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23 de set de 2010

A NAMORADA DEZ

        Nove  da noite . Assim que o telefone toca,  Eduarda voa em cima do aparelho :
- Pode deixar que eu atendo ! É o Gilberto, mãe. Vou falar no quarto. Não deixa ninguém me incomodar.
O romance começou com uma amizade. Ia completar um mês de  namoro . A voz de Eduarda se torna doce :

- Oi , amor. Tudo bem ?
- Mais ou menos.
- O que aconteceu ?
- Problema de família. O programa de final de semana já era... Sabe como é...
- Não vamos sair amanhã  ? Poxa ,Gilberto.... um mês de namoro ?
- Era sobre isso que eu queria falar..... Não vai dar...
- Mas logo amanhã ? Por quê ?
- Combinei de ir para a casa do meu pai, a gente não se vê há dois meses , o velho ligou cobrando....todo magoado...
- Sei....
- Maior vacilo se eu não passar o final de semana com ele.  Sem problema ?

Desanimada com a notícia, Eduarda tentou disfarçar a decepção com uma certa ironia na voz :
- Se é por uma boa causa.....
- Sabia que você ia entender. Você é DEZ.
- Sou o quê ?
- Dez.
- Dez ???? Dez o quê ?
- Tá  surda ? VOCÊ É DEZ !
- O que é uma pessoa dez pra você ?
- Sei lá....uma pessoa dez é uma pessoa dez.
- Dez o quê ?
- Vai Eduarda, não esforça. Você é dez.  
- Sou um número para você ? Me avalia ?  Dá nota ?
- Só porque eu disse que você era dez tá cheia de questionamentozinho pra cima de mim ? Ficou puta porque a gente não vai sair amanhã.  Não faz drama, Eduarda.
- Não é drama. Pensei que me avaliasse como mulher. Não sou uma nota. Uma prova...aliás, não estou participando de nenhuma avaliação.
- Sei que você é exagerada, mas assim tá indo longe demais...fiz um elogio e você entendeu mal.
- Se você tivesse me chamado de tesão, gostosa, especial...sei lá, até mesmo de chata ,  juro, ia ficar mais satisfeita. Mas dez ?
- Tá . Tira o  dez. Esquece. Você é gostosa. Pronto. Encerra o drama !
- Agora não dá mais para tirar , já  falou.

Eduarda estava  disposta a continuar batendo no mesmo assunto:
- Você sabe o que é uma pessoa dez ?
- Sei.
- Não sabe, não soube me responder.
- Tá, então explica.
- Dez é uma pessoa legal....o porteiro aqui do prédio é dez : atende todo mundo com um sorriso no rosto.  O pipoqueiro da esquina é dez, deixa a gente comprar fiado. A  minha colega de faculdade é dez...dez é pouco. É nada. Quando você não tem o que dizer de alguém diz que a pessoa é dez.

- Mas você não é pipoqueiro...não é porteiro...não é coleguinha... E não falei por mal. Entendeu ? Esquece. Passa uma borracha. Você é minha namorada.
- Era.
- O quê ?
- Era. Acabou.
- Tá de sacanagem ?
- Não. Acabou. Dez é ridículo. Poderia ser chamada de dez pela minha prima...pelo colega bobão.......mas pelo namorado ?
- Você está querendo arranjar uma briga. Não tem sentido...
- É assim que começa, Gilberto. Primeiro me acha dez, depois diz que tem admiração...me acha legal e aí vem com aquele papinho de todo homem.
- Que papinho , Eduarda ?
Ironicamente Eduarda tenta imitar a voz de Gilberto :
- Você é dez. Te  admiro muito ... você....é  legal, mas tão legal que é melhor sermos amigos. Não quero te magoar....você merece coisa melhor.
- Você está colocando palavras na minha boca. Por que  acha que vou dizer isso ? Está dentro de mim?
- Aconteceu exatamente assim com uma amiga. E como os homens são todos iguais....estudam no mesmo curso......sou a próxima.

Gilberto ficou sem ação  com os questionamentos de Eduarda. Sabia que ela era teimosa, mas não imaginou que um simples dez causaria tanta confusão. Ficou  perdido.  Sem muita convicção, tentou contornar mais uma vez :
- Já disse para esquecer...passar uma borracha...
- Não dá para voltar atrás. Já falou. Acabou. Sou dez para você. Quem você acha que vai seduzir com esses elogios  prontos? Com essas frases feitas ?

Gilberto tentou brincar :
- Você está de TPM ? Brigou com a sua mãe ? Foi demitida ?

- Não. Sou  dez. Vou até fazer um comercial . Aparecer na tv  com cara de boba com aquele imenso sorrisão e o locutor vai anunciar : senhoras e senhores, a garota dez !
 Gilberto não tinha mais paciência para argumentar. Percebeu que nada do que dissesse  faria diferença .  Eduarda continuava  ressentida  :

- Tenho certeza que pensa que sou doida.
-Sabe do que mais ?  Advinhou meu pensamento. Você é louca paranóica  !
- Há uns dois minutos atrás eu era dez , agora sou louca ? Muda rápido de opinião , hein ?
-  Quem vai ficar maluco com esse papo sou eu.
- Se  ficar maluco não vai  fazer diferença. Depois de dizer que sou dez, estou pouco ligando para você. Sedutor barato !
- Eduarda, ninguém vai acreditar ! Só porque eu disse que você era dez...!?
- E ainda acha que não é nada demais ?  Não repete. Me deixa com raiva. Dez....dez....! Acho melhor você renovar seu estoque de elogio porque esse é muito pobre.  Gosto de homens mais criativos....
- Sabe do quê mais , Eduarda ? Você é uma neurótica...vai se ......

Não completou a frase.  Eduarda foi mais rápida. Desligou o telefone, sacudiu os ombros, deitou-se na cama, olhou para o teto  e pensou com a  maior naturalidade  : “ os homens são entediantes.... dez, vê se pode !? “
Virou para o lado. Cinco minutos depois, dormiu.


15 de set de 2010

A CALCINHA DO ARNALDINHO

Elvira tirava a salada da geladeira. Arnaldinho veio por trás e beliscou a esposa, assustando-a :
- Tá maluco, Arnaldinho ? Quase deixei a travessa cair !
- Surpresa ! - Respondeu o marido empolgado.
Sorridente mostrou o embrulho . Elvira colocou a tigela em cima da pia, e pegou o presente  :
- Oba! Deixa eu ver o que é.
Quando abriu, fez cara de decepção :
- Uma calcinha branca ? E cavada ? E eu lá uso isso ?
- Nunca é tarde para usar. Vamos esquentar nosso casamento.
- Que esquentar casamento o quê ! Depois de quinze anos nem verão de 40 graus esquenta alguma coisa.

Decepcionado, Arnaldinho saiu da cozinha resmungando :
- Quem entende as mulheres ? Se eu não trago presente , reclama. Se eu trago, reclama também.

Jantaram em silêncio. Dez e meia da noite, Elvira beijou o marido no rosto e deu boa noite. Arnaldinho ainda ficou  vendo tv  e adormeceu no sofá. Seis da manhã , Elvira o acordou :
- Levanta , Arnaldinho ! Anda logo . Assim vai chegar atrasado no escritório.

Saíram juntos. Elvira trabalhou até uma da tarde e voltou pra  casa. Excitada, abriu a porta e foi direto para o quarto. Revirou o armário. Encontrou a calcinha :
- Tá aqui ! Vou fazer uma surpresa.
Tomou um banho demorado. Perfumou-se . Colocou a calcinha. Olhou-se no espelho e comentou respirando fundo  :
- É, até que não estou tão mal ! Será que vai gostar ?
Fez a ligação.
- Tá . Então vem AGORA !

Dez minutos depois a campanhia tocou. Era  Solange. A vizinha. Puxou a mulher, empolgada:
- Olha a calcinha que a besta do Arnaldinho comprou pra mim !

As duas caíram na gargalhada !

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7 de set de 2010

ALÔ?!

Sexta-feira. Oito da noite. Neide, Arthur e Alfredrinho jantavam quando o telefone tocou. Neide se levantou para atender. O marido irritou-se :

- Não vê que estamos jantando ? Se for importante a pessoa liga depois.
- Se for minha mãe ?
- Liga depois.
- A sua.
- Também.

O telefone parou de tocar. Dois minutos depois, o som estridente do aparelho invadiu novamente a sala. Neide fez menção de se levantar. Arthur tocou no braço da mulher ,bruscamente :

- Deixa.
- Chega, Arthur, vou atender. Dá licença.
- Alô ? Alô ? Não vai responder não, é ? Vai. Seja mulher e diz teu nome.

Voltou irritada para a mesa . O marido perguntou :

- Quem era ?
- Tua amante !
- Tá maluca, Neide ? Como você fala assim na frente da criança ?
- Alfredinho não é mais criança. Tem 13 anos.
- Alfredinho, meu filho, já acabou de jantar ?
- Já , pai !
- Então vai pro quarto ficar no computador. Preciso conversar com a tua mãe.

Cabisbaixo , o menino obedeceu. Marido e mulher ficaram a sós. Com as mãos trêmulas, Neide pegou mais salada. Arthur voltou a perguntar :

- Diz. Quem era no telefone ?
- Já disse : Tua amante.
- Que história é essa ?
- Todo dia é a mesma coisa. De manhã. De tarde. E agora de noite. Eu atendo e desligam.
- E por causa disso você concluiu que é minha amante ?
- Isso.
- Nem amante eu tenho.
-Tem. E ela liga pra cá todos os dias. Ás vezes três, quatro vezes por dia.
- E diz alguma coisa ?
- Não. Nunca disse nada.
- Então.....
- Então é ela. Precisamos comprar bina aqui pra casa. Aí pego a bandida.
- Gastar dinheiro com besteira ?
- Besteira ? Você acha besteira ter uma amante ? Uma vagabunda na rua ?
- Você está delirando.
- Delirando ? Eu deliro quando ligo para o seu escritório e você já saiu e seu celular está desligado ?
- Já disse que é reunião.
- Você faz tanta reunião. Aumento de salário que é bom, nada. O Alfredinho
está precisando de um tênis novo. E cadê dinheiro ?
- Hora de jantar é hora de falar de tênis ?
- E tem hora . A culpa é sua.
- Minha ?
- É. Sua amante fica ligando pra cá e desliga na minha cara.
- E eu lá tenho tempo de ter amante ?
- Todo homem tem tempo para vagabunda.
- Quem disse ?
- Li numa revista. Fizeram uma pesquisa. Deu lá : Homem casado há mais de dez anos, tem amante.
- Bobagem.
- Não disfarça . Amanhã vou pegar seu cartão de crédito e comprar um bina.
- Gastar dinheiro inutilmente ?
- Vou descobrir quem é a sua amante. Vou ligar de volta pra ela e xingar até cansar.
- Como você diz bobagem. Tá precisando é de um emprego.
- Pra quê ? Para sobrar mais dinheiro para dar pra vagabunda ? Nunquinha !
- NÃO TENHO AMANTE !
- Pensa que eu sou boba ?
- Penso. Assunto encerrado.
-Tô precisando ir na Dona Glacy.
- Quem é Glacy ?
- Uma cartomante . Acerta tudo !

Arthur empurrou o prato e se levantou da mesa . Trancou-se no banheiro por mais de meia hora.
Enquanto Neide levava a louça , pensava : “ Garanto que tá no banheiro tocando uma em homenagem a vagabunda.”.

A mulher quase deixou o prato cair quando ouvir novamente o som do telefone. Alfredinho correu para atender. Desligou e entrou na cozinha :

- Quem era ?
- O André. Vou descer pra jogar bola com ele.
- Não gosto do André. Volta e meia ele tá ligando pra cá pra te tirar de casa. Cuidado que você acabou de almoçar !
- Tá bom ! Tá bom !

Chegando na portaria , encontrou o amigo brincando com a bola. André comentou :

- Pô cara, quase que não consigo falar com você. Sempre que eu ligo é tua mãe que atende, aí eu desligo !
- Por que você desliga ? Ela pensa que é a amante do meu pai !
- Jura ? Foi mal, cara !

Os dois amigos começaram a rir. Alfredinho deu um tapinha no ombro de André e comentou :

- Vamos logo ! Tô seco pra jogar uma partida !

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2 de set de 2010

O SÓCIO

Andrade andava distraído pela Avenida Rio Branco, quando sentiu alguém puxando seu braço. Deu um salto pro lado.  Era um homem baixo,  gordinho, com o rosto vermelho e redondo :
- Lembra de mim ?
- Não.
- Tem certeza ?
- Tenho.
- Da casa do Fernando.
- Do Fernando ?
- É. Lembra do festão que ele deu no aniversário dele ?
- Ah lembro ! E como vai o Fernando ?
- Morreu.
- Morreu ? Como assim ?
- Morreu de morte morrida. Assassinado.
- Assassinado ? Assalto ?
- Não. Dizem que foi o sócio dele.
- Sócio ? Ele não tinha sócio.
- No casamento. Amante da Dulce.
-  Como é que você sabe ?
- É o que dizem . Acho que foi ele.
- É. Pode ser.
- Bom, prazer em revê-lo. Abraços na família.

Andrade enxugou o suor do rosto com um lenço e  pegou o metrô até Botafogo.
Entrou num prédio antigo com portão de ferro. Subiu dois andares. Tocou a campanhia. A mulher atendeu.
Andrade desatou o nó da gravata e esparramou-se no sofá.

- Amor, quer um copo de água gelada ?
- Sabe o que estão dizendo por aí Dulce ? Que fui eu que matei o teu marido !

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