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28 de out de 2011

A Chantagista

                                               Abri a porta do apartamento e lá  estava  a cena que se repetia quase  todos os dias, nos últimos seis  meses :  Augustina, minha amante, e Doralice, minha esposa, sentadas no sofá da sala, conversando.

Assim que me  viu, Doralice  se atirou no meu pescoço e me deu um beijo  . Confesso que, ás vezes,  a servidão feminina  me dá nojo.  Enquanto  melecava meu rosto de beijos, Augustina encolhia os ombros, fingindo-se de morta. Acenei para ela, sem graça,   e corri  em direção ao  banheiro. Antes de tomar banho,  vomitei. Eu estava paranoico  e precisava dar um jeito na minha vidinha de merda . 

Enquanto a água gelada batia no meu corpo, eu pensava em  uma maneira de me livrar de  Augustina. A filha da puta não valia nada.  Era caprichosa e não tinha amor próprio. Fodia  com ela por obrigação.  

A merda toda começou quando  Augustina quis ir pra cama comigo  e  eu não quis comer.  Ela era gostosa, mas eu estava noivo da Doralice . Sair com ela significaria o fim do meu noivado. No dia seguinte todos no trabalho ficariam sabendo. Inclusive  Doralice. Nós três trabalhávamos num escritório de  engenharia .  Quando Dodô , era assim que eu a chamava carinhosamente, anunciou  que íamos casar, Augustina  ficou  revoltada.  Ela me queria de qualquer maneira. No dia em que soube do casamento , me ligou no início da madrugada, tentando disfarçar o despeito:
- Não acredito que você vai se casar com a sem graça da  Doralice.
-Gosto dela.
- Mentira. Você tá fazendo isso pra me provocar.
- Por que eu iria querer  te provocar ?
- Você gosta de me ver puta.
- Vai se foder, Augustina.  Tô  cagando pra você.
- É o que veremos.

Eu não acreditei nas  ameaças.  Homem que não acredita em ameaça de mulher rejeitada,  se fode.   Augustina  era o tipo de mulher que não aceitava não como resposta. Para me desafiar , se aproximou de Doralice. Viraram amiguinhas. Quando Doralice escolheu Augustina para madrinha , protestei:
- Porra, Doralice, eu não vou com a cara da Augustina.
- Deixa de ser implicante. Ela  nunca te fez nada.

“ Adiantava dizer a verdade “ ? 

Deixei  pra lá : “ Um dia a Augustina arruma um macho e me deixa em paz”. Ilusão. Depois do casamento, ela passou a frequentar minha casa e ficou mais próxima . Até descobriu meu ponto fraco e aí fiquei nas mãos dela. A filha da puta  me viu saindo do motel com a mulher do meu irmão . Eu comia a minha cunhada  . Então o que ela fez ?  Tirou fotos  no celular e me chantageou :
-  Sabia que eu ia descobrir teu ponto fraco. Se eu abrir a boca, vai perder  a mulher e o irmão. Imagina o sofrimento dos teus pais.
- Quanto você quer pra ficar calada ?
-  Quero você.

Passei a comer a Augustina  uma vez por semana. Ela adorava ser xingada e me pedia para  levar  tapas na cara. Depois de quatro  meses , enjoei :
-  Já  cumpri meu trato. Me dá  as fotos, pede demissão  e some da minha vida.
-   Nada disso.
- Sou casado com a sua melhor amiga.
- Vai me comer até quando eu quiser. Ou então teu irmão, tua mulher e teus pais vão saber quem é você.

Meu  sangue  ferveu . Ela merecia levar muita porrada. Capaz de gostar .  Deixei  a vagabunda na porta de casa , e não disse uma palavra. Saí cantando pneu. “ Precisava me livrar da  Augustina. Não dava mais para trepar por obrigação”.

Passei  quase um mês pensando o que fazer  : “ Matar seria a solução. Mas eu não matava nem mosca, ia matar a Augustina ?  Crimes nunca são perfeitos .  Ia acabar na cadeia. Teria uma ideia melhor.”

Foram noites de insônia. Até que veio a oportunidade. Sim. Tudo era uma questão de momento. Deus estava me ajudando. Surgiu uma vaga para secretária no escritório de Brasília. Sugeri ao Silviano o nome de  Augustina.
- Tá maluco ? A Augustina  é uma incompetente.
- Por isso mesmo. Assim a gente se livra dela  e ainda se vinga do pessoal de Brasília.
- Vou pensar no assunto. E se ela não quiser ?
- Ameaça com demissão. E em Brasília ela vai ganhar o triplo.

A promoção mexeu com a vaidade da Doralice. Ela aceitou. “ Mais fácil do que eu pensava” – Finalmente livre.
Fiz questão de comemorar nossa última tarde num motel.
- Vou sentir sua falta.
- Eu também
- Mentira. Você queria se livrar de mim.

Doralice fez questão de  se despedir da amiga no aeroporto.  Choraram abraçadas. “ Mulher é muita falsa”.
Quando ela entrou no avião, respirei  aliviado. Agora poderia comer minha cunhada sem pressão.

Dois meses depois da partida de Augustina,  Silviano me chamou na sala dele para me dar a notícia :
- Parabéns ! Daqui a duas semanas você e Doralice serão transferidos para Brasília.

- Tá de sacanagem ?
- Augustina descobriu as falcatruas do Diretor da empresa lá em Brasília e exigiu para ficar calada, que você e Doralice sejam  transferidos .  Não reclama.  Vai ganhar o dobro.

Novamente a ânsia de vômito.


Doralice adorou a notícia :
- Que bom , amor. Vamos sair da rotina. E ainda ficarei perto da minha melhor amiga.

Aceitei  resignado.  A sagacidade da  Augustina  era risível.

“O que uma mulher não faz por uma pica ? “

22 de out de 2011

O irmão da noiva


Eram apaixonadíssimos. Amor de dar inveja aos protagonistas de comédia romântica. Silvinha e Marcelino  estavam com casamento marcado para a primavera. Tudo seria  perfeito se não fosse  Zequinha, o irmão mais velho da noiva.

 Quando a jovem nasceu, as atenções voltaram-se para ela  e seus lindos olhos azuis. Enciumado, Zequinha acusou  os pais de desleixo :
-          Depois que a Silvinha nasceu, vocês deixaram de gostar de mim. Passei a ser tratado como lixo.

Dona Adélia e seu Clodoaldo acreditavam que o ciúme do filho seria passageiro. Porém, o tempo passou , os irmãos ficaram  adultos,e as brincadeiras de Zequinha tornaram-se grosseiras. Ele colocava barata viva no armário da irmã. Fofocava com  as amigas de Silvinha. Infernizava o dia a dia da caçula. Até que Silvinha conheceu Marcelino e as provocações cessaram.  Aparentemente, o rapaz conformara-se em conviver em harmonia com a irmã.

O despeito de Zequinha estava apenas adormecido. Faltando  um mês para o casamento de Silvinha, a ira do rapaz ressurgiu com  intensidade  :” Essa vadia estragou minha vida e agora acha que vai se casar e ficar por isso mesmo ? Veremos. “

Ardiloso , Zequinha planejou a separação de Silvinha e Marcelino.

No final de um  domingo chuvoso, o plano do rapaz começou a tomar forma..Marcelino se despedia  de Silvinha no portão de casa  e nem reparou que  Zequinha os observava :
-          Tchau amor. Amanhã, assim que eu pegar o carro na oficina, te pego e vamos conversar com o padre.
-          Tá amor. Cuidado .Não gosto que você ande de ônibus . Quando chegar em casa me liga.
  
Marcelino descia a rua distraído, quando sentiu alguém lhe puxando o braço.
- Porra cara, ia te dar uma porrada. Pensei que fosse assalto. O que aconteceu  ?

Zequinha foi direto:
-          Preciso falar com você .
-          Fala.
-          Não casa com a minha irmã. Ela é uma puta. Putona. Deslavada.
 Marcelino estufou o peito e foi pra cima do futuro cunhado :
- Que  isso, cara ? Como você chama a mulher que eu vou casar de puta ?
É tua irmã e vai ser minha esposa. Mulher direita. Fiel.

Zequinha deu uma  gargalhada:
-          Isso é o que você pensa. Ela é puta. Das boas

Começaram a discutir. Marcelino deu um soco em Zequinha.
Zequinha caiu em cima de um carro estacionado na calçada. A vizinhança apareceu. Dois homens separaram a briga.
 Marcelino gritava, irado, enquanto era arrastado por um rapaz de braços fortes  :
-          Você é um babaca, você tem inveja da tua irmã . Escroto. Otário. Filho da puta.

 Zequinha limpava o sangue no canto da boca e respondia, cínico :
-Pode falar o que  quiser. Gritar, espernear . Ela é puta , putona mesmo !

Uma  vizinha conseguiu levar Zequinha pra casa. Quando ele se atirou no sofá com a boca sangrando, Silvinha se preocupou:
-          O que aconteceu  ? Brigou ?
-          Não . Esbarrei com os lábios no balcão do armazém. Me deixa em paz.

Marcelino ligou para Silvinha quando chegou em casa. Não comentou sobre a briga.  Tomou um banho e deitou-se. Rolou na cama angustiado. As palavras do futuro cunhado ecoavam-lhe na mente  :  “ela é puta...putona mesmo....”

Intrigado, ele  se perguntava : “ será ? não é possível !?
 “
A semente da  dúvida germinou na cabeça e no coração de Marcelino.
 De manhã, sem pregar o olho , saiu para o trabalho. No final da tarde,  pegou o carro na oficina e encontrou-se com  Silvinha. Assim que viu a futura esposa, as palavras de Zequinha vieram-lhe a mente : puta , putona .

Marcelino calou-se. Triste. Desanimado. Silvinha notou:
-          Amor, o que você tem hoje ? Tá caladinho . Quer  um cafuné ?
-          Não . Vamos na igreja falar com o padre. Depois te deixo em casa. Estou com dor no estômago.

Na volta,  Marcelino  deixou a noiva na porta de casa. Não queria entrar. Ela insistiu :
- Vamos. Papai quer conversar com você. Vem . Vem Vamos.

Cedeu, porém, logo arrependeu-se. Dois minutos depois, Zequinha entrou na sala.
Ele olhou para o futuro marido da irmã  e passou a língua nos lábios. Depois deu uma piscadinha. O sangue de Marcelino ferveu, mas ele resistiu.
Na hora de ir embora,  tomou coragem e perguntou a Silvinha :
-          Teu irmão é gay ?
-          Não. Pelo contrário. Ele é galinha. Vive saindo com uma e com outra. Por quê ?
-          Nada. Esquece.  Me dá um beijo.

No dia seguinte o telefone toca no trabalho de Marcelino. Do outro lado, Zequinha.  Quando Marcelino  ouviu a voz do futuro cunhado suou frio :
- O que você quer ?
-          Estou ligando para dizer que minha irmã é uma puta. Putona. Rameira da pior espécie.  Os motoristas de táxi do subúrbio é que sabem.

Durante três dias Zequinha martelou a cabeça do futuro cunhado com obscenidades. Até que,   irritado e ofendido, Marcelino tomou uma decisão. Movido pelo ódio, pegou a arma do pai e  chamou Zequinha para uma conversa :
-          Cara, vamos tomar um chope hoje. Preciso que você me conte essa história direito. Mas em paz. Sem brigas.
Zequinha aceitou o convite. Beberam e falaram sobre futebol. A arma estava na cintura de Marcelino, por baixo da camisa:
-          Agora, vamos dar uma voltinha pela cidade. Que tal ?

Zequinha não desconfiou de nada. Os dois chegaram numa rua deserta e sem saída.  Marcelino parou o carro, virou-se para o cunhado e perguntou de repente  :
-          Quem sabe da história da Silvinha ser puta ?
-          Só eu. Vi ela saindo com um taxista. Investiguei  e descobri que ela tem compulsão por motoristas de táxi. 
Marcelino  pegou na arma discretamente. Suou frio. As pernas bambearam. O coração acelerou. Não teve coragem de atirar . Acelerou o carro e partiu em silêncio.

Deixou o futuro cunhado em casa. Depois, parou o carro na rua de trás e chorou como uma criança. Sentiu-se  o pior dos  homens :
-          Sou um fraco. Uma ameba. Nem coragem para matar esse babaca , eu tive.

Contratou um matador profissional. Queria a morte de Zequinha no dia do casamento. Pareceria um assalto. Um pouco antes da cerimônia. Ninguém sentiria  falta de Zequinha na igreja. Quando a notícia  da morte chegasse, ele e Silvinha já teriam embarcado para a lua de mel. Imaginou. 

Tudo combinado com o matador.  Na porta da Igreja, o celular tocou. Marcelino  atendeu com as mãos trêmulas. Do outro lado uma voz seca informou :
-          Serviço feito. Acabou.

Marcelino respirou  aliviado.  Quinze minutos  depois, Silvinha chegou .  A cerimônia começou. A voz do padre era suave e segura . De repente, ela é abafada pelo som das  palmas vindas da  porta da igreja. Os convidados olharam curiosos e viram Zequinha com a roupa ensanguentada.  Marcelino  arregalou os olhos, apavorado. Zequinha falava compulsivamente  :

-          Estão vendo a mulher de branco no altar ? Olhem bem pra ela !! É uma puta. Putona. Amante de três taxistas no subúrbio.

Burburinho . Marcelino sentiu uma  fisgada  no peito. O nó da gravata  apertou. Teve um enfarte. Fulminante. Silvinha corria pela igreja, desnorteada, rasgando o vestido.  Dona Adélia  desmaiou. Seu Clodoaldo trincava os dentes , nervoso.
O riso estridente de Zequinha ecoava pelo ambiente .  Num acesso de fúria, ele arrancava as flores que ornamentavam os bancos e jogava as pétalas no corpo do noivo.  
 Os  convidados assistiam a tudo, paralisados, enquanto o padre  rezava e jogava água benta em Zequinha.

11 de out de 2011

Minicontos - Realidade virtual -

- Saiu da festa com pressa. Precisava chegar em casa antes de meia-noite para conversar com o namorado pela  webcam.

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- Preferia os  amigos virtuais . Era mais fácil  se livrar deles. Já deletara uns quinhentos.

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- Depois que experimentou sexo virtual, não queria outra coisa. Nem se importou quando soube que a esposa arranjara um amante no trabalho.
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-  Adorava discutir nas salas de bate-papo virtual. Não o viam entortando o pescoço quando era contrariado.
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- Seu maior sonho era arranjar uma amante virtual. Assim não precisaria sair de casa e nem pagar as despesas do motel.

5 de out de 2011

Desejo de mulher

                                     
Cinco horas da tarde. Elvira e Maria Odete saíram do trabalho as risadinhas e cochichos :
- Tomou coragem ?
- De hoje não passa.
-  Vai gostar. Faço há mais de um ano.
- Ajudou no casamento ?
- Claro. Cada semana é uma novidade.
-Amanhã te conto tudo. Me aguarde.
Se despediram no ponto de ônibus. Elvira foi para casa disposta a dar um  rumo novo ao casamento enfadonho. Quando chegou, tomou banho, colocou uma colônia refrescante e esperou ansiosa pelo marido .
Alfredinho chegou reclamando :
- Vou pedir demissão. Não agüento mais. Isso não é vida.
- Alfredinho, muda o disco. Já conheço a ladainha. Vai tomar  banho logo para a comida não esfriar. Quero conversar com você.
O jantar foi servido. Comiam  na mesa da sala.  Elvira queria entrar na conversa mas não sabia como começar. Alfredinho não tomava conhecimento da mulher. Jantava com os olhos fixos na televisão. Antes de recolher os pratos, Elvira tomou coragem. Sem olhar  para Alfredinho iniciou o assunto:
- Alfredinho, você gosta de mim ?
- Por que essa pergunta fora de hora ?
- Quero saber. Sou sua mulher . Tenho direito. Ora !
- Gosto, ué.
- Faria tudo o que eu pedisse ?
- Depende.
- Do quê ?
- Depende do que vai me pedir. Se for para me jogar debaixo de um trem, claro que não !
- Falo de sexo.
- Sexo ? O que tem sexo a ver com a nossa conversa ?
- Caramba, você assim tá me intimidando.
- Então fala logo. Desembucha.
Nem respirou :
- Você tem alguma fantasia sexual ?
Alfredinho coçou a cabeça, olhou  para a esposa, que curiosa, esperava a resposta :
- Vou ao banheiro. Estou cheio de preocupação na cabeça e você me vem com história de fantasia sexual ? Francamente.
Ficou desconcertada. Sentiu-se quase uma tarada a violentar a mente preocupada do marido.
Lavou  os pratos prendendo o choro. Passou pela sala envergonhada.
Nem olhou para Alfredinho. O marido de Elvira estava  sentado no sofá e  comentava  o noticiário em voz alta com  o apresentador.
Elvira se trancou no quarto. Em seguida, choramingando, vestiu  a camisola, apagou a luz e se deitou . Rolou na cama. Viu o marido entrar no quarto  e dez minutos depois adormecer.  Passou a noite em claro.   Tomaram café emudecidos.   Alfredinho saiu primeiro:
- Não me espera para jantar. Vou chegar tarde.
Não respondeu. Sentia-se humilhada. Rejeitada na sua feminilidade. Queria inovar a relação e distanciou-se  mais do marido. Não se relacionavam há dois meses. Sentia falta. Ele sempre tinha desculpa para não conversar sobre o assunto.
Quando chegou no trabalho, Maria Odete quis saber :
- Como foi ? Topou ?
Mentiu constrangida :
-  Na hora. Vai ser  no sábado.
- Depois me conta. Quero saber tudinho.
Elvira deu um risinho sem graça. Jamais exporia sua humilhação para a colega de trabalho bem resolvida com o marido.
Sentiu-se sozinha e carente. Na hora do almoço foi a um sex shop namorar a vitrine. Flertou com a imaginação. Distraída, esbarrou num senhor, uns 20 anos mais velho : alto, paletó e gravata, cabelos quase brancos. O homem lhe pegou  pelo braço carinhosamente :
- Assustei você flor de laranjeira  ?
O toque causou-lhe arrepios . Não conseguiu disfarçar a surpresa. O homem trazia no rosto uma compaixão quase angelical. Elvira tomou-se de ternura. Apresentaram-se e trocaram o número do celular. No dia seguinte quando se aprontava para o almoço, o celular tocou. Viu o número, pensou em não atender. Tomou-se de um impulso juvenil :
- Alô, quem é ? – Fingiu não conhecer.
- Elvira, Amaury. Lembra de mim ?
-  Hummmmm.... Amaury ! Ah sim !  Ontem na rua. Que cabeça !
- Vamos almoçar , flor  ?
Respondeu um sim quase adolescente. Antes fez charminho . O charme feminino usado no jogo da conquista .
Passaram a almoçar todos os dias. A amizade  cresceu. Junto veio, de início,  uma intimidade fraterna. Depois a curiosidade sexual.  Elvira falava da insatisfação do casamento. Amaury reclamava da frieza da esposa. A vontade de uma intimidade maior aumentou .
Entediada com o que a vida lhe proporcionara até aquele momento,  Elvira tomou a iniciativa. Queria novidade :
- Amaury, se eu te fizer uma pergunta indiscreta, promete responder com sinceridade ?
- Prometo.
- Você tem alguma fantasia sexual ?
Pego de surpresa, tentou responder com naturalidade e inventou:
- Várias. Vivo no mundo da fantasia. A realidade é um tédio.
Cochichou–lhe, então, timidamente  no ouvido. Ele deu uma gargalhada de excitação :
- Vamos colocar em prática.  Que tal segunda-feira  depois do trabalho?
Uma espécie de formigamento tomou-lhe  o corpo.
No dia combinado, antes de sair, mentiu para o marido :
- Alfredinho, vou fazer extra hoje .  Deixo comida fresca na geladeira. Quando chegar é só esquentar no microondas.
Não conseguiu trabalhar direito. Olhava  o relógio a todo instante. O dia se arrastava. O pensamento em Amaury ajudou-a a preparar os relatórios. Bateu o cartão . Saiu  apressada. Se encontraram. Curiosa, Elvira  perguntou :
- Trouxe ?
- Claro. Tá aqui na pasta. Olha o embrulho.

A mulher prendeu a respiração de tanta empolgação. Chegaram no motel. Amaury pegou o pacote e se enfiou no banheiro :
- Já volto.
Elvira andava de um lado para o outro. Parecia uma criança a espera de um brinquedo novo. Nunca traíra o marido. Mas seria por uma boa causa. – Pensava para diminuir a consciência pesada.
Quando a porta do banheiro se abriu a sensação foi indescritível. Amaury, fantasiado, foi em direção a ela, puxou-lhe pela cintura, beijando-lhe a boca com sofreguidão . Em seguida gemeu  :
- Minha mulher gato.....
Correspondeu entusiasmada :
- Me beija, meu super - herói  !