15 de novembro de 2011

Tempo

                                     
Analice saiu do trabalho e se despediu da amiga com um sorriso seco.
- Ei mulher, aonde você vai com tanta pressa ? 
- Me encontrar com o Gilmar.
- Então hoje tem ? – Riu -
- Justamente. Não tem.
- Ué,  se não tem, por que você vai se encontrar com ele ?
-  Depois te  falo. Tô com pressa.
- Tá. Tudo bem. Boa sorte.
Segurando a bolsa na mão esquerda  e uma pasta com os  papéis do trabalho na mão direita, conseguiu se equilibrar e entrou num táxi :
- Moço, por favor, segue para Botafogo. O mais rápido que puder.
- Sexta-feira. Seis da tarde ? Vai ser difícil.
- Tá bom ! Tá bom ! Sem conversas.

Sete da noite. Pagou o táxi e entrou na  portaria do edificio 254. Viu o namorado sair do  elevador de serviço  acompanhado de dois colegas do escritório. 
Analice  gritou pelo namorado, ansiosa. Gilmar espantou-se :
- O que  faz aqui ? Não te falei que  estava cansado e ia pra casa ?
- Precisava te ver.
Gilmar apertou os lábios, colocou a mão nos ombros da namorada  e se dirigiu para a garagem. Durante a viagem, Analice  falava sem parar  sobre o trabalho para disfarçar o nervosismo . Gilmar nem respirava. 

Quando o carro estacionou em frente ao edifício que ela morava ,  começaram as reclamações :
- Não vamos no bar  tomar pelo menos um refrigerante ?
- Não . Já disse, tô cansado. Não era nem para ter vindo aqui.
- Poxa. Nem um chiclete ?
-  Está entregue.
-  Nossa quanta frieza ! Não tem nada para me dizer ?
- Dizer o quê ?
- Está estranho.
- Estou normal.
- Diz olhando dentro dos meus olhos.
- Melhor deixar para outro dia.
- Diz agora , não suporto viver na ansiedade.
- Quer saber ?
- Sim.
-  Quero um tempo.
- Tempo ?  Isso não existe. O que está acontecendo ?
- Analice, você está forçando a uma situação que não era para ser agora.
- Não estou forçando. Fala.
- Tá bom. Melhor ir cada um para um lado. Não quero te magoar.
- Como é que é ? NÃO QUER ME MAGOAR  ? - berrou Analice -
Gilmar balançou a cabeça contrariado.   Analice começou a chorar.
Num  gesto automático,  abriu a bolsa para pegar um calmante . Trêmula respondeu :
- Mas já me magoou. Não queria, mas magoou. É outra  ? Diz a verdade.
- Não . Não é. Gosto de você. Mas não quero te magoar.
- Se gosta então por que pediu um tempo ?
- Você gosta muito mais de mim do que eu de você e eu não estou com cabeça agora. Quem sabe mais tarde ?
- Clichê para cima de mim ? Logo você  que reclama de clichezinho de novela  ?
- É diferente.
- Os homens são todos iguais . Seja macho e diz que não quer mais nada comigo. Na cara. Sem desculpa.
Gilmar perdeu a paciência. Olhou mais uma vez o relógio e passou a mão pelos cabelos . O celular tocou. Olhou o número e desligou.
- É ela, né ? É a outra. Não quis atender.
- Nada disso. Outro dia a gente conversa, tá bom, amor ?
- Amor ? Diz que não quer me magoar e agora me chama de amor ? Você está confuso.
- Não.
- Então fala a verdade.
- Quer mesmo saber ?
- Pode falar. Por pior que seja.
-  Estou apaixonado por outra. Vou me casar com outra.
Analice tomou um choque. Os olhos arregalaram-se. Pareciam saltar-lhe do rosto. Pensou alguns segundos e    saiu do carro sem olhar para trás.
Gilmar respirou aliviado. Chegou no bar e os amigos o esperavam ansiosos.
- Poxa, pensei que não viesse mais. O Vasco vai entrar em campo daqui a pouco.

Sorriu e  afrouxou o nó da gravata. Pediu uma cerveja . Depois do primeiro gole, confessou ao amigo mais próximo :
- A Analice não queria me liberar. Tive que pedir um tempo pra ela . Daqui a um mês eu volto. Deixa só o campeonato terminar.
- Isso. Geladeira nela. Geladeira, não. Freezer.
- Para tirar férias de um mês, tive que mentir. Disse que ia me casar com outra.
- Tu é louco cara ?
- Sabe que ela é orgulhosa ? Saiu do carro e nem me deu um beijo. Nada que uma ligação não resolva depois.
- Psiuuuuu o jogo vai começar !

Silêncio.

Em casa, Analice chorava, enquanto colocava veneno de rato no leite. Bebeu de um gole só.




2 comentários:

Mara Narciso disse...

Um gesto extremo pede outro gesto extremo. Na vida, nem sempre há tempo para passar a limpo, para repetir o refrão. Uma buscando o fim trágico, e o outro a alegria do futebol. O final mostra como estão distantes os mundos masculino e feminino. Temos de construir uma ponte urgente para reduzir desencontros e sofrimentos. Igual a aguardente: forte e bom!

Carina disse...

Achei ridiculo da parte dele. Totalmente sem noçao. Isso provou que ela era segundo plano na vida dele. Idiota.