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22 de jan de 2011

A FICANTE

                                                  
Soninha e Alberto entraram no bar conversando animadamente. Pediram uma mesa. Sentaram-se e enquanto esperavam pelo chope, acariciavam-se. Quando Raquel aproximou-se e sorriu para Alberto, o idílio amoroso terminou. O rapaz deu um forte abraço na jovem que estava com um vestido curto vermelho que deixava as pernas grossas á mostra  :
- Que saudade ! Quanto tempo !?
Conversaram em pé, durante cinco minutos. Raquel se despediu de Alberto com um beijo no rosto :
- Depois passa lá na mesa para lhe apresentar minha amiga .
Quando Raquel saiu a discussão começou :
 - Quem é essazinha  ?
- Uma amiga.
- Amiga ? Seus olhos brilharam quando você a viu.
- Tá delirando, é ?
- Não me dê diploma de idiota, quem é  ?
- Foi uma ficante.
- Quer dizer que vocês tiveram algo mais do que uma simples amizade?
 - Passado. Nada sério.
- Você ficou muito empolgado . Nem me apresentou.
- Nem reparei. Desculpe.
- Claro , quando não lhe interessa, você não repara. É sempre assim. Lembra daquela festa na casa do Flávio ?
- Ah não ! Vai começar a relembrar coisa que já passou, só porque a Raquel veio falar comigo  ?
- Muita intimidade . Sorrisinho pra lá. Sorrisinho pra cá.
- Garçom, mais dois chopes, por favor.
- Não quero mais beber.
- Como não ? Você me disse que estava com vontade de tomar um chope , conversar e depois sair para  namorar.
- Não vou namorar . Vou pra casa. Perdi a vontade .
- Vai estragar nossa noite por causa de  coisa que já passou ?
- A  Raquelzinha está  sorrindo pra você. Não tira os olhos da mesa.
- E eu tenho culpa ? Não posso fechar os olhos dela.
- Você e essa sua mania de ser cavalheiro com todo mundo. Menos comigo.
- Quando eu não fui cavalheiro com você ?
- Naquele dia do bote. Se o Carlos não me segurasse, eu ia cair na água. Você é desatencioso.
-  Reclama mas gosta de mim.
- Não sei mais se gosto....
Soninha fez biquinho. Ficaram em silêncio durante cinco minutos. Até que, com voz magoada, a namorada falou, pegando a bolsa   :
- Já vou .
-  Vamos ?
-  Vou sozinha. Não tem mais clima . Você estragou tudo. Você e a sua mania de ser gentil com as OUTRAS.
- Não vou ser grosseiro só porque você quer. Sou educado.
-  Então fique com a sua educação. De repente amanhã você liga para a Raquelzinha.Quem sabe vocês não recordam os velhos tempos ?
- Soninha, sua mente é muito fértil.  
- Sabe o que mais ? Não precisa ligar . Vai até a mesa dela e faz o convite.
- É isso que você quer ?
Soninha não respondeu. Olhava para o alto, com o rosto  apoiado na mão.
- Estou falando com você : É isso  que você quer ?
- Eu, não. Você. Quando a piranhete se aproximou da mesa, sua cara se transformou.
- Sua visão é poderosa.
- È ? E quem passou  a língua nos lábios e mexeu nos cabelos ? Sinal de interesse.
- Tá vendo demais. Mas você está certa. Quem sabe minha noite não vai ser melhor com ela, já que você está cheia de coisinha !?
Soninha fuzilou Alberto com os olhos. Pegou o copo de chope e jogou-lhe no rosto:
- Pois então , faça bom proveito. Tchau !
Virou as costas e se foi. Sem graça, Alberto pagou a conta , se dirigiu ao banheiro , limpou o rosto e foi até a mesa de Raquel :
- Minha namorada já foi .
- É, nós vimos.
- Posso sentar ?
- Claro. Senta ai. Quer um chope ?
- É, vou pedir.
- Bom, deixa eu apresentar : Lurdinha. Alberto. Alberto. Lurdinha.
- E aí, depois daqui o que vocês vão fazer ?
- Nós ? Vamos pra casa, namorar.
- Namorar ?
- É. Eu e a Lurdinha estamos ficando.
- Peraí, quando a gente ficava, você nunca me disse que era bi.
- Eu era hetero. Mas a Lurdinha me fez mudar de idéia. Agora sou homo. E fiel.
Levantaram-se e se despediram de Alberto, deixando-o pensativo.
- Ah sim, em homenagem ao encontro, paga a conta, Alberto ? Dê lembranças
a namorada. Como é mesmo o nome dela ?
Nem esperaram pela resposta. Alberto deu um sorriso amarelo e um tchauzinho sem graça. Quando o garçom veio lhe trazer mais um chope, ele comentou :
- Rapaz, hoje eu estou com um azar.
O garçom deu um risinho tímido e limpando a mesa com um paninho, filosofou :
-  Não repete essa palavra. Atrai coisa ruim. O senhor está é com falta de sorte.
Pegou o paninho e virou as costas. Alberto olhou para o nada e falou baixinho com cara de poucos amigos : “ É, todo metido a  esperto, também tem seu dia de otário.”

16 de jan de 2011

A Caixa ( vingança de mulher )

                                               
Lucinda e Albertina  saíram da faculdade e iam em direção ao carro de Albertina quando  Lucinda vira-se para a amiga e de um fôlego só diz :
- Você foi traída pela Olímpia.
- Traída ?  Como assim ? Me diga que história estapafúrdia é essa de traição ?!
- Me arrependi de ter falado. Não sei se conto....
Albertina irrita-se e  pára  no meio da rua  ordenando :
- Agora que você começou pode acabar o que falou. Não gosto de nada pela metade. Fala ! Anda !
Lucinda coloca a mão na boca......faz cara de arrependimento...
- Devia ter ficado calada !
- Não ficou. Agora fala. Por que Olímpia me traiu ?
- Ela e o Jorge estão ficando.
- Ficando ? Como ficando ???!!!
- Estão saindo juntos. Já foram até para a cama.....Quem me falou foi a ....
Indignada Albertina interrompe Lucinda  :
- Aquela cadela..., se dizia minha amiga e está de caso com o meu ex ? Ela sabe como venho sofrendo.....
Decepcionada ao saber da novidade, Albertina começa a chorar e chama a atenção dos pedestres que passam. Lucinda entra em desespero :
- Albertina, pára, pelo amor de Deus, pára com essa choradeira, as pessoas estão olhando....você tem que ser mais fria..
-  Fria ??????? Você diz que a minha melhor amiga está de caso com o meu ex-namorado e eu tenho que ser fria ? Tenho que achar graça por acaso ? Tenho que achar que a vida é bela ??? Ainda não cheguei a esse nível de evolução....
- Eu sei...mas escândalo não vai resolver....tá todo mundo olhando.....
Lucinda consegue pegar Albertina pelo braço e leva-a para dentro do carro. Conversam ainda durante uma hora. Albertina se lamenta e Lucinda aconselha. No final da conversa, fungando, Albertina pega um lenço de papel no porta-luvas do carro e enxugando as lágrimas diz :
- Essa vigarista  me paga ! Daqui a duas semanas é aniversário dela e ela vai dar uma festa no clube....pois ela que me aguarde...
Lucinda se preocupa :
- O que vai fazer ? Já estou ficando preocupada ,me arrependi de contar pra você....
- Quem viver verá !! Me aguarde.
Lucinda olhou com medo para Albertina. Naquele momento ela percebeu um brilho diferente nos olhos da amiga.
Assim que Albertina  chegou em casa ligou para Olímpia. Conversaram durante umas duas horas . Albertina não falou que sabia do  caso dela com  Jorge. Jogou umas indiretas. Mas a outra não se abriu . Albertina desligou o telefone indignada :
- Que falsa ! Caladinha....sai com meu ex-namorado, sabe que gosto dele e não me diz nada...fingida....vai me pagar....se vai.....
No dia seguinte, assim que saiu da faculdade foi até uma papelaria e comprou uma caixa enorme. Albertina recusou a companhia de Lucinda :
- Não preciso de ninguém no meu pé . Preciso planejar umas coisas....
-  O que vai fazer ? É alguma besteira ? Estou preocupada.
- Não se preocupe. No dia do aniversário daquela baranga você vai ver. Me deixa.
Durante as duas semanas que antecederam a festa de aniversário de Olímpia , Albertina esteve concentrada na sua vingança. Deixou a caixa comprada no quartinho dos fundos de casa e todo os dias dava um dinheiro para o primo, Alfredinho ,  de 12 anos, ir até lá. Só ele sabia o que Albertina estava planejando.  Guardou segredo,  em troca do dinheiro , das balas e sorvetes que ela comprava.

No dia da festa de Olímpia,  Albertina passou duas horas na frente do espelho. Antes de ir,  procurou Alfredinho e em troca deu mais dez reais a ele  :
- Posso levar a caixa ? Tem certeza que ela não vai abrir no meio do caminho ?
-  Não vai abrir não. Tá fechada  direitinho...confia no seu priminho aqui !
- Olha lá , hein ? !!
Quando Albertina chegou na festa com aquela caixa enorme, Lucinda correu em direção a ela :
- Amiga, o que é isso ?
- Ué, o presente dessa baranga.
- Albertina, o que você está aprontando ? Me diz....ainda dá tempo de voltar atrás...
- Cadê a aniversariante ? E aquele corno do Jorge ? Tá aí ?
Os dois vieram de mãos dadas em direção a Albertina. Foi um soco na boca do estômago dela. Fingiu que não se importava. Deu um abraço em Olímpia. Se fingiu de amiga. Disse que o presente deveria ser aberto na hora do bolo. Conversaram um pouco. Jorge e Olímpia se despediram e  saíram para dançar. Albertina falou entre os dentes para Lucinda :
- Que cara de pau !! Mas vão me pagar . Obrigada por ter me contado tudo. Imagina se você não me conta ? Hoje eu ia ter a maior surpresa vendo os dois juntos e pior, não ia poder armar minha vingança.
Na hora do bolo, a família de Olímpia estava toda reunida. Albertina foi até ela e lhe entrou a caixa :
- Toma amiga. A prova da minha amizade. Espero que você goste.
Olímpia sacudiu a caixa :
- Tá vazia ? Está leve....você está aprontando alguma , hein ? – Disse em tom de brincadeira...
- Pode abrir. É seu presente...vai adorar !
Olímpia dá um abraço emocionado em Albertina e lhe pede desculpas :
- Quero pedir desculpas por não ter contado que eu e o Jorge estamos juntos...a gente não tem culpa....nos apaixonamos...e...
- Está perdoada...abre o seu presente....
Olímpia começou a abrir a caixa. Albertina saiu de fininho e foi para a porta. Quando Olímpia abriu a caixa deu um grito assustador. Centenas de baratas começaram a voar completamente zonzas e sem direção. Algumas pousaram no bolo, outras no vestido de Olímpia. Os convidados corriam assustados, algumas mulheres desmaiaram, outras gritavam histéricas :
- Socorro...baratas ! Mata...mata....Vou morrer.
- Tira esse bicho de cima de mim.....que nojo !!
Olímpia ficou de sutiã e calcinha  quase voando  junto com as baratas. A festa acabou numa grande correria com muita mulher nua e homens tentando matar as baratas bem nutridas e voadoras .
Albertina que a tudo acompanhou de longe saiu da festa de alma lavada ! 

10 de jan de 2011

Descoberta

Perdida não sabia se fugia ou se ficava.
Sentia um bolo no estômago.
Uma dor no peito. Insônia.
Estranha letargia. Mãos frias.
Uma insatisfação crônica.
Queria sumir no mundo.

Pegou as roupas e partiu
decidida para qualquer lugar.

Sim. Amava pela primeira vez.
Doía . Preferia a futilidade.
Era menos explosiva.

2 de jan de 2011

RECORDAÇÕES JUVENIS

                                            O quarto cheirava a éter . Coloquei as pílulas enfileiradas  em cima da mesinha  de cabeceira e dei a última colher de sopa para mamãe. Antes de voltar pra sala,  ajudei-a a deitar-se, fechei as cortinas e encostei a porta  . Passava das nove quando me  recostei  no sofá e estiquei as pernas.  Fechei os olhos enquanto esperava pela enfermeira. As imagens de quando eu tinha doze anos me vieram a mente. Foi quando aconteceu a maior decepção  da minha vida. Meu pai saiu para procurar emprego e nunca mais deu notícias. Dois dias depois , mamãe gritava pela vizinhança  :
- O Edvaldo fugiu de casa  ! Quem vai cuidar das crianças agora ? Se eu encontro esse desgraçado, eu mato.

Lembro, que eu ia atrás dela pela vila  , enquanto minha irmã chorava na porta de casa. Eu estava  envergonhado com a atitude  de mamãe e implorava para ela acabar com o espetáculo. Não sei se fazia para me provocar, e gritava mais alto  :
- Eu quero que todo mundo saiba que o Edvaldo é um calhorda !
Meu pai nunca mais deu sinal de vida. Durante  anos, eu e minha irmã escutávamos a ladainha materna quando chegávamos do colégio. Eu  tentava consolá-la :
- Fica assim não, mãe, quando a senhora menos esperar papai entra por aquela porta.
- Aquele vagabundo não volta mais. Tem outra mulher.
- Não fala assim do papai, deve ter acontecido alguma coisa. Vai ver morreu atropelado.
-  E gente ruim morre ? Ele foi atrás  de alguma xoxota que deve dar boa vida pra ele.
Não tínhamos diálogo. Cedo aprendi que dentro de cada um , existe um  dono da verdade capaz de destruir o outro facilmente . Deus também  não gosta de ser contrariado. Além de discriminar adolescente  abandonado  pelo pai, ele se vinga de quem ousa duvidar da sua existência. Nunca atendeu um pedido meu. Quando eu entrava na  igreja com minha irmã e minha mãe, os fiéis faziam cara de nojo. No colégio, os meninos implicavam comigo :
- Cadê teu pai, voz de mulherzinha  ?
- Não sei. Deve ter morrido.
-  Morrido ? Você é tão mariquinha cara, que  teu pai foi embora porque tinha vergonha de você.

 Foi duro descobrir que adolescentes  também são cruéis quando querem. Aos poucos  me afastei dos coleguinhas  e me enturmei com as meninas. Elas gostavam de mim . Principalmente porque eu deixava  elas  me pintarem  e colocarem brincos. Sempre fui fascinado por  bugingangas . Menina tem  glamour . Menino  é muito sem graça, só quer saber de brigar e de jogar bola. Detesto cair  e  ralar os joelhos.

Ás vezes  chegava do colégio  e minha mãe não estava, então, eu ia direto  para o quarto dela e passava ás tardes desfilando pela sala com as roupas de festa que encontrava  no armário. Um dia mamãe chegou mais cedo do trabalho e me flagrou em frente ao espelho fazendo pose. Levei uma surra tão grande que no dia seguinte não podia sentar direito. Passei a aula gemendo. Naquele dia não quis brincar com as meninas. Voltei pra casa mais cedo . Assim que fechei a porta, a campanhia tocou. Era o carteiro me pedindo  um copo de água. Deixei-o esperando na sala. Quando voltei , ele estava todo á vontade  no sofá, me convidou para sentar perto dele e  começou a me acariciar. Correspondi. De repente  ele deu um pulo e saiu,  prometendo voltar no dia seguinte. Esperei na maior ansiedade.  Uma semana depois,  ele reapareceu . Meu coração disparou. Sem dizer uma palavra,  me carregou para o quarto , me jogou na cama e me possuiu. Gritei de prazer . Depois, assim que ele saiu, com a consciência pesada, entrei no banheiro e vomitei até as tripas. Chorei muito pensando na vida infeliz da minha mãe . Achei que ela não merecia um filho como eu. Um fraco. Nunca consegui resistir as investidas do carteiro. Recebia-o com uma excitação juvenil . Um dia, não voltou mais. Os vizinhos comentaram que ele  havia  sido preso.

 Passei a brincar  com as meninas, enquanto assediava os meninos. Minha mãe desconfiava que eu era diferente, porém, não questionava. Quando completei vinte anos , entrei para a faculdade  e assumi meu lado feminino. Minha irmã descobriu que eu gostava de homens  e nunca me condenou. Dizia que o importante era ser feliz. Não estranhei quando ela foi morar com uma mulher em outro estado . Fiquei sozinho com minha mãe. Ela nunca se esqueceu do meu pai. Ás vezes, eu encontro-a chorando, enquanto olha as fotos dele.  Nestas horas, meu coração  se entristece . Prometi nunca abandoná-la. Quando ela teve o primeiro AVC estávamos na sala  vendo um filme com a Audrey Hepburn  .

Agora, entrevada em cima de uma cama , fico com ela durante o dia. À noite, pago uma enfermeira, enquanto trabalho. O latido do cachorro me fez voltar a realidade. Olhei o relógio. Dez e vinte . “ Cadê a enfermeira ?” A campanhia tocou. Nora entrou ofegante, pedindo desculpas pelo atraso. Deixei -a no quarto com mamãe e fui me vestir . Coloquei minhas botas pretas de cano longo,  vestido mini, laranja, com um decote em V. Escolhi a peruca preta. Dá um ar de mistério. Os brincos grandes e  dourados completaram meu visual trash .Ajeitei as botas e saí  apressado. Estacionei o carro numa rua deserta.  Caminhava balançando o corpo,  quando um carrão preto parou do meu lado. Um homem  de cabelos grisalhos e rosto redondo perguntou meu preço. Respondi. Ele abriu a porta. Entrei no carro. Olhei o coroa de cima a baixo. Exibiu a grossa aliança de casado com orgulho. Senti nojo.

Enquanto o veículo tomava velocidade,  me concentrava . Conferi discretamente se o punhal estava na  bota. Minha garganta ressecou e meu coração disparou.  Desafivelei o cinto de segurança, peguei  o punhal e coloquei no pescoço do velhote . Ordenei que parasse o carro. Deu uma freada e esbugalhou os olhos. Minha adrenalina foi a mil.