Saí sem dar satisfação. Peguei o elevador e apertei o botão da garagem. Passava das onze de uma sexta-feira. Tempo abafado. A previsão era de chuva para a madrugada . Peguei o carro e saí sem destino. As lágrimas rolavam enquanto eu dirigia. Não podia voltar pra casa. Eu e Ernesto estávamos casados há vinte anos. Brigávamos quase todos os dias. Ele me deixava no limite. Dois filhos adolescentes ainda seguravam o casamento.
Não é fácil a separação. Divisão de bens. Família. Cunhados. Irmãos. Pais. Filhos. Comodismo.
Parei atordoada num barzinho na zona sul. Estacionei o carro e entrei.
Bar lotado. Bocas salivando por um beijo. Perfumes sedutores. Homens e mulheres gesticulando. Mexendo nos cabelos, falando alto e dando risadas. Segui na direção da mesa de um casal que pagava a conta . Mesa de canto, perto do banheiro. Era o que eu precisava : Sossego. Pedi um chope e fiquei observando o movimento do entra e sai. Os casais se abraçando, as mulheres apertando os lábios e jogando charme com os cabelos. Peitos. Bundas. Quadris em movimento. Sede de sexo. Sede de amor.
Olhei para a porta e vi um rapaz interessante entrando no bar. Alto, boca carnuda, moreno. Olhos brilhantes e cheios de questionamento. Compenetrado, ele colocou as duas mãos nos bolsos e parou. Procurava alguém. Não encontrou o que queria. Num impulso, fiz sinal com as mãos e chamei- o para sentar-se na mesa comigo.
Ficou surpreso com a oferta, mas aceitou. Eu tinha o dobro da idade dele. Algo nele me chamou a atenção. Seria carência ? Sei lá.
Desajeitado, puxou uma cadeira, sorriu e pediu um chope. Em seguida falou que esperava um amigo. Mas pelo jeito não apareceria. Importa se eu ficar aqui ?
- Não. Por isso eu o chamei. Preciso de companhia.
- Levou bolo do namorado ?
- Não. Sou casada.
- Casada ? Desculpe, vou sair. Não quero confusão para o meu lado.
- Fica tranquilo ele não vai aparecer por aqui. Está em casa dormindo. Qual é seu nome ?
- Marcel e o seu ?
- Luciana - menti –
- Vocês brigaram ?
- Brigamos sempre. Está difícil sustentar o casamento.
- Então separa…
- Na sua idade tudo é fácil
- Não . É fácil em qualquer idade. Pra quem quer.
- Sabidinho você.
- Não sou nenhuma criança ingênua. Sou um homem de 25 anos.
- Podia ser meu filho.
- Mas não sou. Qual sua idade ?
- Quaranta e oito.
-Adoro mulheres mais velhas.
Sorri. O chope chegou. Brigamos e ficamos um longo tempo em silêncio. Eu nunca tinha saído com um rapaz tão jovem. Pensei na possibilidade de ficar com ele naquela noite. Precisava de vida nova. Juventude. Carinho. Não sabia se chegaríamos a algum lugar. Excitada, dei corda.
Pedi licença e fui até o banheiro. Retoquei a maquiagem e liguei para casa. Ernesto atendeu com voz de sono. Perguntei pelas crianças. Ele disse que elas já estavam dormindo e logo ele estaria dormindo também. Menti. Contei que dormiria na casa da minha amiga Ruth.
Ernesto não se importou. Fazia tempo que ele não se importava mais comigo. Em seguida liguei para Ruth e contei que se alguém ligasse, eu estava dormindo na casa dela. Passei uma escova nos cabelos, e voltei para a mesa.
Precisava de uma aventura. Urgente. Para não enlouquecer. Quando me sentei, Marcel tocou na minha mão. Ficamos por alguns segundos nos olhando. Quebrei o silêncio :
- Você tem uma boca bonita.
- Eu sei.
-Metido.
- Vamos pedir a conta ?
Saímos do bar de mãos dadas. Marcel estava sem carro. Levei-o até meu carro. Entramos. Dirigi em silêncio para um motel . Duas horas da manhã, a chuva fina começou a cair. Eu estava excitada com a aventura. Era a terceira vez que eu traía Ernesto. Das outras duas vezes os homens eram mais velhos. Primeira vez que saía com alguém tão jovem . Gostei da ideia. Assim que entramos no motel a chuva apertou.
Marcel sentou-se na beirada da cama, sem graça. Quebrei o gelo . Sorri, sentei-me ao lado dele :
- Não vai me deixar experimentar essa boca maravilhosa ?
Depois do primeiro beijo , veio outro, e não paramos mais . Um desejo incontrolável tomou conta de nossos corpos. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.
Meu corpo flutuou. Há quase um ano que eu não transava com Ernesto. E pra dizer a verdade, não sentia mais nada com ele. Marcel me fez entender que eu estava viva e podia me divertir muito ainda.
Cansada, adormeci nos braços de Marcel . Acordei sete horas . Vesti minha roupa em silêncio. Deixei dinheiro em cima da mesa e saí. Olhei mais uma vez para Marcel. Ele dormia profundamente. Parecia um anjo.
Peguei meu carro e saí. Estava feliz. Sentindo-me mais mulher. A chuva da madrugada se dissipou. O céu azul indicava que o sábado seria de muito sol e calor. Respirei fundo e voltei pra casa pela praia.
Quando Marcel acordasse eu estaria longe. Não nos veríamos mais. Ou quem sabe um dia ?
Precisava de um café. Urgente.
3 comentários:
HUAHUAHUAHUA, o "precisava de um café" fechou com chave de ouro. KKKKKKKKKK São pequenos os detalhes que tornam um conto tão humano.
Beijos do Con... KID FLASH.
Cada vez mais as necessidades femininas aproximam-se das masculinas, ou sempre foi assim e o que se vendia era um mito, uma maneira nada disfarçada de opressão? Mulheres querem amor e romance e homens querem sexo? Enganaram-nos direitinho.
É esse mesmo Celamar. rsrs... O antigo CONDE, Leonardo, como preferir. Agora numa nova empreitada. rsrs..
Olha... seu comentário é muito importante para mim viu? Tenho por tí uma das minha maiores inspirações ao escrever ficção. Adoro te ler. rsrs...
Beijão do Conde.
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