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29 de ago de 2011

Perfeição

Era perfeito.Olhos amendoados e cheios de mistério. O rosto afilado  dava-lhe ares de realeza. A boca carnuda era alvo de desejos infinitos. Dedicavam-lhe versos e poesias. Alto. Corpo atlético. Pele bronzeada e perfumada. Além de lindo, era também inteligente. Humor fino e sorriso encantador. Terminava o doutorado e em breve ganharia promoção no trabalho.  E o melhor de tudo : A  amava. A voz de veludo vivia- lhe confidenciando segredos eróticos  Mas como nem tudo é perfeito, tinha um  defeito. Talvez o maior de todos. Também amava Juliana, Marcia, Irene, Suely , Patrícia........

22 de ago de 2011

A vingança de Lara


                                                
Final de expediente. Saí do trabalho e fui tomar um drink no barzinho de música ao vivo que inaugurou  perto do escritório. Entrei sozinho, fazendo reconhecimento do ambiente, desatei o nó da gravata e pedi uma cerveja. Tentando ser agradável, comentei  com o barman:
- Você  é um cara de sorte, trabalha num lugar cheio de mulher bonita .
Ele me respondeu com um sorriso seco, me serviu  e foi atender outro cliente.  Pensei em Marly. Estamos juntos há dez anos e na época da TPM sempre brigamos. Por isso que, ao invés de ir pra casa, preferi relaxar ouvindo música e quem sabe encontrando uma mulher para me proporcionar bons momentos. Nunca fui fiel. Fidelidade é utopia. Olhei curioso para a pista de dança e avistei uma mulher  alta, num vestido preto, colado ao corpo bem torneado. Os cabelos longos e negros  lembravam Cleópatra. Seus movimentos sinuosos me deram tesão. Era uma égua puro sangue. Extasiei-me com a cena. Nossos olhares se cruzaram. Ela parou de dançar e veio em minha direção . Abriu um sorriso provocante, segurou os cabelos e deixou-os cair displicentes :
- Me paga uma cerveja ?
Meus olhos famintos penetraram-lhe as artérias  como uma  faca amolada  rasgando a carne. A vida é surpreendente. A cada segundo tudo pode mudar . Conversávamos muito próximos.
- Desculpe, estou tão impressionado com a sua beleza, que ainda não perguntei seu nome. – Brinquei.
- Meu nome é Larissa, mas pode me chamar de Lara.
Nos apresentamos. O celular vibrou. Era Marly. Desliguei . “ Pirei por Lara, Larissa. “
- Você não quer ir para um lugar menos barulhento ? – Falei baixinho no ouvido dela.
Ela jogou os cabelos pra trás e  fez beicinho  :
- Claro. Assim ficamos á vontade.
Passamos  duas horas de puro prazer e êxtase. Lara adormeceu. Voltei a realidade. Olhei o relógio preocupado . Dei um pulo : Onze horas . “  É hoje que Marly me expulsa de casa “.
- Lara, acorda, precisamos ir .
- Não vamos dormir aqui ?
- Não posso.
- Por quê ?
-Sou casado
- Por que não me disse antes ?
- Você não me  perguntou.
Lara se levantou da cama, colocou o vestido, enfiou a calcinha dentro da bolsa , e antes de sair , me deu um tapa no rosto :
- Deveria ter me contado . Eu tinha  o direito de escolher.
 “ Será que ela pensou que eu fosse pedi-la em casamento ? “ As mulheres são cheias de fantasias românticas.  Não adiantou nada queimarem sutiãs em praça pública, se ainda sonham com o  príncipe encantado, que vai libertá-las da bruxa malvada.
Cheguei em casa quase meia-noite. Marly dormia igual a um anjo .  
Acordei com o café na cama. Marly é um amor. Fizemos as pazes.  
Só voltei a ter notícias de Lara , dois meses depois, quando abri a porta do meu apartamento e a vi sentada no sofá, de pernas cruzadas,  conversando com minha esposa. Senti uma pontada na boca do estômago. Marly me trouxe de volta  :
- Querido, deixa eu te apresentar Larissa. Minha nova amiga da academia.
Jantou conosco. Durante o jantar, seus olhos pretos e irônicos desafiavam-me. Quando  foi embora,  Marly comentou :
-Simpática minha nova amiga, né ?
- Não  gostei .
- Você nunca implicou com amiga minha.
- Não estou implicando. Só disse que não gostei.
- Larissa é uma mulher carente. Uma semana antes do casamento, descobriu que o noivo  era casado. Passou cinco anos no analista.
 “ Como é que eu podia adivinhar ?” Da próxima vez que eu pegar uma mulher para dar uma rapidinha, peço para falar primeiro dos traumas passados.
Que azar o meu , as duas  tornaram-se amigas ! Lara chegou a  nos apresentar o  namorado. O romance durou pouco . Além de alcoólatra ,  era viciado em jogo  .  
Num sábado chuvoso,  a campanhia tocou insistente. Era Larissa. Estava com os olhos vermelhos de choro.  Avisei que Marly  voltaria logo. Convidei-a para entrar com um leve toque nos braços. Ela deu um salto e gritou:
- Não toque em mim. Nunca mais toque em mim. ENTENDEU ?
Fiquei sem ação. Vi o ódio em seus olhos. Pareciam duas lâminas prontas para me cortar. Senti pena daquela mulher linda e carente.
Na segunda-feira cheguei  do trabalho mais cedo. Marly fazia as malas  :
- Vamos viajar ?
-  Não. Nosso casamento acabou. Vou me embora.
- Tá de sacanagem !?
- Estou apaixonada  por outra pessoa.
- Quem ?
- Larissa. Lara.
- Apaixonada por mulher ? Que brincadeira  é essa ? Você nunca foi lésbica.
Segui Marly até a sala.  Pedi que ficasse. Bateu a porta na minha cara. O apartamento ficou enorme. Minha pose de macho desabou. Tinha 15 anos quando chorei pela última vez. O vizinho da casa amarela furou minha bola de futebol novinha que ganhei do meu pai.
Durante  duas  semanas não tive notícias de Marly.  Fui até o bar onde vi Lara pela primeira vez. Encontrei-as dançando. Me aproximei . Marly virou o rosto e saiu . Segurei  Lara pelo braço . Ela me empurrou :
- Já disse que não quero que me toque .
-  Pode me dizer o que você falou com a MINHA ESPOSA para ela sair de casa  ?
Foi fria e sarcástica :
- Não falei. Fiz.
- O que você está querendo dizer ?
- Você é uma merda na cama, seu babaca. Naquela noite não gozei .
Marly voltou carregando um  copo de capirinha em cada mão. Deixaram-me sozinho na  pista . Perdi. Fazer o quê ? Uma loira peituda, com um  vestido vermelho, me puxou pelo braço. Apertei-a contra o meu corpo. Ela gemeu. Mulher é caixinha de surpresa.Amo-as .

Do meu livro de contos " Só as feias são fiéis".

6 de ago de 2011

Dor virtual

                                                                                                      

Nervosa, Maria Regina ligou para Ana :

- Amiga , preciso falar com você. É urgente.
- Mas o que aconteceu ?
- Pessoalmente.
- Já sei. O assunto é homem.
- Isso.
- Mas é tão grave assim ?
- Estou muito sentida. Triste. Preciso desabafar.
- Sim. Então vamos nos encontrar. O que você sugere ?
- Que tal no boteco do Arlindão ?
- Tá bom. Amanhã.
- Hoje.
- Mas são quase dez da noite. Amanhã eu trabalho.
- Não sei se agüento até amanhã.
- Amanhã é sexta. Segura a ansiedade. Nos encontramos ás oito, tá bom ?
- Ok.

Desligaram. Maria Regina andava de um lado para o outro. Mexia no computador.
Enrolova os longos cabelos no dedo. Ia até a janela. Precisou de um sonífero para dormir. Acordou com gosto de ressaca. Trabalhou de mau humor. Não via a hora de se encontrar com Ana. Melhor amiga. Sabia ouvir. Dava bons conselhos.

O dia passou com gosto de pão dormido. Um vazio insuportável ecoava no peito de Maria Regina. Fim de expediente. Desanimada, ela pegou a bolsa e o casaco, passou o cartão e seguiu para o ponto de ônibus.  De lá , ligou para  Ana :

- Confirmado ás oito no boteco do Arlindão  ?
- Confirmado.
- Já saí do trabalho. Vou chegar mais cedo.
- Saio daqui a pouco. Até já.

Maria Regina entrou no ônibus. Coletivo cheio, viajou resmungando . Chegou em Madureira dez para ás sete. Andou devagar pelas ruas. Precisava pensar. Acalmar os sentimentos. Sentia-se desgastada. Era sensível demais – acreditava. Os problemas tornavam-se  um martírio.  Principalmente as dores de amor.  Sete  e cinqüenta ligou novamente para Ana. Estava descendo do ônibus.

Sentou-se de frente para a porta. Pediu uma cerveja enquanto olhava as mulheres que chegavam acompanhadas . Sentia inveja. Uma dor sufocava-lhe o peito. Teve vontade de chorar. Quando a primeira lágrima saía dos olhos,  Ana chegou. Alegre e perfumada, nem se acomodou direito. Logo perguntou :

- E aí, amiga, que tanta urgência é essa de falar comigo ? O que aconteceu ?
- Estou muito decepcionada.
- Fala logo.  O que aconteceu ?
- Ednardo me deletou do Orkut .
- Hã ? Eu entendi direito ?
- Não se faz de surda. Entendeu. Estávamos ficando. Semana passada ele foi lá em casa e depois me descartou no virtual.
- Vocês brigaram ?
- Nada. Pensei  até que a relação fosse engrenar.
- Então . O que aconteceu ?
-  Não sei. Do nada o o vigarista me tirou do Orkut e me bloqueou no MSN
- Já ligou pra ele ?
- Já. Não atende.
- Parte pra outra amiga. Ei garçom, um chope, por favor !
- Falar é fácil.
- Ué, vai fazer o quê ? Cortar os pulsos ?
- Estou decepcionada. Falta de consideração.
- Consideração de homem ? Homem a gente aproveita e joga fora.
- Não consigo parar de pensar nele.
- Já tentou falar com ele no facebook ?
- Ele não tem. Pelo menos disse.
-  Menos pior. Pensa : Imagina se  tivesse ? Ia te deletar de lá também.

Maria Regina olhou fixo para Ana. Um olhar atrofiado. Incerto. Pegou o chope que o garçom acabara de deixar  sobre a mesa e jogou-o no rosto da amiga. Em seguida, pegou o copo e raivosa, estraçalhou na mão. Jogou os cacos no chão, pisou em cima e saiu do bar gritando desvairada.
  
Um minuto depois, Ana escutou uma  freada seguida de um grito de mulher.