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26 de dez de 2011

Lucro

Deixei o homem que eu amava partir.
Talvez nosso amor fosse tão grande
que não cabia nele.
Homem simples. Do interior.
Semblante sereno. Gestos suaves.
Nosso encontro foi breve e intenso.
A existência parou para que nos amassemos.
Depois de alguns meses, ainda sinto o cheiro dele
na minha pele. Minha boca ainda o possui.
Ele ainda está dentro de mim. Em todos os sentidos.

Vejo-o todos os dias diante dos meus olhos , quando acordo.
Lembro do sorriso. Da voz. Do olhar faminto em meu corpo.
Da pele macia. Das mãos bem cuidadas.
Quero que ele seja  o último amor da minha vida.
Agora o que vier é lucro.

21 de dez de 2011

A descoberta

Escovou os cabelos e  colocou o batom. Não podia faltar o rimel. Passou duas vezes. Um lápis preto daria o tom.  Pegou a melhor lingerie. Passou perfume francês. Olhou no relógio da estante. Dez da noite. Faltava pouco. O coração disparou. Abriu a janela da sala e deixou o ar entrar. Respirou fundo. Aquela brisa que vinha da praia era revigorante. Queria tudo perfeito. Correu até a geladeira. Tirou o vinho do freezer. As frutas estavam em ordem. Esfregou uma mão na outra. Sentiu um frio gostoso no estômago. Seria a primeira vez. O interfone tocou. Correu para atender. Esperou a campanhia tocar. Uma . Duas vezes. Deixaria tocar a terceira. Adorava suspense. Abriu a porta. Olhou uma vez. Duas. Com a voz decepcionada reclamou :
- Encomendei na agência um rapaz alto, moreno, olhos castanhos, boca carnuda. Você é alto,  branco, de olhos claros, traços finos. Sim, tem um corpo bonito. Deixa eu ver. Tira a camisa.
- Aqui ? Não dá para eu entrar no  apartamento ?
- Tira a camisa agora.
Sem jeito, tirou a camisa. Ela adorou a tatuagem do golfinho nas costas. Tinha um corpo bonito. Braços fortes. Perguntou empolgada :
- Tem certeza que você tinha que vir pra cá mesmo ?
- Sim.
Esticou o cartão da agência.
- Então o que houve ?
- O rapaz encomendado sofreu um pequeno acidente de carro.  Nada grave, mas não deu para avisar. Pediram na agência que eu viesse no lugar dele. Sou o melhor. Garanto. Não vai ficar decepcionada . Realizo todos os sonhos.
- Tem certeza ? - Sorriu pela primeira vez, relaxada.
- Se não gostar, devolve  o dinheiro.

Puxou o rapaz pelo braço. Trancou a porta. Beberam duas taças de vinho. Depois se enfiaram por entre os lençóis. Seis horas da manhã o despertador tocou :
- Meu tempo acabou.
Deu-lhe o dinheiro e pediu que deixasse o cartão da agência. Quando ficou sozinha, sorriu enternecida. Durante os quinze anos de casamento, o marido nunca lhe fizera se sentir tão mulher, como naquela noite.

8 de dez de 2011

A vitrine

                                
Lucineide passeava pelo shopping no final de uma tarde de sábado,  quando viu a amiga Rosilva  olhando a  vitrine de uma loja de sapatos. Resolveu se aproximar :
- Ro, quanto tempo !  Escolhendo um sapato ?
- Oi, Lucineide. Não,  só estou dando uma olhadinha.
-  Pelo jeito deve ter boas ofertas. Muita gente olhando a vitrine. A loja está  em promoção ?
- Nada.  Acredita que a loja estava vazia ?  Foi só eu me aproximar....
-  Então vem.  Vamos  tomar um café ?
Seguiram  em direção  à  Praça de Alimentação .  Entraram na fila, compraram um lanche e  sentaram-se para conversar . Lucineide falou primeiro :
- E aí, amiga, como estamos de amores ?
- Não estamos.
-  Eu  terminei  um namoro há um mês. Tô meio que fechada pra balanço.
- Pois é, a minha empresa fechou pra balanço e faliu. Não abriu mais.
- Deixa de ser pessimista, Rosilva. Relação está difícil pra todo mundo.
- Pra mim multiplica por dois.
- Nada , amiga, estão todos reclamando. Homens e mulheres.
-   Mas comigo é diferente. É pior.
- Não exagera...
- É sim....quando eu me interesso por um homem , é igual a vitrine de loja vazia.
-Não entendi !!??
-  É assim :  Passo pela loja   e não tem ninguém olhando a vitrine...
- Sim e daí ?
-  Quando me aproximo da loja  para olhar  a vitrine daqui a pouco tem um monte de gente olhando também .
- Não entendi  ?!  E o que isso tem a ver com a sua vida sentimental ?
- Pois então. Eu miro um homem. Quieto. Sozinho. No canto dele. Fico interessada.
- Hum e aí vem a vitrine ?
- Isso. Quando começamos a nos entender, percebo que não sou a única interessada.  Tem mais um monte na fila. De  sem graça , o cara passa a gostosão , disputadíssimo.
-  É...sabe que já aconteceu comigo ?
- Comigo acontece sempre.
-Deixa pra lá . Vamos mudar  de assunto . Quer ir a uma festa comigo no sábado ?
- Quem vai ?
-  Vou com o Ricardo, meu ficante.  Se quiser levar alguém, não tem problema.
-  Eu vou. Aproveito e pergunto se  o Arnaldo quer ir comigo.
- Arnaldo ?
- É ,aquele cara que trabalhou com a gente no setor do almoxarifado. Lembra ?
- Lembro.
- Pois então. Encontrei com ele semana passada e ficamos de nos ver novamente. Ele estava triste. Tinha terminado com a namorada.
- Queridinha, esquece. Voltou com a namorada. Vão se casar.
- Como é que você sabe ?!
- A namorada dele é minha vizinha.
- Jura ?
-Juro. É, amiga, procura uma igreja, um Pai de Santo, Pastor, qualquer coisa. Tá precisando se benzer.
- E você acha que eu já não procurei ?
-  Me conta ?!
- Pois então, um Pai de Santo.
- E aí ?
- Tudo ia bem. O Pai de Santo estava me esclarecendo um monte de coisas.
- Sim e aí ?
- Um dia cheguei para me consultar e o Pai de Santo não estava.
- O que aconteceu ?
- Mudou de estado.Transferência de emprego. Fiquei sem chão.
- Cruzes ! Bom , se você quiser ir a festa, SEM O ARNALDO,  me liga , tá ? Eu já vou. Vai ficar por aí ?
- Vou. Olhando vitrine.
- Então,  boa sorte !
- Pra você também. Tchau.