22 de outubro de 2011

O irmão da noiva


Eram apaixonadíssimos. Amor de dar inveja aos protagonistas de comédia romântica. Silvinha e Marcelino  estavam com casamento marcado para a primavera. Tudo seria  perfeito se não fosse  Zequinha, o irmão mais velho da noiva.

 Quando a jovem nasceu, as atenções voltaram-se para ela  e seus lindos olhos azuis. Enciumado, Zequinha acusou  os pais de desleixo :
-          Depois que a Silvinha nasceu, vocês deixaram de gostar de mim. Passei a ser tratado como lixo.

Dona Adélia e seu Clodoaldo acreditavam que o ciúme do filho seria passageiro. Porém, o tempo passou , os irmãos ficaram  adultos,e as brincadeiras de Zequinha tornaram-se grosseiras. Ele colocava barata viva no armário da irmã. Fofocava com  as amigas de Silvinha. Infernizava o dia a dia da caçula. Até que Silvinha conheceu Marcelino e as provocações cessaram.  Aparentemente, o rapaz conformara-se em conviver em harmonia com a irmã.

O despeito de Zequinha estava apenas adormecido. Faltando  um mês para o casamento de Silvinha, a ira do rapaz ressurgiu com  intensidade  :” Essa vadia estragou minha vida e agora acha que vai se casar e ficar por isso mesmo ? Veremos. “

Ardiloso , Zequinha planejou a separação de Silvinha e Marcelino.

No final de um  domingo chuvoso, o plano do rapaz começou a tomar forma..Marcelino se despedia  de Silvinha no portão de casa  e nem reparou que  Zequinha os observava :
-          Tchau amor. Amanhã, assim que eu pegar o carro na oficina, te pego e vamos conversar com o padre.
-          Tá amor. Cuidado .Não gosto que você ande de ônibus . Quando chegar em casa me liga.
  
Marcelino descia a rua distraído, quando sentiu alguém lhe puxando o braço.
- Porra cara, ia te dar uma porrada. Pensei que fosse assalto. O que aconteceu  ?

Zequinha foi direto:
-          Preciso falar com você .
-          Fala.
-          Não casa com a minha irmã. Ela é uma puta. Putona. Deslavada.
 Marcelino estufou o peito e foi pra cima do futuro cunhado :
- Que  isso, cara ? Como você chama a mulher que eu vou casar de puta ?
É tua irmã e vai ser minha esposa. Mulher direita. Fiel.

Zequinha deu uma  gargalhada:
-          Isso é o que você pensa. Ela é puta. Das boas

Começaram a discutir. Marcelino deu um soco em Zequinha.
Zequinha caiu em cima de um carro estacionado na calçada. A vizinhança apareceu. Dois homens separaram a briga.
 Marcelino gritava, irado, enquanto era arrastado por um rapaz de braços fortes  :
-          Você é um babaca, você tem inveja da tua irmã . Escroto. Otário. Filho da puta.

 Zequinha limpava o sangue no canto da boca e respondia, cínico :
-Pode falar o que  quiser. Gritar, espernear . Ela é puta , putona mesmo !

Uma  vizinha conseguiu levar Zequinha pra casa. Quando ele se atirou no sofá com a boca sangrando, Silvinha se preocupou:
-          O que aconteceu  ? Brigou ?
-          Não . Esbarrei com os lábios no balcão do armazém. Me deixa em paz.

Marcelino ligou para Silvinha quando chegou em casa. Não comentou sobre a briga.  Tomou um banho e deitou-se. Rolou na cama angustiado. As palavras do futuro cunhado ecoavam-lhe na mente  :  “ela é puta...putona mesmo....”

Intrigado, ele  se perguntava : “ será ? não é possível !?
 “
A semente da  dúvida germinou na cabeça e no coração de Marcelino.
 De manhã, sem pregar o olho , saiu para o trabalho. No final da tarde,  pegou o carro na oficina e encontrou-se com  Silvinha. Assim que viu a futura esposa, as palavras de Zequinha vieram-lhe a mente : puta , putona .

Marcelino calou-se. Triste. Desanimado. Silvinha notou:
-          Amor, o que você tem hoje ? Tá caladinho . Quer  um cafuné ?
-          Não . Vamos na igreja falar com o padre. Depois te deixo em casa. Estou com dor no estômago.

Na volta,  Marcelino  deixou a noiva na porta de casa. Não queria entrar. Ela insistiu :
- Vamos. Papai quer conversar com você. Vem . Vem Vamos.

Cedeu, porém, logo arrependeu-se. Dois minutos depois, Zequinha entrou na sala.
Ele olhou para o futuro marido da irmã  e passou a língua nos lábios. Depois deu uma piscadinha. O sangue de Marcelino ferveu, mas ele resistiu.
Na hora de ir embora,  tomou coragem e perguntou a Silvinha :
-          Teu irmão é gay ?
-          Não. Pelo contrário. Ele é galinha. Vive saindo com uma e com outra. Por quê ?
-          Nada. Esquece.  Me dá um beijo.

No dia seguinte o telefone toca no trabalho de Marcelino. Do outro lado, Zequinha.  Quando Marcelino  ouviu a voz do futuro cunhado suou frio :
- O que você quer ?
-          Estou ligando para dizer que minha irmã é uma puta. Putona. Rameira da pior espécie.  Os motoristas de táxi do subúrbio é que sabem.

Durante três dias Zequinha martelou a cabeça do futuro cunhado com obscenidades. Até que,   irritado e ofendido, Marcelino tomou uma decisão. Movido pelo ódio, pegou a arma do pai e  chamou Zequinha para uma conversa :
-          Cara, vamos tomar um chope hoje. Preciso que você me conte essa história direito. Mas em paz. Sem brigas.
Zequinha aceitou o convite. Beberam e falaram sobre futebol. A arma estava na cintura de Marcelino, por baixo da camisa:
-          Agora, vamos dar uma voltinha pela cidade. Que tal ?

Zequinha não desconfiou de nada. Os dois chegaram numa rua deserta e sem saída.  Marcelino parou o carro, virou-se para o cunhado e perguntou de repente  :
-          Quem sabe da história da Silvinha ser puta ?
-          Só eu. Vi ela saindo com um taxista. Investiguei  e descobri que ela tem compulsão por motoristas de táxi. 
Marcelino  pegou na arma discretamente. Suou frio. As pernas bambearam. O coração acelerou. Não teve coragem de atirar . Acelerou o carro e partiu em silêncio.

Deixou o futuro cunhado em casa. Depois, parou o carro na rua de trás e chorou como uma criança. Sentiu-se  o pior dos  homens :
-          Sou um fraco. Uma ameba. Nem coragem para matar esse babaca , eu tive.

Contratou um matador profissional. Queria a morte de Zequinha no dia do casamento. Pareceria um assalto. Um pouco antes da cerimônia. Ninguém sentiria  falta de Zequinha na igreja. Quando a notícia  da morte chegasse, ele e Silvinha já teriam embarcado para a lua de mel. Imaginou. 

Tudo combinado com o matador.  Na porta da Igreja, o celular tocou. Marcelino  atendeu com as mãos trêmulas. Do outro lado uma voz seca informou :
-          Serviço feito. Acabou.

Marcelino respirou  aliviado.  Quinze minutos  depois, Silvinha chegou .  A cerimônia começou. A voz do padre era suave e segura . De repente, ela é abafada pelo som das  palmas vindas da  porta da igreja. Os convidados olharam curiosos e viram Zequinha com a roupa ensanguentada.  Marcelino  arregalou os olhos, apavorado. Zequinha falava compulsivamente  :

-          Estão vendo a mulher de branco no altar ? Olhem bem pra ela !! É uma puta. Putona. Amante de três taxistas no subúrbio.

Burburinho . Marcelino sentiu uma  fisgada  no peito. O nó da gravata  apertou. Teve um enfarte. Fulminante. Silvinha corria pela igreja, desnorteada, rasgando o vestido.  Dona Adélia  desmaiou. Seu Clodoaldo trincava os dentes , nervoso.
O riso estridente de Zequinha ecoava pelo ambiente .  Num acesso de fúria, ele arrancava as flores que ornamentavam os bancos e jogava as pétalas no corpo do noivo.  
 Os  convidados assistiam a tudo, paralisados, enquanto o padre  rezava e jogava água benta em Zequinha.

2 comentários:

Mara Narciso disse...

Em parte inverossímil, em parte possível. Achei que seria caso de incesto, sugerido para impedir o casamento. Caso fosse aumentaria o pode de convencimento. O irmão é um psicopata. Mas que matador frouxo foi este contratado? Péssima pontaria, para azar de Marcelino, que inventou de infartar bem na hora.

Jujuba disse...

O irmão é realmente um psicopata, mas acontece: os pais não percebem, até que a família rui...
Mas realmente Marcelino deveria ter feito o serviço quando pode, isso sim é uma ameba.