que é isso ? Como você pode falar assim de um bebê de um mês ?
-          O olhar dele.....conheço o olhar. Trabalho com turismo. Viajo o mundo todo e  conheço gay pelo olhar. Não erro !
Mirtes bateu no móvel três vezes:
-          O que é isso !? Não diga uma coisa dessas.
Deocleciano ficou furioso. A vontade que teve foi de ir as fuças do cunhado e gritar que  seu filho jamais seria gay. Era um pecado prever uma coisa dessas de um recém- nascido ! Foi até a sala e  respirou fundo . Voltou para o quarto recomposto.
Desse dia em diante , Deocleciano mudou. As palavras do cunhado não saíram mais da cabeça dele. Pensava noite e dia : - Será um castigo de Deus ?  Logo ele : um homofóbico assumido ?
Desabafou com a irmã Nancy, uma solteirona católica apostólica romana, frequentadora da missa das 6 :
-          Nancy, Deus castiga ?
-          Por que essa pergunta ? Você não gosta de falar de religião!?
-          Eu preciso me abrir com alguém. Vou sufocar. O Eduardinho é gay !
-          Tá maluco ? Como você diz uma coisa dessas  do  meu sobrinho ?
-          Quem falou foi o Noel. Escutei uma conversa dele com a Mirtes...disse que reconhece pelo olhar...
-          Que pecado !! Deus castiga, sim , mas não no seu caso. Calma , vou rezar por você.
As orações da irmã não surtiram o efeito desejado. Deocleciano tinha pesadelos com o filho. Ele imaginava Eduardinho Junior já rapaz, apresentando o namorado alto e musculoso  :
-          Papai, apresento-lhe  meu namorado Raul.

Via-se na rua servindo de chacota para a vizinhança:
-          Lá vai o pai do Eduardinho bicha....
Acordava suado e  olhava para Esmeralda que dormia profundamente. Tinha vontade de sacudir a esposa e tomar satisfação :
-          Você me deu um filho bicha....Tá me ouvindo ?! O que eu fiz pra você ??
Pensava no ridículo da situação , ia até a cozinha, bebia um copo de água e adormecia  até a hora de trabalhar. Saía e não se despedia de Esmeralda :
-          Deozinho...você tem andado muito estranho. Não pega mais o Eduardinho no colo  e nem me dá beijinho de despedida...
-          Tô com pressa. Depois a gente se fala !
Na verdade, Deocleciano não tinha coragem de encarar  o filho. As palavras do cunhado martelavam-lhe na  cabeça dia e noite:
-          No duro, o garoto é gay. Conheço pelo olhar.
No trabalho, Deocleciano  olhava horas para o nada. Os colegas notaram:
-          Depois do nascimento do Eduardinho Junior seu rendimento caiu. Seu Araújo outro dia comentava. Ele vai demitir você, abre o olho.
Deocleciano fez cara de quem não se preocupava com a demissão e perguntou ao colega:
-          Você tem filho ? Qual a idade dele ?
-          Está com 16 . Por quê ?
-          Ele é gay ?
O colega disse um monte de impropérios para Deocleciano. Se seu Araújo não chegasse  na hora, partiriam para a agressão física. Deocleciano foi encaminhado para a psicóloga da empresa.
Dona Regininha era conhecida por suas idéias modernosas :
-          Seu Araújo me disse que o senhor era um excelente funcionário, mas está com problemas particulares e caiu de produção. O que aconteceu  ?
-          Meu filho é  gay.
-          Qual o problema em ter um filho gay  ?
-          Eu digo que o meu filho é gay e a senhora pergunta qual o problema ? Francamente...
-          Ter um filho gay é normal. Esse preconceito foi superado pelas famílias. O importante é ser feliz. Seu filho é feliz ?
-          Não sei. Faz um ano de vida daqui a duas semanas.
A psicóloga licenciou Deocleciano. Na mesma noite, Deocleciano acordou de madrugada e foi até o bercinho do filho. O menino dormia serenamente. Deocleciano fez menção de pegá-lo. Uma besteira monstruosa passou-lhe pela cabeça . Olhava para o filho no berço e para a esposa na cama. A boca seca, apertava os olhos, abria e via tudo embaçado. Correu até o armário, fez a mala,  pegou documentos, cartão de crédito, fechou a porta com cuidado para não acordar Esmeralda e partiu de carro, sem rumo.
Quando a mulher acordou e não viu o marido, foi até o berço e colocou o filho no colo. O bebê chorava de fome.
Deocleciano nunca foi localizado pela família . Eduardinho Junior cresceu sem pai.  Para compensar a falta do marido desaparecido, Esmeralda encheu o filho de mimos e fez-lhe todas ás vontades.
Aos 22 anos, Eduardinho Junior é um belo rapaz . Disputadíssimo por lindas mulheres. Se tornou o estilista mais jovem da cidade !

12 de nov de 2012

A Vingança


                                                    
Nancy  e Norma   eram amigas desde  a adolescência. Conheceram-se  na  escola  e daí  não se largaram mais. Pareciam almas  gêmeas. Tiravam até as mesmas notas. Uns diziam que colavam. Elas se defendiam e respondiam que era pura afinidade . Mas alma gêmea também briga. Um dia elas se desentenderam. 
As divergências começaram  quando passaram para a mesma Universidade. As duas escolheram Economia  e ficaram na mesma sala.
Apaixonaram-se também  pelo mesmo homem:  Cecilio. Moreno, olhos castanhos claros, sorriso comercial de creme dental e pernas grossas . Norma  saiu na frente. Confessou  a paixão para Nancy:

-              Amiga. Dessa vez é para valer . Estou muito interessada no Cecilio.
-              No Cecilio  ? Mas ele  tem namorada .
-              E daí ??? Isso não impede que eu fique interessada nele.
            
Sempre que Norma falava de Cecilio,  Nancy tirava-lhe as esperanças :
-              Esquece o Cecilio , ele não quer nada com você. Só porque te deu carona , ele está interessado ?  É moço educado. Coisa rara hoje em dia. Controle sua carência, amiga.
-              Não é  só  isso. Ele me deu um sorriso,  um olhar de penetrar na espinha e pediu o número do meu celular.
-             
Despeitada , Nancy  não deixava  Norma acabar de falar . Mudava de assunto. Até que um dia, Norma resolveu brigar com a amiga :

-Sabe de uma coisa  Nancy ? Você me enche tanto o saco com essa história do Cecilio não gostar de mim, de ter  uma  namorada  ciumenta , e outras coisas mais, que eu acho que você está  apaixonada por ele também.
E estava mesmo. Mas Nancy  não tinha coragem de confessar seu amor . Principalmente porque acreditava  que Cecilio, queria Norma. Ela tinha medo de entrar na disputa e perder.

Ficou na dela.  Parou de falar mal de  Cecilio . Viu o início do namoro entre Norma e  Cecilio. Acabou  se consolando nos braços de Ismael. Casou  com Ismael antes do casamento de Norma.   Mesmo depois de casada e com um marido carinhoso, não conseguiu  tirar  Cecilio do coração.
Ia para a cama com o marido  pensando no outro . Quando, então,  Norma anunciou seu casamento com Cecilio o mundo veio abaixo para ela :
-              Amiga...quero que você seja madrinha do meu casamento com o Ceci....sei que no início do nosso namoro você não gostava dele, mas agora você já até casou com o Ismael....
-              Madrinha ???? Mas se você acha que eu não gosto do seu futuro  marido. .como eu vou ser MADRINHA do seu casamento !!!!????
-              Esquece o passado. Você ainda é minha melhor amiga, apesar dos desentendimentos.

Não teve outro jeito. Mesmo contrariada, aceitou ser madrinha. Doeu no peito o convite. Chorou a noite toda. Ismael não entendia o motivo. Nancy foi dormir na sala :
-              Não te interessa. A vida é minha . O problema é meu . Vou dormir na sala, me deixa seu idiota.

O dia do casamento chegou. O desespero bateu no peito de  Nancy. O homem que ela amava ia se casar com sua melhor amiga. Sempre foi covarde. Nunca teve coragem de confessar seu amor, nunca teve coragem de lutar pelo homem  dos seus sonhos. Agora seu castigo era aturar o Ismael.
 Andava de um lado para o outro. Confusa e sem vontade de nada. Nem foi ao salão fazer as unhas e o cabelo. Sentia-se fraca, deprimida, com sono. Muito sono.
Num acesso de loucura decidiu procurar Cecilio .  Cedeu aos caprichos  do coração. Nunca tinha ido  a casa dele. Eram duas da tarde quando chegou na partaria do prédio. Deu meia volta  para ir embora. Pensou :
-              Não ...agora é loucura. Ele vai se casar com minha melhor amiga. Eu estou casada. O Ismael é um traste , mas é meu marido....tenho que colocar juízo na cabeça. Preciso ir embora.

Só que, o diabinho martelava na cabeça  dela. Era  insistente  e falava : toca o interfone. Toca. Anda.Tá esperando o quê ?

 Tocou o interfone. Cecilio atendeu.  Nancy disse que precisava lhe falar com urgência.  Nancy subiu com o coração aos pulos. Cecilio abriu a porta.  Nancy  desabafou :
-              Desculpe  eu vir aqui no dia do seu casamento. Sei que não devia...
-              Fala logo...deixa de suspense...o que é ?
-              Sempre fui apaixonada por você .Nunca tive coragem de confessar. Fiquei com medo. Você é o homem da minha vida .Pronto. Falei.

Cecilio não demonstrou  surpresa. Balançou a cabeça dizendo baixinho :
-              Eu sabia...eu tinha certeza....
-              Como ? Você sabia que eu gostava de você ?
-              Sempre soube. Sentia pelo seu olhar. Norma sempre dando em cima...e eu esperando você confessar seu amor . E  Norma dando em cima. Fiquei com ela para te fazer raiva. Você  se casou com o Ismael. Fiquei com ódio . Pedi  Norma em casamento...
-             
Nancy ficou tonta De repente tudo escureceu. Quase desmaiou. Tentou agarrar  Cecilio ,  ele a empurrou :
-              Sai pra lá...agora caso com a sua  amiga, essa é a minha vingança. Vou casar com a sua amiga. Esse é o preço que você vai pagar para deixar de ser covarde .Agora é tarde !
Nancy chorou  Tentou argumentar. A cabeça apertou. O coração batia acelerado....

Cecilio empurrou Nancy para o corredor e fechou a porta . A  pobre apaixonada ficou sentada em frente  a  porta , igual  cachorro de rua , implorando carinho. Amor. Atenção.

No interior do apartamento ,  Cecilio colocou música funk no último volume  para não escutar a choradeira . Quando ele abriu a porta, estava de terno. Pronto para o casamento. Empurrou Nancy e ainda cuspiu-lhe na cabeça  e  foi se casar com Norma.

Nancy  saiu desesperada  pelas ruas, babando de tanto chorar e berrando o nome do amado.  Uma  Van   atropelou-a em plena  Nossa Senhora de Copacabana. Levada para o hospital, ficou duas semanas em coma. Porém, se recuperou.

Quando abriu os olhos  no quarto, viu  Ismael, Cecilio e Norma rezando de mãos dadas.  Os três sorriram quando perceberam que ela havia acordado  . Pareciam felizes pela sua recuperação. Nancy deu um sorriso amarelo, reparou  a aliança de casamento nos dedos de Norma  e   de Cecilio .  Desanimada, se   virou para o lado e dormiu novamente.

7 de nov de 2012

Tarde quente de sábado


Lindo sábado de sol. Acordei desmotivada e sem ânimo para nada. Antonio, meu marido, está num Congresso em Salvador. Não pude acompanhá-lo. Aniversário de minha  irmã no domingo. Prometi ajudá-la no almoço.  Quem mandou  prometer ? Agora  fico sábado em casa.
 
Depois do café,  pensei  no que poderia  fazer durante o  resto  da manhã. Abri as portas do armário do quarto  e olhei  durante alguns segundos : “ Quem sabe separar as roupas sem uso ?”  O toque do telefone me fez desistir da operação arrumação . Era Vânia. Minha melhor amiga, chamando-me para um banho de piscina na casa de Helena,  prima do marido . Estava com preguiça.  Ela insistiu e acabou me convencendo.

Por volta do  meio-dia  passou para me pegar na portaria do prédio, acompanhada de  Armando. No caminho, como sempre, os dois começaram uma discussão.  “ cenas de um casamento ?” – pensei. “  Senti um  certo alívio por Antonio ter viajado.

Quando chegamos a casa, fiquei  impressionada . Grande e acolhedora,  com uma enorme piscina e um  jardim bem cuidado, com uma linda roseira enfeitando-o .  Fomos  recebidas por  Helena, dona da casa . Simpática,  nos apontou um vestuário na área da piscina. Assim que fiquei pronta, Helena me chamou para ficar ao lado dela  na  espreguiçadeira  .  Logo Armando e Vânia se juntaram a nós. A conversa estava animada quando chegou o filho da  nossa  anfitriã , acompanhado da namorada. “ Que pedaço de mau caminho”  - pensei.

Adoro  rapazes mais jovens. Quando transo com Antonio , fantasio que estou  na cama com os rapazes  da academia, onde faço musculação. Aquele era um belo rapaz.  Orgulhosa da beleza do filho,  Helena  nos apresentou.

Evaldo, era o nome dele . Professor de educação física , Um metro e oitenta. Moreno. Cabelos pretos.  Olhos esverdeados. Vinte e três anos. Pele bronzeada. Braços, bíceps e  tórax  torneados.  A namorada , Priscila, moça sem graça, sentou-se  ao lado de Helena.  Cheia de  inveja ,  pensei : “ Além de sem graça, é uma puxa saco. “ Peguei um canapé e antes de colocá-lo na boca,  percebi  o olhar de Evaldo deslizando em meu corpo  . “ Será mesmo, ou é impressão minha ?’”
Observei. Não, não era impressão. Ele não tirava os olhos das minhas pernas. Trinta e oito anos. Sempre tive pernas bonitas. Evaldo  passou a língua pelos lábios e me mandou um sorriso sacana.  Corajoso o moço. Na frente da namorada. Correspondi. Ficamos flertando sem que ninguém percebesse. Aquele jogo começou a me excitar.
Fiquei mais excitada ainda quando ele passou perto de mim e esfregou a perna musculosa e viril , na minha . Cheguei a prender a respiração. “ Ora, ora, o garoto não está para brincadeira”. Sentado ao lado da namorada, alisava as pernas dela e olhava pra mim. Fiquei com vontade de pular em cima dele e enchê-lo de beijos . Na verdade, seria uma delícia brincar com os dois. Imagina....eu e ele nos acariciando e a namoradinha , excitada, presenciando ? Adoro platéia. Embora nunca tenha experiamentado.
 Eu estava pensativa quando Vânia me  desconcentrou :
- Morreu ? Responde a minha  pergunta.
- Desculpe. Estava longe. Fala.
- Você  vai  no casamento da Marisa ?
- Devo ir. Depende do Antonio.
Voltei  a olhar para o filho de Helena . Ele conversava  com a mãe e Priscila. Eu estava excitada demais para deixar o  jogo terminar sem um festinha íntima . Aproximei-me  dele, e  ousei  :
- Posso  ver a medalha no seu  pescoço ? Parecida com a do  meu marido .
- Claro. Pode pegar.
Quando me abaixei para pegar na medalha, senti o perfume de Evaldo . Fiquei ainda mais excitada. Eu o queria para mim e  estava disposta  a consegui-lo. Ali, na frente de todo mundo. Adorava correr perigo. Jogo de sedução. Fingindo descuido, deixei minha mão escorregar pelo peitoral  forte e  raspado dele. Olhei para a namorada. Ela não gostou. . Eu adorava ceninhas de ciúme. O ciúme dela só fez aumentar o meu desejo .  Lancei-lhe um olhar desafiador.  A disputa me deu mais tesão.  Para provocá-la, cheirei o pescoço dele:
- Delícia.  Perfume igual  ao do meu marido.
A garota se aproximou do namorado.  Saí de perto, mas antes passei por ela, e sorri maliciosamente. Ficou acuada. Eu queria os dois. Seria loucura. Mas eu queria. Tinha que arranjar uma maneira de ficar sozinha com eles.
Três da tarde, Helena  nos chamou para almoçar . Depois do almoço, pedi licença e disse que iria ao vestiário na área da piscina pegar minha bolsa. Encarei  Evaldo  e o chamei com os olhos para me acompanhar. Não  demorou muito, eu estava no vestiário, quando ele apareceu. Senti a porta se abrindo e um bafo  quente no meu pescoço :
- Queria falar comigo ?
- Não é bem falar. Queria.....
Virando- me para ele , ia dizer mais alguma coisa, mas Evaldo não me  deixou completar a frase.  Com uma respiração rápida e curta,  me jogou de encontro a parede e me beijou.
- Sabia que eu fiquei  louco assim que te vi ?
Sorri e pedi que continuasse me beijando. Ele esfregava excitado o corpo dele no meu. Baixou a sunga. Peguei  o pênis dele e  esfreguei   nas minhas coxas , enquanto pressionava meus seios no peito dele.
Eu estava de frente para a porta. Ela  estava entreaberta. Uma pequena fresta.  Dois olhos nos vigiavam. Era ela, a namorada de Evaldo nos observando.  Vê-la ali, em silêncio, me deixou mais excitada .
Enlouqueci, quando  ele pegou meu biquíni, colocou de lado com as mãos e me penetrou. Fazia força e me levava para o alto. Eu gemia de prazer. Ofegante, passei a  lamber- lhe a orelha. Queria arranhá-lo todo. Eu fazia força contra o corpo dele. Naquele instante queríamos entrar um por dentro do outro.  Vi quando a  namoradinha dele, encostou a porta e saiu  . Nervosa, talvez, deixou alguma coisa cair. Assustado, ele me perguntou :
- Quem é ? Você viu alguém ?
- Nada. Continua – implorei com a voz rouca.
Então Evaldo  me penetrou novamente e gozou igual a um lobo faminto.
-  Você é um furacão.
- Que nada, você que é.
- Loucura a nossa, hein ?
- Vamos voltar ? Devem estar nos procurando  – Eu disse sorrindo , ajeitando meus cabelos e meu biquíni.
Quando voltei  para sala , ele estava  ao lado da namorada. Sentei-me em frente a eles e fiquei observando a jovem. Meu objetivo agora, era ir pra cama com os dois. Ia conseguir.  Finalmente realizaria minha fantasia. Um dia. Questão de tempo.
Helena nos serviu a sobremesa : um delicioso mousse de maracujá.  Comi lambendo os lábios.

21 de out de 2012

Moça de família


                                              
Quando a filha de Sales abriu a porta , Moraes encantou-se  com a beleza da jovem morena de 18 anos. Verificou com os próprios olhos que  ela era tudo  o que  o amigo falara no escritório e mais alguma coisa. Um verdadeiro pedaço de mau caminho capaz de desvirtuar um homem de bem como ele  : cintura roliça  , pernas esculpidas em academia , olhos grandes da cor da jaboticaba e seios rijos que mais pareciam duas pêras. O micro-short deixou Moraes em transe.   Porém, logo se recompôs,  pigarreou e ainda embevecido  falou :
- Como vai, boa tarde !? Você é a Elisinha ? Sou o Moraes,  amigo do seu pai , do escritório. Ele me convidou para almoçar...
Elisinha  sorriu deixando os dentes branquíssimos à mostra e convidou-o a entrar . Quando passou por ela entorpeceu-se ao sentir o  perfume delicado de rosas :
- O senhor pode sentar , por favor, papai  já vem . Ele tá na cozinha com mamãe.
Dois minutos depois Sales aparece sorridente com uma garrafa de cerveja na mão e a esposa do lado :
- Me dá um abraço  , vamos comemorar sua visita. Até que enfim saiu de casa!
- Só você mesmo amigo para me tirar de casa.
- Essa é Divina, minha esposa, esse é o Moraes ,meu companheiro de escritório que perdeu a esposa há dois meses
Depois das apresentações conversavam animadamente, quando Divina foi até a cozinha para olhar o assado.  Sales então, cheio de orgulho, comentou :
-  Minha filha não  é uma verdadeira  princesinha  ?
- É , e como. Uma moça muito linda.
- Elisinha é minha jóia. Uma preciosidade . Sabe como é : única filha mulher, a  caçulinha. 
Durante o almoço, sem que ninguém percebesse , Moraes  lançava olhares maliciosos  para Elisinha . Impressionara-se  com a beleza da morena e sentia raiva pelos 53 anos, que o impediam de paquerá-la ousadamente . O dia passou rápido.

Durante a noite teve insônia. O jeito meigo de Elisinha não lhe saía da cabeça. Achou que a empolgação adolescente eram os primeiros sinais de senilidade. Sales jamais poderia adivinhar-lhe os pensamentos. Seria  uma carnificina.

Quase quinze dias depois da visita a casa do amigo , aborrecido com o calor no apartamento, resolveu  caminhar no calçadão da Avenida Atlântica . Quando já  andara dois quarteirões,  avistou uma jovem com um micro-vestido  que lhe chamou a atenção : “  acho que conheço aquela moça...sim...é ela..a filha do Sales....e está ...não acredito ! Pegando homem no calçadão de Copacabana !!!!! “
Aproximou-se. Ficou desconcertado ao ver que a  linda filha do amigo levava vida dupla. Pega em flagrante, Elisinha falava baixo olhando para o chão :
-Pelo amor de Deus seu Moraes , não conte ao meu pai o que viu. Será um segredo entre nós dois...promete ?
- Mas seu pai precisa saber...isso é uma vergonha !
Como não conseguia convencer Moraes, protagonizou uma cena deprimente . Ajoelhou-se  no calçadão implorando com lágrimas nos olhos :
- Se papai souber que mato aula na faculdade para me prostituir é capaz de morrer do coração. O que preciso fazer para o senhor não contar a ele   ?
Moraes lutou para  tirar a idéia que lhe passara pela cabeça. Venceu a tentação. O instinto. Com cuidado, pegou Elisinha  pelo braço e cochichou-lhe aos ouvidos . Ela topou com um sorriso malicioso nos lábios  :
- Está bom no  sábado ? Quatro da tarde ?
Moraes sacudiu a cabeça concordando  e com os olhos brilhando saiu com o coração aos pulos pelas ruas de Copacabana. Tinha certeza que   perdera o juízo, porém,  uma maluquice de vez em quando – pensou -  até caía bem para colorir a  vida entediante   .
No sábado Elisinha  foi pontual . Quatro da tarde tocou a campanhia do apartamento de Moraes . Passaram a se encontrar toda semana. Remoçou. Ironicamente, foi Sales quem notou  a mudança :
- O que aconteceu com você ? Parece que rejuvenesceu uns 20 anos. Até fica cantarolando sozinho....está apaixonado e não me conta nada  ?
Moraes  disfarçava com um sorriso de canto de boca  :
- Impressão sua....é o calor que me deixa mais corado.
Foi num sábado a tarde que tudo aconteceu. Elisinha e o amante   estavam abraçados na cama , quando ela desabafou :
- Meu pai anda estranho..pelos cantos...não fala direito comigo...será que desconfia de alguma coisa ?
- Como ? Impossível !!?. Nem na sua casa vou para não ser traído pelo olhar.
- Vai ver é  coisa da minha cabeça...
- Esquece , meu pêssego. Fica na cama que vou jogar uma ducha no corpo e já volto.
A campanhia tocou. Moraes  gritou do banheiro :
- Abre a porta , minha frutinha , deve ser a encomenda da padaria.
Elisinha enrolou  uma toalha no corpo e abriu . Ficou frente a frente com o pai.  Sales empurrou a filha com o coração aos pulos. Tremia dos pés a cabeça. Entrou no apartamento gritando  em total  estado de alucinação  :
- Cadê aquele filho da puta tarado ? Cadê aquele filho da puta que desvirginou minha princesinha ?!
- Papai...não é o que o senhor está pensando...calma ! O senhor vai ter um troço !

Moraes  chega na sala e tenta se explicar. É pior. Sales  fica vermelho e dá um uivo ensurdecedor. Em seguida coloca a mão no peito e cai no chão . O enfarto é fulminante. Elisinha  joga-se junto ao corpo do pai e transtornada agride Moraes  com palavras  :
- A culpa é sua ! Tarado ! Indecente ! Imoral ! Não quero nunca mais ver essa sua cara de rinoceronte !

Nunca mais se viram . Moraes nem no enterro apareceu. Elisinha, para redimir-se,  tornou-se beata . Ajuda  na missa das seis  passando a sacolinha.  Em casa, antes de dormir, ora devotadamente para resistir a tentação que lhe corroi a alma  : os olhos azuis de padre Francisco despertam-lhe pensamentos libidinosos e sonhos eróticos. 


Conto publicado no livro " Só as feias são fiéis"

14 de out de 2012

O marido de Narinha


Lemos  lia o jornal no sofá da sala, depois do almoço de sábado, quando Narinha  apareceu , eufórica :
- Adivinha quem vem passar seis meses aqui no Rio ?
- E eu sei lá.
- A Nice.
- Nice  ? Sua sobrinha ? A filha da Sônia ?
-  É, homem. Tá com a memória fraca ?
- É a filha caçula da tua irmã, não é ? Faz tempo que a gente não vê a Nice. 
- Oito anos. A última vez, foi quando passaram  o natal no Rio . A Nice agora tá com vinte anos. Vem fazer um curso  no Rio e vai ficar aqui em casa.
- Aqui ? Já vi que vamos ter dor de cabeça.
-  Deixa disso. Será  um prazer receber minha sobrinha . Seis meses só.
- Quero ver.
- Ela chega na segunda.
-  Mas já ?
-  Sim. A Sônia falou comigo agora pelo telefone.
Segunda-feira, quando Lemos  voltou  do trabalho encontrou a sobrinha sentada, confortavelmente, no sofá da sala. Assim que ele apareceu , ela correu para abraçá-lo :
- Tio, quanto tempo ! Que saudade. O senhor continua o mesmo.
 Nice apertou Lemos com força, roçando o corpo no dele. Sem graça, ele desvencilhou-se  e cumprimentou a jovem, friamente.
Morena, das coxas grossas, cabelos cacheados e muito namoradeira, ela sabia o impacto que causava nos homens  e adorava provocá-los com olhares convidativos . O tio  foi o primeiro homem que a rejeitara. Sentindo-se desprezada, ficou curiosa para descobrir o que Lemos  escondia por trás daquela aparente virtude.
Impetuosa, no dia seguinte, assim  que o tio  saiu para o trabalho,  perguntou a Narinha em tom amistoso :
- Tio Lemos é bom marido ?
- Em que sentido ?
- Ele comparece na hora do sexo.
- Nossa Nice, que pergunta ! Me deixou sem graça agora.
- Só queria saber. A senhora não precisa responder. Eu entendo.
- Bom perguntar. Preciso mesmo desabafar. Acho que Lemos  tem outra. Não fazemos sexo há cinco meses. Ele perdeu o interesse por mim.
- Conversa com ele, tia. Pressiona. A senhora é muito nova para ficar sem sexo.
- Em primeiro lugar, tira esse negócio de senhora. Estou com 34 anos. Somos amigas.

Passaram a manhã arquitetando uma maneira de descobrir se Lemos tinha uma amante. No final da conversa, Nice  perguntou :
- Tem certeza, tia ? Será que vai dar certo ? Posso mesmo ?
- Vamos testar a fidelidade dele. Quero ver se ele me trai ou é broxa.
Com a aprovação da tia, Nice passou a insinuar-se para Lemos . Quando ele chegava do trabalho, a sobrinha o recebia  numa camisola transparente. Sem saber como sair dos assédios, que o constrangiam, reclamou  com a esposa :
- Será que você não percebe o que está acontecendo dentro da sua casa ?
- O que?
- Sua sobrinha me assedia.
-  E daí ? Nem me  preocupo. Você não é de nada mesmo.
-  Duvida da minha masculinidade ? Não provoca, hein ?!
- Tá aí, estou provocando . O que você vai fazer ? Vai transar comigo ou com ela ?
- Já vi tudo, sua sobrinha  tá colocando coisa na sua cabeça. 
Irritado, Lemos mudou de assunto, falando sobre a previsão do tempo. Narinha  achou estranho.
Depois de quase dois meses  assediando o tio, sem sucesso, Nice concluiu :
- Sabe o que eu acho tia ? Jura que não vai ficar zangada comigo  ?
-  Juro. Diga. Anda. Quero saber sua opinião.
- Tio Lemos é gay.  Casou para disfarçar. Me rejeita o tempo todo . Finge que nem é com ele. Nenhum homem agiria assim. Só gay, tia. Só gay.
Depois da conversa com a sobrinha, Narinha passou a observar as atitudes do marido. Será mesmo que casara-se com um gay ? Talvez a culpa fosse dela. Vai ver era fria na cama. Por isso ele resolveu ser gay. Será que se ela fosse mais ousada no sexo, Lemos voltaria a ser homem ? Não parava  de pensar.  A cabeça girava. Passou noites insones. Imaginava o marido beijando outro homem e sentia náusea. Esperaria Nice voltar para Brasília e conversaria mais á vontade   com o marido.  Dois dias depois da sobrinha partir , Narinha agiu . Lemos jantava, depois do trabalho,  quando ela  perguntou sem rodeios :
- Você é gay ? Seja sincero. Não me faça sofrer .
Pego de surpresa, Lemos  tomou um copo de água  para se recuperar e respondeu secamente :
-   Quer a verdade ? Tem certeza ? Vai suportar ?
-  Suporto tudo. Não aguento mais mentira.
- Então aguarde.Amanhã vai saber de tudo.Vamos acabar com isso. E não reclame, viu ?
- Não vou reclamar. Quero a verdade por pior que seja.  
Narinha passou a sexta-feira angustiada. No final da tarde, Lemos ligou :
- Toma um banho bem relaxante que é hoje.
Ela atendeu o pedido de Lemos e caprichou no visual. Colocou a colônia preferida, penteou os cabelos e  passou um batom vermelho e sensual. Esperou o marido com o coração disparado . Quando ele abriu a porta acompanhado de um homem alto e elegante,  ela não entendeu. Sorridente, Lemos  os apresentou :
- Narinha , minha esposa.
- Narinha, esse é o Rocha , colega de escritório. Faz sala pra ele, enquanto tomo um banho. E serve esse vinho, por favor.
Confusa, a esposa de Lemos colocou o vinho na taça e estendeu as mãos trêmulas para Rocha. Ele pegou-a suavemente pelo braço e puxou-a para perto dele. Entorpecida, ela obedeceu. Em seguida, beijou-a docemente nos lábios. Narinha correspondeu.. Empolgado, Rocha  passou-lhe as mãos pelo corpo, enquanto tirava-lhe as peças de roupa, jogando-as para Lemos , que sentado na cadeira de balanço, observava  os dois,  com os olhos faiscando de prazer.  

9 de out de 2012

Apenas um drink


O dia tinha sido cheio. Muito trabalho. Tempo  quente. Antes de ir pra casa, resolvi parar num bar de música ao vivo perto do escritório.
Estava cheio e animado. Como sempre muitas mulheres e poucos homens. Mulheres mais velhas. Homens mais novos. A maioria de paletó e gravata. Sentei-me num banquinho perto do bar e pedi ao garçom um Mai Tai. Uma mistura deliciosa de rum com abacaxi. Enquanto pegava  meu drink, um rapaz com a pele branca,  cabelos lisos e pretos sentou-se ao meu lado e sorriu .
Fingi que não vi. Meu dia  tinha sido confuso demais, não estava interessada em paquerar. Ele devia ter uns vinte e cinco anos. Tentador.  Estou com quarenta  e adoro homens mais jovens.  Na cama, gostam de agradar. Nunca estão cansados.  E eu sou uma insaciável.
Meu problema é que  nos últimos três meses,   tenho   trabalhado  demais.  Conclusão :  Deixei  o sexo de lado. Sinto falta.  Principalmente com homens como o que estava  ali tão próximo. Jovem , bonito  e compenetrado.
Meu drink chegou e ele perguntou ao barman :
- Quero o mesmo drink.
A simpatia dele me desarmou. Olhei  e sorri. Ele sorriu de volta  e com uma das mãos, passou a mão no queixo. Aquele gesto me arrepiou. Eu estava precisando de sexo.  Sim, eu precisava de sexo e aquele rapaz despertara a minha libido. A boca carnuda me deixou imaginando milhões de fantasias. Devia ter um beijo arrebatador.  Deixei o orgulho de lado e puxei  conversa :
- Qual é seu  nome ?
- Luciano e o  seu ?
_ Mônica.
O drink chegou. Brindamos nos olhando nos olhos.  Pedimos outro drink.  Eu estava me sentindo quente por dentro. Cruzei as pernas e aproveitei para subir um pouco a  saia preta. Ele olhou para as minhas pernas e passou a língua nos lábios. Um calafrio tomou conta do meu  corpo : “ O que era aquilo que eu estava sentindo por um homem que eu só sabia o nome ?” Deixei  o desejo tomar conta de mim. Os bicos dos meus seios  denunciavam meu tesão. Ele reparou e  sorriu.
Luciano se aproximou e passou a mão   pelos meus  longos cabelos pretos, puxando  alguns fios e cheirando :
- Seu cabelo é perigosamente perfumado.  Adoro cheiro amadeirado. É  sedutor.
-  Gostou  ? – Fiz charme.
 Aquele  desconhecido estava me deixando deliciosamente  excitada.  Eu estava arrebatada por aqueles olhos amendoados,  naquela noite de quinta-feira, final de expediente,  de um dia cansativo e sem novidades.
Depois do  terceiro  drink, não  me lembrava do trabalho e nem  dos problemas. Luciano tinha o dom de encantar-me. Deixou-me extasiada  e confesso que,  senti medo dele não me chamar para esticar a noite. Queria, naquele momento, que algo acontecesse entre nós. Desejava-o.
Queria viver o momento e  o momento  era  Luciano. Enquanto ele contava sobre o estágio  num escritório de advocacia, eu pensava como seria transar com ele . Nem escutava direito o que ele me dizia. Só balançava a cabeça concordando e sorrindo. 
Os homens adoram falar. Contar histórias. E quanto mais eu o deixava  à vontade, mais ele falava e ficava à  vontade : desatou  o  nó da gravata, tirou o paletó, arregaçou as mangas e continuou contando casos. Num impulso arrebatador,  comecei a roçar minha perna na dele. Meu corpo tremeu de prazer. Luciano  chamou o barman, pagou os drinks  e  propôs :
- Vamos terminar a noite  num lugar mais  calmo ? Estarei sendo ousado fazendo o convite ?
-  De maneira nenhuma.  É tudo o que eu quero.
 Queria muito e nunca fiz doce . Queria  meu corpo sendo possuído  por aquele corpo jovem e viril. Sentir aquelas mãos enormes acariciando meu corpo. Apertando minhas coxas e tirando minha calcinha. Enquanto ele dirigia, minha imaginação voava antecipando a nossa festa particular.
Estava tão distraída que nem percebi quando ele virou o carro e entrou no motel.  Descemos do carro e gentilmente, ele me  deixou subir  a escada na frente , enquanto roçava de leve os dedos nas minhas costas.

Entramos no quarto. Ele pegou duas latas de cerveja. Enquanto meu jovem companheiro enchia os copos,  fui tomar um banho. Queria me refrescar. Meu corpo estava quente.  Com gosto de desejo. Quando saí do banheiro, ele me estendeu a mão, roçando os dedos nos meus  e me deu o copo com a  cerveja :
- Agora espera. Também  vou tomar uma ducha.
Eu estava sentada na beirada da cama olhando a lua cheia pela janela , quando percebi  que ele se aproximava por trás . Senti a energia daquele corpo jovem. Delicadamente, Luciano me deu um beijo no pescoço e começou a alisar minha nuca. “ Nossa “ – pensei – “ bom demais”...

Não queria  me mexer  para não estragar o encanto. Tinha medo de que a sensação de prazer terminasse  . Prendi a respiração quando senti a boca de Luciano percorrendo minhas costas.
Dei um pequeno gemido. Ele com a voz rouca, disse empolgado :
- Continua assim. Sua  pele é  macia. Estou imaginando o resto.

Ainda não tínhamos nos beijado na boca. Era apenas o início da  festa . Meus olhos se fecharam de prazer quando senti Luciano passando seus braços pelo meu corpo.  Delicadamente ele me virou e me deu um beijo  longo  .  Nossas línguas se movimentavam com sede e  tesão.  A boca de Luciano  desceu . Seus  lábios percorriam meus seios com prazer. Ele me  arrancava  gemidos, e eu murmurava quase  desmaiando :
- Continua...continua.....me toma pra você....

Ele obedeceu. Puxando-me pelos cabelos, me jogou na cama, abriu minhas pernas e me penetrou com força. Olhava nos meus olhos , me deixou confusa e excitada. Correspondi os carinhos e os movimentos do corpo.  Ele subia e descia.  Queria que ele  ficasse  a noite inteira, brincando no meu  corpo .  Nossos sexos se  encaixaram perfeitamente.  Eu queria mais.

Ficamos  numa  dança louca até o inicio da madrugada. Eu estava saciada. Minhas pernas cansadas. Seria bom dormir naqueles braços musculosos.  Porém, lembrei-me de  que cedo,  tinha reunião. Luciano ainda  perguntou :
- Não quer ficar ?
-  Preciso ir. Se quiser, eu pego um táxi.
Ele  deu  um sorriso  desconcertante  :
- Nada disso. Quero  saber onde você   mora.
Passava das duas da madrugada quando Luciano me deixou na portaria do meu prédio. Seis horas eu estaria de pé.  Nossa despedida foi longa. Cheia de promessas. 

Trocamos os números dos celulares.  Eu não iria ligar. Luciano era gostoso demais, jovem demais, muito perigoso . Podia acabar me apaixonando.

A sexta-feira correu. Muitas reuniões. Trabalho. Saí do escritório nove da noite e fui direto pra casa. O final de semana passou rápido. Li um livro inteiro e vi dois DVDS.  Pensei em Luciano. Na boca. No corpo.  Ainda podia senti-lo me penetrando com desejo.

A semana começou arrastada.   Quarta-feira  resolvi voltar ao barzinho onde conheci  meu adorável jovem sedutor.
“ Entro ou não entro ? “ – Pensei . Tinha medo de encontrar Luciano com outra. Ou medo de não encontrá-lo .  Tomei  coragem.
Entrei. Ele  não estava lá. Pedi uma caipirinha para relaxar. De repente, um frio gostoso percorreu minha espinha,  quando ouvi  a voz de Luciano por trás do meu pescoço,   murmurando :
- Posso te pagar um drink, amor ?

3 de out de 2012

O casamento de Maria Isabel


Sales jantava na sala com o filho , quando Maria Isabel passou com uma mala e a chave de casa na mão. O marido  olhou curioso e perguntou :
-Ei , psiu, vai aonde com essa mala ?
- Vou morar com a minha mãe.
- Quê ?
- Não se finja de surdo. Isso mesmo que você ouviu.
- Não acha que está esquecendo alguma coisa ?
- O quê ? O resto das roupas, ? Se quiser, pode dar para a empregada.
- Não estou falando de roupas , estou falando do seu filho.
- O que tem ele ?
- Vai embora de casa e não vai levar o Washington ?
O menino franzino de dez anos, jantava e olhava para pai e mãe , na expectativa .
- Não. Ele fica com você. É seu filho também.
- Comigo ? Lugar de filho é ao lado da mãe. Se você quer ir embora, vai, mas leva o Washington com você.
- Você quer é ficar com o apartamento livre para colocar suas piranhas aqui dentro. Espertinho. Só que seu filho vai ficar aqui , tomando conta de tudo.
- É ? E quem vai cuidar dele ?
- A Dalva. Amanhã ela trabalha normalmente.
- E daí ? Eu só chego oito horas em casa. A Dalva vai embora ás cinco. De oito ás cinco quem é que fica com o Washington ?
- Ele está grande e pode se virar sozinho.
- Já jantou, Washington ?
O  menino balançou a cabeça timidamente.

- Então levanta e vai arrumar a mala. Você vai embora com a sua mãe.
O menino olhava para um e outro, assustado. Sales empostou a voz :
- Anda  Obedece ao seu pai. Vai arrumar a mala.
Enquanto o menino jogava algumas roupas na mochila,  Maria Isabel e Sales discutiam na sala :
- Isso não se faz, como é que eu vou levar o Washington pra casa da minha mãe ?
- Levando , ué. Ela não é avó do garoto ? Então, que cuide dele. Fico muito mais sossegado com ele lá do que aqui com a empregada.
- Você é um cínico . Assim que eu virar as costas , você vai  colocar mulher pra dormir na MINHA CAMA.
- Eu ? Quem está saindo de casa é você. Por mim, continua tudo como está .
- Um casamento de faz de conta ?
- Melhor do que nada. Pelo menos você tem marido. Tem gente que nem isso .
- E você acha que eu quero marido só pra vitrine ? Sabe há quanto tempo a gente não transa ?
-  Nem quero saber. Estou cheio de problema no trabalho. Vamos mudar de assunto. Daqui a pouco o jogo vai começar.
- É só isso que você sabe fazer  : Ficar aí sentado vendo jogo pela televisão.
- Tem coisa melhor ?
Washington voltou pra  sala com a mochila nas costas e um pacote de amendoim nas mãos.
- Tô pronto, mãe, vamos ?
- E deixar seu pai sozinho aqui ? Nunca ! É isso que esse cachorro quer. Vamos ficar.

O  menino voltou para o quarto e desarrumou as malas. Enquanto colocava as roupas de volta no armário, Maria Isabel  xingava o marido baixinho : “ Esse pilantra me paga. Pensa que é muito esperto. Ele vai ver.”
Sales foi até a geladeira, pegou uma cerveja, sentou no sofá, colocou os pés na mesinha de centro. Em seguida, se espreguiçou e colou  os olhos na tv.
Washington voltou pra sala e assistiu ao jogo deitado no colo do pai.  Maria Isabel  adormeceu com o coração  angustiado.  Antes de pegar no sono, pensou : “ Amanhã quando chegar no trabalho  vou falar com a Angela que o nosso plano falhou. Preciso de outra ideia. “

Chegou no trabalho oito em ponto, cheia de olheira, Angela perguntou :
-  E aí,  como foi ? Sales mordeu a isca ?
- Nada. Ainda debochou da minha cara. É um broxa mesmo.

 Prometeram conversar durante o cafezinho.

Final de expediente . Angela chamou a colega de trabalho num canto :

- Tenho um plano ótimo. Tem que ser no sábado. Duvido que ele não tome uma atitude.
- Não sei. Acho que ele não tem sangue.
Cochicharam.
- Será que vai dar certo ?
- Claro. O desejo de posse acaba falando mais alto.


 No sábado, Maria Isabel foi ao shopping , comprou um vestido e passou no salão. Fez cabelo e unha.
Sales  notou a transformação :
- Cabelo cortado e  pintado ? Vai sair ?
- Vou. – Respondeu  com ar misterioso.
O marido calou-se e continuou lendo o jornal.
 Por volta de dez da noite , Maria Isabel colocou Washington pra dormir e se arrumou.

Passou pela sala perfumada e de vestido novo.  Sales assistia a um filme comendo chocolate.  Olhou para a mulher rapidamente e voltou a atenção para a tv.

Maria Isabel  arrumou os cabelos em frente ao espelho da sala de jantar . Nada. Sales continuava impassível. Ela tentou :
- E aí ? Estou bem ?
-  Ótima !
A mulher  recebeu uma ligação no celular. Atendeu  e falou baixinho. Antes de sair, comunicou :
- Não vou dormir em casa.  Amanhã de manhã estou de volta.

Ele levantou os olhos, encarou  Maria Isabel,  coçou a cabeça e respondeu bocejando :
- Leva a chave.  Ah sim. cuidado, heim ? Não esquece da  camisinha. 

20 de set de 2012

Com que calcinha eu vou ?


Rosemary tinha tara por calcinhas. Adorava comprar calcinhas. Tinha um armário cheio delas. De todas as cores, tecidos, textura, tamanho. Não usava nem a metade. Mas tinha compulsão. Não podia andar pelo  Centro da Cidade na hora do almoço. Via uma vitrine e puxava a colega pelo braço , dizendo encantada :
- Vamos entrar naquela loja, gostei daquela calcinha.
No Shopping,  fazia a festa nos finais de semana. Gastava quase todo o dinheiro.

As amigas acreditavam  que a compulsão de Rosemary  era sinal de loucura. Recomendaram um  psiquiatra. Ela ia a duas, três sessões. Mudava de médico.  Nenhum conseguia entendê-la. Fora as calcinhas, Rosemary era uma mulher sem grandes excentricidades. Trabalhava, saía com as amigas, presenteava os sobrinhos, gostava de ler. Escutar música. Sol. Praia.

Porém, o que já era uma estranha compulsão, se agravou,  quando Rosemary se apaixonou pelo novo colega de trabalho. Assim que ela o viu entrando no escritório, cismou com o coitado:
- Foi para ele que eu comprei tanta calcinha. Moreira é o homem da minha vida !

As colegas de trabalho preocuparam-se:
- Calma Rose, você nem conhece o cara direito, pode ser casado, ou quem sabe, tem namorada ?

Rosemary  investigou . Moreira era solteiro. Passou a investir olhares, sorrisos e  gracejos. Ele correspondeu .  Encantou-se  com a meiguice de Rosemary. Passaram a almoçar juntos. Ficavam  conversando horas num barzinho, perto do trabalho, depois do expediente.

Rosemary estava apaixonada. As amigas , com uma ponta de inveja, fingiam incentivar o namoro com voz despeitada :
- Finalmente vai poder gastar seu estoque de calcinhas.....
Outra falava:
-Que tipo de calcinha será que o Moreira prefere ?

Divagavam  com as calcinhas de Rosemary. Acompanhavam o namoro como se acompanha uma novela de enredo duvidoso.  Começaram a namorar. Um mês de namoro. Iam ao cinema, jantavam em bons restaurantes, mas nada de sexo. As amigas cobravam:

- E aí, já foram ao motel ?

Rosemary sorria:
- Calma meninas,  ele jogou indiretas. Mas é homem raro. Não quer só sexo e eu  sou moça direita . Para deixar o homem apaixonado,  tem que fazer um doce primeiro.

Finalmente, depois de dois meses de namoro, o casal decidiu  ir pra cama .  Queriam que fosse um momento especial. Estavam no telefone conversando,  quando Rosemary  perguntou com voz melosa :
- Amor.....que tipo de calcinha você prefere ?
Moreira não entendeu  :
- Calcinha ? Como assim?

Rosemary repetiu :
-  Ué, para a nossa primeira noite de amor. Gosta de calcinha cavada ?  De renda ? Preta ? Branca ? Cetim ? Algodão. Quero te agradar amor. Causar boa impressão.

Moreira deu uma sonora gargalhada:
- O quê ?  Calcinha ? Que calcinha  nada !! Eu adoro quando a mulher coloca um vestido e na hora que ela tira, está nuazinha. Me dá o maior tesão . Se quer me agradar está aí a dica.

Rosemary perdeu a fala .  Desligou na cara do namorado. Ele ligou para o celular. Caixa postal. Voltou a ligar para o telefone fixo.  Ela gritou com o pessoal de casa:
- Ninguém atende. É o Moreira!

Não quis mais ouvir falar no nome dele. No trabalho, evitava contato.  Pediu demissão.  Sentia  nojo ao olhar para o ex-namorado. Moreira não entendeu nada.  Só compreendeu a situação, quando, duas semanas depois, visitou  a ex-namorada num hospital psiquiátrico . Rosemary estava cercada de calcinha por todos os lados.