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28 de mar de 2011

Paixões virtuais

Encontraram-se na rua. Eufórica, Lucineide confessou para a amiga :
- Estou apaixonada.
- Verdade ? É do trabalho ?
- Não. Conheci na Internet.
- Internet ? Tremenda furada.
- Que nada.
- Mas vocês já se conheceram pessoalmente ?
-Ainda não. Mas ele me mandou a foto. É lindo. Moreno. Alto. Olhos amendoados.
- E se a foto não for dele ?
- É dele sim. Vamos nos encontrar no sábado.
- Mas se vocês ainda não se conhecem, como você pode estar apaixonada ?
- Ah ! Todos o dias nos falamos pelo MSN. Ele mexe comigo. Nunca nenhum homem mexeu assim.
- Hummm, ainda acho que é furada. Nunca se viram.
- E daí ? Sábado eu te conto.
- Com certeza. Depois me liga. Quero saber das novidades.

Um mês depois Lucineide voltou a se encontrar com a amiga :
- Tô apaixonada !
- Eu sei. Você me disse no último encontro. Ficou até de me ligar para dizer como foi.
- Ah é ! Verdade...
- E aí, como foi ? Deu certo ?
- Deu. Nos encontramos num barzinho, depois fomos parar num motel. Ótimo. Tudo de bom.
- Ainda bem que deu certo.
- Nãoooooooooo ! Estou apaixonada por outro.
- Não entendi !?
- Depois do encontro, nos falamos só umas duas vezes e pelo MSN. Ficamos meio sem assunto. Sabe como é.
- Sim e aí ?
- Aí a fila andou. Conheci outro carinha. Lindo. Mais lindo do que o outro .
- Já se viram pessoalmente ?
- Ele não é do Rio. Mas nos falamos todos os dias pelo computador. Vamos nos encontrar assim que ele vier ao Rio.
- E quando ele vem ao Rio ?
- Assim que tiver alguma coisa do trabalho para fazer por aqui.
- Ah sim ! Boa sorte com a sua nova paixão....
- É...pode ser. Talvez não dê certo por causa da distância. Em todo caso, já estou me acertando com outro.
- Outro ?
- É . Esse eu conheci num site novo de relacionamento....ele parece ser legal. Já vi até a foto.
- Boa sorte então !
- Obrigada. Ei, porque você não tenta também um site de relacionamento ?
- Eu ? Tá maluca ? Vou me casar ano que vem com o Alfredinho.
- Você e o Alfredinho ainda estão juntos ?
- Desde os tempos da faculdade.
- Ah tá ! Me manda o convite.
- Mando sim.
- Tchau !
- Tchau. Boa sorte com sua próxima conquista virtual.
-Obrigada !

17 de mar de 2011

O ciumento

Gelson e Martinha estavam casados há 10 anos. Não tinham filhos. A mulher era dedicadíssima ao marido. Tudo seria perfeito se não fosse o ciúme doentio de Gelson. Martinha era prisioneira em sua própria casa. O marido não deixava a esposa sair sozinha. Tinha medo que ela arranjasse um amante. Seus pertences eram sempre revistados. 
Gelson vasculhava os armários acreditando que podia encontrar bilhete de um amante. Não adiantava a mulher dizer que o amava e que nunca o trairia. Ele tinha complexo de corno. Nasceu assim. Bagagem  de outra vida.
Quando jantavam fora,  era sempre a mesma ladainha:
- Martinha....aquele cara tá olhando para você...se ele olhar novamente vou tomar satisfação......

Martinha ria de nervoso com medo de briga e dava sempre um jeito de acalmar o ciumento :
-  Amorzinho... não tem ninguém me olhando, deixa disso...vamos comer em paz, pelo menos dessa vez.

Voltavam a comer , aparentemente em paz. Mas Gelson ficava de olho  na mesa vizinha, com medo que  mexessem com a esposa.

As amigas de Martinha não sabiam onde ela arranjava paciência para conviver com o ciúme doentio do marido. De tanto falarem, ela também começou a ficar  enjoada das desconfianças de Gelson. Eram dez anos convivendo com discursos contra a traição, escândalos e ciúme sem fundamento. Paciência tinha  limite  e a dela chegava ao fim.
Numa sexta-feira, início da noite, o que poderia ficar pior, melhorou. Martinha assistia a novela preferida, quando o marido chegou do trabalho, eufórico:
- Amor, sabe quem eu encontrei no Metrô da Carioca!? Lembra do Joaquinzinho ? Meu amigo de Faculdade...lembra ?  Eu falava muito dele pra você....
A mulher balançou a cabeça afirmativamente e com ar desconfiado.Gelson continuou :
- Ele mora duas estações depois da nossa. Batemos um longo papo. Também se casou e não tem filhos. Eu o convidei para vir com a esposa almoçar amanhã.  Toma. Já fiz até as compras !

Contrariada com a visita inesperada, no sábado, Martinha acordou preguiçosa para preparar o almoço .  Dez da manhã já estava na cozinha para fazer a comida preferida do amigo do marido. Era esforçada. Tentava agradar de todas as maneiras. Mas o  ciúme era como uma erva daninha a minar o casamento. 


Estranhamente , com o amigo, o marido agiu diferente . Gelson estava empolgadíssimo com a visita do companheiro de faculdade e deixou de lado o ciúme doentio .  Antes de Joaquinzinho chegar com a esposa ,  não fez nenhuma recomendação especial a Martinha.

Por volta do meio dia a campanhia tocou e o amigo de Gelson apareceu acompanhado da esposa, Rejane. 

Martinha ficou impressionada com a  beleza e a simpatia de Joaquinzinho.

O almoço correu tranqüilo e cheio de gentilezas. Enquanto Gelson e Joaquinzinho recordavam os velhos tempos de faculdade, Rejane e Martinha aproveitaram para se conhecer melhor. O casal fez amizade. Passaram a sair quase todos os finais de semana.
Pela primeira vez Martinha sentia-se  feliz no casamento. O marido deixou o ciúme doentio adormecido. Não foi capaz de perceber os olhares trocados entre Martinha e Joaquinzinho.

Numa Segunda- feira chuvosa , ela estava em casa lendo um livro, quando a campanhia tocou. Era Joaquinzinho :
- Desculpe...é que eu vim visitar um cliente aqui perto e como está chovendo muito, acabei me molhando todo. Lembrei que vocês moram  perto e vim me ajeitar , tirar a roupa molhada. ..e..e....

Quinze minutos  depois, Joaquinzinho e Martinha estavam entre beijos e amassos na cama onde ela dormia com Gelson. Depois de transarem como dois selvagens, o amigo do marido confessou:
- Foi tesão a primeira vista. Assim que te vi, senti que você seria minha.

Martinha deu uma sonora gargalhada:
- Eu também . Assim que te vi , meu coração quase saiu pela boca.

Tornaram-se amantes, com a cumplicidade indireta do marido. Sempre que os quatro se encontravam e iam jantar fora, Martinha e Joaquinzinho trocavam carícias, com os pés , por debaixo da mesa.


Depois na cama, riam da ingenuidade de Gelson, e da delícia de estarem nos braços um do outro.

O marido continuou ciumento. Desconfiava do padeiro, do vizinho, do homem da loja de móveis....até do irmão. Nunca desconfiou de Joaquinzinho. Pra ele, o amigo era sagrado. Quase um santo.






11 de mar de 2011

DIA D

                                                     
Levantei da cama 9 da manhã. Abri a janela e deixei o sol entrar no quarto. Segunda-feira. Primeiro dia de férias. Estava disposto.  Um dia inteiro só pra mim. Preciso mesmo descansar.Ocupar a cabeça com as coisas belas da vida. Não agüento mais botecos fedorentos. Tiros. Sirene de polícia. Delegacias. Algemas.
Acabar com a bandidagem é tarefa ingrata. Estressa. Destrói a família . Aumenta a pressão. Causa labirintite. Por falar em labirintite, deixa eu tomar meu remédio.

Hoje nada  me impede de ser feliz. Nem as ligações insistentes da mãe dos meus filhos. Aquela jararaca. Três anos de namoro. Casei achando que encontrara a mulher da minha vida.  Durante o namoro era  boazinha, carinhosa e compreensiva. Concordava com tudo o que eu dizia. Não reclamava dos meus plantões na delegacia. E adorava quando saíamos e eu estava armado. Casamos.  Durou oito anos .  No primeiro ano de casado ela já mostrava  que eu me metera numa grande roubada.  O docinho  se transformou numa mulher ciumenta , autoritária e chata. Implicava com os meus plantões e quando eu era chamado para algum atendimento de emergência , ela fazia a maior cena de ciúme. Só faltava me amarrar no pé da mesa. Ainda assim, tivemos dois filhos. Quando o menor completou um ano, saí de casa. Em  meio a muitas ameaças, abandonei a vidinha de casado :  medíocre e sem emoção.

 tinha  outra engatilhada. Uma ex-namorada que reencontrei no velório de um amigo. Saí de casa e fui  morar com ela. Durou pouco. Seis meses. Ela não suportou os escândalos da mãe dos meus filhos e nem meus plantões. Decidi dar um tempo e passei a sair sem compromisso. Toda semana uma mulher nova. Adoro mulher. São boas por pouco tempo. Depois de alguns meses começam a dar defeito. E eu passei a trocar morenas, por ruivas, por mulatas, loiras. Eu não queria me aborrecer. Já tenho uma profissão desgastante, uma ex-mulher no meu pé,  não dá para arrumar  namorada chata. Meu negócio é relaxar nas folgas. No momento estou sozinho.

Terminei com Rose tem uma semana. Mas acho que sou muito gostoso. Ela não sai da minha cola. Dez torpedos no celular, só no domingo. Chato quando uma mulher não entende que terminou. Elas se humilham, correm atrás, fazem escândalo. Pelo visto Rose é o tipo pegajosa. Sabe do que mais ? Não quero nem saber. Vou curtir minhas férias. Vou passar uma semana na casa dos meus pais no interior de Minas e depois vou pegar muita praia e muita mulher. Beber. Dançar e recuperar meu tempo perdido com aporrinhação.  O que a gente leva da vida ? Momentos. Apenas prazer e momentos felizes. Chega de Rose. Já falei que não quero mais. Se ela não me entende, que se dane. Não sou babá de mulher carente.

Entediado, abro a geladeira  : “ Nada pra comer. Nem um pãozinho.  Vou ter que ir na padaria. “ Preciso de um pão doce . Adoça a  boca. Antes, bermuda. E claro, mesmo de férias, não largo a minha pistola, nem para tomar banho. Desci o elevador com a minha vizinha gostosona. Vai trabalhar. Beleza estar de férias ! Coloquei o pé pra fora do prédio. A poluição me fez mal . Fiquei tonto de repente. É a maldita  labirintite. Frescura. Agora é só atravessar a rua e comprar  o pão . Depois  volto pra casa e leio meu jornal de ponta a ponta.


Entro na padaria e bato o olho numa loira linda, tomando café . Ela me encara. Tem os olhos azuis mais tristes que já vi.  Escolho um pão doce, sem desviar o olhar da loira.  Nunca a vi na padaria. Será que mora no meu prédio ?  Estou de cabeça baixa separando as moedas para  pagar meu  pão . Sinto um bafo quente no meu cangote. Um homem  fedido me empurra gritando com o caixa :

- Perdeu meu irmão ! Perdeu ! A grana.Anda. Se não te furo todo !

Não acredito ! Assalto ? Férias ? Que merda tava acontecendo ? Minha visão  embaçou. Peguei minha pistola. Atirei. Senti as costas ardendo. Levei um tiro. Caí.  Porra ! Que sensação de merda. Tudo rodando. A loira se aproxima gritando :
- Sou médica ! Chamem uma ambulância.
Segurou forte minha mão :
- Agüenta firme. Não se mexe.

Foram as últimas palavras que ouvi. Não senti mais meu corpo. Passei a flutuar. Que delícia ir para o céu refletido naqueles olhos azuis. 

1 de mar de 2011

A Calcinha branca e a namorada pit bull

                       A  calcinha branca e a namorada pit bull


Assim que Dorinha entrou no carro, começou a discussão :
- Detesto esse vestido .
- Tá bonita.
- Me sinto mal nele. Me aperta....acho que engordei.
-Então por que colocou ?
- Você fica me apressando. Não pode chegar tarde no churrasco do César.
César pra cá , César pra lá...parece que ele é o seu namorado.  
- Dorinha, quer fazer um favor  ? Dá um tempo. Sem discussão.

Foram no carro em silêncio. Agnaldo aumentou o volume do rádio, enquanto Dorinha amarrou a cara. Namoravam há um ano. Nos últimos dois meses brigavam muito  por causa de ciúme. Agnaldo sentia-se aprisionado . No início da relação, apaixonadíssimo, deixou Dorinha comandar-lhe os passos : abriu mão do  jogo de  futebol nos finais de semana e dava satisfação de tudo o que fazia. Depois de seis meses de relacionamento, não tomava nem mais o chopinho com os amigos. Passado o calor da paixão, Agnaldo  cansou do controle obsessivo de Dorinha e mesmo gostando dela, queria a separação. Porém, quando tocava no assunto , ela o ameaçava :
- Se terminar, faço uma loucura , mas antes, enlouqueço você  !
Com medo de se tornar vítima de uma tragédia passional, preferiu esperar  o momento apropriado para acabar o namoro, culpado pelas suas noites insones.
Como se não bastasse, os amigos encarnavam nele e passaram a chamar sua namorada de Dorinha Pitt Bull. Chateado com o apelido, não tinha ânimo para contestar, pois no fundo, sabia que eles tinham razão.
  
Assim que o casal chegou no churrasco, a maledicência tomou conta do ambiente:
-  Lá vem nosso amigo acompanhado da Dorinha Pitt Bull.
- Cuidado  ! Se ela descobre o apelido  vai ficar puta e o mundo vem abaixo.
-  A danada é bonita. Que corpo.....
- Foi o que chamou a atenção do Agnaldo. Agora agüenta.

Enquanto os  convidados comentavam a chegada do casal, Dorinha, alheia as fofocas, isolou-se e amarrou a cara, justificando  o apelido. De longe, prestava atenção em tudo , enquanto Agnaldo, simpático, abraçava os amigos. Meia hora depois, Agnaldo sentou-se ao lado de Dorinha e  ouviu a reclamação :
- Pensei que fosse me deixar sozinha.
Ele ignorou o comentário. Jurara não se aborrecer:
- Quer carne ? Maionese ?
- Não. Quero uma cerveja.
- Mas você não bebe....
-Hoje vou beber.
Bebeu e não comeu nada. Já estava na quarta lata de cerveja quando começou a implicar com uma morena de cabelos longos, que estava de  mini-saia :
- Agnaldo, quem é aquela escrota  olhando para você ?
- Quem ? Não tem  ninguém olhando pra mim.
- Aquela ali.
- Não aponta.
- Você também está olhando para ela. Tá com uma calcinha branca. A saia é tão curta que aparece o útero.
- Não reparei.
- Tá cego ? A mulher tá toda aberta na nossa direção, de calcinha branca encardida e as pernas cheias de varize.
- Pelo amor de Deus, não me arranja confusão. Ela é irmã da Betina, namorada do Joel.
- Então você sabe muito bem quem é a piranhinha.
- Vamos embora. Você já bebeu muito. Não quero confusão.
 - Quero beber mais. Mais uma cerveja. Umazinha só.

Bebeu mais do que devia e foi tomar  satisfação com a morena :
- Dá para fechar as pernas ? Todo mundo já viu a sua calcinha encardida.
Indignada, a outra  se defendeu :
- A vida é minha, a calcinha é minha e eu abro a perna para quem eu quiser.
Dorinha irritou-se :
- Não para o meu namorado !
- Não tenho culpa se você não é gostosa como  eu !
A morena tirou a calcinha e esfregou no rosto de Dorinha. A baixaria começou. Dorinha jogou a lata cheia de cerveja em cima da rival.  Uma enfiava o dedo na cara da outra. Agnaldo envergonhou-se diante da atitude da namorada . Quando se aproximava para separar a briga , Dorinha subiu na mesa e gritou embriagada  e  fora de si :
- Vamos ver quem é a mais gostosa agora ? DJ coloca uma música de suspense !
Os homens assobiaram empolgados.  As mulheres, com raiva, vaiaram. Dorinha não se intimidou. Com a ajuda da platéia masculina, que batia palma , dançava e tirava a roupa . Agnaldo olhava a cena surreal, enojado e constrangido . César se aproximou :
- Quer ? Eu paro a música. Ajudo você a tirar a Dorinha da mesa.
- Tô fora ! Vou me embora. Mulher carente é uma merda.  
Ainda viu Dorinha vomitar no labrador de César que se aproximou da mesa.
Apressou o passo e quando estava na porta, sentiu uma mão feminina tocando-lhe o ombro. Era a morena da calcinha branca :
- Posso ir com você ?
Agnaldo deu um sorriso entediado   :
-  Fica para a próxima. Desculpe, quero ficar sozinho.

Correu até o carro e antes de dar a partida, ligou o rádio bem alto. Acelerou e abriu a janela quando chegou na Auto-Estrada Lagoa-Barra. O vento no rosto deu-lhe uma infinita sensação de liberdade.