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26 de nov de 2011

Luciana


Saí sem dar satisfação.  Peguei o elevador e apertei  o botão da  garagem. Passava das onze de uma sexta-feira. Tempo abafado. A previsão era de chuva para a madrugada   .  Peguei o carro e saí sem destino. As lágrimas rolavam enquanto eu dirigia. Não podia voltar pra casa.   Eu e Ernesto estávamos casados há   vinte anos. Brigávamos quase todos os dias.  Ele me deixava no limite. Dois filhos  adolescentes ainda seguravam o casamento.  
Não é fácil a separação.  Divisão de bens. Família. Cunhados. Irmãos. Pais. Filhos. Comodismo.
Parei  atordoada num barzinho  na zona  sul. Estacionei o carro e entrei.
Bar  lotado. Bocas salivando por um beijo. Perfumes sedutores. Homens e mulheres gesticulando.  Mexendo nos cabelos, falando alto e dando risadas.  Segui na direção da mesa de um  casal que pagava  a conta .  Mesa de canto, perto do banheiro. Era o que eu precisava : Sossego.   Pedi um chope  e fiquei observando o movimento do entra e sai. Os casais se abraçando, as mulheres apertando os lábios  e jogando charme com os cabelos. Peitos. Bundas. Quadris em movimento. Sede de sexo. Sede de amor.
Olhei para a porta e vi um rapaz interessante entrando no bar.  Alto, boca carnuda, moreno.  Olhos brilhantes e cheios de questionamento. Compenetrado, ele  colocou  as  duas  mãos nos bolsos  e parou.  Procurava alguém.  Não encontrou o que queria.  Num impulso, fiz sinal com as mãos e chamei- o  para sentar-se  na mesa comigo.
Ficou surpreso com a oferta, mas aceitou.  Eu tinha o dobro da idade dele.  Algo nele me chamou a atenção.  Seria carência ? Sei lá.
Desajeitado, puxou uma cadeira, sorriu e pediu um chope. Em seguida falou que esperava um amigo. Mas pelo jeito não apareceria.  Importa se eu ficar aqui ?
- Não. Por isso eu o chamei. Preciso de companhia.
- Levou bolo do namorado ?
- Não. Sou casada.
- Casada  ? Desculpe, vou sair.  Não quero confusão para o meu lado.
- Fica tranquilo ele não vai aparecer por aqui. Está em casa dormindo. Qual é seu nome ?
- Marcel e o seu ?
- Luciana  - menti –
- Vocês brigaram ?
- Brigamos sempre. Está difícil sustentar o casamento.
- Então separa…
- Na sua idade tudo é fácil
- Não . É fácil em qualquer idade. Pra quem quer.
- Sabidinho você.
- Não sou nenhuma criança ingênua. Sou um homem de 25 anos.
- Podia ser meu filho.
-  Mas não sou.  Qual sua idade ?
- Quaranta e oito.
-Adoro mulheres mais velhas.
Sorri. O chope chegou. Brigamos e ficamos um longo tempo em silêncio. Eu nunca tinha saído com um rapaz tão jovem. Pensei na possibilidade de ficar com ele naquela noite. Precisava de vida nova. Juventude. Carinho. Não sabia se chegaríamos a algum lugar. Excitada, dei corda.
Pedi licença e fui até o banheiro. Retoquei a maquiagem e liguei para casa. Ernesto atendeu com voz de sono. Perguntei pelas crianças. Ele disse que elas já estavam dormindo e logo ele estaria dormindo também. Menti. Contei que dormiria na casa da minha amiga Ruth.
Ernesto não se importou. Fazia tempo que ele não se importava mais comigo. Em seguida liguei para Ruth e contei que se alguém ligasse, eu estava dormindo na casa dela. Passei uma escova nos cabelos, e voltei para a mesa.
 Precisava de uma aventura. Urgente. Para não enlouquecer. Quando me sentei, Marcel tocou na minha mão. Ficamos por alguns segundos nos olhando. Quebrei o silêncio :
- Você tem uma boca bonita.
- Eu sei.
-Metido.
- Vamos pedir  a conta ?
 Saímos do bar de mãos dadas.  Marcel estava sem carro. Levei-o até meu carro. Entramos. Dirigi em silêncio para um motel   . Duas horas da manhã, a chuva fina começou a cair.  Eu estava excitada com a aventura. Era a terceira vez que eu traía Ernesto. Das outras duas vezes os homens eram mais velhos. Primeira vez que saía com alguém tão jovem . Gostei da ideia. Assim que entramos no motel a chuva apertou.
Marcel sentou-se na beirada da cama,  sem graça. Quebrei o gelo . Sorri,  sentei-me ao lado dele  :

-  Não vai me deixar experimentar essa boca  maravilhosa ?

Depois do primeiro beijo , veio outro,  e não paramos mais . Um desejo incontrolável tomou conta de nossos corpos. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.

Meu corpo flutuou. Há quase um ano que eu não transava com Ernesto. E pra dizer a verdade, não sentia mais nada com ele. Marcel me fez  entender que eu  estava viva e podia me divertir muito ainda.
Cansada,  adormeci  nos braços de Marcel . Acordei sete horas . Vesti  minha roupa em silêncio. Deixei dinheiro em cima da mesa e saí.  Olhei mais uma vez para Marcel. Ele dormia profundamente. Parecia um anjo. 

 Peguei meu carro e saí. Estava feliz. Sentindo-me mais mulher.  A chuva da madrugada se dissipou.  O céu azul indicava que o sábado seria de muito sol e calor. Respirei fundo e voltei  pra casa pela praia.
Quando  Marcel  acordasse  eu  estaria longe. Não nos veríamos mais. Ou quem sabe um dia ?

Precisava de um café. Urgente. 

15 de nov de 2011

Tempo

                                     
Analice saiu do trabalho e se despediu da amiga com um sorriso seco.
- Ei mulher, aonde você vai com tanta pressa ? 
- Me encontrar com o Gilmar.
- Então hoje tem ? – Riu -
- Justamente. Não tem.
- Ué,  se não tem, por que você vai se encontrar com ele ?
-  Depois te  falo. Tô com pressa.
- Tá. Tudo bem. Boa sorte.
Segurando a bolsa na mão esquerda  e uma pasta com os  papéis do trabalho na mão direita, conseguiu se equilibrar e entrou num táxi :
- Moço, por favor, segue para Botafogo. O mais rápido que puder.
- Sexta-feira. Seis da tarde ? Vai ser difícil.
- Tá bom ! Tá bom ! Sem conversas.

Sete da noite. Pagou o táxi e entrou na  portaria do edificio 254. Viu o namorado sair do  elevador de serviço  acompanhado de dois colegas do escritório. 
Analice  gritou pelo namorado, ansiosa. Gilmar espantou-se :
- O que  faz aqui ? Não te falei que  estava cansado e ia pra casa ?
- Precisava te ver.
Gilmar apertou os lábios, colocou a mão nos ombros da namorada  e se dirigiu para a garagem. Durante a viagem, Analice  falava sem parar  sobre o trabalho para disfarçar o nervosismo . Gilmar nem respirava. 

Quando o carro estacionou em frente ao edifício que ela morava ,  começaram as reclamações :
- Não vamos no bar  tomar pelo menos um refrigerante ?
- Não . Já disse, tô cansado. Não era nem para ter vindo aqui.
- Poxa. Nem um chiclete ?
-  Está entregue.
-  Nossa quanta frieza ! Não tem nada para me dizer ?
- Dizer o quê ?
- Está estranho.
- Estou normal.
- Diz olhando dentro dos meus olhos.
- Melhor deixar para outro dia.
- Diz agora , não suporto viver na ansiedade.
- Quer saber ?
- Sim.
-  Quero um tempo.
- Tempo ?  Isso não existe. O que está acontecendo ?
- Analice, você está forçando a uma situação que não era para ser agora.
- Não estou forçando. Fala.
- Tá bom. Melhor ir cada um para um lado. Não quero te magoar.
- Como é que é ? NÃO QUER ME MAGOAR  ? - berrou Analice -
Gilmar balançou a cabeça contrariado.   Analice começou a chorar.
Num  gesto automático,  abriu a bolsa para pegar um calmante . Trêmula respondeu :
- Mas já me magoou. Não queria, mas magoou. É outra  ? Diz a verdade.
- Não . Não é. Gosto de você. Mas não quero te magoar.
- Se gosta então por que pediu um tempo ?
- Você gosta muito mais de mim do que eu de você e eu não estou com cabeça agora. Quem sabe mais tarde ?
- Clichê para cima de mim ? Logo você  que reclama de clichezinho de novela  ?
- É diferente.
- Os homens são todos iguais . Seja macho e diz que não quer mais nada comigo. Na cara. Sem desculpa.
Gilmar perdeu a paciência. Olhou mais uma vez o relógio e passou a mão pelos cabelos . O celular tocou. Olhou o número e desligou.
- É ela, né ? É a outra. Não quis atender.
- Nada disso. Outro dia a gente conversa, tá bom, amor ?
- Amor ? Diz que não quer me magoar e agora me chama de amor ? Você está confuso.
- Não.
- Então fala a verdade.
- Quer mesmo saber ?
- Pode falar. Por pior que seja.
-  Estou apaixonado por outra. Vou me casar com outra.
Analice tomou um choque. Os olhos arregalaram-se. Pareciam saltar-lhe do rosto. Pensou alguns segundos e    saiu do carro sem olhar para trás.
Gilmar respirou aliviado. Chegou no bar e os amigos o esperavam ansiosos.
- Poxa, pensei que não viesse mais. O Vasco vai entrar em campo daqui a pouco.

Sorriu e  afrouxou o nó da gravata. Pediu uma cerveja . Depois do primeiro gole, confessou ao amigo mais próximo :
- A Analice não queria me liberar. Tive que pedir um tempo pra ela . Daqui a um mês eu volto. Deixa só o campeonato terminar.
- Isso. Geladeira nela. Geladeira, não. Freezer.
- Para tirar férias de um mês, tive que mentir. Disse que ia me casar com outra.
- Tu é louco cara ?
- Sabe que ela é orgulhosa ? Saiu do carro e nem me deu um beijo. Nada que uma ligação não resolva depois.
- Psiuuuuu o jogo vai começar !

Silêncio.

Em casa, Analice chorava, enquanto colocava veneno de rato no leite. Bebeu de um gole só.




4 de nov de 2011

Eu te amo


Sábado de céu estrelado e noite de lua cheia. Lucília e Macedo entraram num restaurante perto da praia e escolheram uma mesa no canto. Depois de fazerem o pedido, trocaram carícias discretas . Envergonhada, Lucília declarou-se:
- Eu te amo!
- O quê?
Repete com voz pastosa:
- Eu te amo, Macedo.
- O que você quis dizer com isso?
- O que você escutou.
- Amor é coisa séria, Lucília.
- Que falta de romantismo! Eu digo que te amo e você me trata friamente?
- Não quero iludir ninguém. Você sabe que eu gosto de liberdade. Sou sincero.
- Em outras palavras, isso quer dizer: Saio com você, mas também saio com outras. Sou infiel. É isso?
- Sem drama, Lucília. Só não quero perder minha individualidade.Amor é prisão.
- Não sabia que você se sentia algemado – disse ofendida.
- Fui claro desde o início : Prezo minha liberdade.
- Isso é desculpa pra sacanagem, Macedo.
- Impressão sua. Só não gosto de cobrança.
- Não cobrei nada, apenas expressei o que sinto. É pecado?
- Quem dá, pede de volta. Amanhã vai me cobrar a mesma coisa. Mulher é tudo igual.
- Você está me confundindo com a sua ex que era ciumenta e te sufocou. Sou diferente.
- Vamos mudar de assunto, essa conversa tá ficando chata.
- Por quê?
- Não estou preparado para compromisso sério. Preciso de espaço para respirar.
- Ei , não te pedi em casamento, apenas disse que te amava.
- Primeiro diz que me ama, depois quer conhecer minha família, dormir na minha casa.
- E qual o problema? Você é alérgico a compromisso sério?
- Tentei outras vezes e não deu certo. Quero uma relação leve. Cada um na sua.
- Então você não é meu namorado?
- Estamos tentando.
- Há quase um ano Macedo? Você é um cara de pau!
- Pronto, começaram as agressões. Vamos mudar de assunto.
- Quando é que você vai estar pronto para ser meu namorado oficial?
- Hoje nada é oficializado.
- Então você não me ama?
- Amor é relativo. Você pode amar o time de futebol, pai, mãe. Eu amo meu labrador.
- Você é um filósofo, Macedo. Ama o cachorro, mas não me ama?
- Cachorro não cobra . Homem pensa diferente. Não quero me sentir preso.
-Você perdeu o interesse por mim, é isso?
- Nossa sintonia não está combinando. Não foi isso que eu disse.
- Foi o que você acabou de dizer. Quer ficar livre de mim.
- Não tente adivinhar meus pensamentos. Mulher tem essa mania .
- Não generaliza. Eu sou A MULHER.

O garçom serviu a pizza, enquanto eles continuavam a conversa. Para descontrair, Macedo brincou:
- Mulher é tudo igual .Adora complicar, né?

O garçom deu um risinho sem graça, cortou a pizza e balançou a cabeça timidamente.
- Se precisarem de mais alguma coisa é só chamar. Com licença.
- Macedo, que palhaçada é essa de colocar o garçom na nossa conversa?
- Tava brincando. Tudo você leva a sério. Que mau humor!
- Perdi a fome – empurrou o prato com cara de nojo.
- Quê isso, Ritinha!
- Ritinha? Você me chamou de Ritinha?
- Chamei? Nem percebi. Desculpe. Você me deixa nervoso. Come a pizza.
- Não quero, pode comer tudo.
- Vai estragar nossa noite?
- Quem estragou foi você.
- Eu?!
- Você, sim. Tá filosofando pra cima de mim, só porque eu disse que te amava. Homem é tudo igual . São todos egoístas.
- Vamos deixar esse papo feminista pra depois. Já pedi desculpa. Come a pizza e vamos mudar de assunto .
- O que você sugere? – falou irritada, balançando a perna e batendo com o pé no chão.
- Que tal falarmos sobre as várias espécies de moscas existentes no planeta terra?
- Você é uma delas, né? O popular mosca de padaria.
- Deixa de ser boba. Minha bobinha.
- Você não aceita o meu amor, troca meu nome e eu é que sou boba?
- Caramba, mulher tem mania de ficar batendo na mesma tecla. Vai, come.
- Pra você é fácil.
- Bobinha, vamos sair daqui e fazer as pazes na cama. Adoro transar com você irritadinha.
- Homem só pensa em sexo. Sou apenas um objeto sexual pra você?
- Você não gosta de ser usada?
- É isso que eu sou pra você. Uma VAGABUNDA?
- Não disse isso. Tá difícil conversar, Lucília! Você leva tudo para o outro lado.
- Que lado?
- Esquece, Ritinha. Desculpe, Lucília. Tá vendo como você me deixa confuso?

Silêncio. Lucília respirou fundo, esticou o corpo, mordeu os lábios e falou decidida:
- Macedo, você é um babaca. Como eu não percebi isso antes?! Vai pra puta que te pariu!

Pegou a bolsa e saiu.