Pesquisar este blog

26 de jun de 2011

Comício das feias

                                            
Marileide acabara de lavar a roupa e passava com a bacia pingando pela sala. A mãe , contrariada, zangou-se com ela :
- Não faz nada direito mesmo ! Nem lavar uma roupa sem sujar a casa. Por isso não casou ! Tá aí...30 anos....solteirona....as irmãs encaminhadas e você largada as traças.
Marileide encolheu os ombros, como sempre fazia, enxugou a sala com um pano e foi para o  quarto chorar. Vendo que a filha não reagia,  Rosileide, continou o discurso sádico :
- Também....como é feia ! Feia como um limão chupado! Como essa filha feia pode ter saído de dentro de mim ? Como meu Deus, me responde ?!
Marileide era a filha mais nova de Rosileide. Moravam no Município de  Jabuticabeira, uma cidade do interior, com pouco mais de  12 mil habitantes.
Marileide sofria desde criança  por não atender aos padrões de beleza familiares. Até no  colégio era rejeitada pela sua fealdade. Tornou-se uma mulher reservada mas com uma bomba dentro de si prestes a explodir.
Certa vez , quando voltava do açougue, cansada de ser humilhada , revoltou-se. Uma revolta que há muito vinha sendo remoída e que piorou com a TPM.  O homem da pamonha esguelava-se  na praça segurando um megafone. Marileide  arrancou o megafone das mãos dele e em seguida começou a fazer um discurso tirado do nada  :
- Cansei de ser chamada de feia ! As feias  tem um lugar no mundo ! Merecemos nosso pedaço de sol.  Deus criou as feias ! Sinal que servimos para alguma coisa. Quem aqui se acha feia  ?  Sem medo, levanta a mão ! Nós feias podemos nos organizar contra o império da beleza ! Contra a ditadura da magreza ! Do cabelo escovado... Abaixo o silicone ! Viva a celulite.....as estrias, os culotes...o cabelo crespo !
As palavras  de Marileide foram atraindo cada vez mais gente. Hora da saída da escola, as mães e empregadas que passavam com as crianças , paravam para prestar atenção no discurso ressentido de Marileide. Recebeu  apoio das feiosas que foram se aproximando:
- É isso aí ! Cansei dessa história de só mulher bonita ter vez........ser feia não é destino, é castigo ! Ninguém nasce feia porque quer .
Até Marcia Maria , repórter que fazia uma matéria  para uma revista feminina sobre festas juninas no interior , se interessou pelo  discurso de Marileide. Empolgada, comentou com o fotógrafo que a acompanhava ;
- Essa mulher vai longe ! Sabe fazer um discurso convincente ! Que oratória ! Punhos cerrados, cenho franzido, bem trabalhada  pode ser prefeita desta cidade... falta um pouco de malícia. Já tenho até o slogan da candidatura :
- Para Prefeita, vote na feia !
O fotógrafo, sabendo das idéias esdrúxulas de Marcia Maria, tentou contornar :
- Não inventa. Vamos acabar de tirar as fotos que eu quero voltar para a revista ainda hoje.
- Pois quer saber ? Vou ficar e filiar essa feia a um partido, convencê-la a ser prefeita . Serei sua assessora. Chega de revista feminina , cansei da  mesmice de sempre.
Marcia Maria  ficou na cidade para conversar com Marileide sobre sua  candidatura a prefeitura de Jabuticabeira.
Marileide aceitou a sugestão  na hora. Precisava de uma distração que lhe levantasse a auto-estima.
As duas mulheres passaram noites traçando planos. Se filiaram a um partido. Mostraram um programa. Marileide saiu candidata a prefeita pelo partido de oposição.
Seus comícios sempre tinham muitas  feias e acabaram também atraindo os feios.  Logo ganhou um trio elétrico que rodava pelas ruas da cidade. Em cima do trio, Marileide convocava as pessoas que sentiam-se rejeitadas:
- Você que se acha feio ou feia, rejeitada pelo marido ,pelas mulheres,  cansou do culto ao belo na televisão , vote em mim  ! Para prefeita, vote na feia ! No país dos mensalões e furacões ser feio não é defeito, é virtude!  Mas para os insatisfeitos com a própria feiúra, implantarei  cirurgia plástica estética de graça nos hospitais da prefeitura. Gratuidade de transporte para os  feios !  Abrirei o Clube das Feias com direito a desfile de moda masculina   .....!
Um feio e destentado, empolgado com a promessa de uma cirurgia plástica, comentou com o colega :
- Será que finalmente vou poder consertar meu nariz de graça  ?  
 Marileide enchia a população de promessas. Seus discursos eram concorridos.  Marcia Maria ajudava. Consertava uma coisa ou outra, tinha faro, sabia orientar Marileide. Tinha alma de psicóloga : entendia o ser humano, sabia o que as pessoas queriam ouvir.  
Durante um comício, quando Marileide, com ares filosofais,  falou que o feio tinha mais encanto que o belo e que as mulheres feias possuíam muitas vezes encantos que raramente as mulheres belas possuíam, as feias entraram em êxtase.  Marileide virou-se para Marcia Maria e perguntou :
- Como é mesmo o nome do artista  que disse isso ?
- Não foi um artista, foi um filósofo. Não importa o nome . Ninguém conhece mesmo.
Marcia Maria adorava inventar moda. Teve uma outra  idéia aprovada com louvor pelos companheiros  do partido  :
- Temos que causar impacto . Mexer com a fé do povo. Com a emoção ! Sugiro o nome de um santo. Essas coisas dão certo. Em  cidade do interior será o maior sucesso. O povo é crédulo. Teremos muitas  adesões.
Marileide gostou da idéia e  sugeriu  :
- Que tal São Jorge ? Ele já tem o dragão....Gosto dele, imponente , em cima daquele dragão !
- Isso ! São Jorge ! Podemos distribuir dragões benzidos e estilizados.
Mandaram confeccionar mais de seis mil dragões .Marileide anunciou a distribuição na rádio da cidade durante propaganda eleitoral :
- Feiosos e feiosas de Jabuticabeira, na  sexta-feira  estarei na praça da igreja distribuindo dragões benzidos com a presença do Padre Severino de Luca!
A mulherada colocou as mãos para o alto e começou a rezar. Algumas já sentiam orgulho da própria feiúra. Até a mãe de Marileide que a rejeitava, agora servia de cabo eleitoral. Vote em 88, o número da feia ! – gritava pelos bairros  de Jabuticabeira . Veio gente de outras cidades para pegar um dragão benzido. As filas se formaram um dia antes. A população esperou pacientemente enfileirada com cadeiras de praia, garrafa térmica e cobertores. Teve quem chegasse ao exagero de levar barraca de acampamento.
Depois do sucesso dos dragões benzidos,  houve farta distribuição de camisas  e bonés com imagens de Marileide e de São Jorge. Na anti-véspera da eleição a cidade entrou em vigília. Todos rezando com um retrato do santo  nas mãos.
A vitória veio fácil.  Marileide ganhou com 90 por cento dos votos. Até os maridos votaram nela.
Quando tomou posse, a primeira providência de Marileide  foi contratar uma cabeleireira da cidade grande:
- Marcia Maria, providencie  além da cabeleireira, uma manicure, podóloga, massagista ...ah sim..e um cirurgião plástico !
- Mas Marileide....você quer fazer cirurgia ? Foi a sua feiúra  que lhe trouxe  até aqui !
- Marcia Maria, não discute ! Vou pagar você  para ser minha assessora e não para discutir minhas ordens.
Virou tirana.  Mandava e desmandava. Se preocupava apenas com a própria  aparência. Uma preocupação paranóica. Obsessiva. Contratou um personal.   Em um ano, fez lipoaspiração, cirurgia no nariz, colocou silicone nos seios, botox e sempre fazia  drenagem linfática. Virou outra pessoa, por dentro e por fora.  Vaidosíssima . Gastava o dinheiro da prefeitura com nutricionista,  cabeleireira e uma costureira particular.
 Os habitantes de Jabuticabeira ficaram em segundo plano. As ruas, idem. Depois de tanta plástica , Marileide transformou-se  numa linda mulher.
Quando as feias iam até a prefeitura cobrar as promessas feitas durante a campanha, Marileide não as recebia. Pedia a Marcia Maria para  dizer que estava ocupada:
- Fala qualquer coisa ! Diga que estou ocupada. Chega de feiúra na minha vida ! Detesto gente feia...é como dizia  aquele poeta... como se chamava mesmo ? Ah  Vinícius de Moraes ! As feias que me desculpem , mas beleza é  fundamental.

15 de jun de 2011

A revelação de Rosemary

                                                
Seis da tarde. Como acontecia durante a  semana, Rosemary voltava cansada  do trabalho, na condução lotada. Com o pensamento distante , nem percebeu quando um ladrão se aproximou e cortou sua bolsa,  levando  documentos e dinheiro.
Pensava na melhor maneira de dizer ao marido que  queria a separação. Quase dezenove   anos aturando Queiroz  e a sogra que morava com ela . Não agüentava mais. Os dois não faziam nada o dia inteiro e quando ela chegava em casa, ficavam reclamando da vida.
Só  percebeu que havia sido roubada quando desceu do ônibus. Chegou em casa mais azeda e perdida do que nunca. Assim que  entrou  e encontrou o filho , o marido e a sogra sentados,  assistindo TV , jogou a bolsa com raiva em cima da mesa :
- Fui roubada e nem vi  ! Levaram meu dinheiro e documentos.
Sem desgrudar os olhos da TV,  Queiroz  respondeu :
- Bem feito ! Garanto  que estava distraída conversando com uma dessas amigas malucas e nem viu o ladrão se aproximar !
Rosemary, cansada e  de cabeça quente, não suportou a provocação que já era habitual. A discussão começou :
- Enquanto  eu fico conversando com as minhas amigas malucas , você  fica aí sentado com essa cara de suíno, o dia todo, em frente a televisão e não sai para procurar um emprego. Só faz peidar e arrotar.  Péssimo exemplo dentro de casa !
Marilda , a  sogra, que a tudo  escutava  , interferiu com ares de ressentimento  :
- Você tem que dar é graças a Deus de encontrar alguém como o Queiroz para ser seu marido. Homem fiel está aí !
- Pois então pegue o seu homem fiel , arrume as malas e saia da minha casa. Não agüento mais sustentar vocês . Aproveito que o Jorginho fez 18 anos e acabo com esse casamento. Casamento, não, escravidão. Aqui em casa só fica  meu filho...é bom que vocês saibam também que o Jorginho...
A sogra interrompeu Rosemary  aos gritos  :
- Já sei o que vai dizer : O Jorginho não é filho do Queiroz !  Já desconfiava. Não tem nada da família. Eu não disse meu filho ? O Jorginho  não é parecido com você !
Desconfiadíssimo, principalmente porque a mãe vinha lhe atormentando os dias com essa idéia , Queiroz levantou-se do sofá e sacudiu Rosemary :
- Quem é o pai do Jorginho ? Me diga. Quem é o pai desse garoto ?
Rosemary continuou  impassível olhando para o marido e a sogra. Incentivado pela avó , Jorginho começou a questionar a mãe :
- Fala mãe ! O meu pai  não é o Queiroz ?
A sogra  , que não gostava da nora  , aproveitou para fazer intriga:
- Seu pai é o Arnaldinho !  Você tem o andar do Arnaldinho ! Os dentes do Arnaldinho!  Parece o  Arnaldinho na minha frente, quando garoto  !
Queiroz arregalou os olhos. Os lábios tremeram. Viu naquele instante a imagem de Arnaldinho  com ar debochado a lhe dizer :
- Você é mesmo um otário , criou meu filho pensando que fosse seu !

Arnaldinho era  vizinho do casal. Os três foram  amigos na adolescência. Quando se tornaram adultos,  Rosemary chegou a ter um namorico com Arnaldinho, mas  casou-se com Queiroz e um mês depois , engravidou. Queiroz e Arnaldinho viraram inimigos. Disputavam quem tinha o melhor carro. A casa mais bonita.  Quando ouviu o nome de Arnaldinho enlouqueceu :
- Então é isso. Você se casou comigo grávida do Arnaldinho ?! Como pôde me enganar esse tempo todo ? Você e aquele cínico ? Juntos ? Rindo de mim ?
A gritaria começou. A sogra enfiava o dedo na cara de Rosemary acusando-a de traidora . Queiroz andava de um lado para o outro esfregando as mãos . Ainda tinha Jorginho querendo saber a verdade . Rosemary se calou.
Queiroz foi até o quarto e voltou para a sala aos berros :
- Vou tirar essa história a limpo !
Abriu o portão e foi bater na casa de  Arnaldinho.
Jorginho  foi atrás. Rosemary se aproximou da janela e ficou olhando para o nada . - Era muito coisa num dia só – pensava.
A sogra que começou a  confusão foi para o quarto rezar.
Queiroz esmurrava a porta da casa de Arnaldinho :
- Abre seu covarde ! Tá com medo ? Ou você só é macho para fazer filho na mulher dos outros ?


Quando Arnaldinho  chegou e viu a confusão na porta de casa , desceu do carro  enfurecido :
- O que você quer comigo ? Que escândalo é esse na minha porta, seu desocupado ?

Os dois gritavam no meio da rua. Pareciam galos de briga, ciscando de um lado para o outro.  Arnaldinho deu um soco em Queiroz, que,  não agüentou a humilhação e puxou  o revólver da cintura . Foram três tiros certeiros no peito de Arnaldinho. Jorginho correu e  pegou a arma da mão de Queiroz :
- Assassino ! Você matou meu pai !
Deu dois tiros no rosto  de Queiroz.  A   polícia encontrou Jorginho com a arma na mão. Foi algemado e preso.

Dois dias depois, enlutada , Rosemary  foi visitar o filho na delegacia. Quando viu a mãe, Jorginho correu para abraçá-la :
- Viu só mãe?! Matei o Queiroz ! Vinguei meu pai , mãe ! Vinguei meu pai !

Rosemary abaixou a cabeça .  Demonstrava uma  calma quase demente .
Jorginho ficou branco :
- Fala mãe : Arnaldinho não é meu pai ? Eu matei o meu pai ? Fala ! Queiroz era mesmo  meu pai ? Responde pelo amor de Deus ! Responde !

Rosemary deu de  ombros :
- Tarde demais ! Não vai fazer diferença agora .

Virou as costas  e se foi num andar apressado, sem olhar para trás .

No dia seguinte, quando o carcereiro chegou para servir o café da manhã, encontrou  Jorginho morto.  Enforcou-se  com uma camisa que foi de Queiroz. O carcereiro teve dificuldade para abrir a mão direita do morto. Quando abriu, encontrou uma  medalhinha de São Jorge . Presente de Arnaldinho. 

10 de jun de 2011

Papo no metrô

                                                 
Solange e  Raquel  encontraram-se no metrô. Sexta-feira,  final de expediente. Não se viam há dois meses.  :

- Solange....quanto tempo !! Sorte a gente se encontrar no metrô!
- Sorte mesmo. O metrô tá sempre cheio...maior coincidência.
- E  o Reginaldo ?
- O caminhão do lixo levou.
-  O  que aconteceu  ?
- O cara não sabe o que quer. Se vai ou se fica.
- Igual a todos os outros .
-  Isso. Dizia que ia ligar e não ligava.
- Normal.
- Eu acabava ligando.
- E aí ?
- Ele atendia. Eu insistia e acabávamos saindo.
- Tantas histórias parecidas.
- Pois é...
- Você pediu para ele sair de cima do muro  ?
- Não. Arrumei outro e não liguei mais  . Não mandei mais e-mail. Scraps .Sumi
- Outro ? Que bom. Tá feliz ?
- Dá para passar o tempo.Telefona. Está sempre presente.         
- E o nome ?
 -  Deovaldo. Não é bonito. Mas é sincero.
-  O nome é esquisito.  Mas e o Reginaldo ? Ele já sabe que está com outro ?
-  Ele soube.  Mas já disse :  O caminhão do lixo levou.
- Mas como ? Conta. O que aconteceu afinal ?
- Depois que eu deixei de ir atrás dele, ele passou a ligar, mandar e-mails.
- É sempre assim.
- Um saco. Da última vez acredita que ele foi na porta da minha casa  ?
- Que máximo ! Emocionante.
- Não teve nenhuma emoção. Ele ficou do outro lado da calçada, bêbado, com um buquê de rosas na mão.
- E daí  ?
-  Apareceu de  madrugada. Os vizinhos começaram a reclamar da gritaria.
- Que máximo ! Uma serenata !
-  Nada engraçado. Abri a janela do quarto e pedi para ele ir embora. Quanto mais eu falava, mais ele cantava.
- Sim..e como você resolveu a situação ? Chamou a polícia ?
- Não. O caminhão do lixo passou.
-Explica a história direito. Por  favor.
- Bom...eu na janela, ele do outro lado da calçada. O caminhão do lixo no meio da rua.  Passou. Aí  eu olhei para o outro lado da rua, e cadê Reginaldo ?
- Fala, mulher !
- Não tava mais. Ou ele foi embora ou se atirou no caminhão do lixo. Do jeito que tava bêbado.
- Você não teve mais notícias dele ?
- Não. Nunca mais me ligou. Nunca mais liguei....não sei nem por onde anda.
- Será que ele se jogou no caminhão do lixo ?
- Não sei.
- É . Vai saber. Os homens são muito estranhos.
- Minha estação chegou. Desço aqui. Bom te ver, Raquel.
- Também. Tchau. Lembranças ao Deovaldo.
- Obrigada. Tchau. 

2 de jun de 2011

O depravado

                                         Pediu o quarto chope :

- Garçom mais um . Sem colarinho !

Fabrício  estava preocupado com a demora de Zenaide. Ligava para  o celular da amiga e só dava caixa postal.  Nervoso, pensava - : “ Será que ela não vem ? Sacanagem....podia avisar”

Conheceram-se num sábado numa reunião na casa de Narinha. Conversaram, trocaram telefone, e-mails e durante quinze dias conversaram pelo msn .

Gostou de Zenaide. Encantou-se com os olhos amendoados da moça e as fotos de viagem expostas nos álbuns das redes sociais. Duas semanas depois de trocarem torpedos, ligações no meio da tarde e papos que iam pela madrugada via computador, resolveu chamá-la para conversarem pessoalmente. Acreditava que a relação tinha futuro.

Mais uma vez olhou o relógio e passou a mão pelos cabelos : “ Será que aconteceu  alguma coisa ? Um atropelamento ? Alguém da família morreu ?”

Teve um mau pressentimento. Sua sensibilidade cutucava-lhe a mente.

Assim que o  garçom chegou com o copo de chope, Fábricio avistou Zenaide entrando ofegante pelo barzinho, num vestido azul bebê. Ele suspirou aliviado :

- Até que enfim ! Estava preocupado.

Zenaide não deu explicação. Cravou os olhos arregalados em Fabrício e indagou com ar de indignação :
- Você é depravado ?

Fabrício franziu a testa. Pensou tratar-se de uma brincadeira. Zenaide colocou o cabelos atrás da orelha e repetiu a pergunta encarando Fabrício. Constrangido, ele sorriu tentando disfarçar o clima pesado e sem motivo :

- Tá brincando  ? Senta. Vamos pedir um chope pra você clarear as ideias.
- Minhas ideias estão claras. Até demais ! Preciso que você me responda logo.

Fabrício percebeu que os  clientes olhavam desconfiados,de canto de olho. Respirou fundo e mais uma vez convidou Zenaide para sentar-se ao lado dele :

- Para de brincadeira. Vem, senta aqui do meu lado. Nada de escândalos. Me explica o que está acontecendo.
- Acho que você não está entendendo. Enquanto você não responder a pergunta, não quero papo.
- Desculpe, eu te fiz alguma coisa ? Durante alguma conversa eu disse algo ofensivo ?
- Tá aí. Resposta típica de um depravado e promíscuo
- Eu ???? Mas nem conversamos sobre sexo.
- E precisa ? Vejo pela sua cara que você é um depravado.

Zenaide colocou a mão na cintura e aumentou o tom de voz, chamando ainda mais a atenção dos outros clientes. O garçom se aproximou tentando acalmar os ânimos :

- A senhora deseja beber alguma coisa ?
- Não quero nada. Quero que ele me responda uma pergunta. Uma perguntinha só.

Ela insistia.  Sacudia o corpo. Parecia uma alucinada com os olhos cravados em Fabrício. Ele bebeu o chope de um gole só e passou a mão pelos  cabelos. Começou a balançar os pés irritados. Era um sinal de que partiria para a guerra.   Zenaide insistia. Não era a mesma mulher do msn. “ A transformação foi radical. Devia ter duas personalidades” – Pensou. Zenaide apontou o dedo pra ele :

- Eu sei que você é depravado.

Fabrício tentou se controlar mais uma vez. Pensou nas sessões de meditação :
- “Vamos fazer o seguinte “: - murmurou com os lábios trêmulos – eu vou pagar a conta e saímos para conversar .” Combinado ?
- Não. Só quero saber se você é depravado. Entendeu ou tá difícil ?
- Durante a nossa conversa via MSN , dei a entender que era depravado ?
-  Depravado e devasso.
- É ? Não lembro .
- Não lembra agora , né ?


Fabrício chamou o garçom , pediu a conta e aborrecido com as ofensas, desabafou :

- Sou depravado.  Não é isso que você quer que eu diga ? Então eu SOU DEPRAVADO. Adoro fazer sexo com três, quatro mulheres ao mesmo tempo. Coloco algemas. Acendo velas. Se você transar comigo, eu vou te queimar todinha...

Zenaide arregalava os olhos enquanto Fabrício aumentava o tom de voz, e fazia gestos obscenos. A mulher ficou gelada. Tremia o rosto. Olhava para os lados pedindo socorro. Silêncio. Os clientes não se moviam. Prestavam atenção nas palavras de Fabrício como se ele fosse protagonista de filme pornô.  

Encolhida e assustada, Zenaide pegou a bolsa e saiu discretamente pelo canto do bar.
Aliviado com a saída da mulher,  Fabrício pediu desculpas aos clientes, pagou o garçom e quando estava de saída, uma mão segurou-lhe pela nuca . Era uma mulher de cabelos negros, longos, vestido vermelho justo, que assistiu a tudo atentamente sentada na mesa ao lado :
- Você faz tudo aquilo que disse ? Faz ?
- Hein ? – respondeu Fabrício ainda tonto com o desabafo.
A mulher ,ansiosa, repetiu  com voz excitada :
- Você faz tudo aquilo que disse quando está na cama ?

Ele não respondeu. Traumatizado, queria sair do bar e rápido. Chamou um táxi e deu o endereço de casa. Durante a viagem, desabafou com o motorista :

- Você consegue entender as mulheres ?
- Mulher não é pra ser entendida  , desculpe o que eu vou falar, mulher é pra ser comida.
-É...eu acho que você tem razão. Pode parar , é naquele prédio que eu moro.

Subiu o elevador pensativo. Abriu a porta do apartamento com um sorriso malicioso nos lábios. Ficou só de cueca, pegou um  DVD qualquer, se deitou na cama e pela quinta vez adormeceu assistindo E O Vento Levou.