Pesquisar este blog

31 de out de 2010

O SORRISO DE ELISA

                                             O sorriso de Elisa

Perdi a virgindade aos quatorze anos. O nome dela era Elisa. Casada, vinte e cinco anos. Morávamos no mesmo prédio.  A primeira vez que eu a vi foi no elevador. Eu  dizia para um colega  que não gostava de Literatura e ficava puto quando a professora me pedia para recitar Álvares de Azevedo . Elisa me olhava  atentamente. Quando o elevador chegou no oitavo andar, ela pegou minha mão e me fez o convite :
- Aparece lá em casa amanhã. Apartamento 802. Comigo você vai aprender literatura.
- Quanto você cobra pela  aula particular  ? – Disse  inocente. -Tenho que falar com a minha mãe primeiro .
- É de graça. Mas não fala nada com a sua mãe. Segredo nosso.
- Valeu então , até amanhã.
- Espero você  ás 3 da tarde.

No dia seguinte não conseguia me concentrar na  aula. Pensava como aquela mulher com rosto de anjo, olhos amendoados  e cabelos cor de mel me ensinaria literatura.
Cheguei em casa e engoli a comida. Minha mãe me deu uma bronca. Argumentei que o Maurício me aguardava na casa dele para estudarmos . Mamãe respirou aliviada e colocou as mãos pro alto :
- Até que enfim esse menino começa a se interessar pelos estudos! Minhas preces foram atendidas !
Saí apressado. Meu nariz fungava de nervoso. Quando cheguei na casa de Elisa, ela me esperava com uma camisola  transparente. Fiquei envergonhado. Ela agiu naturalmente e me convidou para entrar :
- Trouxe o livro ?

Elisa me explicava a lição enquanto me alisava. No segundo encontro, assim que sentei no sofá , ela foi tirando a minha roupa e me  beijou na boca . Fiquei com medo da minha inexperiência . Ela percebeu e  me mandou relaxar. Obedeci e foi o grande acontecimento da minha adolescência. Passamos a nos encontrar três vezes por semana. Quando eu perguntava pelo marido, ela desconversava :
- É um bêbado mulherengo.
- Você gosta dele ?
- E isso interessa, por acaso, meu menino  amante ?

Era assim que ela me chamava. Nos encontramos, clandestinamente, durante dois anos . Numa sexta-feira chuvosa, esbarrei com  Elisa chorando no elevador. Ela me puxou pelo braço e me levou até seu apartamento. Fizemos amor gostoso. No dia seguinte, soube que se mudara.  Fiquei triste durante uma semana . Mas, nessa idade, tudo é passageiro, e eu estava apenas começando a me movimentar pelos bastidores do  delicioso jogo do sexo . Josué, meu amigo espinhento, foi quem abriu meus olhos :
- Porra cara,  te invejo ! Ainda sou virgem e agora, com toda a  experiência que você tem ,  poderá comer muita  xoxota.  

Passei a ser conhecido no prédio como o comedor. Dava dicas sexuais para a rapaziada menos experiente  e as garotas mais velhas quando sabiam de Elisa , me desafiavam. Queriam fazer  melhor. Dava duas trepadas no máximo com cada uma . Me tornei um especialista na arte do sumiço.
Quando completei dezoito anos já tinha uma boa quantidade de xoxotas na minha lista. Cobrava  para dar dicas aos mais novos.

Aos vinte, entrei para a faculdade de odontologia e passei a ajudar meu pai no consultório. Comi quase todas as clientes dele . Descobri que as mulheres são sonsas e sacanas. A maioria mal amada. Basta saber tocá-las que se entregam facilmente.

No dia da minha formatura conheci a irmã de uma colega de turma. Se chamava  Elisa. Lembrei na hora da minha primeira trepada. Terminamos a noite num barzinho.
Durante a conversa, coloquei minhas mãos nas belas pernas de Elisa. Ela deixou. Quando saímos do bar, tentei levá-la para o motel. Ela resistiu e me chamou de machista. Era o primeiro desafio sexual  da minha vida. Até conhecê-la, minha  fama de irresistível não tinha sido abalada.

Ensaiei um namoro para  levá-la pra cama . A arma maior de todo conquistador é a paciência. Levei dois meses só no papo. Consegui.  Depois de quatro trepadas, desencantei. Ia terminar. Elisa engravidou . Quase apanhei ao dizer para abortar.  Quando cheguei em casa, minha mãe me deu os parabéns :
- Já soube da novidade. Finalmente vou ganhar um  neto !

Me senti um  babaca. Tão metido a esperto e caí no golpe mais antigo, utilizado pelas mulheres, para prender um homem. Assumi a merda que fiz. No dia do casamento, Elisa me ameaçou no altar falando baixinho  :
- Sei das suas putarias. Ou você entra na linha, ou vai se ver comigo !

Nosso primeiro ano de casamento foi a pior fase da  minha vida. Elisa descobria minhas escapulidas e ia atrás dos meus casos tomar satisfação .
Pensei em sumir no mundo. Tive pena do meu filho recém-nascido. Não queria deixá-lo sozinho com a louca da Elisa.

Quando Junior  fez dois anos, pedi a separação. Elisa  engravidou novamente. Nova pressão da família. Adiei  minha liberdade.  Ela  me ameaçou  :
- Pensa que sou boba ? Você é meu  e de mais ninguém.
Não transávamos desde que ela engravidara do segundo filho . Planejava me separar após o nascimento da criança.

Planos quase nunca dão certo. O futuro pode ser desgradável. Foi assim comigo.
Como sempre fazia, cheguei do trabalho tarde da noite para não aturar as reclamações de Elisa.
A rua estava escura e silenciosa. Desci do carro para abrir o portão da garagem, quando senti um cano duro e gelado na minha testa. Olhei de rabo de olho e vi um cara armado. Meu coração disparou.  Ele cheirava a suor e maconha. Tentei  manter a calma. Levantei os braços e falei com cuidado   :
- Toma a chave do carro. Pode levar.

Drogado, o cara gritava coisas desconexas.  Argumentei acreditando que seria inútil  :
- Larga essa arma  rapaz. Leva o carro, vale mais do que eu.
Olhei pra minha casa  e vi a luz do  quarto acesa. Elisa estava na janela com um sorriso maquiavélico. Escutei ao longe o barulho de uma sirene. O matador engatilhou a arma. Me caguei todo. Detesto literatura. 

Este e outros contos você pode encontrar no livro Só as feias são fiéis pelo site da editora :http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=186&idProduto=187  

21 de out de 2010

CANSAÇO

Exausta,
terminou o namoro
com Alfredinho. 
O Nada interior do rapaz 
fazia muito barulho.




Adquira o livro Só as feias são fiéis diretamente no site :http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=186&idProduto=187  

16 de out de 2010

O ROUBO DA CUECA

Madame Gertrudes confirmou:
- Tem que ser cueca.
- Mas como vou conseguir?
- Dá seu jeito. Ou então não vai ter o que deseja.
-  E tem que ser usada?
- De preferência a cueca que ele estiver usando na hora H.
Leninha saiu da cartomante pensativa. Desde que Rosalvo terminou o namoro, não   conseguia dormir, nem comer. No trabalho já levara uma advertência e no início da semana Seu Almeida ameaçou-a com  demissão.
- Ou presta atenção no serviço ou  procuro outra pessoa para ficar no seu lugar!
Convivendo com o desespero de Leninha, a secretária do gerente indicou-lhe Madame Gertrudes.
- Deu certo comigo. Ela faz a pessoa amada voltar em uma semana.
- Jura?
- Juro. Se fizer direitinho o que ela pedir,  Rosalvo volta. Não tem erro.
No ônibus, retornando pra casa,  pensava, sonhadora, em uma  maneira de pegar a cueca do ex-namorado. Depois do jantar ligou pra amiga e confidente.
- Amanhã, depois do trabalho, passo na sua casa. Precisamos conversar.
- O que você aprontou?
- Tenho que contar pessoalmente. Até amanhã , Taty.
Castigada pela ansiedade, não dormiu direito. Acordou cheia de dor no corpo, mas feliz. Finalmente encontrara uma maneira de ter a cueca para fazer a amarração recomendada por Madame Gertrudes. Trabalhou empolgada. Seu Almeida notou a mudança e comentou:
- Não sei que bicho mordeu você, Leninha, mas sinto que hoje seu trabalho está rendendo.
Cinco da tarde bateu o ponto e foi direto pra casa da amiga. Taty esperava-a  curiosa.
- Passei o dia na maior expectativa pra saber o que você quer me contar.
- Adivinha?
- Se eu tivesse bola de cristal, estaria rica, queridinha. Fala logo. Deixa de suspense.
- Achei uma maneira de Rosalvo voltar pra mim.
- Pensei que você já tivesse desencanado. Ele não vai voltar pra você. Esquece o cara.
-  Como é que você sabe?  Fui numa cartomante.
- Sim e daí? O que ela lhe falou?
- Vou fazer um trabalho para trazer o Rosalvo de volta em uma semana.
- E você acreditou?
- Se fizer direitinho vai dar certo . Tenho que tentar.  E vou precisar de você.
- DE MIM?
-  Sim. Preciso de uma cueca do Rosalvo.
- E o que eu tenho a ver com isso?
-Adivinha novamente?!
- Menor idéia.
- Você vai pegar a cueca .
- Como? Entrando  na casa dele e roubando?
- Nada disso. Tem que ser cueca usada. Você vai seduzi-lo e transar com ele.
- Pirou? O cara era seu namorado. Você ainda gosta dele.
- Eu sei. Mas ele não quer mais  ir pra cama comigo. Nem atende minhas ligações.
- E  vai comigo?
 - Mulher quando quer, consegue. Inventa uma desculpa. Liga pra ele, coloca um vestido sensual e seduza-o .
- E  vai dar certo?
- Claro. Rosalvo é galinha.
-  Éeeeeee?
- É e com certeza está  ciscando em outro terreiro. Mas vou cortar isso. Quando a cueca estiver na minha mão, amarro ele de vez..
- É arriscado.
- Que risco você corre?
-  Tá bom amiga, já que insiste, farei um esforço porque gosto muito de você.
- Então vamos  ligar pra ele agora e marcamos logo o encontro. Tô ansiosa.
-  Deixa comigo.
- Tô ligando. Toma, tá chamando. Fala com ele.
Combinaram para o dia seguinte. Leninha comemorou.
- Não disse que seria  fácil?
No sábado Leninha foi pra casa de Taty ajudá-la a vestir-se.
-  Vai com esse vestido. Tá lindo! Ele gosta de roupas decotadas.
Leninha levou Taty até a porta :
- Espero-a aqui na sua casa . Quero logo a cueca na minha mão.
- E se eu voltar só amanhã de manhã? – perguntou,  sem graça.
- Voltando com a cueca, tá tudo certo.
Despediram-se. Com o coração esperançoso das apaixonadas, deitou-se na cama da amiga, acreditando ter encontrado o caminho para a  felicidade. Assim que Taty se sentou no banco do carona, Rosalvo entregou-lhe um embrulho.
- Trouxe a cueca usada que você me pediu. Pode me explicar direito pra quê isso?
- A Leninha.
- O que tem a Leninha? Aprontou com você?
- Foi a uma cartomante e....
- E o quê? O que tem minha cueca a ver com isso?
- Recomendaram um trabalhado de amarração com a sua cueca. Ela pediu para eu ajudar. Coitada.
- Você ainda não contou que estamos namorando?
- Tá doido? Ela me mata! Deixa como está.
Rosalvo balançou a cabeça negativamente :
- Mulheres!
Antes de dar a partida no carro, colocou un CD da Adriana Calcanhoto. Em seguida, fez um  cafuné em Taty e disse, com voz aveludada:
- Viu como me preocupo com você? Comprei o CD da sua cantora favorita.
- Te amo, Rô.
- Eu também.
                                                    ..............................
Adquira o livro Só as feias são fiéis diretamente no site : http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=186&idProduto=187  

4 de out de 2010

CENAS DE UM CASAMENTO

Duciovaldo segura a arma com as duas mãos. Treme e tem pavor no olhar.

Com o coração aos pulos, Rose implora com voz de passarinho :
- Você não tem coragem. Você não é assassino !
Duciovaldo baba. Olhos vidrados na mulher.
Rose urina pernas abaixo.
Ele uiva.
- Vagabunda ! Vou te matar !
- Você não é assassino. Se me matar, vai preso.
- Me mato depois.
-  Vamos conversar.
Rose tenta se aproximar. Duciovaldo engatilha a arma.
- Se chegar mais perto, eu atiro. Não tô brincando !
- E os nossos filhos ? O que vai ser dos nossos filhos ?

Rose sente que Duciovaldo se emociona. Ela continua :
- Vão ficar sem pai e sem mãe. Orfãos. Vivendo de favor na casa dos outros.

Duciovaldo  enxuga com o antebraço, o suor azedo, que escorre pela testa. A mulher tenta mais uma vez :
- Nossos filhos ! Nossos ! Só nossos ! De mais ninguém ! PENSA neles !

Duciovaldo se atira no chão . Em prantos, joga a arma para debaixo da mesa e grita resignado :
-Te amo , sua vagabunda ! Te amo.

Rose pega a mala, passa por Duciovaldo , chuta-lhe o corpo inerte, abre a porta de casa  e sai pela rua cantando a canção preferida.





Adquira o livro Só as feias são fiéis diretamente no site http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=186&idProduto=187