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21 de fev de 2011

A mulher que nunca amou

Deisiane olhou-se mais uma vez no espelho e retocou a maquiagem para disfarçar a ruga que insistia em aparecer perto dos olhos. Em seguida, pegou a bolsa, ajeitou os cabelos pintados de chocolate  e  entrou no primeiro táxi que parou.
Passava das 11 quando chegou na festa de aniversário de Mariozinho. As amigas fizeram um sinal e Deisiane se aproximou comentando desanimada :
- As mesmas pessoas de sempre. Os mesmos sorrisos forçados da última festa.
As amigas interromperam, contrariadas :
- Nossa Dei, quanto  mau humor ! A festa está cheia de homem bonito. Poderoso !
Ela olhou para os lados e debochou :
- Cadê ? Não tô vendo nenhum. Aliás, eu queria mesmo era um homem que tivesse caráter, tá difícil.
- Vem, vamos pegar alguma coisa para beber, pra você se animar.
Saíram pela festa gesticulando e falando alto. Pararam para cumprimentar alguns amigos. Deisiane não se empolgou. Apareceu na festa depois de muita insistência . Não tinha ânimo para diversões. Sentia-se  fracassada com o fim do segundo casamento. Chorosa, comentou até que um dia viraria lésbica. As amigas espantaram-se. Ela reafirmou em tom de brincadeira :
- Quem sabe assim não consigo amar alguém ?
-  Nem olha pra mim, hein ? Vai me dizer que você nunca amou o Arthur ?
- Éramos  muito novos quando casamos. Arthur é  um infiel compulsivo. Não dá para amar um sujeito assim. Dor de cabeça pelo resto da vida. 
- Mas e o seu primeiro namorado ? O Gerson ?
-  Coisa de adolescente, passou.
-  E o Mazinho ? Tá toda tristinha com o fim do casamento.
-  Triste com o fim do SEGUNDO casamento . Não por ele. Mazinho é muito mentiroso. Ainda por cima grosso e agressivo.
- Nossa, quem diria, com aquela carinha de calmo !
- Convive  com aquela carinha. Você vai adorar – Falou com ironia na voz.
Lídia, a melhor amiga, apertou os lábios pensativa  :
- Um dia você vai amar de verdade . Eu já amei três vezes. Embora tenha sofrido nas três. Você sabe.
- Francamente,  amar não vale a pena. Aliás, amor, não, escravidão sentimental.
-  Nossa, você está muito amarga . Dê  mais uma chance para o seu coração .
- Mais do que já dei ? Meu nível de tolerância zerou. Amor é investimento e ultimamente sem retorno.  
- Você está exagerando. Homem perfeito não existe .
-  Eu até concordo. Mas aceitar um balde de imperfeição é falta de auto-estima feminina. Desculpa esfarrapada  para ficar numa relação neurótica.
- Dei, para conviver tem que perdoar. Tolerar. Até mesmo traição.
- Ah não, Lídia, papo religioso pra cima de mim durante a  festa, não. 
- Mas o perdão é a base do relacionamento.
Deisiane interrompeu a amiga balançando a cabeça contrariada :
- Se você perdoa uma, vai passar o resto da vida perdoando. Não tenho vocação para irmã de caridade.
Esperançosas de mudarem o ânimo de Deisiane, as amigas  pegaram-na  pelo braço :
- Vamos correr a festa. Tem alguns homens interessantes que você não conhece.
- Que tal aquele branquinho sorridente ?
- Aquele  com pose de  Mister Universo ?  Narcisista demais. Aposto que antes do sexo fica se olhando no espelho.
-  Que mulher exigente ! E aquele ali ?
- Infiel. Está conversando com uma e olhando para outra. Reparem.
As amigas achavam Deisiane um caso perdido. Exigente demais.  Desistiram e  comentaram magoadas :
- O problema é seu , sabia ?  
-  É, devo sofrer de alguma compulsão. Quem sabe a síndrome da insatisfação?
E sorria. Um riso triste. Solitário.
 A amiga mais extrovertida, tentando quebrar o clima pesado, brincou :
- Você sofre de uma síndrome chamada síndrome da vagina carente !
- Vagina ou coração ?
Silenciaram-se. A festa continuava animada. A música alta agitava os convidados. Só Deisiane não se divertia . Sentada num sofá, com uma taça de vinho entre as  mãos, olhava os convidados como se fossem extraterrestres. Observava. Desaprovava. As amigas é que , de vez em quando, faziam-na voltar à realidade :
- Olha quem chegou: O Adolfo. Ele não é lindo ?
- Tem quatro namoradas. É o típico Dom Juan de Merda. Cara nojento !
- O Adolfo ? Não diga. Quem te contou ?
- Uma das  namoradas  trabalha comigo. E acha muito natural dividir.
- Cada um é feliz do jeito que sabe. Com essa escassez de homem, ela tá certa. _ Falou Ana, amante de um homem casado.
- Eu acho que isso não é felicidade, é falta de higiene. – Retrucou Deisiane entediada.
- Com você não existe argumento, chega ! Vamos dançar.
- Vão vocês. Prefiro ficar no meu canto observando .  
Aproveitando a distração das amigas, saiu da festa discretamente. Na volta pra casa, olhava as ruas vazias e se angustiava. A solidão da noite apertava-lhe o peito. Não trocou uma palavra com o taxista.
Entrou em casa sentindo  um imenso vazio . Enquanto tomava banho, as lágrimas escorriam-lhe pela face , misturando-se  a água morna.
Acabou o banho, foi até a cozinha, fez um chá e bebeu-o em estado catatônico. Em seguida, foi até o criado- mudo , abriu a gaveta e pegou algumas anotações. Como quem olha uma vitrine apetitosa, fez a escolha e leu a meia voz  :
- Moreno, corpo atlético, vinte anos. Satisfação garantida.
Ligou, ansiosa. Combinou preço e hora . Deitou-se com uma serenidade no olhar, de invejar as amigas :  “ Quem disse que felicidade não se compra ? “ – Pensou.  Respirou sonhadora, ajeitou o travesseiro, virou-se para o  lado e adormeceu. Um sono tranqüilo. Reparador.

14 de fev de 2011

A Sobremesa

                                              
Onze horas da manhã de um sábado  nublado.  Célia Regina está na cozinha preparando o almoço, quando Olavinho chega com as compras :
- Pronto. Está aí. Tudo o que você me  pediu.  
Assim que tira as compras da sacola , grita para o marido :
- Olavinho , vem aqui na cozinha um instante.
- Peraí . Tô trocando de roupa. O que foi ?
- Você esqueceu da sobremesa !
- Que sobremesa ?
- Cadê a lista de compras ? Me dá aqui. Eu escrevi no papel.
Olavinho procurou no bolso da  bermuda e não encontrou :
- Joguei fora.  - Contrariado resmungou :- O que eu esqueci dessa vez ?
- Os pêssegos e o biscoito champagne para  o pavê .
- Substitui o pavê pela banana. Eu trouxe banana. Faz banana frita.
- Puxa, Olavinho, você sabe que  mamãe adora pavê de pêssego. Ela não vem almoçar aqui em casa há mais de um mês. Não custa nada agradar.
- Custa , sim. Minha ida ao supermercado.  Diz a ela  que pêssego está em falta .
- Eu vou fazer isso com a minha mãe ? Ela vai acreditar ?
- E o que é que você quer que eu faça ? Que eu volte naquele supermercado cheio, com aquele povo passando com o carrinho por cima do meu pé ?
- Vai. É rapidinho. Não posso ir. Tenho que fazer o empadão.
-  Ah, não ! Vou tomar minha cervejinha  . Esquece a sobremesa.
- Deixa de ser imprestável...
-Quem inventou esse almoço foi você...hoje é sábado, dia do meu descanso. Já fiz a minha parte. Agora, tchau !
- Você NUNCA faz nada do que eu peço !
- Como não  ? Você é que é uma insaciável . Nunca está satisfeita com nada.
-   Como eu posso ficar satisfeita com  um marido que usa cueca furada  e que só quer saber de encher a cara final de semana ?
- E você ? É a senhora perfeita por acaso ? Quem é que  chega do trabalho e  deixa calcinha suja jogada no quarto   ? Ou então fica duas horas no telefone fofocando ?
- Sinal de que tenho amigas !
- E mulher tem amiga ? Mulher tem concorrente. Ou você já se esqueceu que eu era namorado da sua ex-melhor amiga ?
-  Agora eu entendo porque ela abriu mão tão fácil..... bela porcaria !
- Porcaria ? No início bem que você gostava. Chegava a urrar !
- Tudo jogo de cena  ! – Ironizou Célia Regina.
- Eu sei . Vocês são todas umas falsas !
Olavinho anda  de um lado para o outro, imitando voz de mulher  : -“   Nossa ! Como a fulana ficou feia com aquele vestido ! E o marido da sicrana, hein ? Tá saindo com outra.... sabia não, queridinha ? “
- Até que você leva jeito, hein ? ! – Ironizou Célia Regina.
- Vocês são  umas invejosas ! Vivem falando mal umas das outras. Falam demais. Enchem os nossos ouvidos.  É por isso que tem muito homem  virando gay.
- Você também quer virar, Olavinho ?
- Não disse isso .  Não coloque palavras na minha boca. Mulher tem essa mania...
-  E homem que só é unido na hora de torcer pro mesmo time ?
Olavinho completa :
- E na hora da cervejinha , e eu já vou tomar a minha...dá licença.
Para chamar a atenção do marido, grita quando ele abre a porta da rua :
- Sabe por que eu fico duas horas no telefone ? Pra não precisar olhar para a sua cara de entojo !
Ele fecha a porta e volta :
- E você acha que eu estou satisfeito de olhar pra sua ? De estar casado com uma mulher que pinta o cabelo de vermelho ?
-  Você é um grosso mesmo ! Estou cansada de tanta grosseria.
- Ah é ?   Então vai morar  com a mamãe, Célia Regina !
- E deixar a casa pra você  enfiar sua amante aqui dentro ?
- Que amante ? Aturar uma mulher já é difícil, vou aturar duas?
- Você pensa que eu não sei ?! Dona Zulmira viu você no metrô com uma loira.
- Tá doida  ?
-  Sabia. Você está me traindo !  Esse é o primeiro sintoma do adúltero : chamar a mulher de maluca! Se eu sou maluca ,  você é um broxa. Sabe há quanto tempo  não sei o que é ter um homem ?
Olavinho  olha para o teto, coloca as mãos pra cima  e diz :
- Essa encheção de saco toda, por causa de um pêssego !
Célia Regina já ensaiava uma resposta quando a  campanhia tocou. Era Maria Odete que entra reclamando :
- Vocês não tem vergonha, não ? Dá para ouvir a gritaria  assim que a gente coloca os pés na Vila . Ninguém está interessado em saber da vida sexual de vocês.

- A culpa é do Olavinho . Ele não quer comprar uma simples lata de pêssego em caldas e biscoito champagne. Eu quero fazer o pavê de pêssego que a senhora gosta....e....
- Sua filha que é  culpada ! Ela acha que sou empregado dela.
- Vamos parar com essa briga inútil. Vim aqui pra almoçar. Sou visita. Só quero saber de uma coisa : você vai ou não vai comprar o pêssego e o biscoito  para fazer o  pavê da sua sogrinha ?
Ele pensou.....respirou fundo..... passou a mão pelo queixo e disse :
- Tá bom......tá bom. Lá vai o babaca de novo pro supermercado. Vocês venceram !

Resmungando, sai batendo a porta. Maria Odete balança a cabeça de um lado para o outro e  diz :
- Coloca uma coisa na sua cabeça, minha filha  : eles reclamam, mas acabam fazendo o que a gente quer . No casamento, quem manda, é a mulher.  

7 de fev de 2011

A esposa do Doutor Almeidinha

                                                      
Caminhavam lado a lado em direção ao Metrô do Largo da Carioca, no Centro da Cidade, quando Mirtes com os lábios trêmulos gritou  com o marido :
-          Anda Almeidinha ! Me diz quem é a piranha da sua amante.
-          Já disse para você que não tenho amante. Isso é coisa da sua cabeça !
-          Já sei quem é. É aquela morena de coxa grossa e cabelos pintados. Não é ? Fala, não é ela ?
Almeidinha não respondeu. Sabia que não existia diálogo com a esposa, principalmente quando ela começava com as cenas de ciúme. Mirtes, não satisfeita com o silêncio do marido, pegou–o pelo colarinho  e o sacudiu :
-          Diz logo quem é seu filho da mãe ! Tô ficando irritada !
-          Mirtes, estamos no meio da rua. Olha o vexame !
Mirtes continuou a sacudir o marido enraivecida. A atitude da mulher chamou a atenção de quem passava pelo local:
-          Olha lá...a mulher batendo no cara.
-          Ihhhhh vai sair porrada.....
Logo fez-se um círculo em volta do casal . Almeidinha , um conceituado ginecologista, não sabia onde enfiava a cara. A esposa, cada vez mais possessa, exigia o nome da suposta amante :
-          Diz seu filho da mãe ! Diz que eu vou partir a cara da piranha !
Três contínuos que passavam pelo local começaram o coro incentivando Mirtes :
-          Fala...fala...fala....
 Almeidinha  se desvencilhou da esposa. Empurrou a multidão que se aglomerava e desceu escadaria do metrô, envergonhado. Mirtes aproveitou a platéia e fez pequeno discurso :
-          Esse homem com cara de santo é um vigarista. Ele me trai com uma cliente. Ainda descubro quem é a vagabunda. Sexto sentido de mulher não se engana !
Aos poucos, a multidão  se dispersou.  Mirtes ficou  sozinha.
Quando chegou em casa Almeidinha arrumava as malas .
-          O que é isso Almeidinha ?
-          Vou me  embora.  Não aquento mais seu ciúme. Hoje me matou de vergonha. Amanhã  me mata de verdade. 
-          Embora ? Que vai embora nada. Se você me largar, faço um escândalo. Vou aos jornais e digo que você molesta suas pacientes. Forjo testemunha. Você não me conhece Almeidinha. Acabo com a sua raça !
Almeidinha ficava com medo. Sabia do que ela era capaz. Quando se casou, Mirtes era uma mulher doce e companheira. Com seis meses de casados começaram as cenas de ciúme. Tinha ciúme de todas as clientes. Até das mais velhas e feias. De início exigiu trabalhar no consultório como recepcionista. Porém, depois de arranjar confusão com três pacientes , Almeidinha aconselhou a esposa a ficar em casa. Caso contrário, iriam falir. A desconfiança  continuou de longe . Mirtes não permitia que o marido tivesse recepcionista e ligava para o consultório de hora em hora.
Quando Almeidinha desligava o celular, Mirtes passava no consultório e  esperava o termino das consultas .
Se Almeidinha, chegasse em casa cansado e não quisesse ir para a cama , depois de cheirar-lhe os dedos,  o agredia com desconfiança :
-   Vai me deixar na vontade ? Não aquenta mais ver xoxota ?! É nisso que dá : transa com aquelas clientes  cheias de HPV... ! Devasso ! Tarado !
Almeidinha deixava Mirtes falando sozinha, se trancava  no banheiro e sentado no vaso, pegava o celular e fazia uma ligação. Quando atendiam do outro lado, Almeidinha se transformava : 
-  Se você não existisse não sei o que seria de mim. Não aquento mais essa doida no meu pé. Tenho que me livrar dela....me ajuda !..... Como ?? ..... Você tem um plano ? Diga. Qual é o plano ?
Depois da conversa, ele se acalmava. Quando Almeidinha saía do banheiro, Mirtes já  estava dormindo . Efeito dos tranqüilizantes.
No dia seguinte, quando Almeidinha saía para o consultório, Mirtes impunha novas  recomendações :
-          ....e se eu chegar no consultório de surpresa e você tiver de gracinha com alguma cliente, faço um escarcéu  !
Almeidinha balançava a cabeça obediente. No caminho fazia sua ligação habitual :
-          Hoje ?? Você acha que vai dar certo ? Será ?........Ela comprou uma arma. Certeza. Na gaveta das calcinhas. ...Tá....tomara que sim. Um abraço.
Almeidinha chegou no consultório aliviado. Aquela ligação  lhe devolveu a vida. Quando o relógio bateu seis da tarde , desligou o celular, tirou o telefone do gancho e mandou a última cliente entrar.
-Dona Waldecina, por favor....
Seis e cinco. Mirtes ligou para o celular do marido. Desligado. Ligou para o telefone do consultório. Ocupado. Seis e 15. Irritou-se ! O coração apertou no peito. Sentiu falta de ar. Foi até a gaveta das calcinhas, pegou o revólver e saiu . Chamou um táxi .  Chegou no consultório 7 da noite . Almeidinha se despedia de Waldecina com a mão no ombro direito da paciente  :
-  A senhora  retorna com todos os exames feitos.
-           Então é essa a sua amante ?
Waldecina não entendeu :
-          Quem é essa mulher ? O que está acontecendo ?
Cega de ciúme, Mirtes pega o revólver na bolsa e dá dois tiros certeiros no peito de Waldecina. Waldecina cai.  Almeidinha grita :
-Sua louca, matou minha cliente ! E agora ?
A porta do banheiro da ante-sala do consultório se abre. Renildo surge correndo até o corpo de Waldecina. Se ajoelha chorando e abraça a mulher morta :
-          Que desgraça, meu Deus ! Que tragédia !!
Mirtes arregalou os olhos assustada :
- Quem é você  ? O marido dela ?
 Renildo balança a cabeça afirmativamente. Mirtes não sabe o que fazer . Os dois homens a acusam de louca assassina.
Enquanto Almeidinha liga para a polícia e Renildo continua agarrado ao corpo de Waldecina, Mirtes corre para a janela, toma impulso e se joga do décimo segundo andar. Se espatifa na calçada da Avenida Rio Branco.
Quis o destino que Waldecina e Mirtes fossem enterradas no mesmo cemitério. Ficaram em capelas vizinhas. Renildo velou o corpo da esposa  a noite toda. Faltando uma hora para o enterro das duas mulheres , vai até a capela ao lado.
Foi direto até Almeidinha. Abraçou-o  com força e puxou-o pela cabeça:
-  Enfim, livres para amar !
Almeidinha deu um sorriso discreto e apertou excitado, o braço de Renildo.

1 de fev de 2011

O marido da morta

                            

Célio enxugava o suor que escorria-lhe da testa,  no enterro do único tio. Chovia  naquela tarde de outono. A capela  onde era velado o corpo de  Hermínio, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, estava lotada. O comerciante tinha um padaria no bairro histórico de São Cristovão, onde D. Pedro II nasceu e cresceu, e de onde governou o Brasil, por quase meio século. Hermínio vendia fiado, era bem humorado e educado.  Morreu durante um assalto.  Acabara de abrir o estabelecimento, quando dois homens armados  entraram na padaria, e o renderam junto com três clientes. Reagiu e levou dois tiros no coração.

Os fregueses chegavam chorosos  para prestar a última homenagem ao dono da padaria. Célio estava sufocando .Claustrofóbico, sentia  o ar rareando. Faltava  duas horas para o enterro de Hermínio. Não tinha mais paciência para receber condolências. Saiu da Capela e resolveu passear  pelo Cemitério. Uma estranha mania. Quase uma excentricidade. Gostava de caminhar por entre os túmulos. Meditar. Procurava  lápides  de gente famosa ou um defunto com o mesmo sobrenome .

A morte lhe exercia estranho fascínio.  Era um homem contido e solitário. Estava com 35 anos e dava aulas de inglês para sobreviver. Apaixonado por Edgard Alan Poe, Lord Byron e Álvares de Azevedo, adorava relê-los nas noites chuvosas. Interessava-se também pela vida de bichos exóticos como os lêmures e as tarântulas. Célio foi morar com o tio ao completar 12 anos, depois que os  pais  morreram num acidente de carro.

Na volta  para a capela ,entrou por engano na sala ao lado,  onde era velado o corpo de uma jovem . Havia um homem e uma mulher chorando, abraçados . Entrou consternado, aproximou-se do caixão e fez uma prece. Depois, fascinado, olhou durante alguns minutos  o rosto da morta. Jazia  entre  rosas brancas. Lábios pálidos. Rosto sereno. Teve a impressão de que ela queria lhe dizer alguma coisa.  
Estava com o pensamento  longe, quando o rapaz se aproximou :
- Você conhecia minha irmã  ?
Célio estremeceu :
- Estava  admirando a  beleza dela. Desculpe perguntar, morreu de quê ? E a  idade  ?
O irmão respondeu entristecido :
- Vinte e um . Leucemia. Única irmã. Aquela é nossa mãe. O senhor conhecia a Joana ? Ela era muito reservada...
-         Não. Na verdade  eu estou na capela ao lado, velando o corpo do meu tio. Preciso ir . O enterro já vai sair. Pode me dar o número do seu telefone ?

Sem entender , o irmão de Joana, que se chamava Gilberto, pegou um papel, anotou o número e estendeu a mão :
- É lá de casa. Não tenho celular.

 Célio sorriu contido e se despediu desejando condolências.  Voltou para a capela onde era velado o tio. O padre encomendava o corpo. O cortejo fúnebre seguiu embaixo de uma chuva fina e fria de outono.  Antes de ir embora, passou  pela capela onde estava  Joana. Não havia mais ninguém.

 Durante uma semana, sonhou  com  Joana . No sonho, ela lhe sorria com os cabelos soltos, esticando-lhe  os braços  . Celio acordava suado e nostálgico .  Num sábado pela manhã, tomou coragem e ligou para Gilberto:

_ Bom dia. Aqui é o Célio. Lembra de mim ? Nos conhecemos no Cemitério no dia do enterro da sua irmã. Queria saber  como você está.

Gilberto interrompeu-o secamente. Precisava desligar.  

Célio  disse que queria lhe fazer uma visita de pesames. A contragosto, o rapaz concordou.

Depois da primeira visita,  tornaram-se amigos.  Gilberto contou  o drama da jovem para  vencer a leucemia . Mostrou  as fotos da irmã  quando criança e também as fotos da viagem a Disney. Presente de 15 anos. Uma foto de biquíni , na casa de praia em Cabo Frio, impressionou Célio. Tomou coragem e pediu a fotografia ao novo amigo :
- Posso ficar com a foto  ?
O outro estranhou :
-         Que interesse você tem na minha irmã ? Ela já morreu...
Célio ficou embaraçado... gaguejou....coçou a cabeça e por fim , confessou :
-         Sei que é estranho, pode até pensar que  sou louco. É que nunca nenhuma mulher me exerceu tamanho fascínio .
Gilberto arregalou os olhos :
-         Ela está morta. Morta, entendeu ? Acho melhor você sair da minha casa e não voltar nunca mais. Morta. Joana morreu.

Nervoso, ele gritou :
- Some da minha casa. Seu louco ! Tarado !

Célio saiu cabisbaixo e humilhado, mas com a foto de Joana nas mãos. Nunca mais viu Gilberto. Mostrava a fotografia de Joana para os alunos. Contava que estavam noivos .

Todo final de semana, ia no Cemitério do Caju. Colocava flores no túmulo da falecida e ficava horas  monologando  com a morta.
Duas senhoras, que iam sempre visitar a sepultura de uma irmã, comentavam  :
-         Viúvo dedicado ! Deve ter sido um marido fiel .

Depois das aulas, Célio passou a ir todos os dias em direção ao Caju  . Os coveiros já o conheciam. Quando o viam entrar pelo portão, comentavam :
- Chegou o maluco !

Comprou um  poodle e presenteou a falecida:
-         Seu irmão disse que você adorava animais. Vamos chamá-lo de Lulu ?
Lulu e Célio tornaram-se companheiros inseparáveis de cemitério . Foram dez anos visitando a falecida na companhia do cachorro.

Até que um dia, um dos coveiros, encontrou o corpo de Célio abraçado a sepultura da mulher amada. Ao lado, Lulu   abanava o rabo, latia  e lambia o rosto do dono.

Morreu desgostoso. A tia respeitou- lhe  o último pedido. Enterraram-no ao lado de Joana. Na lápide, escreveram : Joana, O grande amor da minha vida. Eternamente, Célio.