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29 de mai de 2011

Dívida de amor

                                                           
Jurandir chegou  batendo a porta e foi direto para o quarto. A mãe, que estava na cozinha, fazendo almoço foi atrás :

- O que houve Jurandir  ?
- Não vai haver mais casamento.
- Por quê ?
- Não amo Adelaidinha. Amo outra mulher. Se ela me procurar, diga que não estou.  NÃO ESTOU EM CASA, ENTENDEU ? !
 Dez minutos depois de se trancar no quarto,  a campanhia tocou. Era Adelaidinha. Estava pálida, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Penalizada, Cleomira convidou a  jovem para entrar. Adelaidinha se lamentou :
- Dona Cleomira, o Jurandir terminou o noivado. A culpa é daquela piranha que ele conheceu na faculdade. Mas homem é assim mesmo, só gostam das mulheres que  pisam neles. Eu o perdi por amá-lo demais !

Falava sem parar. Cleomira aconselhou-a . Adelaidinha repetia a mesma coisa :
- E digo mais , dona Cleomira!  Escreve o que estou dizendo : essa mulher vai ser a desgraça da vida do Jurandir. Aposta quanto ?

Cleomira se arrepiou . Sentiu medo. Apontou para o corredor e disse que o filho estava no quarto. Adelaidinha foi até o quarto e abriu a porta. Quando Jurandir a viu  , se irritou :
- Mãe , eu não disse que era para dizer que eu não estava em casa ?
- Sua mãe não tem culpa. Você me deve uma explicação . Por que  terminou ?  A gente se ama.....por quê ?

Começou a chorar. O peito doía-lhe. Sentia vertigem. Tentou agarrar Jurandir , foi rejeitada. Ela esmurrou  a porta e começou a espumar. Foram parar na sala discutindo . Jurandir, sem paciência, ofendeu Adelaidinha :
- Não quero mais você ! Amo outra mulher ! Me deixa em paz !

Adelaidinha deu um urro assustador e se arranhou em meio a uma crise histérica. Saiu correndo pela vila gritando :

- Jurandir me abandonou! Jurandir está trepando com uma puta ! Sou a mulher mais infeliz do mundo !

 Atravessou a rua sem olhar. O ônibus a pegou em cheio.  Morreu na hora.

Depois do enterro, Jurandir sentiu uma mistura de pena e alívio. Estava livre para conquistar Odete. Alta, loira, bonita e sensual. Porém, tinha um problema. Ela gostava de homens com dinheiro.  Jurandir era um simples escriturário. Quando ele a convidou para sair, levou um fora :
-  Sair de  carro velho ? - riu na cara dele -  Gosto de cheiro de couro novo.

Jurandir colocou na cabeça que conquistaria Odete a qualquer preço. Quanto mais rejeitado, mais apaixonado ficava. Arrumou outro emprego disposto a conquistar a mulher amada.
Seis meses depois  estava de carro novo e  mostrou  para Odete :
- É meu. Cheira o estofado. Couro novo. Novinho !

Odete cheirava com gosto  o estofado do carro de Jurandir. Saiu com ele. Passearam  por Copacabana. Quando Jurandir tentou beijá-la , foi empurrado :
- Não..não...não ! Homem tem que ter dinheiro. Não é só um carro novo que vai me conquistar. Homem para me conquistar tem que me dar muito mais do que um passeio num carro novo por Copacabana.

Apaixonado, quanto mais Odete pedia, mais ele se virava para realizar os caprichos da mulher amada . Trancou a faculdade e arrumou outro emprego. Quase não dormia. Só fazia trabalhar. Presenteou  Odete com um cartão de crédito :
- É todo seu. Pode gastar á vontade !

 Jurandir se endividava . Odete gastava. Trabalhava para comprar jóias, roupas e perfumes para a amada . Quanto mais ele a presenteava, mais ela o chantageava  :
-  Beijo só depois que me der uma casa. Meu sonho é dar uma casa de presente para minha mãe. Ela tá muito doentinha. 

As contas  chegavam . Jurandir não tinha dinheiro para pagar. Não conseguia manter as despesas feitas por Odete. Se desesperava. Parecia um mendigo faminto a implorar comida :
- Odete, faço tudo por você. Não mereço um beijo ? Unzinho só. 
- Me dá as coisas porque quer. Isso não significa que vamos ter algo mais. Não sou prostituta. Podemos ir para a cama com uma condição : meu sonho é dar uma casa para minha mãe. 

Jurandir trabalhava noite e dia na  esperança de realizar o sonho da casa própria para a mãe de Odete.
  
Chegava em casa tão estafado que apesar  das dívidas e dos problemas, deitava na cama e logo adormecia . Sonhou com Adelaidinha. No sonho ela lhe dizia :

- Sinto saudades de você ! Quero-lhe ajudar ! Me escute : a  única maneira de ganhar dinheiro para pagar suas dividas é assaltar um banco. Assalte um banco !

Jurandir acordou impressionado. O sonho parecia real. Sentiu saudades de Adelaidinha.
Com a operadora de cartão de crédito ligando para cobrar as dívidas, com Odete querendo uma casa e o homem da concessionária ameaçando tomar -lhe  o carro,  viu -se cada vez mais  pressionado. Ainda tinha  o fantasma de Adelaidinha,  dando - lhe conselhos dia e noite :
- Assalta um banco. Protejo você. Ainda o amo. É sua única saída.

A idéia do assalto foi se materializando. Passou um mês estudando o movimento de um banco longe de casa. Vigiava clientes , seguranças e os bancários.  Dormia imaginando-se rico e desfilando com Odete numa Mercedes conversível .
No dia de colocar o plano em prática, saiu de casa e beijou a mãe na testa :
- Mãe se hoje me acontecer alguma coisa , saiba que te amo muito.

Cleomira se preocupou :
- Não faz nenhuma besteira, meu filho. Pelo amor de Deus !

O coração de Cleomira apertou. Foi até a mesa de cabeceira  rezar em frente a imagem de  Santo Expedito. Pediu proteção para o filho. Sabia que o amor por Odete desnorteara-lhe a mente. 

O assalto não deu certo. Jurandir foi preso ao tirar o revólver da cintura.  Assim que Cleomira  chegou a delegacia, presenciou um quadro deprimente. O filho  algemado, gritava adementado, apontando as mãos unidas  para a parede  :
- A culpa é sua ! Você disse que daria certo!  Você me paga Adelaidinha ! Me paga ! Vou atrás de você no inferno. Eu juro  !

Jurandir via Adelaidinha, encostada na parede ,  com um vestido negro comprido , rindo enlouquecida.    

22 de mai de 2011

A viúva da Pavuna

                                                   
Durante o velório de Maciel,  Suely chora ao lado do caixão , quando Tavares vai cumprimentá-la :
- Meus pêsames. A senhora sabe como eu era amigo do seu finado marido.
Suely agradece , pega um lenço e chora  mais alto. Respeitando o momento de dor da viúva, Tavares afasta-se e vai conversar com Artur, irmão do morto.
Na entrada da capela, estão  Iracema e Raquel, as fofoqueiras do bairro.  Cochichando, comentam a viuvez de Suely :
- Não é estranho ? Esse já é o terceiro marido que a viuvona  enterra.
- E todos enfartados.
- Qual era a idade do morto ?
- Acho que cinquenta.
Encerraram o assunto quando viram Tavares de cara feia, olhando para elas.
O sepultamento foi acompanhado por cem pessoas. A maioria vizinhos e amigos da Pavuna.
Dois dias depois do enterro, recuperada  da terceira viuvez, Suely sai para comprar pão com uma minissaia de invejar as vizinhas mal amadas.  No caminho, encontra Tavares e  conversam empolgados . Não demorou para que ele passasse a freqüentar-lhe  a casa. Os amigos mais chegados o alertam :
- Ela já enterrou três. Você será  o próximo.
 Irritado com a maledicência  alheia, bate na madeira e engrossa a voz :
- Nada. Sou  pedra. Vou fazer quarenta anos e tenho saúde de ferro.
O que os amigos não sabiam  é que o namoro não passava de uns beijinhos insossos no sofá da sala. Quando Tavares pedia mais, Suely cobrava :
- Sexo só depois do casamento. Sou viúva de respeito.
E para provocá-lo, desafiava:
- Você tem esse fogo todo ou é propaganda enganosa ?
- Não me desafie que fico nervoso ! Amo sexo e não nego fogo.
Para provar que dizia a verdade, cedeu aos encantos da morena alta, de trinta anos , coxas grossas e duas covinhas no rosto e a pediu  em casamento. Suely fez questão da igreja, do bolo e do vestido de noiva. Na lua-de –mel, Tavares empolga-se com o fogo da mulher. Passam a noite em claro. Pela manhã, insaciável, Suely quer mais :
- Acorda, Tavares . Sempre desejei você. Vem satisfazer sua mulherzinha.
O marido volta da lua-de-mel exausto. Nada consegue apagar o fogo sexual da esposa. Ela não se contenta com sexo somente á noite . De  dia, na hora do almoço, Suely aparece no trabalho do marido :
- Vamos dar  uma ligeirinha ? Olha a cinta-liga que eu comprei no sexo shop ?!
Para não decepcioná-la  e querendo provar a macheza, cedia . O cansaço  prejudicou-lhe  no trabalho. O médico licenciou-o. Em casa, implorou a mulher por descanso. Suely ameaçava :
- Se não transar, espalho para a vizinhança que você é broxa. Logo vira corno !
O medo de ser humilhado publicamente, fez Tavares recorrer a receitas afrodisíacas e depois, a pílulas contra impotência.  Ficou traumatizado. Durante o sexo, via Suely se transformar numa bruxa com verruga na ponta do nariz.  Seis meses depois do casamento, Tavares  tem um enfarte fulminante. Entristecida, Suely comenta com a irmã durante o velório:
- Será que não existe mais homem no mundo ? São todos uns frouxos ?  Não satisfazem mais as mulheres ?
Em meio aos comentários maldosos da vizinhança , Otília, amiga de Suely, entra na capela e as duas se abraçam chorosas. Quando a viúva vê  Carlinhos, filho de Otília, enxuga as lágrimas e seu rosto torna-se sereno. Pelo seu olhar passa uma sombra diferente. Uma espécie de  renascimento.  Agarra forte o braço da amiga  e pergunta curiosa :
- Seu filho já completou dezoito anos ? 

17 de mai de 2011

Feio, sim. Corno, não.

Roberval era assim. Feio de dar dó. 28 anos de idade, nunca havia namorado. Parecia que o nariz ficava no lugar dos olhos, os olhos no lugar do nariz. As sobrancelhas se juntavam fazendo um arco de assustar. Os dentes trepados deixavam o pobre envergonhado de dar um simples  sorriso. Desiludido com a própria feiúra nunca pensara nem em colocar aparelho nos dentes.
Além de tudo o coitado ainda tinha  mau hálito. Roberval falava e a quilômetros de distância já sentiam o cheiro de ovo podre   exalando daquela boca cheia de dentes trepados. A única coisa mesmo que prestava na vida de Roberval era o dinheiro. Estudioso, conseguiu vencer na vida. Tinha negócio próprio, carro do ano e a casa dele era a melhor da rua.
Mas mesmo com a falta de homem no mercado, não havia mulher que quisesse encarar a feiúra de Roberval. E o coitado ainda era apaixonado desde menino pela vizinha gostosona . Vivia sonhando com ela, que conheceu menina e se transformou num tremendo mulherão. Os poucos amigos, debochavam da paixonite do pobre  que tinha o apelido de feioso :
- Você está perdido, feioso . Quando é que a Clotildes vai te dar bola ? Aquele avião !?  Tá perdido cara. Para conquistar a Clotildes só fazendo plástica.
Roberval dava aquele sorrisinho tímido e resignado, de boca fechada, é claro.
Só que a Clotildes vinha passando por sérias dificuldades financeiras. Gastou demais no cartão de crédito e agora se não pagasse a dívida ia ter o nome no Serasa. A mulher já estava entrando em desespero quando uma grande idéia lhe veio a cabeça. Ela assistia televisão ao lado da irmã e saiu-se com essa:
- Roberval ! Ele vai se a minha salvação.
A irmã olhou para ela com ar de espanto:
- Salvaçao de quê mulher ? O que você está falando ?
Clotildes explicou o plano. Iria dar em cima de Roberval. Fingir que estava  apaixonada. Quando ele  mordesse a isca, ela daria o golpe.  Clotildes ia pedir dinheiro emprestado  e pagaria de uma só vez a dívida do cartão de crédito. A irmã riu:
- Será que ele  vai acreditar na sua paixão repentina ? E outra coisa: eu prefiro ter meu nome no Serasa a encarar o Roberval.
Mas Clotildes não   pensava dessa forma, ter nome sujo na praça não era com ela. Já pensou não poder mais comprar perfumes?  Adorava perfume. Queria pagar as dívidas para poder gastar novamente de maneira compulsiva.
Colocou o plano em ação. Passou a sorrir para Roberval. Dava bom dia para o feioso  com aquele ar de mulher no cio. Duas semanas depois Roberval se aproximou. De noite Clotildes ficava no portão, esperando o moço chegar do trabalho para puxar conversa. Quando o assunto terminava Clotildes corria para o banheiro e gritava para a irmã:
-  Que ânsia de vômito....o cara hoje estava com um mau hálito danado de aguentar.
A irmã caía na gargalhada:
- Dá bala de hortelã para ele.
O tempo de Clotildes estava se esgotando. Mas ela não podia chegar de repente e pedir o dinheiro. Ele ia desconfiar. Era feio, mas não era burro. E a coisa foi andando...andando, até que no portão de casa surgiu o primeiro beijo. Depois do beijo Clotildes chegou em casa e   foi direto para o vaso sanitário vomitar. Pensou em desistir do plano, mas quando pensava na dívida, tomava coragem.
Começaram a namorar. Nada de sexo, Clotildes mentiu :
- Sou virgem. Sexo só depois do casamento.
Roberval não discutia. Estava feliz. Sempre foi um resignado mesmo. E também era virgem. Não sentia falta daquilo que nunca havia feito.
Quando o casal completou dois meses de namoro, Clotildes que já andava com o estômago embrulhado, resolveu dar o golpe  e na cara de pau  pediu  dinheiro ao   namorado feio. 
Roberval fez o cheque na hora. Não reclamou. Estava feliz em poder ajudar a namorada .Achava que assim iria conquistá-la para sempre.
Enquanto isso, Clotildes só pensava em pagar suas dívidas.  Pagou o cartão, limpou o nome  e se preparava para descartar Roberval.
Roberval já doido para fazer o que ainda não havia feito, sonhando com uma noite de núpcias, tomou coragem para pedir Clotildes em casamento.
Naquela noite chegou na rua com um buquê de rosas  e um anel de rubi. Porém,  estranhou que a namorada não estivesse esperando por ele no portão, como sempre fazia. Foi até a casa dela e bateu na porta. Um moreno forte, de olhos verdes e bíceps avantajados abriu:
-Fala aí cara.....
Roberval , com jeito de moço  tímido, pediu para falar com a namorada Clotildes.
O grandalhão caiu na gargalhada:
- Clotildes é minha namorada . Sai fora cara, o que você quer com ela ?
Pegou o buquê  das mãos de Roberval e amassou as rosas com o pé . Antes de bater com  a porta,  ainda cuspiu na cara do feioso.
Roberval ficou  baratinado  sem saber o que fazer. Se sentiu  muito humilhado. Os olhos se encheram de lágrimas.
Sumiu por   uma semana . Os amigos deram parte na polícia. A família achava que ele tinha se matado. Clotildes ficou com pena, mas  não se importou. Já tinha pago  o cartão de crédito.
Finalmente  Roberval reapareceu. Ele foi direto na casa de Clotildes. Bateu na porta. Clotildes atendeu. Ficou sem graça ao ver Roberval , ia tentar se explicar. Ele não quis ouvir . Tirou o revólver 38 da cintura e deu três tiros na cara de Clotildes.
A mulher caiu na porta de casa com os olhos arregalados e o sangue escorrendo pelo nariz.
Calmamente, Roberval guardou o revólver e  sacudiu Clotildes  até ter certeza de que ela estava morta .  Chegou em casa, pegou o telefone e ligou para a polícia.
Quando atenderam se entregou :
-         Meu nome é Roberval dos Prazeres , acabei de matar uma  vaca vadia....
Depois de  confessar o assassinato, sentou  no sofá  com a arma na mão  direita  e olhos grudados na porta . Esperava a chegada da polícia. No canto da boca um sorriso cheio de sarcasmo. Decididamente não tinha sangue de barata. 

13 de mai de 2011

Rosas Vermelhas ( II)

                                                       Parte Um

Fiz a barba e depois fiquei me olhando durante alguns segundos no espelho. Minhas olheiras profundas denunciavam meu cansaço.  Resultado de muito trabalho e noites insones. Antes de sair, escovei os dentes, lavei o rosto, passei uma colônia vagabunda que eu trazia na mochila  e dei uma olhada no relógio: sete e meia da noite. Saí do plantão aliviado  e antes de voltar pra casa, passei no boteco perto da delegacia. Pedi o de sempre : Pão com pernil e um refrigerante. Fazia meu lanche, assistindo ao noticiário na televisão do bar, cheia de fantasma, quando um casal entrou falando alto. Sentaram-se à mesa perto da minha e continuaram discutindo. A mulher, de olhos amendoados,  vestia uma calça jeans preta, camiseta branca  e tinha os lábios pintados com um batom vermelho vivo. Os cabelos castanhos estavam presos num rabo de cavalo. O homem, de cabelos grisalhos, estava com uma camisa social azul e com o nó da gravata desfeito. Irritado, ele  gesticulava e passava uma das  mãos pelo cabelo, num gesto impaciente .  O noticiário sem grandes novidades, me entediou. Passei a ouvir, com atenção, o que o casal dizia .  O grisalho  falava , enquanto a mulher  chorava. Um choro convulsivo.

- Para de chorar. Olha o escândalo. Não estamos sozinhos.
-Sempre com medo de escândalo. Dane-se o escândalo.
-Será que você não entende? Acabou. A minha mulher está desconfiada.
- Mentira . Você quer pular fora. Sei que já tem outra. O Arlindo me contou.
- O que o Arlindo tem a ver com a minha vida ?
- Você tem outra. É a nova estagiária. Pode contar. Eu aguento.
- Duas dão muito  trabalho . Vou arrumar três? Só não quero me separar. Ainda não é a hora.
- Nunca é a hora . Droga !
- Você sabia que eu era casado. Se eu me separo ela leva metade de tudo.
                                         
                                                   Parte Dois

O choro da mulher aumentou. Olhei de canto de olho e percebi que o homem estava impaciente. Franzia a testa, batia com a ponta dos dedos na mesa e olhava para o teto. De repente,  empurrou a cadeira, se levantou, jogou o dinheiro da conta em cima da mesa  e saiu em silêncio. Ela fez menção de sair mas, desistiu . Encostou as duas mãos no rosto e desabou num choro sofrido.  Peguei um guardanapo de papel e lhe ofereci, constrangido e reticente.

Ela me olhou desconfiada. Pegou o guardanapo, enxugou as lágrimas e assoou o nariz:
- Viu o que ele fez comigo ? Vocês homens não prestam. Não valem nada.
- Opa ! Não tenho nada com isso.
- Homem é tudo igual.
- Frase velha.


Ela pulou para a cadeira ao lado da minha e agarrou minhas mãos:
- Desculpe, não falei por mal. Não quis ofender.  Estou muito nervosa.
-  Mãos geladas.  – comentei sarcástico
- Estou tensa. Já disse. Quando fico nervosa minha mão fica gelada.


Dei um sorriso para quebrar o ambiente pesado e me apresentei. Peguei um palito . Fiquei brincando com ele  para  descarregar a tensão.  A mulher  puxou outro guardanapo e voltou a assoar o nariz. Suspirou fundo e me perguntou, agressivamente :

- Você é casado?
- Pra que você quer saber?
- Curiosidade, mas se não quer dizer, respeito sua privacidade.
- Muito obrigado. Pensei que fosse um inquérito policial.
- Você é bem irônico.  Não sou da polícia. Pode ficar tranqüilo.
-  Que bom ! Assim corre menos risco . Já vou . Boa sorte.
- Não, fica  ! –  A mulher segurou na minha camisa , num gesto desesperado, implorando :
- Preciso de companhia.  Quero desabafar. Se você for embora, posso fazer uma besteira.
- Tô cansado. Saí do plantão agora e preciso dormir.
- Você é médico?
- Não. Policial.
- Você trabalha  naquela delegacia da esquina ?
- Trabalho. Espero que você não precise, mas se precisar é só me procurar. Desculpe, agora tenho que ir.
- Você é delegado ?
- Inspetor.
- Anda armado ?
- Preciso ir. Boa sorte !
- Um policial não abandona uma mulher prestes a cometer um suicídio.

Insistiu. Mordeu os lábios , angustiada. Puxou assunto. Falava compulsivamente.  Segurou meus braços e pediu mais uma vez para eu ficar.  Olhei o relógio : Nove horas. Penalizado, concordei. Puxei a cadeira e me sentei novamente, tentando ser mais gentil e menos frio.

- Você não me disse seu nome. Qual é seu nome moça chorona ?
- Elisa , mas pode me chamar de Isa.
- Tá bom, Isa. Você mora longe daqui ?
- Não quero ir pra casa. Quero ficar com você. O cheiro do seu perfume me fez  lembrar da minha infância.
- Sua infância deve ter sido pobre.

                                         Parte Três
Ela parou de chorar e deu um sorriso. Relaxei. Começamos uma conversa animada. Nada  comprometedor. Não gosto de falar da minha vida pessoal.  Aos poucos percebi que  Isa era uma mulher carente e engraçada. No meio do papo, chamei o Souza e pedi uma cerveja para descontrair. Dois copos.  Isa me acompanhou. Uma hora e meia depois  já tínhamos bebido cinco cervejas. Paguei a conta, agradeci a Isa pela companhia e me preparei para chamar um táxi.
- Toma . Leva esse dinheiro para pagar o táxi.
- Não preciso do seu dinheiro.
- Pelo jeito está melhor. Mulher não dispensa dinheiro.
- Deixa de ser grosso.
-  Apenas falei a verdade.
Isa abriu a bolsa e pegou uma caixa.
- O que é isso ? Remédio ? Tá doente ? – perguntei intrigado.
- Não tá vendo ? Tarja preta. Preciso me acalmar.
- Deixa de bobagem. Isso faz  mal. Vicia . Não adianta se drogar.
- Então fica comigo.  Você me fez bem. Não sei o que teria acontecido se eu não tivesse te encontrado.
- Desistiu  do príncipe casado ?
- Desistir ?  Sou persistente. Ele já tentou terminar comigo outras vezes . Ontem ensandeci e liguei vinte vezes para o celular dele.
- Você é obcecada. Fiquei com medo agora – brinquei.
- Acho que ele também ficou. Ameacei contar para a mulher dele  que somos amantes.
- Perdeu, mocinha. Não consegue perceber que a brincadeira terminou ?
- Eu vou insistir. Quando quero uma coisa, insisto.  E você? Ainda não me disse se é casado. Tem namorada ?
-  Não gosto que me façam perguntas. Preciso ir.
- Custa responder ?
- Vai fazer alguma diferença na sua vida se eu for casado ou solteiro ?
-  Se você for livre, eu esqueço o príncipe casado e fico com você.  Podemos viver uma linda história de amor.  Que tal ?  Qual é a sua idade ?
- Trinta e dois. Não gosto de histórias de amor. Nunca têm um final feliz.
-  Quanta amargura. Alguma mulher te magoou para você ficar assim  ?
-  E você, qual é a sua idade ?
- Saindo pela tangente mais uma vez. Não vai me falar quem te magoou ?
- Qual é a sua idade ?
- Tá bom. Vinte e três. Adoro homens  de trinta e poucos anos.
- Vamos embora logo. Não agüento mais o cheiro de urina do bar do Souza. Tô enjoado.
- Você é muito sensível. Não tô sentindo.
- Lógico , tá pensando no seu príncipe casado !
Antes de sair gritei para o dono do bar :
-Souza, vê se limpa o banheiro. Assim vou comer no concorrente. Vai perder freguesia.
                                                         Parte Quatro

Ele me deu adeus balançando a cabeça preguiçosamente. Sorri e coloquei as mãos nos bolsos da calça.  Eu e Isa  saímos do bar e viramos para a direita. Andávamos sem destino. Isa me olhava com ternura como se no meu rosto encontrasse respostas para os males de amor . Percebi que se aproximava . Ela tocou meus braços, suavemente, ficou na ponta dos pés e falou baixinho no meu ouvido:

- Dorme comigo hoje. Estou tão carente.
- E se você se apaixonar ? – Ri para descontrair.
- Primeiro eu tenho que saber se você é bom de cama !

Cocei a cabeça. Olhei mais uma vez  o relógio: Meia-noite. Não deixaria uma mulher sozinha na rua, àquela hora. Ainda mais no estado em que se encontrava . Peguei-a  pelo braço e fomos caminhando em ziguezague pelo meio-fio. A noite estava quente e o céu estrelado. Um vendedor de rosas passou ao lado de Isa, e ela o fez parar:
- Adoro rosas vermelhas. Compra pra mim?


Tirei o dinheiro do bolso, peguei uma rosa e entreguei para ela. Ficamos em silêncio durante cinco minutos. Isa me fez voltar a realidade :
- O que aconteceu? Você ficou triste de repente. Fiz alguma coisa que não devia?
- Não é nada com você. Coisa minha. Deixa pra lá.


Olhei para o letreiro e puxei Isa:
- Tô com sono. Vamos dormir?


O quarto do motel  era pequeno, simples e limpo. Uma cama de casal, um espelho no teto, duas mesinhas de cabeceira e um banheiro cheirando a  eucalipto. Isa  tirou a roupa sem nenhum constrangimento. Magra, com  pernas bem torneadas, bunda empinada, seios rijos, sabia que despertava desejos. Correu para o box  e abriu o chuveiro me chamando :

- Vem, a água está uma delícia.
- Daqui a pouco. Aproveita primeiro.

Tirei a roupa. Deitei  na cama. O lençol estava  limpo e cheiroso. Fiquei de cueca . Liguei a televisão em qualquer canal. Apenas para distrair meus pensamentos e passar o tempo. Coloquei minha pistola embaixo do travesseiro. O pente de balas deixei no bolso da minha calça, junto com a mochila, debaixo da cama .

Isa voltou para o quarto com os cabelos molhados, vestindo o  roupão do motel . Virei para o  lado e fingi que dormia. Ela desligou a televisão, passou a perna por cima do meu corpo, acariciou meus cabelos  e logo adormeceu.  Fiquei ainda algum tempo acordado, pensando no que tinha para fazer no dia seguinte . Acordei com o sol entrando pela fresta da cortina. Olhei o relógio e dei um pulo: Nove e meia. Dormi demais. Tinha que voltar pra casa. Acordei Isa. Ela se espreguiçou e sonolenta vestiu a roupa. Não comentou sobre a noite anterior. Seu rosto demonstrava tristeza. Olhei-a com carinho de amigo e cocei o queixo:

-  Desculpe o mau jeito. Vou direto pra casa. Tenho muita coisa pra resolver.

Isa deu apenas um sorriso tímido e balançou a cabeça constrangida. Pedi um café simples com torradas para não sairmos de estômago vazio. Não toquei nas torradas. Bebi duas xícaras de café sem açúcar. Antes de sairmos do quarto,Isa abriu a bolsa e pegou o batom.
- Espera um instante. Sem batom me sinto nua.
Na rua nos despedimos friamente . Dei-lhe um beijo no rosto. Isa passou as mãos magras  pelos meus cabelos:

- Obrigada por ficar comigo. Você é um cara legal.
- Boa sorte e juízo. Quem sabe um dia a gente se esbarra por aí ?
-  Sei onde você trabalha. Tchau homem misterioso.
                                         
                                                      Parte Cinco
Assim que virei a esquina, entrei numa floricultura e comprei um buquê de rosas vermelhas. Peguei um ônibus e segui para o Catumbi com um nó preso na garganta.

Cheguei no cemitério perto da hora do almoço. Estava vazio. O silêncio acalmou minha ansiedade. Segui  para a sepultura de Elaine.
Tantas recordações. Tanta coisa para descobrirmos juntos. Elaine morreu uma semana antes do nosso casamento. Atropelada na esquina de casa. Grávida de três meses. Adorava rosas vermelhas, filmes de suspense, pipoca e  sorvete de creme.  Nunca localizaram o motorista. Fugiu sem prestar socorro. Um dia eu o encontro.

Coloquei o buquê em cima da sepultura e fiz a oração do Pai Nosso. Há um ano, todas as sextas-feiras,  eu seguia o mesmo ritual. Durante cinco minutos admirei o retrato de Elaine em cima da sepultura. Linda. Cabelos pretos. Sorriso de criança feliz. Exalava sensualidade no olhar . Espirituosa, Elaine. Elaine, bem humorada . A alegria dela dava sentido a minha vida fria e desesperançada, em meio a boletins de ocorrência, estatísticas  e tiros.  Adorava  fingir que ouvia a  voz dela  :
- Vê se não se atrasa para o cinema. O ator principal não gosta de esperar.

Engoli a saliva . Saí do cemitério com o sol a pino.  Fazia calor. Comprei duas garrafas de água mineral e peguei o ônibus que passava em frente ao cemitério do outro lado da rua.  Sentei no último banco. Segui para casa, no Engenho Novo. Pensei preocupado : “Preciso ir ao banco e depois passar na casa da minha mãe.” Fazia tempo que eu não a via . Dona Isaura era fogo.  Sempre me cobrando uma visita. Minha irmã estava com câncer no seio. Meu irmão mais novo também queria ser policial, contra a vontade da dona Isaura que pedia para eu tirar a ideia da cabeça dele. “ Vou passar lá. Rapidinho. Aproveito e mato as saudades da comida dela.”
O ônibus parou no sinal. Olhei pra calçada e vi uma mulher de cabelos negros, atravessando a rua, parecida com Elaine. Nunca mais  vou ver Elaine. Não trocaremos mais beijos. Segredos. Carinhos. Sorrisos. Vida sem sentido. Olhei mais uma vez o relógio. Duas da tarde. Mais três quarteirões e chego em casa. Dá tempo. Tomo um banho rápido. Passo no banco e na casa da minha mãe.
Abri o chuveiro todo . A água gelada no meu corpo chegou a doer os ossos. Coloquei uma muda de roupa na mochila. Verifiquei a pistola, me olhei no espelho e desci  para a garagem. Resolvi ir de carro . Quatro horas estava na casa da minha mãe. Quando ela me viu, fez a maior festa :
- Filho ingrato. Finalmente veio me ver.
- E vim almoçar também . Qual o rango ?
- Carne assada com batatas.
- Adoro. Então vai esquentando a comida no microondas que eu não posso demorar .
- Mal chegou e já vai embora ?
- Preciso voltar para o trabalho. Troquei o plantão com um colega. Entro hoje e só saio amanhã sete da noite.
Minha mãe gritou para o meu irmão que estudava na sala :
- Tá vendo Ricardinho ? Tem certeza que você quer essa vida pra você ?
Quando Ricardo me viu, veio correndo me abraçar :
- E aí ? Trabalhando muito ?
- O suficiente para esquecer da vida. E a mana, tá em casa ?
- No quarto.
Fui no quarto , dei uma batida de leve e entrei. Tereza estava deitada vendo TV. Quando o marido soube que ela tinha câncer, pediu a separação. Deprimida,  voltou a morar com dona Isaura. Casa de mãe é especial. Sentei-me ao lado dela e segurei-lhe as mãos :
- Melhorou ?
- Semana que vem faço a última sessão de quimioterapia. Ainda não é dessa vez que vou deixar você.
- Nem pense nisso.  Sabe que eu rezo por você todos os dias.
- Ainda bem que tem alguém pra rezar por mim. Perdi a fé. Olha minha carinha de boba.
Rimos e nos abraçamos. Como irmão mais velho, me sentia responsável pela minha família. Não lembro muito do  meu pai . Era alcoólatra. Morreu quando eu tinha dez anos.
Voltei pra sala e a comida já estava me esperando quentinha. Comentei :
- Que saudade da sua comida fresca, mãe.
- Você sabe que pode comer aqui todo dia.
- Vivo correndo. Não tenho paradeiro. Talvez viaje semana que vem.
- Me avisa pelo menos. Quando eu ligo para o seu celular ou para a sua casa e você não atende , meu coração vai na boca e volta.
- Notícia ruim chega rápido. Lembra quando a  Elaine  morreu?
- Você ainda tem ido ao cemitério ?
- Toda sexta. Hoje já bati meu ponto. É sagrado.
- Meu filho, você tem que parar com isso. Tá muito novo. Recomeça a vida ao lado de outra moça. Bonitão . Tem que formar família. Ter  filhos. A Catarina sempre pergunta por você .
- Como ela está ?
- Sozinha. Acho que ela já nasceu apaixonada por você.
- Catarina é apenas  uma boa amiga. O amor da minha vida é a  Elaine. A única mulher que podia me fazer  ter uma família .
- E quando você ficar velho ? Quem vai cuidar de você ?
- Não estou preocupado com o futuro. Vivo o presente. Não sei nem se vou envelhecer.
A mãe recolheu o prato em silêncio  e trouxe a sobremesa.
- Pudim de leite ? Mas isso é bom demais.
Seis da tarde me despedi dos meus irmãos. Dei um abraço forte na mãe e saí. “ De carro tudo fica mais fácil. Vou por dentro para não pegar trânsito.”

                                           Parte Seis
Cheguei  no plantão antes das sete. Deixei minha mochila na delegacia e dei uma passada no bar do Souza. Pedi um refrigerante  e pensei  em Isa “ Será que voltarei a vê-la algum dia ? Garota carente e iludida.  
Voltei pra delegacia e só larguei o plantão sete da noite de sábado. Saí do trabalho precisando gastar  energia. Estava me sentindo travado.  Peguei o carro e segui até  Copacabana. Estacionei numa rua perto da praia. Coloquei  a pistola na mala e corri em direção ao mar. Sentei-me na areia, e fiquei olhando as ondas estourando na beira. Tirei  a roupa e mergulhei só de sunga. Nadei até a exaustão. Saí da água me sentindo com a alma menos podre.
Peguei a roupa que estava jogada  na areia e caminhei até o calçadão. Olhei pro céu limpo.  Início de uma  madrugada gostosa de verão . Copacabana fervilhava com suas excentricidades e diversidades humanas. No momento em que abria a porta do carro, senti uma mão suave no meu ombro esquerdo. Virei a cabeça devagar. Uma mulher alta, de cabelos pretos cacheados, com um vestido branco justo e uma rosa vermelha na mão direita, me fez o convite  :
- E aí bonitão, tá a fim de um programa ?
- Não. Pode circular. Vai rodar em outro lugar.
-  Ei, não sou garota de programa. Achei você bonito e excêntrico. Vi você saindo de  sunga do mar .
- Outra hora a gente conversa. Tô com pressa.
- Bonito e grosso. Você é gay ?
- Circula. Já disse. Quero ficar sozinho.
Ressentida , a mulher de branco colocou a rosa vermelha na minha mão e olhou séria dentro dos meus olhos. Fiquei arrepiado.
- Toma . É sua. Uma mulher falou no meu ouvido para você ficar com a rosa.
- Que brincadeira é essa ? – Falei irritado, olhando para os lados.
- Não é brincadeira. Desde criança escuto vozes. A mulher me disse que gostava de rosas vermelhas e pediu que eu  entregasse a rosa pra você .
- Cadê a mulher ?
- Quê mulher ?
- A que falou com você.
- Ela falou no meu ouvido. Só escuto. Eu não posso vê-la. E nem você.
- Qual é a brincadeira ? Quem te deu essa rosa ?
- Já disse. Não é brincadeira. Tá vendo alguém aqui além de nós dois ?
- Mas quem te deu a rosa ? Me diz.
- Aquele menino , aquele lá de short vermelho, que está no bar . Tá vendo ?
- Sim. O que tem ele ?
-  Comprei a rosa nele. Assim que eu comprei, e  vi você saindo do mar, ouvi a voz da mulher. Ela me pareceu triste.
- Eu não gosto de brincadeira. Não tem a menor graça.  
- Larga o meu braço. Vai me bater ?
- Desculpe. Não queria ser violento. Por favor, vai embora. Me deixa. Some.
 - Bom, dei o recado. Fica com a rosa . Faz o que quiser com ela. Tchau homem insensível.
Virou as costas e saiu.  Para me deixar mais irritado, enquanto eu tirava a areia dos pés, ela voltou.
- Posso fazer só mais uma pergunta antes de você entrar no carro ? Umazinha só?
- Não. Eu não vou te dar carona.
- Não vou pedir carona. Só queria saber.....
- Fala. Anda.
- Vocês se amavam muito , né ? Você e a mulher da rosa.
- Não te interessa.
- Não precisa ser grosso. Ela só pediu para você não ir mais ao cemitério. Sabe o que é  ? Atrapalha.  Ela tá me dizendo aqui  para você seguir a sua vida e quando puder, rezar por ela numa igreja . Só .
- Vai embora. Me deixa sozinho. Você é louca !
- Te cuida, cara ! Boa sorte !
Olhei para os lados para ver se via algum rosto conhecido. Entrei no carro intrigado e com a garganta arranhando.  “ Pronto. Peguei um resfriado.” Joguei  a rosa no banco do carona. Antes de dar  partida , me lembrei do sorriso de Elaine.  Pensei também em Isa : “ Será que ela conseguiu  convencer o grisalho a voltar pra ela ? Mulheres ! Todas confusas. Dia louco. Acho que preciso de umas férias  ! “
Olhei mais uma vez para o banco do carona. Não tinha sido um sonho. A rosa estava lá. Olhando pra mim. Perdi a noção do tempo. “  Que horas são ? Quase duas da madrugada .  Vou dormir o dia inteiro.  Sete da noite volto para a delegacia. ”
Coloquei o relógio para despertar  cinco da tarde . Consegui pegar no sono quando o dia amanheceu. O domingo prometia ser quente.

9 de mai de 2011

PAIXÃO SANGRENTA

                                       
Sexta-feira, sete da noite. Final de expediente . Os bares na Cinelândia estavam lotados de gente à procura de diversão.
Maria Dolores saíra  do trabalho meia hora antes  e parou num barzinho, com três amigas. Foram beber e jogar conversa fora. Sorriam e falavam mal do chefe, quando Eugênia arregalou os olhos , modificou a voz e gritou :
-Cuidado Maria Dolores  ! Atrás de você

Tarde demais . Valdomiro agarrou a ex-namorada pela cintura e meteu –lhe uma pistola na nuca.
- Quer dizer que é aqui que você vem com o seu amante ?
Babava de ódio. Com a voz trêmula e respiração ofegante , Maria Dolores soltou um fio de voz , tentando acalmar Valdomiro :
- Tô aqui com  minhas amigas, não tá vendo ? Calma ! Não faz escândalo. Vamos conversar em outro lugar.
- Cala a boca  piranha ! Vadia. Vou te furar essa cara sem vergonha !
Os clientes  estavam paralisados. . Alguns pensavam se tratar de cenas de um filme e comentaram :
-  Parece  filme policial ! Não tô reconhecendo os atores !
-Devem ser coadjuvantes !
- Nada, esse filme é daquele cineasta, como é mesmo o nome Osvaldo ?

Alucinado, Valdomiro apontou a arma e atirou no copo da mesa ao lado :
- Todo mundo calado ! Quieto. Vou enfiar  o dedo no gatilho e mato uns cinco nessa merda. Ainda tenho mais bala aqui, ó !! Mato todo mundo !

Silêncio . Clientes se entreolharam assustados. Os garçons esconderam-se atrás do balcão. As amigas de Maria Dolores começaram a chorar nervosas. Valdomiro saiu  puxando a ex  pelos  cabelos e passando entre as mesas berrava :
- Vocês estão vendo essa carinha  ? Parece uma  santa, né ? Mas é uma puta . Me corneou com um babaca do  trabalho. Agora vai morrer.
Uma senhora cardíaca começou a passar mal :
- Socorro, me deixa sair do restaurante. Tô com falta de ar.
- Cala a boca aí coroa. Se continuar falando, meto bala !
-  Me abana....me abana, Agenor..
O nervosismo tomou conta da clientela. Um homem que sentara-se  na última mesa perto do banheiro, pegou  o celular e ligou para a polícia . Quando Valdomiro percebeu que o homem desligava o aparelho , se aproximou :
- Dá a porra do celular aqui. Anda. Passa essa merda pra cá !
Com as mãos trêmulas, o homem  entregou o celular. Valdomiro mandou Maria Dolores olhar para qual número o cliente havia ligado. Ela disfarçou.
-  Não tô conseguindo enxergar.
- Passa essa porra pra cá ! Além de vagabunda, é cega.
Vigiava os clientes e olhava o celular. Entrou em desespero quando viu o número :
- Filho da puta, ligou pra polícia, é ? Nunca foi corneado na vida ? Então agora vai morrer pra deixar de ser otário.
Gritaria e choradeira.  Barulho de copos se quebrando e caindo pelo chão. Mesas virando. Valdomiro atirou. Na cabeça . Maria Dolores enlouqueceu :
- O que você quer que eu faça ?  Eu faço. Diz.  Essa gente não tem culpa !
- Então diz que me ama. Bem alto pra todo mundo  ouvir !
- Eu te amo ! Agora deixa essa gente em paz ! Vamos sair daqui.
Quando Valdomiro preparava-se para sair  do restaurante, agarrado a Maria Dolores, a polícia chegou. Ele então,  recuou com a ex-namorada :
- Agora vai ficar todo mundo quieto aqui. Quem falar alguma coisa leva bala.
Silêncio. . A polícia negociava  com Valdomiro do lado de fora.
A mulher da mesa dez,  se apresentou como psicóloga, oferecendo-se para ajudar nas negociações :
-  Deixa eu sair. Você agora não tem a menor chance. Tá cheio de policial armado.
- Cala a boca; Meu negócio é com a Maria Dolores.
- Nós sabemos e queremos ajudar você. Não é Maria Dolores  ? – Perguntou a psicóloga esperando aprovação.
 Maria Dolores concordou com a cabeça .  Depois de muita conversa, Valdomiro deixou  a psicóloga sair para negociar a rendição.
Assim que ela colocou os pés na rua, o policial escondido perto da porta, agarrou-lhe os braços :
- Como está o clima lá dentro ? Quantas pessoas estão no restaurente ?
- Acho que umas 30 pessoas, o bar  estava começando a encher....
- O cara quer matar a mulher ? São amigos ? Namorados ?
-  Ciúme.  Parece que ela traiu ele e ele quer se vingar. Uma confusão desse tipo .
- O que o malandro tá querendo pra liberar os clientes?
- Ele só quer sair de lá com ela.
- Não dá.
- Como não dá ? Ele já matou um lá dentro ;
- Matou ?
- É, o cara que ligou para a polícia. Ele deu um tiro na cabeça do coitado.
O policial saiu gritando para os colegas :
- Aí , o malandro é perigoso !  Aperta o cerco. Já tem um óbito lá dentro. Sem negociação !
Na rua a confusão era grande. Imprensa. Pipoqueiro. Curiosos. Todos se aglomeravam esperando o final.
No restaurante ,  o clima era de  tensão. Valdomiro andava de um lado para o outro gritando com Maria Dolores :
- Viu o que você me  fez  fazer ? A culpa é sua . Piranha ! Eu disse que não seria corno. Nunca  !
- Eu não traí você . Juro !  
Valdomiro se distraiu conversando com Maria Dolores. O cliente que estava  perto da porta conseguiu fugir . Um policial armado, aproveitou e entrou apontando a arma para Valdomiro :
- Larga a moça ! Anda. Assim ninguém se machuca.
- Ela é minha ! Ninguém tira ela de mim. MINHA !
- Já disse pra largar. É melhor. Dá essa arma. Com calma !
Maria Dolores tremia :.
- Por favor , moço, não atira. ! Ele é inocente.  Eu não presto ! Eu traí o Valdomiro.
Nervoso , ele começou a chorar e abaixou a arma. O policial atirou no peito de Valdomiro. Ele  caiu no chão ensanguentado .Ao ver o ex-namorado agonizando, Maria Dolores surtou:
- Assassino ! Você matou o homem que eu amava. Assassino ! Covarde !
Gritaria . Maria Dolores  se jogou ao lado do corpo de Valdomiro. No meio de uma convulsão, ela pegou a arma da mão do defunto e deu um tiro  na cabeça.


O conto Paixão Sangrenta está no livro Só as feias são fiéis :http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=186&idProduto=187

2 de mai de 2011

Olhos do infinito

Encontrou-a chorando sozinha
numa mesa de bar. Olharam-se por alguns
instantes. Faltou pouco para
ele perder-se no infinito.
Por fim se recompos e
ofereceu-lhe uma cerveja.
Em silêncio, beberam até o dia clarear.
Levou-a para o apartamento.
O cansaço venceu. Nem tomaram banho.
Desmaiaram na cama arrumada.
Quando ele acordou, três da tarde, ela
havia ido embora. Levou os duzentos
reais que estavam na carteira dele.
Nenhum beijo. Afago. Mimo.
Não sabia nem o nome dela.
Nunca mais a viu. Daria todo o dinheiro
que tem no banco, apenas para sentir
a dor daquele par de olhos azuis
chorando novamente.