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31 de jul de 2011

Flores pra você

                                                  
Sexta-feira, final de expediente. Dagoberto caminhava em direção ao carro carregando um buquê de rosas e uma caixa de bombons quando o celular tocou. Atendeu desequilibrando-se:
-  Alô ! Voltar para o escritório ? Agora mesmo doutor Geraldo.
Em seguida, ligou para Lucinha  avisando que adiariam a  comemoração pelos  seis meses de namoro.
Antes de subir , encontrou a secretária do doutor Geraldo na portaria e teve uma idéia:
- Dona Conceição,  esse buquê e essa caixa de bombons eram para  minha namorada, mas vou ter que voltar para o escritório. Se incomoda de ficar com eles ?
Sorridente, Dona Conceição esticou as mãos para pegá-los. Inês, vizinha de Lucinha, saia do elevador e viu a cena.
- Que vigarista, o namorado da Lucinha, cheio de graça com a loira. –Pensou.
Quando chegou na vila, a primeira coisa que fez, foi bater na porta de Lucinha :
- E aí, tudo bem ?
- Não. – Respondeu Lucinha mal-humorada.
- Eu sei o motivo.  É o Dagoberto.
- Como é que você sabe ?
Inês fez suspense. Suspendeu as sobrancelhas. Parecia ter em mente, o segredo que destruiria a terra. Lucinha ficou nervosa :
- Fala ? Anda. Você viu o Dagoberto com outra ?
- Com uma loira de bunda grande. Entregava para ela um buquê de rosas vermelhas e uma caixa de bombons.
- Filho da mãe !  Reunião, né ? Mentiroso. Quem será a vagaba !?
- Vai ver é umazinha sem importância. Esquenta, não – Falou Inês falsamente.
- Ele me paga, Inês. Não confio mais em homem nenhum. Fui traída três vezes. Pensei que Dagoberto era diferente. Me enganei . – Falou com a voz embargada pela emoção.

Depois de envenenar a cabeça da vizinha, Inês foi embora portando no coração a  estranha felicidade dos invejosos.
No dia seguinte, Dagoberto tentou falar com Lucinha, sem sucesso.
Intrigado com a atitude da  namorada, foi procurá-la pessoalmente.  Antes, passou na floricultura e comprou um buquê de rosas. Tocou a campanhia apreensivo. Foi recebido friamente :
-O que você quer ?
- Eu é que pergunto :  Por que você está fugindo de mim ?
-   Cara -de-pau, cafajeste e ainda tem o cinismo de perguntar !?
-  Isso tudo é porque trabalhei ontem até mais tarde  ? – Perguntou sem entender.
- Quem era  aquela loira da portaria?
-  Loira da portaria ? Ahhhhhh sim, a dona Conceição ?
- Então é verdade. Existe mesmo uma loira ! A Inês tem razão.
- Ela é  secretária do Doutor Geraldo .
- Mentira ! Você deu um buquê de rosas pra vagaba bunduda !
Cega de ciúme, Lucinha gritava recusando-se a ouvir Dagoberto. Inês deliciava-se com a briga. Por trás da janela de casa, apurava o ouvido e ria miúdo.
Dagoberto silenciou.  Foi embora desanimado,  pensando que,  por mais que tentasse agradar, as mulheres nunca  estavam satisfeitas. Quando passava em frente a casa de Inês , ela  o convidou  para tomar um café  . Fragilizado, aceitou e  presenteou-lhe com o buquê de rosas. Enquanto conversavam, Inês fazia caras e bocas e jogava os longos cabelos  em cima de Dagoberto. Ele despediu-se prometendo ligar no dia seguinte. Duas semanas depois estavam namorando. Para provocar a vizinha, num sábado chuvoso, Inês propôs ao namorado ficarem em casa assistindo um filme no  DVD. Dengosa, ainda pediu  :
- Quero que você me traga  rosas vermelhas. Faço questão que sejam vermelhas !
Lucinha estava na janela quando viu  Dagoberto entrar na vila com o buquê de rosas. Cheia de saudade, esperou ansiosa ele tocar a campanhia da sua casa. Não entendeu quando o ex  se dirigiu para a porta  da vizinha. Confusa  e com o coração acelerado, perguntou  para a irmã adolescente :
- Cibele, você sabe o que o Dagoberto está fazendo na casa da Inês ?
-  Ué, você não sabe ? Todo mundo na vila sabe. Estão namorando. Você não jogou o cara no lixo ? A Inês foi até a lixeira, sacudiu, passou paninho e pegou pra ela.
- Filha da mãe ! Essa vadia me paga !
Saiu de casa  com gosto de sangue na boca. Tocou a campanhia da rival franzindo a testa, sacudindo as pernas e babando de raiva . A outra abriu a porta segurando o buquê, para provocá-la . O bate-boca começou . Aos gritos, Lucinha ordenou descontrolada:
- Chama o Dagoberto. Quero falar com ele !
- Queridinha,  Dagoberto agora é MEU NAMORADO ! – Respondeu cinicamente.
- Seu é o cacete ! Ele é meu , sua vagaba fofoqueira !
Começaram a se estapear. Rolaram no chão, amassando as rosas e machucando-se com os espinhos. Enquanto a vizinhança  separarava a briga, Dagoberto saiu discretamente, prometendo nunca mais voltar. Na rua , encontrou um amigo de faculdade  :
- Dagoberto, o que você faz  por aqui ?  Já casou ? – Perguntou brincando.
-  Casar ? Mulher é boa de vez em quando, se chegar muito perto, dá alergia. Principalmente na tal da TPM. Casamento é para os corajosos. Eu sou covarde.
- Então que tal  um chope para comemorarmos o nosso reencontro e a vida de solteiro ?
Entraram no botequim mais próximo. Com o copo de cerveja no alto, Dagoberto engrossou a voz e  gritou para descontrair  :
- Um brinde ao Flamengo . Dois a zero amanhã !   
- Tá brincando !  3 a 2  Flusão. E de virada. Com o  terceiro gol saindo  aos 45 do segundo tempo. Aposta quanto ?
Beberam até o dia clarear.
O domingo nublado prometia um clássico para ficar na história.

O conto está no livro " Só as feias são fiéis"

24 de jul de 2011

Incompatibilidade alimentar

Eram vizinhas. Encontraram-se no elevador no final da tarde, depois de mais um dia de trabalho. Sorrindo, Rosamara perguntou :

- E aí, como foi o encontro com o bonitão ?
- Nem te conto.
- Conta sim.
- Então vamos lá em casa. Tomamos um vinho enquanto te dou os detalhes.
- Detalhes sórdidos ?
- Não sei. Acho que mórbidos.
- Então a conversa vai varar a madrugada.

Saíram no sexto andar. Rosamara acomodou-se no espaçoso sofá da amiga e tirou as sandálias :

- Nada como relaxar depois de mais um diazinho sem graça de trabalho.
- Prefere vinho branco ou tinto ?
- Tinto e doce.

Serviram-se. Maria de Lurdes tomou um gole de vinho, respirou sonhadora e disse :

- O encontro foi ótimo. Beija bem. Abraça gostoso. Não tem uma gordurinha sobrando. Tudo no lugar.
- Um apolo ?
- Exato !
- Então existe a possibilidade de novo encontro ?
- Sem chance.
- Ele não gostou de você ?
- Até gostou.
- Ué ? Então ?! Qual o problema ?
- Pizza .
- Não entendi. Pizza ?
- Ele é preocupado com a alimentação . Senti que ficou perdido quando eu disse
que gostava de fast food e pizza.
- Tá brincando comigo ? Punida por gostar de pizza ?
- Terminou um namoro por causa dos hábitos alimentares da ex.
- Como os homens estão exigentes !
- E chatos, né ?
- Amiga, esquenta não. Vai ver que a alma gêmea do gostosão é uma coelha.
- Sabe que eu também acho ?
- Coloca mais vinho no meu copo. Só bebendo para esquecer.

Riam das idiossincrasias masculinas,  enquanto tomavam o segundo copo de vinho.

18 de jul de 2011

Tempos virtuais

- E aí, como foi o encontro ?
- Não foi.
- O que houve ?
- Não apareceu e nem deu satisfação.
- Cara de pau !
- Gastei dinheiro com unha ,escova, depilação.Comprei perfume francês. Acredita ?
- Acredito. Somos bem idiotas quando o assunto é homem.
- Dividi o vestido em  cinco vezes no cartão. Comprei uma sandália com cheque pré.
- Quanta produção ! Mas ele não ligou ? Não disse o que houve ?
- Sumiu. Não atende celular. Não aparece no msn. O facebook dele sumiu.
- Mas pelo que você me contava ele estava super interessado em conhecer você.
- Era o que eu pensava. Seis meses conversando por msn, telefone...
- Será que ele morreu ?
- Pior.
- Pior do que a morte ?
- Descobri que ele jogava a mesma conversa para mais duas mulheres.
- Como ?
- Elas me localizaram pelo antigo orkut dele. E nós descobrimos que ele não existe.
- Explica. Tô pirando, amiga.
- É só pegar uma foto de um homem qualquer e inventar que é alguém que não existe.
- Você caiu nessa ?
- Mas se os homens mentem pessoalmente, na internet ficou muito mais fácil.
- Mas você não desconfiou de nada ?
- Nem eu e nem as outras duas. Sabe como é, na falta de príncipe a gente acaba inventando um.
- Verdade. Cara assim é sob medida para mulher carente. É o que mais existe hoje.
 - O pior é que o infeliz já deve ter trocado de nome,  fotos, celular e está por aí enganando outras .
- E agora ? O que você vai fazer ?
- Arrumar outro. Pelo menos vestido, sandália e perfume eu já tenho.
- É, a luta continua !
- Isso, amiga, a luta continua !

9 de jul de 2011

Beleza imprestável

Ele realmente era bonito. Um moreno para mulher nenhuma botar defeito. Nem homem. Tinha olhos cor de mel, cabelos pretos e ondulados. A pele de um bronzeado invejável. Corpo esculpido em academia. No frescor de seus 25 anos, conquistava qualquer mulher. Os amigos já sabiam da fama de Olavo e adoravam sair com ele:

- Com o Olavo é bom sair para azarar. Se tiver duas mulheres, ele conquista uma e a sobra acaba ficando para a gente.

E assim iam correndo os dias. Olavo era um verdadeiro colecionador de namoradas. Cada mês estava com uma namoradinha nova. As mulheres não davam sossego ao rapaz.
Até que apareceu Ritinha na vida do conquistador. Ela era amiga de faculdade da irmã mais nova de Olavo. Uma menina sem graça.  Tinha 18 anos, óculos fundo de garrafa com direito  a aparelho nos dentes. Ainda por cima era branca como a necessidade. Mas sabe-se lá que tal, Olavo sentia uma atração diferente por Ritinha. Era na vida, a primeira vez que uma mulher   mexia com ele.
 .
Passou a querer saber mais sobre a moça. Costumava crivar a irmã de perguntas:
- E aí Gilda, quando é que a Ritinha vem estudar aqui em casa novamente? Ela tem namorado? Tem telefone? É filha única?

A irmã, conhecedora da fama de Olavo, estranhava tantas perguntas:
-Eu hein Olavo... o que você quer com a minha amiga? Ela não tem nada que chame a atenção e eu sei que você só gosta de mulher bonita. Deixa a minha amiga em paz. Não quero que você faça a Ritinha sofrer.

Até que Olavo tentava. Mas estava difícil. Quando a moça ia estudar na casa dele, Olavo sempre arrumava um jeito de ficar por perto, só para admirar Ritinha. Ele sentia que pela primeira vez estava se apaixonando de verdade.

Resolveu abrir seu coração com o melhor amigo:
- Alfredo....estou apaixonado. É a primeira vez que isso acontece na minha vida.
- Não diga. E quem é a felizarda dessa vez? A Sílvia?
- Que Silvia o quê... é uma amiga de faculdade da minha irmã.
- Deve ser o maior avião.
- Que avião nada. É moça simples. Sem nenhum atrativo.
- Essa eu não entendi...
Quando Olavo soube que Ritinha ia estudar com a irmã, convidou o amigo para conhecer sua paixão. Quando Alfredo viu a moça, chamou o amigo para o quarto:
- Olavo...você está cego? Essa moça não tem nada que chame a atenção.
- E daí? Dizem que paixão não tem explicação e eu estou apaixonado. O pior é que já falei com a minha irmã e ela não acredita.

O amigo deu um sorriso irônico:
- Nem eu.
Mas a verdade nua e crua era que Ritinha não saia da cabeça do jovem. Ele deixou até de sair com outras garotas. É que quando beijava outra, pensava em Ritinha. A jovem passou a virar verdadeira obsessão na vida de Olavo. Era noite e dia com Ritinha na cabeça.
Resolveu enfrentar a irmã e disse que chamaria a jovem para sair. A irmã sorriu:
- Essa aí ? Nem adianta...
- E posso saber o motivo? Ela é não gosta de homem?  Fez voto de castidade?  É casada?
- Ela gosta de homem  e muito até . Mas já me disse que só gosta de homem feio. Ela me falou que homem bonito dá muito trabalho.

Olavo achou que isso não seria problema. Pegou o telefone da jovem com a irmã e ligou para ela. Convidou Ritinha para sair. A jovem não aceitou. Ele pensou que ela estivesse se fazendo de gostosa. Mas Ritinha era mesmo osso duro de roer. Tentou durante três meses sair com a jovem. E nada. Pediu que a irmã interferisse. Nada. Até que um dia , quando a moça estudava com Gilda, Olavo resolveu mais uma vez investir:
- Vamos sair Ritinha....eu estou apaixonado. É verdade. Juro.
- Mas eu não estou apaixonada por você. Gosto de outro homem. Já disse: homem bonito não tem a menor chance comigo.

Um mês depois, na festa de aniversário de Gilda,  Ritinha foi e levou o namorado. Quando Olavo conheceu o rival quase caiu para trás. O cara era feio, desengonçado e além disse falava alto e com a boca cheia. Os amigos de Olavo foram em cima dele na maior gozação:
- Perder para esse cara...não...você com essa pinta toda...perder a parada para esse bestalhão? Quem diria....
Olavo foi obrigado a aturar a gozação durante toda a noite. Se sentiu humilhado. O pior dos homens. Afinal, do que adiantava tanta beleza se a mulher que ele amava o havia rejeitado e ainda o trocara pelo bestalhão?

Quando a festa acabou e os convidados foram embora, Olavo foi para o banheiro, ficou se olhando no espelho durante horas. Depois, abriu o armário do banheiro, pegou uma navalha e retalhou  a cara toda.

5 de jul de 2011

A festa do Pereira


 




Lívia respira aliviada ao ver Gilda entrar no restaurante.
- Até que enfim! O que houve?
- Problema no escritório. Já resolvi. Fala, o que tanto você quer me contar?
- Estou apaixonada.
-  E quem é o felizardo?
- O Pereira.
- QUEM?
- Pe-rei-ra!
- Mas logo o Pereira?
-  A gente escolhe por quem se apaixonar?
- O homem é  marido da sua mãe!
-  Estou fissurada nele. É paixão. Das boas.
- Ele sabe? Sua mãe? Seu irmão? Alguém desconfia?
- Acho que não. Me insinuo quando estamos sozinhos mas ele finge que não vê.
- Sinal de  que é  fiel à sua mãe.
-  E existe homem fiel no mundo?
- Existe, o Pereira.
- Pois vamos testar a fidelidade dele . E para isso, preciso da sua ajuda.
-  Ah, não! Vai me colocar no rolo?
- Escuta: sábado que vem, minha mãe vai dar uma festa no terraço lá em  casa para comemorar os 50 anos do Pereira.
-  E onde eu entro nisso?
- Vamos dar um porre no Pereira e levá-lo para o meu quarto. O resto é comigo.
Gilda achou a idéia absurda. Mas Lívia convence a amiga a participar do plano mirabolante. Depois de todos os detalhes combinados, a excitação de Lívia aumentou. Nem dormia direito. Só pensava no momento em que teria o homem amado nos braços. Em casa, só se falava no aniversário do Pereira. Lívia chateou-se, quando, dois dias antes da festa, a mãe chegou da rua acompanhada de Ricardinho, com uma bolsa de compras. Curiosa, perguntou:
-  Que sacola é essa, mãe?
- O presente do Pereira.
- Pô, eu falei pra senhora que queria  ajudar a escolher.
- Ah, minha filha, seu irmão tem muito bom-gosto. Roupa de homem é melhor deixar com Ricardinho.

Na hora do jantar, com a família reunida, Lívia notou que Ricardinho era o centro das atenções e ajudava na organização da festa.
- Esse bufê que a senhora  encomendou é bom mesmo, mãe?
- É o mesmo  bufê do aniversário da sua tia.
 Agitados, toda hora, Ricardinho e a mãe  conferiam a lista de convidados.
- Vê se eu chamei a sua tia Nely.
- Chamou, tá aqui, ela, o tio e as primas.
- E a vó, vem? – perguntou Ricardinho.
- Claro. Sua vó fez 90 anos e está com uma saúde de ferro.

Lívia percebia que a mãe preferia o irmão. Por isso –  pensava – “será uma grande vingança ir pra cama com o Pereira”. Contrariando a meteorologia, no sábado, o céu amanheceu azul, deixando a família aliviada. O movimento em torno dos preparativos foi grande o dia todo. Os garçons aprontaram-se meia hora antes da chegada dos convidados. Assim que Gilda apareceu, Lívia foi falar com ela.
- Já dei três copos de cerveja para o Pereira. Mas ele precisa beber mais.
-Tem certeza que você quer levar essa maluquice adiante ?
- Tenho.
Gilda grudou em Pereira para cumprir sua parte no trato.
- Bebe, Pereira.  É vinho. Peguei pensando que era  suco de uva.
O plano parecia encaminhado. Pereira misturava vinho, cerveja e batida. Tonto, foi praticamente arrastado por Gilda, para o quarto de Lívia.
- Fica aí. Não sai . Tem uma pessoa querendo falar com você.
Correu para chamar a amiga :
- Anda, vai lá antes que o homem fuja! Oportunidade única.
Quando Lívia chegou, encontrou a mãe e Pereira discutindo. Ia sair, mas Pereira segurou–lhe o braço e com ares de embriaguez  exigiu:
- Fica. Sua mãe quer falar com você. Está na hora de saber da verdade.
Ficaram sozinhas e  a mãe foi direto ao assunto:
- Eu e Pereira percebemos que você se insinua para ele descaradamente. Ricardinho quem nos alertou.
- Sempre Ricardinho. Aconteceu. Fazer o quê? Eu quero o Pereira pra mim.
A mãe deu uma risada nervosa.
- Impossível, minha filha! Esse amor é impossível! Esquece o Pereira.
- Esquecer? Eu o amo! E lutarei por ele. 
- Não adianta lutar.  Nunca desconfiou?  Pereira e seu irmão são amantes!
- Nãoooo, isso é mentira! Diz que é mentira! Diz, sua louca!
Lívia viu o quarto rodar. Parecia ter levado um soco na boca do estômago. Se jogou na cama, enquanto a mãe falava  numa compulsão sádica.
- Os dois se amam! São AMANTES! E eu apoio esse amor.
- E por que se finge de esposa apaixonada? 
- Ricardinho tem medo de não ser aceito pela nossa família religiosa e cheia de preconceitos.
Ensandecida com a revelação, Lívia repetia as mesma palavras toda hora:
- Pereira e Ricardinho são amantes! Se beijam na boca. Que nojo!
A mãe se aproximou para tentar consolá-la. Lívia a rejeitou.
- Sai daqui, cúmplice! Vai representar o seu papel  de esposa perfeita!
Uma hora depois, Lívia  decidiu ir ao terraço. Encontrou a família reunida cantando parabéns e fazendo brincadeiras com o aniversariante.
- Com quem será, com quem será que o Pereira vai casar.
Assombrada, voltava para o quarto, quando esbarrou no garçom. Um arrepio de prazer percorreu-lhe a espinha.
- Como é o seu nome?
-Álvaro.
- Vem comigo.
-Senhora, por favor, tá na hora do bolo, tenho que servir.
- Que  bolo o quê! Seu colega se vira!
Puxou  o garçom para o quarto e trancou a porta.
- Dona, eu não sei o que a senhora tá querendo, vou ser demitido.
Tirou a roupa e passou a mão pelo corpo diante do olhar surpreso do garçom.
- Sou gostosa?
Álvaro  abaixou a cabeça sem jeito.
- Responde. Anda! Você é um homem ou uma ameba?!  SOU GOSTOSA?
- Ééeeee!!!
- Então, vem, sirva-se!
Rolaram na cama. De repente, Lívia parou, apagou a luz e fez biquinho.
- Posso chamá-lo de Pereira?