Eram apaixonadíssimos. Amor de dar inveja aos protagonistas de comédia romântica. Silvinha e Marcelino estavam com casamento marcado para a primavera. Tudo seria perfeito se não fosse Zequinha, o irmão mais velho da noiva.
Quando a jovem nasceu, as atenções voltaram-se para ela e seus lindos olhos azuis. Enciumado, Zequinha acusou os pais de desleixo :
- Depois que a Silvinha nasceu, vocês deixaram de gostar de mim. Passei a ser tratado como lixo.
Dona Adélia e seu Clodoaldo acreditavam que o ciúme do filho seria passageiro. Porém, o tempo passou , os irmãos ficaram adultos,e as brincadeiras de Zequinha tornaram-se grosseiras. Ele colocava barata viva no armário da irmã. Fofocava com as amigas de Silvinha. Infernizava o dia a dia da caçula. Até que Silvinha conheceu Marcelino e as provocações cessaram. Aparentemente, o rapaz conformara-se em conviver em harmonia com a irmã.
O despeito de Zequinha estava apenas adormecido. Faltando um mês para o casamento de Silvinha, a ira do rapaz ressurgiu com intensidade :” Essa vadia estragou minha vida e agora acha que vai se casar e ficar por isso mesmo ? Veremos. “
Ardiloso , Zequinha planejou a separação de Silvinha e Marcelino.
No final de um domingo chuvoso, o plano do rapaz começou a tomar forma..Marcelino se despedia de Silvinha no portão de casa e nem reparou que Zequinha os observava :
- Tchau amor. Amanhã, assim que eu pegar o carro na oficina, te pego e vamos conversar com o padre.
- Tá amor. Cuidado .Não gosto que você ande de ônibus . Quando chegar em casa me liga.
Marcelino descia a rua distraído, quando sentiu alguém lhe puxando o braço.
- Porra cara, ia te dar uma porrada. Pensei que fosse assalto. O que aconteceu ?
Zequinha foi direto:
- Preciso falar com você .
- Fala.
- Não casa com a minha irmã. Ela é uma puta. Putona. Deslavada.
- Que isso, cara ? Como você chama a mulher que eu vou casar de puta ?
É tua irmã e vai ser minha esposa. Mulher direita. Fiel.
Zequinha deu uma gargalhada:
- Isso é o que você pensa. Ela é puta. Das boas
Começaram a discutir. Marcelino deu um soco em Zequinha.
Zequinha caiu em cima de um carro estacionado na calçada. A vizinhança apareceu. Dois homens separaram a briga.
Marcelino gritava, irado, enquanto era arrastado por um rapaz de braços fortes :
- Você é um babaca, você tem inveja da tua irmã . Escroto. Otário. Filho da puta.
Zequinha limpava o sangue no canto da boca e respondia, cínico :
-Pode falar o que quiser. Gritar, espernear . Ela é puta , putona mesmo !
Uma vizinha conseguiu levar Zequinha pra casa. Quando ele se atirou no sofá com a boca sangrando, Silvinha se preocupou:
- O que aconteceu ? Brigou ?
- Não . Esbarrei com os lábios no balcão do armazém. Me deixa em paz.
Marcelino ligou para Silvinha quando chegou em casa. Não comentou sobre a briga. Tomou um banho e deitou-se. Rolou na cama angustiado. As palavras do futuro cunhado ecoavam-lhe na mente : “ela é puta...putona mesmo....”
Intrigado, ele se perguntava : “ será ? não é possível !?
“
A semente da dúvida germinou na cabeça e no coração de Marcelino.
De manhã, sem pregar o olho , saiu para o trabalho. No final da tarde, pegou o carro na oficina e encontrou-se com Silvinha. Assim que viu a futura esposa, as palavras de Zequinha vieram-lhe a mente : puta , putona .
Marcelino calou-se. Triste. Desanimado. Silvinha notou:
- Amor, o que você tem hoje ? Tá caladinho . Quer um cafuné ?
- Não . Vamos na igreja falar com o padre. Depois te deixo em casa. Estou com dor no estômago.
Na volta, Marcelino deixou a noiva na porta de casa. Não queria entrar. Ela insistiu :
- Vamos. Papai quer conversar com você. Vem . Vem Vamos.
Cedeu, porém, logo arrependeu-se. Dois minutos depois, Zequinha entrou na sala.
Ele olhou para o futuro marido da irmã e passou a língua nos lábios. Depois deu uma piscadinha. O sangue de Marcelino ferveu, mas ele resistiu.
Na hora de ir embora, tomou coragem e perguntou a Silvinha :
- Teu irmão é gay ?
- Não. Pelo contrário. Ele é galinha. Vive saindo com uma e com outra. Por quê ?
- Nada. Esquece. Me dá um beijo.
No dia seguinte o telefone toca no trabalho de Marcelino. Do outro lado, Zequinha. Quando Marcelino ouviu a voz do futuro cunhado suou frio :
- O que você quer ?
- Estou ligando para dizer que minha irmã é uma puta. Putona. Rameira da pior espécie. Os motoristas de táxi do subúrbio é que sabem.
Durante três dias Zequinha martelou a cabeça do futuro cunhado com obscenidades. Até que, irritado e ofendido, Marcelino tomou uma decisão. Movido pelo ódio, pegou a arma do pai e chamou Zequinha para uma conversa :
- Cara, vamos tomar um chope hoje. Preciso que você me conte essa história direito. Mas em paz. Sem brigas.
Zequinha aceitou o convite. Beberam e falaram sobre futebol. A arma estava na cintura de Marcelino, por baixo da camisa:
- Agora, vamos dar uma voltinha pela cidade. Que tal ?
Zequinha não desconfiou de nada. Os dois chegaram numa rua deserta e sem saída. Marcelino parou o carro, virou-se para o cunhado e perguntou de repente :
- Quem sabe da história da Silvinha ser puta ?
- Só eu. Vi ela saindo com um taxista. Investiguei e descobri que ela tem compulsão por motoristas de táxi.
Marcelino pegou na arma discretamente. Suou frio. As pernas bambearam. O coração acelerou. Não teve coragem de atirar . Acelerou o carro e partiu em silêncio.
Deixou o futuro cunhado em casa. Depois, parou o carro na rua de trás e chorou como uma criança. Sentiu-se o pior dos homens :
- Sou um fraco. Uma ameba. Nem coragem para matar esse babaca , eu tive.
Contratou um matador profissional. Queria a morte de Zequinha no dia do casamento. Pareceria um assalto. Um pouco antes da cerimônia. Ninguém sentiria falta de Zequinha na igreja. Quando a notícia da morte chegasse, ele e Silvinha já teriam embarcado para a lua de mel. Imaginou.
Tudo combinado com o matador. Na porta da Igreja, o celular tocou. Marcelino atendeu com as mãos trêmulas. Do outro lado uma voz seca informou :
- Serviço feito. Acabou.
Marcelino respirou aliviado. Quinze minutos depois, Silvinha chegou . A cerimônia começou. A voz do padre era suave e segura . De repente, ela é abafada pelo som das palmas vindas da porta da igreja. Os convidados olharam curiosos e viram Zequinha com a roupa ensanguentada. Marcelino arregalou os olhos, apavorado. Zequinha falava compulsivamente :
- Estão vendo a mulher de branco no altar ? Olhem bem pra ela !! É uma puta. Putona. Amante de três taxistas no subúrbio.
Burburinho . Marcelino sentiu uma fisgada no peito. O nó da gravata apertou. Teve um enfarte. Fulminante. Silvinha corria pela igreja, desnorteada, rasgando o vestido. Dona Adélia desmaiou. Seu Clodoaldo trincava os dentes , nervoso.
O riso estridente de Zequinha ecoava pelo ambiente . Num acesso de fúria, ele arrancava as flores que ornamentavam os bancos e jogava as pétalas no corpo do noivo.
Os convidados assistiam a tudo, paralisados, enquanto o padre rezava e jogava água benta em Zequinha.
2 comentários:
Em parte inverossímil, em parte possível. Achei que seria caso de incesto, sugerido para impedir o casamento. Caso fosse aumentaria o pode de convencimento. O irmão é um psicopata. Mas que matador frouxo foi este contratado? Péssima pontaria, para azar de Marcelino, que inventou de infartar bem na hora.
O irmão é realmente um psicopata, mas acontece: os pais não percebem, até que a família rui...
Mas realmente Marcelino deveria ter feito o serviço quando pode, isso sim é uma ameba.
Postar um comentário