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26 de dez de 2011

Lucro

Deixei o homem que eu amava partir.
Talvez nosso amor fosse tão grande
que não cabia nele.
Homem simples. Do interior.
Semblante sereno. Gestos suaves.
Nosso encontro foi breve e intenso.
A existência parou para que nos amassemos.
Depois de alguns meses, ainda sinto o cheiro dele
na minha pele. Minha boca ainda o possui.
Ele ainda está dentro de mim. Em todos os sentidos.

Vejo-o todos os dias diante dos meus olhos , quando acordo.
Lembro do sorriso. Da voz. Do olhar faminto em meu corpo.
Da pele macia. Das mãos bem cuidadas.
Quero que ele seja  o último amor da minha vida.
Agora o que vier é lucro.

21 de dez de 2011

A descoberta

Escovou os cabelos e  colocou o batom. Não podia faltar o rimel. Passou duas vezes. Um lápis preto daria o tom.  Pegou a melhor lingerie. Passou perfume francês. Olhou no relógio da estante. Dez da noite. Faltava pouco. O coração disparou. Abriu a janela da sala e deixou o ar entrar. Respirou fundo. Aquela brisa que vinha da praia era revigorante. Queria tudo perfeito. Correu até a geladeira. Tirou o vinho do freezer. As frutas estavam em ordem. Esfregou uma mão na outra. Sentiu um frio gostoso no estômago. Seria a primeira vez. O interfone tocou. Correu para atender. Esperou a campanhia tocar. Uma . Duas vezes. Deixaria tocar a terceira. Adorava suspense. Abriu a porta. Olhou uma vez. Duas. Com a voz decepcionada reclamou :
- Encomendei na agência um rapaz alto, moreno, olhos castanhos, boca carnuda. Você é alto,  branco, de olhos claros, traços finos. Sim, tem um corpo bonito. Deixa eu ver. Tira a camisa.
- Aqui ? Não dá para eu entrar no  apartamento ?
- Tira a camisa agora.
Sem jeito, tirou a camisa. Ela adorou a tatuagem do golfinho nas costas. Tinha um corpo bonito. Braços fortes. Perguntou empolgada :
- Tem certeza que você tinha que vir pra cá mesmo ?
- Sim.
Esticou o cartão da agência.
- Então o que houve ?
- O rapaz encomendado sofreu um pequeno acidente de carro.  Nada grave, mas não deu para avisar. Pediram na agência que eu viesse no lugar dele. Sou o melhor. Garanto. Não vai ficar decepcionada . Realizo todos os sonhos.
- Tem certeza ? - Sorriu pela primeira vez, relaxada.
- Se não gostar, devolve  o dinheiro.

Puxou o rapaz pelo braço. Trancou a porta. Beberam duas taças de vinho. Depois se enfiaram por entre os lençóis. Seis horas da manhã o despertador tocou :
- Meu tempo acabou.
Deu-lhe o dinheiro e pediu que deixasse o cartão da agência. Quando ficou sozinha, sorriu enternecida. Durante os quinze anos de casamento, o marido nunca lhe fizera se sentir tão mulher, como naquela noite.

8 de dez de 2011

A vitrine

                                
Lucineide passeava pelo shopping no final de uma tarde de sábado,  quando viu a amiga Rosilva  olhando a  vitrine de uma loja de sapatos. Resolveu se aproximar :
- Ro, quanto tempo !  Escolhendo um sapato ?
- Oi, Lucineide. Não,  só estou dando uma olhadinha.
-  Pelo jeito deve ter boas ofertas. Muita gente olhando a vitrine. A loja está  em promoção ?
- Nada.  Acredita que a loja estava vazia ?  Foi só eu me aproximar....
-  Então vem.  Vamos  tomar um café ?
Seguiram  em direção  à  Praça de Alimentação .  Entraram na fila, compraram um lanche e  sentaram-se para conversar . Lucineide falou primeiro :
- E aí, amiga, como estamos de amores ?
- Não estamos.
-  Eu  terminei  um namoro há um mês. Tô meio que fechada pra balanço.
- Pois é, a minha empresa fechou pra balanço e faliu. Não abriu mais.
- Deixa de ser pessimista, Rosilva. Relação está difícil pra todo mundo.
- Pra mim multiplica por dois.
- Nada , amiga, estão todos reclamando. Homens e mulheres.
-   Mas comigo é diferente. É pior.
- Não exagera...
- É sim....quando eu me interesso por um homem , é igual a vitrine de loja vazia.
-Não entendi !!??
-  É assim :  Passo pela loja   e não tem ninguém olhando a vitrine...
- Sim e daí ?
-  Quando me aproximo da loja  para olhar  a vitrine daqui a pouco tem um monte de gente olhando também .
- Não entendi  ?!  E o que isso tem a ver com a sua vida sentimental ?
- Pois então. Eu miro um homem. Quieto. Sozinho. No canto dele. Fico interessada.
- Hum e aí vem a vitrine ?
- Isso. Quando começamos a nos entender, percebo que não sou a única interessada.  Tem mais um monte na fila. De  sem graça , o cara passa a gostosão , disputadíssimo.
-  É...sabe que já aconteceu comigo ?
- Comigo acontece sempre.
-Deixa pra lá . Vamos mudar  de assunto . Quer ir a uma festa comigo no sábado ?
- Quem vai ?
-  Vou com o Ricardo, meu ficante.  Se quiser levar alguém, não tem problema.
-  Eu vou. Aproveito e pergunto se  o Arnaldo quer ir comigo.
- Arnaldo ?
- É ,aquele cara que trabalhou com a gente no setor do almoxarifado. Lembra ?
- Lembro.
- Pois então. Encontrei com ele semana passada e ficamos de nos ver novamente. Ele estava triste. Tinha terminado com a namorada.
- Queridinha, esquece. Voltou com a namorada. Vão se casar.
- Como é que você sabe ?!
- A namorada dele é minha vizinha.
- Jura ?
-Juro. É, amiga, procura uma igreja, um Pai de Santo, Pastor, qualquer coisa. Tá precisando se benzer.
- E você acha que eu já não procurei ?
-  Me conta ?!
- Pois então, um Pai de Santo.
- E aí ?
- Tudo ia bem. O Pai de Santo estava me esclarecendo um monte de coisas.
- Sim e aí ?
- Um dia cheguei para me consultar e o Pai de Santo não estava.
- O que aconteceu ?
- Mudou de estado.Transferência de emprego. Fiquei sem chão.
- Cruzes ! Bom , se você quiser ir a festa, SEM O ARNALDO,  me liga , tá ? Eu já vou. Vai ficar por aí ?
- Vou. Olhando vitrine.
- Então,  boa sorte !
- Pra você também. Tchau.

26 de nov de 2011

Luciana


Saí sem dar satisfação.  Peguei o elevador e apertei  o botão da  garagem. Passava das onze de uma sexta-feira. Tempo abafado. A previsão era de chuva para a madrugada   .  Peguei o carro e saí sem destino. As lágrimas rolavam enquanto eu dirigia. Não podia voltar pra casa.   Eu e Ernesto estávamos casados há   vinte anos. Brigávamos quase todos os dias.  Ele me deixava no limite. Dois filhos  adolescentes ainda seguravam o casamento.  
Não é fácil a separação.  Divisão de bens. Família. Cunhados. Irmãos. Pais. Filhos. Comodismo.
Parei  atordoada num barzinho  na zona  sul. Estacionei o carro e entrei.
Bar  lotado. Bocas salivando por um beijo. Perfumes sedutores. Homens e mulheres gesticulando.  Mexendo nos cabelos, falando alto e dando risadas.  Segui na direção da mesa de um  casal que pagava  a conta .  Mesa de canto, perto do banheiro. Era o que eu precisava : Sossego.   Pedi um chope  e fiquei observando o movimento do entra e sai. Os casais se abraçando, as mulheres apertando os lábios  e jogando charme com os cabelos. Peitos. Bundas. Quadris em movimento. Sede de sexo. Sede de amor.
Olhei para a porta e vi um rapaz interessante entrando no bar.  Alto, boca carnuda, moreno.  Olhos brilhantes e cheios de questionamento. Compenetrado, ele  colocou  as  duas  mãos nos bolsos  e parou.  Procurava alguém.  Não encontrou o que queria.  Num impulso, fiz sinal com as mãos e chamei- o  para sentar-se  na mesa comigo.
Ficou surpreso com a oferta, mas aceitou.  Eu tinha o dobro da idade dele.  Algo nele me chamou a atenção.  Seria carência ? Sei lá.
Desajeitado, puxou uma cadeira, sorriu e pediu um chope. Em seguida falou que esperava um amigo. Mas pelo jeito não apareceria.  Importa se eu ficar aqui ?
- Não. Por isso eu o chamei. Preciso de companhia.
- Levou bolo do namorado ?
- Não. Sou casada.
- Casada  ? Desculpe, vou sair.  Não quero confusão para o meu lado.
- Fica tranquilo ele não vai aparecer por aqui. Está em casa dormindo. Qual é seu nome ?
- Marcel e o seu ?
- Luciana  - menti –
- Vocês brigaram ?
- Brigamos sempre. Está difícil sustentar o casamento.
- Então separa…
- Na sua idade tudo é fácil
- Não . É fácil em qualquer idade. Pra quem quer.
- Sabidinho você.
- Não sou nenhuma criança ingênua. Sou um homem de 25 anos.
- Podia ser meu filho.
-  Mas não sou.  Qual sua idade ?
- Quaranta e oito.
-Adoro mulheres mais velhas.
Sorri. O chope chegou. Brigamos e ficamos um longo tempo em silêncio. Eu nunca tinha saído com um rapaz tão jovem. Pensei na possibilidade de ficar com ele naquela noite. Precisava de vida nova. Juventude. Carinho. Não sabia se chegaríamos a algum lugar. Excitada, dei corda.
Pedi licença e fui até o banheiro. Retoquei a maquiagem e liguei para casa. Ernesto atendeu com voz de sono. Perguntei pelas crianças. Ele disse que elas já estavam dormindo e logo ele estaria dormindo também. Menti. Contei que dormiria na casa da minha amiga Ruth.
Ernesto não se importou. Fazia tempo que ele não se importava mais comigo. Em seguida liguei para Ruth e contei que se alguém ligasse, eu estava dormindo na casa dela. Passei uma escova nos cabelos, e voltei para a mesa.
 Precisava de uma aventura. Urgente. Para não enlouquecer. Quando me sentei, Marcel tocou na minha mão. Ficamos por alguns segundos nos olhando. Quebrei o silêncio :
- Você tem uma boca bonita.
- Eu sei.
-Metido.
- Vamos pedir  a conta ?
 Saímos do bar de mãos dadas.  Marcel estava sem carro. Levei-o até meu carro. Entramos. Dirigi em silêncio para um motel   . Duas horas da manhã, a chuva fina começou a cair.  Eu estava excitada com a aventura. Era a terceira vez que eu traía Ernesto. Das outras duas vezes os homens eram mais velhos. Primeira vez que saía com alguém tão jovem . Gostei da ideia. Assim que entramos no motel a chuva apertou.
Marcel sentou-se na beirada da cama,  sem graça. Quebrei o gelo . Sorri,  sentei-me ao lado dele  :

-  Não vai me deixar experimentar essa boca  maravilhosa ?

Depois do primeiro beijo , veio outro,  e não paramos mais . Um desejo incontrolável tomou conta de nossos corpos. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.

Meu corpo flutuou. Há quase um ano que eu não transava com Ernesto. E pra dizer a verdade, não sentia mais nada com ele. Marcel me fez  entender que eu  estava viva e podia me divertir muito ainda.
Cansada,  adormeci  nos braços de Marcel . Acordei sete horas . Vesti  minha roupa em silêncio. Deixei dinheiro em cima da mesa e saí.  Olhei mais uma vez para Marcel. Ele dormia profundamente. Parecia um anjo. 

 Peguei meu carro e saí. Estava feliz. Sentindo-me mais mulher.  A chuva da madrugada se dissipou.  O céu azul indicava que o sábado seria de muito sol e calor. Respirei fundo e voltei  pra casa pela praia.
Quando  Marcel  acordasse  eu  estaria longe. Não nos veríamos mais. Ou quem sabe um dia ?

Precisava de um café. Urgente. 

15 de nov de 2011

Tempo

                                     
Analice saiu do trabalho e se despediu da amiga com um sorriso seco.
- Ei mulher, aonde você vai com tanta pressa ? 
- Me encontrar com o Gilmar.
- Então hoje tem ? – Riu -
- Justamente. Não tem.
- Ué,  se não tem, por que você vai se encontrar com ele ?
-  Depois te  falo. Tô com pressa.
- Tá. Tudo bem. Boa sorte.
Segurando a bolsa na mão esquerda  e uma pasta com os  papéis do trabalho na mão direita, conseguiu se equilibrar e entrou num táxi :
- Moço, por favor, segue para Botafogo. O mais rápido que puder.
- Sexta-feira. Seis da tarde ? Vai ser difícil.
- Tá bom ! Tá bom ! Sem conversas.

Sete da noite. Pagou o táxi e entrou na  portaria do edificio 254. Viu o namorado sair do  elevador de serviço  acompanhado de dois colegas do escritório. 
Analice  gritou pelo namorado, ansiosa. Gilmar espantou-se :
- O que  faz aqui ? Não te falei que  estava cansado e ia pra casa ?
- Precisava te ver.
Gilmar apertou os lábios, colocou a mão nos ombros da namorada  e se dirigiu para a garagem. Durante a viagem, Analice  falava sem parar  sobre o trabalho para disfarçar o nervosismo . Gilmar nem respirava. 

Quando o carro estacionou em frente ao edifício que ela morava ,  começaram as reclamações :
- Não vamos no bar  tomar pelo menos um refrigerante ?
- Não . Já disse, tô cansado. Não era nem para ter vindo aqui.
- Poxa. Nem um chiclete ?
-  Está entregue.
-  Nossa quanta frieza ! Não tem nada para me dizer ?
- Dizer o quê ?
- Está estranho.
- Estou normal.
- Diz olhando dentro dos meus olhos.
- Melhor deixar para outro dia.
- Diz agora , não suporto viver na ansiedade.
- Quer saber ?
- Sim.
-  Quero um tempo.
- Tempo ?  Isso não existe. O que está acontecendo ?
- Analice, você está forçando a uma situação que não era para ser agora.
- Não estou forçando. Fala.
- Tá bom. Melhor ir cada um para um lado. Não quero te magoar.
- Como é que é ? NÃO QUER ME MAGOAR  ? - berrou Analice -
Gilmar balançou a cabeça contrariado.   Analice começou a chorar.
Num  gesto automático,  abriu a bolsa para pegar um calmante . Trêmula respondeu :
- Mas já me magoou. Não queria, mas magoou. É outra  ? Diz a verdade.
- Não . Não é. Gosto de você. Mas não quero te magoar.
- Se gosta então por que pediu um tempo ?
- Você gosta muito mais de mim do que eu de você e eu não estou com cabeça agora. Quem sabe mais tarde ?
- Clichê para cima de mim ? Logo você  que reclama de clichezinho de novela  ?
- É diferente.
- Os homens são todos iguais . Seja macho e diz que não quer mais nada comigo. Na cara. Sem desculpa.
Gilmar perdeu a paciência. Olhou mais uma vez o relógio e passou a mão pelos cabelos . O celular tocou. Olhou o número e desligou.
- É ela, né ? É a outra. Não quis atender.
- Nada disso. Outro dia a gente conversa, tá bom, amor ?
- Amor ? Diz que não quer me magoar e agora me chama de amor ? Você está confuso.
- Não.
- Então fala a verdade.
- Quer mesmo saber ?
- Pode falar. Por pior que seja.
-  Estou apaixonado por outra. Vou me casar com outra.
Analice tomou um choque. Os olhos arregalaram-se. Pareciam saltar-lhe do rosto. Pensou alguns segundos e    saiu do carro sem olhar para trás.
Gilmar respirou aliviado. Chegou no bar e os amigos o esperavam ansiosos.
- Poxa, pensei que não viesse mais. O Vasco vai entrar em campo daqui a pouco.

Sorriu e  afrouxou o nó da gravata. Pediu uma cerveja . Depois do primeiro gole, confessou ao amigo mais próximo :
- A Analice não queria me liberar. Tive que pedir um tempo pra ela . Daqui a um mês eu volto. Deixa só o campeonato terminar.
- Isso. Geladeira nela. Geladeira, não. Freezer.
- Para tirar férias de um mês, tive que mentir. Disse que ia me casar com outra.
- Tu é louco cara ?
- Sabe que ela é orgulhosa ? Saiu do carro e nem me deu um beijo. Nada que uma ligação não resolva depois.
- Psiuuuuu o jogo vai começar !

Silêncio.

Em casa, Analice chorava, enquanto colocava veneno de rato no leite. Bebeu de um gole só.




4 de nov de 2011

Eu te amo


Sábado de céu estrelado e noite de lua cheia. Lucília e Macedo entraram num restaurante perto da praia e escolheram uma mesa no canto. Depois de fazerem o pedido, trocaram carícias discretas . Envergonhada, Lucília declarou-se:
- Eu te amo!
- O quê?
Repete com voz pastosa:
- Eu te amo, Macedo.
- O que você quis dizer com isso?
- O que você escutou.
- Amor é coisa séria, Lucília.
- Que falta de romantismo! Eu digo que te amo e você me trata friamente?
- Não quero iludir ninguém. Você sabe que eu gosto de liberdade. Sou sincero.
- Em outras palavras, isso quer dizer: Saio com você, mas também saio com outras. Sou infiel. É isso?
- Sem drama, Lucília. Só não quero perder minha individualidade.Amor é prisão.
- Não sabia que você se sentia algemado – disse ofendida.
- Fui claro desde o início : Prezo minha liberdade.
- Isso é desculpa pra sacanagem, Macedo.
- Impressão sua. Só não gosto de cobrança.
- Não cobrei nada, apenas expressei o que sinto. É pecado?
- Quem dá, pede de volta. Amanhã vai me cobrar a mesma coisa. Mulher é tudo igual.
- Você está me confundindo com a sua ex que era ciumenta e te sufocou. Sou diferente.
- Vamos mudar de assunto, essa conversa tá ficando chata.
- Por quê?
- Não estou preparado para compromisso sério. Preciso de espaço para respirar.
- Ei , não te pedi em casamento, apenas disse que te amava.
- Primeiro diz que me ama, depois quer conhecer minha família, dormir na minha casa.
- E qual o problema? Você é alérgico a compromisso sério?
- Tentei outras vezes e não deu certo. Quero uma relação leve. Cada um na sua.
- Então você não é meu namorado?
- Estamos tentando.
- Há quase um ano Macedo? Você é um cara de pau!
- Pronto, começaram as agressões. Vamos mudar de assunto.
- Quando é que você vai estar pronto para ser meu namorado oficial?
- Hoje nada é oficializado.
- Então você não me ama?
- Amor é relativo. Você pode amar o time de futebol, pai, mãe. Eu amo meu labrador.
- Você é um filósofo, Macedo. Ama o cachorro, mas não me ama?
- Cachorro não cobra . Homem pensa diferente. Não quero me sentir preso.
-Você perdeu o interesse por mim, é isso?
- Nossa sintonia não está combinando. Não foi isso que eu disse.
- Foi o que você acabou de dizer. Quer ficar livre de mim.
- Não tente adivinhar meus pensamentos. Mulher tem essa mania .
- Não generaliza. Eu sou A MULHER.

O garçom serviu a pizza, enquanto eles continuavam a conversa. Para descontrair, Macedo brincou:
- Mulher é tudo igual .Adora complicar, né?

O garçom deu um risinho sem graça, cortou a pizza e balançou a cabeça timidamente.
- Se precisarem de mais alguma coisa é só chamar. Com licença.
- Macedo, que palhaçada é essa de colocar o garçom na nossa conversa?
- Tava brincando. Tudo você leva a sério. Que mau humor!
- Perdi a fome – empurrou o prato com cara de nojo.
- Quê isso, Ritinha!
- Ritinha? Você me chamou de Ritinha?
- Chamei? Nem percebi. Desculpe. Você me deixa nervoso. Come a pizza.
- Não quero, pode comer tudo.
- Vai estragar nossa noite?
- Quem estragou foi você.
- Eu?!
- Você, sim. Tá filosofando pra cima de mim, só porque eu disse que te amava. Homem é tudo igual . São todos egoístas.
- Vamos deixar esse papo feminista pra depois. Já pedi desculpa. Come a pizza e vamos mudar de assunto .
- O que você sugere? – falou irritada, balançando a perna e batendo com o pé no chão.
- Que tal falarmos sobre as várias espécies de moscas existentes no planeta terra?
- Você é uma delas, né? O popular mosca de padaria.
- Deixa de ser boba. Minha bobinha.
- Você não aceita o meu amor, troca meu nome e eu é que sou boba?
- Caramba, mulher tem mania de ficar batendo na mesma tecla. Vai, come.
- Pra você é fácil.
- Bobinha, vamos sair daqui e fazer as pazes na cama. Adoro transar com você irritadinha.
- Homem só pensa em sexo. Sou apenas um objeto sexual pra você?
- Você não gosta de ser usada?
- É isso que eu sou pra você. Uma VAGABUNDA?
- Não disse isso. Tá difícil conversar, Lucília! Você leva tudo para o outro lado.
- Que lado?
- Esquece, Ritinha. Desculpe, Lucília. Tá vendo como você me deixa confuso?

Silêncio. Lucília respirou fundo, esticou o corpo, mordeu os lábios e falou decidida:
- Macedo, você é um babaca. Como eu não percebi isso antes?! Vai pra puta que te pariu!

Pegou a bolsa e saiu.


28 de out de 2011

A Chantagista

                                               Abri a porta do apartamento e lá  estava  a cena que se repetia quase  todos os dias, nos últimos seis  meses :  Augustina, minha amante, e Doralice, minha esposa, sentadas no sofá da sala, conversando.

Assim que me  viu, Doralice  se atirou no meu pescoço e me deu um beijo  . Confesso que, ás vezes,  a servidão feminina  me dá nojo.  Enquanto  melecava meu rosto de beijos, Augustina encolhia os ombros, fingindo-se de morta. Acenei para ela, sem graça,   e corri  em direção ao  banheiro. Antes de tomar banho,  vomitei. Eu estava paranoico  e precisava dar um jeito na minha vidinha de merda . 

Enquanto a água gelada batia no meu corpo, eu pensava em  uma maneira de me livrar de  Augustina. A filha da puta não valia nada.  Era caprichosa e não tinha amor próprio. Fodia  com ela por obrigação.  

A merda toda começou quando  Augustina quis ir pra cama comigo  e  eu não quis comer.  Ela era gostosa, mas eu estava noivo da Doralice . Sair com ela significaria o fim do meu noivado. No dia seguinte todos no trabalho ficariam sabendo. Inclusive  Doralice. Nós três trabalhávamos num escritório de  engenharia .  Quando Dodô , era assim que eu a chamava carinhosamente, anunciou  que íamos casar, Augustina  ficou  revoltada.  Ela me queria de qualquer maneira. No dia em que soube do casamento , me ligou no início da madrugada, tentando disfarçar o despeito:
- Não acredito que você vai se casar com a sem graça da  Doralice.
-Gosto dela.
- Mentira. Você tá fazendo isso pra me provocar.
- Por que eu iria querer  te provocar ?
- Você gosta de me ver puta.
- Vai se foder, Augustina.  Tô  cagando pra você.
- É o que veremos.

Eu não acreditei nas  ameaças.  Homem que não acredita em ameaça de mulher rejeitada,  se fode.   Augustina  era o tipo de mulher que não aceitava não como resposta. Para me desafiar , se aproximou de Doralice. Viraram amiguinhas. Quando Doralice escolheu Augustina para madrinha , protestei:
- Porra, Doralice, eu não vou com a cara da Augustina.
- Deixa de ser implicante. Ela  nunca te fez nada.

“ Adiantava dizer a verdade “ ? 

Deixei  pra lá : “ Um dia a Augustina arruma um macho e me deixa em paz”. Ilusão. Depois do casamento, ela passou a frequentar minha casa e ficou mais próxima . Até descobriu meu ponto fraco e aí fiquei nas mãos dela. A filha da puta  me viu saindo do motel com a mulher do meu irmão . Eu comia a minha cunhada  . Então o que ela fez ?  Tirou fotos  no celular e me chantageou :
-  Sabia que eu ia descobrir teu ponto fraco. Se eu abrir a boca, vai perder  a mulher e o irmão. Imagina o sofrimento dos teus pais.
- Quanto você quer pra ficar calada ?
-  Quero você.

Passei a comer a Augustina  uma vez por semana. Ela adorava ser xingada e me pedia para  levar  tapas na cara. Depois de quatro  meses , enjoei :
-  Já  cumpri meu trato. Me dá  as fotos, pede demissão  e some da minha vida.
-   Nada disso.
- Sou casado com a sua melhor amiga.
- Vai me comer até quando eu quiser. Ou então teu irmão, tua mulher e teus pais vão saber quem é você.

Meu  sangue  ferveu . Ela merecia levar muita porrada. Capaz de gostar .  Deixei  a vagabunda na porta de casa , e não disse uma palavra. Saí cantando pneu. “ Precisava me livrar da  Augustina. Não dava mais para trepar por obrigação”.

Passei  quase um mês pensando o que fazer  : “ Matar seria a solução. Mas eu não matava nem mosca, ia matar a Augustina ?  Crimes nunca são perfeitos .  Ia acabar na cadeia. Teria uma ideia melhor.”

Foram noites de insônia. Até que veio a oportunidade. Sim. Tudo era uma questão de momento. Deus estava me ajudando. Surgiu uma vaga para secretária no escritório de Brasília. Sugeri ao Silviano o nome de  Augustina.
- Tá maluco ? A Augustina  é uma incompetente.
- Por isso mesmo. Assim a gente se livra dela  e ainda se vinga do pessoal de Brasília.
- Vou pensar no assunto. E se ela não quiser ?
- Ameaça com demissão. E em Brasília ela vai ganhar o triplo.

A promoção mexeu com a vaidade da Doralice. Ela aceitou. “ Mais fácil do que eu pensava” – Finalmente livre.
Fiz questão de comemorar nossa última tarde num motel.
- Vou sentir sua falta.
- Eu também
- Mentira. Você queria se livrar de mim.

Doralice fez questão de  se despedir da amiga no aeroporto.  Choraram abraçadas. “ Mulher é muita falsa”.
Quando ela entrou no avião, respirei  aliviado. Agora poderia comer minha cunhada sem pressão.

Dois meses depois da partida de Augustina,  Silviano me chamou na sala dele para me dar a notícia :
- Parabéns ! Daqui a duas semanas você e Doralice serão transferidos para Brasília.

- Tá de sacanagem ?
- Augustina descobriu as falcatruas do Diretor da empresa lá em Brasília e exigiu para ficar calada, que você e Doralice sejam  transferidos .  Não reclama.  Vai ganhar o dobro.

Novamente a ânsia de vômito.


Doralice adorou a notícia :
- Que bom , amor. Vamos sair da rotina. E ainda ficarei perto da minha melhor amiga.

Aceitei  resignado.  A sagacidade da  Augustina  era risível.

“O que uma mulher não faz por uma pica ? “

22 de out de 2011

O irmão da noiva


Eram apaixonadíssimos. Amor de dar inveja aos protagonistas de comédia romântica. Silvinha e Marcelino  estavam com casamento marcado para a primavera. Tudo seria  perfeito se não fosse  Zequinha, o irmão mais velho da noiva.

 Quando a jovem nasceu, as atenções voltaram-se para ela  e seus lindos olhos azuis. Enciumado, Zequinha acusou  os pais de desleixo :
-          Depois que a Silvinha nasceu, vocês deixaram de gostar de mim. Passei a ser tratado como lixo.

Dona Adélia e seu Clodoaldo acreditavam que o ciúme do filho seria passageiro. Porém, o tempo passou , os irmãos ficaram  adultos,e as brincadeiras de Zequinha tornaram-se grosseiras. Ele colocava barata viva no armário da irmã. Fofocava com  as amigas de Silvinha. Infernizava o dia a dia da caçula. Até que Silvinha conheceu Marcelino e as provocações cessaram.  Aparentemente, o rapaz conformara-se em conviver em harmonia com a irmã.

O despeito de Zequinha estava apenas adormecido. Faltando  um mês para o casamento de Silvinha, a ira do rapaz ressurgiu com  intensidade  :” Essa vadia estragou minha vida e agora acha que vai se casar e ficar por isso mesmo ? Veremos. “

Ardiloso , Zequinha planejou a separação de Silvinha e Marcelino.

No final de um  domingo chuvoso, o plano do rapaz começou a tomar forma..Marcelino se despedia  de Silvinha no portão de casa  e nem reparou que  Zequinha os observava :
-          Tchau amor. Amanhã, assim que eu pegar o carro na oficina, te pego e vamos conversar com o padre.
-          Tá amor. Cuidado .Não gosto que você ande de ônibus . Quando chegar em casa me liga.
  
Marcelino descia a rua distraído, quando sentiu alguém lhe puxando o braço.
- Porra cara, ia te dar uma porrada. Pensei que fosse assalto. O que aconteceu  ?

Zequinha foi direto:
-          Preciso falar com você .
-          Fala.
-          Não casa com a minha irmã. Ela é uma puta. Putona. Deslavada.
 Marcelino estufou o peito e foi pra cima do futuro cunhado :
- Que  isso, cara ? Como você chama a mulher que eu vou casar de puta ?
É tua irmã e vai ser minha esposa. Mulher direita. Fiel.

Zequinha deu uma  gargalhada:
-          Isso é o que você pensa. Ela é puta. Das boas

Começaram a discutir. Marcelino deu um soco em Zequinha.
Zequinha caiu em cima de um carro estacionado na calçada. A vizinhança apareceu. Dois homens separaram a briga.
 Marcelino gritava, irado, enquanto era arrastado por um rapaz de braços fortes  :
-          Você é um babaca, você tem inveja da tua irmã . Escroto. Otário. Filho da puta.

 Zequinha limpava o sangue no canto da boca e respondia, cínico :
-Pode falar o que  quiser. Gritar, espernear . Ela é puta , putona mesmo !

Uma  vizinha conseguiu levar Zequinha pra casa. Quando ele se atirou no sofá com a boca sangrando, Silvinha se preocupou:
-          O que aconteceu  ? Brigou ?
-          Não . Esbarrei com os lábios no balcão do armazém. Me deixa em paz.

Marcelino ligou para Silvinha quando chegou em casa. Não comentou sobre a briga.  Tomou um banho e deitou-se. Rolou na cama angustiado. As palavras do futuro cunhado ecoavam-lhe na mente  :  “ela é puta...putona mesmo....”

Intrigado, ele  se perguntava : “ será ? não é possível !?
 “
A semente da  dúvida germinou na cabeça e no coração de Marcelino.
 De manhã, sem pregar o olho , saiu para o trabalho. No final da tarde,  pegou o carro na oficina e encontrou-se com  Silvinha. Assim que viu a futura esposa, as palavras de Zequinha vieram-lhe a mente : puta , putona .

Marcelino calou-se. Triste. Desanimado. Silvinha notou:
-          Amor, o que você tem hoje ? Tá caladinho . Quer  um cafuné ?
-          Não . Vamos na igreja falar com o padre. Depois te deixo em casa. Estou com dor no estômago.

Na volta,  Marcelino  deixou a noiva na porta de casa. Não queria entrar. Ela insistiu :
- Vamos. Papai quer conversar com você. Vem . Vem Vamos.

Cedeu, porém, logo arrependeu-se. Dois minutos depois, Zequinha entrou na sala.
Ele olhou para o futuro marido da irmã  e passou a língua nos lábios. Depois deu uma piscadinha. O sangue de Marcelino ferveu, mas ele resistiu.
Na hora de ir embora,  tomou coragem e perguntou a Silvinha :
-          Teu irmão é gay ?
-          Não. Pelo contrário. Ele é galinha. Vive saindo com uma e com outra. Por quê ?
-          Nada. Esquece.  Me dá um beijo.

No dia seguinte o telefone toca no trabalho de Marcelino. Do outro lado, Zequinha.  Quando Marcelino  ouviu a voz do futuro cunhado suou frio :
- O que você quer ?
-          Estou ligando para dizer que minha irmã é uma puta. Putona. Rameira da pior espécie.  Os motoristas de táxi do subúrbio é que sabem.

Durante três dias Zequinha martelou a cabeça do futuro cunhado com obscenidades. Até que,   irritado e ofendido, Marcelino tomou uma decisão. Movido pelo ódio, pegou a arma do pai e  chamou Zequinha para uma conversa :
-          Cara, vamos tomar um chope hoje. Preciso que você me conte essa história direito. Mas em paz. Sem brigas.
Zequinha aceitou o convite. Beberam e falaram sobre futebol. A arma estava na cintura de Marcelino, por baixo da camisa:
-          Agora, vamos dar uma voltinha pela cidade. Que tal ?

Zequinha não desconfiou de nada. Os dois chegaram numa rua deserta e sem saída.  Marcelino parou o carro, virou-se para o cunhado e perguntou de repente  :
-          Quem sabe da história da Silvinha ser puta ?
-          Só eu. Vi ela saindo com um taxista. Investiguei  e descobri que ela tem compulsão por motoristas de táxi. 
Marcelino  pegou na arma discretamente. Suou frio. As pernas bambearam. O coração acelerou. Não teve coragem de atirar . Acelerou o carro e partiu em silêncio.

Deixou o futuro cunhado em casa. Depois, parou o carro na rua de trás e chorou como uma criança. Sentiu-se  o pior dos  homens :
-          Sou um fraco. Uma ameba. Nem coragem para matar esse babaca , eu tive.

Contratou um matador profissional. Queria a morte de Zequinha no dia do casamento. Pareceria um assalto. Um pouco antes da cerimônia. Ninguém sentiria  falta de Zequinha na igreja. Quando a notícia  da morte chegasse, ele e Silvinha já teriam embarcado para a lua de mel. Imaginou. 

Tudo combinado com o matador.  Na porta da Igreja, o celular tocou. Marcelino  atendeu com as mãos trêmulas. Do outro lado uma voz seca informou :
-          Serviço feito. Acabou.

Marcelino respirou  aliviado.  Quinze minutos  depois, Silvinha chegou .  A cerimônia começou. A voz do padre era suave e segura . De repente, ela é abafada pelo som das  palmas vindas da  porta da igreja. Os convidados olharam curiosos e viram Zequinha com a roupa ensanguentada.  Marcelino  arregalou os olhos, apavorado. Zequinha falava compulsivamente  :

-          Estão vendo a mulher de branco no altar ? Olhem bem pra ela !! É uma puta. Putona. Amante de três taxistas no subúrbio.

Burburinho . Marcelino sentiu uma  fisgada  no peito. O nó da gravata  apertou. Teve um enfarte. Fulminante. Silvinha corria pela igreja, desnorteada, rasgando o vestido.  Dona Adélia  desmaiou. Seu Clodoaldo trincava os dentes , nervoso.
O riso estridente de Zequinha ecoava pelo ambiente .  Num acesso de fúria, ele arrancava as flores que ornamentavam os bancos e jogava as pétalas no corpo do noivo.  
 Os  convidados assistiam a tudo, paralisados, enquanto o padre  rezava e jogava água benta em Zequinha.

11 de out de 2011

Minicontos - Realidade virtual -

- Saiu da festa com pressa. Precisava chegar em casa antes de meia-noite para conversar com o namorado pela  webcam.

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- Preferia os  amigos virtuais . Era mais fácil  se livrar deles. Já deletara uns quinhentos.

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- Depois que experimentou sexo virtual, não queria outra coisa. Nem se importou quando soube que a esposa arranjara um amante no trabalho.
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-  Adorava discutir nas salas de bate-papo virtual. Não o viam entortando o pescoço quando era contrariado.
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- Seu maior sonho era arranjar uma amante virtual. Assim não precisaria sair de casa e nem pagar as despesas do motel.

5 de out de 2011

Desejo de mulher

                                     
Cinco horas da tarde. Elvira e Maria Odete saíram do trabalho as risadinhas e cochichos :
- Tomou coragem ?
- De hoje não passa.
-  Vai gostar. Faço há mais de um ano.
- Ajudou no casamento ?
- Claro. Cada semana é uma novidade.
-Amanhã te conto tudo. Me aguarde.
Se despediram no ponto de ônibus. Elvira foi para casa disposta a dar um  rumo novo ao casamento enfadonho. Quando chegou, tomou banho, colocou uma colônia refrescante e esperou ansiosa pelo marido .
Alfredinho chegou reclamando :
- Vou pedir demissão. Não agüento mais. Isso não é vida.
- Alfredinho, muda o disco. Já conheço a ladainha. Vai tomar  banho logo para a comida não esfriar. Quero conversar com você.
O jantar foi servido. Comiam  na mesa da sala.  Elvira queria entrar na conversa mas não sabia como começar. Alfredinho não tomava conhecimento da mulher. Jantava com os olhos fixos na televisão. Antes de recolher os pratos, Elvira tomou coragem. Sem olhar  para Alfredinho iniciou o assunto:
- Alfredinho, você gosta de mim ?
- Por que essa pergunta fora de hora ?
- Quero saber. Sou sua mulher . Tenho direito. Ora !
- Gosto, ué.
- Faria tudo o que eu pedisse ?
- Depende.
- Do quê ?
- Depende do que vai me pedir. Se for para me jogar debaixo de um trem, claro que não !
- Falo de sexo.
- Sexo ? O que tem sexo a ver com a nossa conversa ?
- Caramba, você assim tá me intimidando.
- Então fala logo. Desembucha.
Nem respirou :
- Você tem alguma fantasia sexual ?
Alfredinho coçou a cabeça, olhou  para a esposa, que curiosa, esperava a resposta :
- Vou ao banheiro. Estou cheio de preocupação na cabeça e você me vem com história de fantasia sexual ? Francamente.
Ficou desconcertada. Sentiu-se quase uma tarada a violentar a mente preocupada do marido.
Lavou  os pratos prendendo o choro. Passou pela sala envergonhada.
Nem olhou para Alfredinho. O marido de Elvira estava  sentado no sofá e  comentava  o noticiário em voz alta com  o apresentador.
Elvira se trancou no quarto. Em seguida, choramingando, vestiu  a camisola, apagou a luz e se deitou . Rolou na cama. Viu o marido entrar no quarto  e dez minutos depois adormecer.  Passou a noite em claro.   Tomaram café emudecidos.   Alfredinho saiu primeiro:
- Não me espera para jantar. Vou chegar tarde.
Não respondeu. Sentia-se humilhada. Rejeitada na sua feminilidade. Queria inovar a relação e distanciou-se  mais do marido. Não se relacionavam há dois meses. Sentia falta. Ele sempre tinha desculpa para não conversar sobre o assunto.
Quando chegou no trabalho, Maria Odete quis saber :
- Como foi ? Topou ?
Mentiu constrangida :
-  Na hora. Vai ser  no sábado.
- Depois me conta. Quero saber tudinho.
Elvira deu um risinho sem graça. Jamais exporia sua humilhação para a colega de trabalho bem resolvida com o marido.
Sentiu-se sozinha e carente. Na hora do almoço foi a um sex shop namorar a vitrine. Flertou com a imaginação. Distraída, esbarrou num senhor, uns 20 anos mais velho : alto, paletó e gravata, cabelos quase brancos. O homem lhe pegou  pelo braço carinhosamente :
- Assustei você flor de laranjeira  ?
O toque causou-lhe arrepios . Não conseguiu disfarçar a surpresa. O homem trazia no rosto uma compaixão quase angelical. Elvira tomou-se de ternura. Apresentaram-se e trocaram o número do celular. No dia seguinte quando se aprontava para o almoço, o celular tocou. Viu o número, pensou em não atender. Tomou-se de um impulso juvenil :
- Alô, quem é ? – Fingiu não conhecer.
- Elvira, Amaury. Lembra de mim ?
-  Hummmmm.... Amaury ! Ah sim !  Ontem na rua. Que cabeça !
- Vamos almoçar , flor  ?
Respondeu um sim quase adolescente. Antes fez charminho . O charme feminino usado no jogo da conquista .
Passaram a almoçar todos os dias. A amizade  cresceu. Junto veio, de início,  uma intimidade fraterna. Depois a curiosidade sexual.  Elvira falava da insatisfação do casamento. Amaury reclamava da frieza da esposa. A vontade de uma intimidade maior aumentou .
Entediada com o que a vida lhe proporcionara até aquele momento,  Elvira tomou a iniciativa. Queria novidade :
- Amaury, se eu te fizer uma pergunta indiscreta, promete responder com sinceridade ?
- Prometo.
- Você tem alguma fantasia sexual ?
Pego de surpresa, tentou responder com naturalidade e inventou:
- Várias. Vivo no mundo da fantasia. A realidade é um tédio.
Cochichou–lhe, então, timidamente  no ouvido. Ele deu uma gargalhada de excitação :
- Vamos colocar em prática.  Que tal segunda-feira  depois do trabalho?
Uma espécie de formigamento tomou-lhe  o corpo.
No dia combinado, antes de sair, mentiu para o marido :
- Alfredinho, vou fazer extra hoje .  Deixo comida fresca na geladeira. Quando chegar é só esquentar no microondas.
Não conseguiu trabalhar direito. Olhava  o relógio a todo instante. O dia se arrastava. O pensamento em Amaury ajudou-a a preparar os relatórios. Bateu o cartão . Saiu  apressada. Se encontraram. Curiosa, Elvira  perguntou :
- Trouxe ?
- Claro. Tá aqui na pasta. Olha o embrulho.

A mulher prendeu a respiração de tanta empolgação. Chegaram no motel. Amaury pegou o pacote e se enfiou no banheiro :
- Já volto.
Elvira andava de um lado para o outro. Parecia uma criança a espera de um brinquedo novo. Nunca traíra o marido. Mas seria por uma boa causa. – Pensava para diminuir a consciência pesada.
Quando a porta do banheiro se abriu a sensação foi indescritível. Amaury, fantasiado, foi em direção a ela, puxou-lhe pela cintura, beijando-lhe a boca com sofreguidão . Em seguida gemeu  :
- Minha mulher gato.....
Correspondeu entusiasmada :
- Me beija, meu super - herói  !



29 de set de 2011

A revelação da irmã




              
Centro da  Cidade. Final de tarde de uma sexta-feira chuvosa. Iracema pegou a bolsa e saiu apressada do salão de beleza onde trabalhava como manicure. Assim que colocou os pés na rua e abriu o guarda-chuva,o celular tocou . Abriu a bolsa , pegou o celular e atendeu entortando o pescoço. Era Ieda. Irmã mais nova:
-         Iracema, está indo para a casa agora ?
-         Sim. A última cliente desmarcou e eu também não estou me sentindo bem. Algum problema ?
-         Preciso te contar uma coisa. É urgente.
-         Tá bom, fala logo. O que é ?
-    Por telefone não dá . Tem que ser pessoalmente. Eu estou saindo do trabalho e passo aí...
Iracema queria ir pra casa.  Precisava preparar o jantar  das crianças e do marido. Além disso o céu estava carregado . A chuva ia apertar.

- Deixa para outro dia, Ieda. Tô com pressa.
A irmã insistiu. Iracema tentou se desvencilhar :
-Fala amanhã. Vai lá em casa de noite. Jantamos juntas e conversamos.

Ieda deu um grito nervoso :
-Não . Deus me livre ! Na tua casa, não ! Tenho que te falar hoje. Agora. Já !

Iracema preocupou-se. “ O que Ieda tinha de tão grave para lhe falar ? “
 Desconfiada , aceitou se encontrar com a irmã num bar na Praça Quinze. Quando chegou , Ieda  já estava sentada  bebendo  uma cerveja.
Iracema se aproximou da mesa, puxou a cadeira e foi logo dizendo :
- Anda. Fala logo. Não vai dar para demorar.
-Calma. Bebe uma cerveja . Relaxa. Você vai precisar. Não tenha pressa.

Iracema perdeu a paciência :
_Ou fala agora   ou eu vou me embora e te deixo aqui sozinha.
- Estou sem coragem . Bebo para tomar coragem. Você vai ficar triste....
Iracema tentou  adivinhar:
-         Tá doente ? O Evaldo dormiu com a vizinha ? Fala !
-         Pior. Muito pior. Vamos embora. No ônibus te conto tudo.

Ieda pagou a conta  e puxou a irmã pelo braço. Saíram apressadas . Pegaram o ônibus cheio. Moravam em Nilópolis. Viajaram em pé. Iracema reclamou :
-         Tá vendo só ? Demoramos e agora olha como o ônibus está cheio  !? Mas fala, o que você queria me contar ?  

 A chuva tornou a cair. A Avenida Brasil estava um caos. Tudo congestionado. Curiosa, Iracema   pressionou   a irmã :

-         Fala...pelo amor de Deus, fala aqui mesmo ! Eu ordeno !
-          
Ieda tomou  coragem . Assim que  começou a falar,  passou ao lado do ônibus, uma moto com o cano de descarga solto, fazendo um barulho ensurdecedor. Iracema gritou :
- Não escutei. Fala mais alto.
A irmã encheu o pulmão e gritou :
-         TEU MARIDO TEM UMA A-M-A-N.T-E. É DO TRABALHO DELE.  UMA AMANTE. ....

Silêncio. Todos os passageiros olharam para a cara de Iracema. Alguns procuravam saber quem era a mulher traída :
 -Quem é ? Marido de quem tem amante ? Me mostra....

Ela  ficou sem graça. Branca. Os lábios de Iracema tremiam. Não sabia se era por causa da amante do marido ou por causa da irmã que parecia um carro sem freio e repetia a história dando detalhes.  Ela falava alto. Todos ouviam :
-         Sabe , eu vi os dois entrando num motel. Ninguém me contou. EU VI . Resolvi  investigar. Você sabe como eu sou....e ...
Iracema não queria ouvir mais nada. Disfarçou e fingiu que não era com ela. Pediu licença aos passageiros e  se dirigiu  para a porta de saída.  Deixou Ieda falando sozinha. A irmã não notou.

Iracema desceu num ponto qualquer da Avenida Brasil. Zonza. Andava de um lado para o outro . Nem se importou com a chuva caindo. Pensou  olhando para o nada. De repente um sorriso  iluminou- lhe  o rosto  .

Pegou outro ônibus . Chegou tarde em casa. Jorge esperava em frente ao portão com o rosto enrugado :
-         Teus filhos estão preocupados. Liguei para o celular da tua irmã, ela me disse que vocês se perderam no caminho. Teu celular  tá caindo direto na caixa postal. O que aconteceu ?
Iracema, cheia de carinho na voz,  respondeu agarrando o marido pelo pescoço :
-         Nada amor. Estava só pensando numas coisas aqui.Que tal amanhã a gente fazer um programa diferente ? Um motelzinho pra variar?!

Jorge estranhou o convite. Mas gostou da ideia. E entre encabulado e desconfiado, aceitou. No dia seguinte deixaram as crianças na casa da mãe de Iracema e  passaram a noite num Motel.

Na segunda-feira , Iracema  esperou o marido  com um  jantar  a luz de velas. Os dois passaram a viver a boa fase de início de namoro. Eram presentes . Passeios . Cinemas. Jantares. Telefonemas e mensagens fora de hora.

Em meio a grande fase que viviam no casamento, Iracema impôs uma única condição ao marido : Nunca mais queria ouvir o nome da irmã  em casa .
Descartou qualquer gesto de aproximação. Quando Jorge , estranhava a separação, já que as duas sempre foram amigas, e perguntava a esposa qual o motivo da mudança, ela respondia raivosa :
-  Ieda é uma cobra cascável . Tem inveja de mim ! Assunto encerrado . 

18 de set de 2011

Sem entender.....( minicontos )

"Não conseguia  entender o que lhe acontecia. Tinha mais de mil amigos no facebook mas passava os finais de semana em casa."

" Não conseguia entender o amor de Alceu. Dizia  que a amava mas nunca aparecia aos domingos e nem telefonava."

" Não conseguia entender o ex namorado. Se ele a amava tanto, por que então terminara com ela ?"

" Não conseguia entender o amado. Disse que ela era a mulher da vida dele, no entanto, continuava casado com outra. "

" Não conseguia entender a amiga. Reclamava todos os dias do marido mas tentou  se matar  quando ele fez as malas e saiu de casa."

" Ela vivia dizendo que os homens a amavam. Mas continuava indo ao cinema sozinha nos finais de semana. "

Conversa virtual

No msn :

Ela - Quando vamos nos ver ?
Ele - Assim que eu tiver tempo
Ela - Poxa, a gente se fala há dois meses no msn e você nunca tem tempo
Ele- Muito trabalho, linda.
Ela - Acho que é mentira sua
Ele - Claro que não. Nunca iria enganar você
Ela - Fácil. Nem nos conhecemos pessoalmente
Ele- E daí ? Gosto de você . Quero você.
Ela- Estou começando a duvidar
Ele - Por quê ?
Ela - Você só faz falar . Agir que é bom, nada.
Ele - Impaciente.
Ela - Você é casado.
Ele - Claro que não
Ela - Então por que você não se encontra comigo ?
Ele -Já disse. Muito trabalho. Não tá dando mesmo
Ela - E final de semana ?
Ele - Vou pra Belo Horizonte.
Ela - Vou com você
Ele - Não dá . Vou viajar a trabalho.
Ela - Não acredito
Ele - Linda, tenho que sair. Nos falamos depois . Me manda um beijo
Ela- Não.
Ele - Por quê ?
Ela - Tô chateada.

Ele saiu. Ela ainda ficou na frente do computador vendo e revendo a conversa gravada. Tentando encontrar uma mentira. Ele foi dormir ao lado da esposa. Dormiram de conchinha.