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25 de ago de 2010

SIMPLES ENGANO

Domingo chuvoso. Preguiçoso.  Lara passou o dia assistindo filmes antigos no DVD. Seis da tarde. Cansou. Fez um chá. Bebeu com torradas e foi até a estante pegar um livro . Tinha mania de comprar livros e depois deixava-os dormindo nas prateleiras. Alan Poe. Hum ! Não ! Conan Doyle. Quem sabe ? Queria mesmo  um suspense. Suspense e policial. Os preferidos. Arriscou  o americano Dean Koontz. Fazia tempo que queria lê-lo. Boa oportunidade para começar.
Acomodou-se no sofá. A campanhia tocou insistente :
-  Visita agora ? E o porteiro deixa subir sem nem ao menos interfonar ?  Droga  !

Na ponta dos pés expiou pelo olho mágico. Do outro lado, um homem alto, moreno, de cabelos pretos, mexia os braços impaciente .
- Quem será esse " deus grego " ? Um novo vizinho ?

A campanhia continuou.  Correu  até o espelho da sala , ajeitou os cabelos e abriu a porta :

- Pois não ?!
- A Sara está ?
- Sara ?
- O porteiro me falou que eu podia subir. Ela está me esperando. 202 exato ?
Lara puxou o homem para a sala e trancou a porta :
-   Ela deu uma saída  . Coisa rápida. Volta já.
-Mas o porteiro...
- O porteiro daqui é um louco !
- Acredito.
-Senta, por favor. Seu nome....
- A Sara não disse ?
- É que....
- Desculpe. Meu nome é Maciel. Você é irmã da Sara ? Ela disse que morava sozinha.
-Estou passando uns dias aqui. Final de semana que vem volto para Minas.

Lara ofereceu-lhe  um cálice de vinho. Beberam três. No quarto, ríam como velhos conhecidos. De repente Maciel pulou do sofá :
- E a Sara ? Quase meia-noite. Será que aconteceu alguma coisa ?
- Nada ! Ela deve estar na Sueli. É uma vizinha problemática.Tentou o suicídio semana passada.
- É ? A Sara não comentou comigo. Melhor avisar que cheguei.
Maciel procurou o celular.
- Ué, eu não deixei em cima da mesa ?
- Deixou ? Não vi. Mas a Sara não levou o celular.
- É ? Ela nunca esquece...
- É. Cabeça. Sabe como é. Toma mais um cálice de vinho.

Beberam mais um. Dois. No terceiro, Lara e Maciel beijavam-se com paixão no sofá. Logo estavam no quarto.  Passaram uma noite de muito sexo e prazer.
Sete da manhã, com a cabeça latejando, Maciel olhou o relógio :
- Que merda ! Olha o que nó fizemos...e a Sara ?
- Sara ? Que Sara ?
- Sua irmã.
- Eu não tenho nenhuma irmã chamada Sara. Você bateu aqui e como o domingo estava....

Maciel se levantou olhando pra ela atordoado. Esfregou os olhos :

- Aqui não é o 202 ?
- 102 . A Sara é a vizinha de cima. Não vou com a cara dela.
- Cadê meu celular ?
- Tá aqui.
Lara abriu o armário e entregou-o para Maciel.
- Você é louca !
- Louca ? Eu diria...ousada !
- Sabe de uma coisa ? Já que estou por aqui....
Olhou para o relógio e disse animado :

- Dá para mais uma ! Topa ?

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17 de ago de 2010

A CARTA

Lucy chegou do trabalho e encontrou mais uma carta anônima embaixo da porta. Enquanto fazia um café, curiosa, abriu para ler. Escrita em letra de forma, dizia a mesma coisa de sempre: “Toda sexta-feira seu marido chega mais cedo do escritório e passa a tarde no apartamento da vizinha do 602.”


Depois de suspirar com ar de enfado, rasgou e jogou a carta no lixo. Bebeu o café, tomou um banho, fez uma sopa e quando o marido chegou, fingiu que dormia.

Antes de se deitar, Henriquinho fez um lanche e viu um pouco de TV na sala. Passava da meia-noite quando se aninhou na cama e puxou o edredon.

De madrugada , quando Lucy acordou para ir ao banheiro , acendeu a luz do abajur e olhou o marido descoberto com a barriga pra cima , roncando. Apertou a boca e simulou ânsia de vômito. Cobriu Henriquinho, virou-se para o lado e logo adormeceu.

Sexta-feira acordou feliz. Tomou banho cantando. Despediu-se do marido com um sorriso simpático :
- Até logo mais ! Bom trabalho, amor.

Henrique  estranhou o assanhamento da mulher. Ultimamente ela andava muito rabugenta.

Lucy chegou mais cedo na loja. Pediu ao patrão duas horas de almoço . Disse que precisava ir ao médico. Meio-dia , entrou no metrô da Carioca e desceu duas estações depois. Procurou um orelhão, abriu a bolsa, puxou um pedaço de papel e ligou para um número de celular . Do outro lado, uma voz grave de homem atendeu. Lucy disfarçou a voz :

- Senhor Aldemar. É hoje. Se o senhor chegar mais cedo em casa, vai encontrar sua mulher na cama com o vizinho do 304.

Desligou. Sabia que o marido da moradora do 602 era ciumento e violento. Voltou para o trabalho.

Final da tarde saiu da loja cheia de expectativa . Desligou o celular. Queria ser surpreendida ao chegar em casa . Quando desceu do ônibus e dobrou a esquina, viu a confusão forma na porta do prédio. Dois carros de polícia e um rabecão O coração bateu mais forte. Aproximou-se desconfiada . Deu de cara com a mãe que a chamou num canto :

- Minha filha, aconteceu uma desgraça !
- Fala logo, mãe. Assim a senhora me deixa preocupada. Conta. Desembucha.
- Seu marido e a vizinha do 602 foram pegos na cama e ...
- Já sei mãe. O marido dela matou os dois . É isso ? Anda. Diz logo.

Olhou para a mãe esperando uma confirmação. Dona Florinda abraçou a filha chorando :

- É. Como é que você sabe ? Os dois estão mortos . Aliás, os três. Em seguida, o marido dela se matou.
-  Nossa, mãe , cruzes ! Olha como eu estou arrepiada !? - Fingiu um ataque de nervos.

Começou a chorar. Os vizinhos se aproximaram para consolá-la. Ela gritava e puxava os cabelos para dar mais realismo a cena. 

Durante o velório, parentes, amigos e familiares mostravam-se preocupados com o marasmo da viúva . Chegaram a comentar :
- Tadinha. Está em estado de choque.

Depois do enterro, recusou companhia :

- Não . Por favor. Prefiro ficar sozinha. Quero mexer no armário do falecido. Arrumar as roupas dele para enviar para uma instituição de caridade. Era um desejo dele.
- Não acha perigoso ficar sozinha ? Pode fazer uma bobagem.
- Não. Estou bem. Preciso refletir. – Falou com um ar de distanciamento.

Respeitaram-lhe a vontade . Entrou no apartamento aliviada. “ Enfim só” – pensou. Depois de um banho demorado , interfonou para a portaria.
- Deolindo ?
- Sim, dona Lucy, pode falar.
- Seu danadinho ! Pensa que me engana ? Eu sei que era você que mandava as cartas anônimas !


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8 de ago de 2010

AS ROSAS

Assim que Valdete apontou na esquina da rua, Olinda saiu da janela e foi para a porta da Vila. Quando a vizinha se aproximou e já ia entrar em casa, Olinda gritou:

- E aí, como foi?
- Psiuu... olha o escândalo mulher. Vem até aqui em casa, meu marido ainda não chegou. Vem que eu tenho novidades.

Olinda fechou o portão e foi ao encontro da vizinha completamente excitada. Sabia que Valdete devia realmente ter boas novas. A vizinha vinha de mais um encontro com o amante. As duas rindo muito, entraram na casa de Valdete, que foi logo dizendo:
- Senta aí no sofá para você não cair para trás. Vou te mostrar o anel de ouro que o Esteves me deu hoje.


Abriu a bolsa, tirou o anel da caixinha e sorrindo de orelha a orelha colocou na mão de Olinda:
- Baba mulher... não é uma preciosidade?

A outra arregalou os olhos e cheia de inveja disse:
- Nossa... mais que lindo... e esse anel é verdadeiro?
- Mas claro que é. Tudo o que o Esteves me dá é verdadeiro. Você não acha que eu mando avaliar?
- E teu marido? Ele não desconfia?
- Ora ora... quando eu saio com o Januário, eu digo que é bijuteria. E aquela besta lá sabe avaliar alguma coisa?

Valdete era casada há 15 anos com Januário, um funcionário público que levava vida humilde. Há um ano Valdete tinha conhecido Esteves, o amante. Ele era 25 anos mais velho. Na verdade, um velho babão. Mas dava vantagens à amante. Cada encontro era uma jóia. Valdete tinha planos de guardar as jóias e assim, quando já tivesse uma boa quantidade, planejava dar um chute no marido e no amante. Valdete iria vender as jóias para conseguir a própria independência. A vizinha Olinda, sua confidente, sabia de tudo e invejava a esperteza de Valdete. Tinha também vontade de arrumar um amante com dinheiro, para mais tarde fazer a mesma coisa: dar um chute no marido, a quem ela chamava de porco dorminhoco.

- Valdete... eu invejo você... quero arrumar um amante rico também. Um velho que me dê mordomia.
- Isso é fácil. É só você se arrumar toda, sair de casa... e ir à luta.

Olinda foi à luta. Acabou conhecendo numa tarde primaveril, num café no Centro da Cidade, um senhor muito distinto chamado Clodoaldo. Trocaram telefones. Ele tinha jeito de homem com dinheiro. Excitada foi direto na casa de Valdete contar a novidade:

- Mulher... eu conheci o homem que vai me tirar do sufoco. Um senhor chamado Clodoaldo, muito distinto. Trocamos telefone. Vamos ver se ele vai me ligar mesmo.
-Isso... agora é só colocar o plano em execução. Não dá mole não. Velho babão adora ser explorado por mulher mais nova.

Dois dias depois Clodoaldo ligou para Olinda. Os dois ficaram umas duas horas conversando pelo telefone. Olinda aproveitou para espetar o suposto amante:

- Sabe... a minha vizinha tem um amante... ele é bem mais velho que ela... o homem é um mão aberta... dá jóias de presentes... Eles já estão juntos faz tempo.

Clodoaldo apenas murmurava:
- Hummmhummmm.

E assim os dias corriam. Ela preparando o espírito de Clodoaldo para o primeiro encontro. A todo momento falava da vizinha Valdete e do amante dela. Resolveram marcar o encontro. Olinda se enfeitou toda. Criou a maior expectativa. Antes passou na casa de Valdete:

- É hoje nosso primeiro encontro. Já preparei o espírito do homem. Falei de você toda hora. Vamos ver qual a jóia que ele vai me dar.

A vizinha desejou boa sorte e as duas se despediram.

Os futuros amantes resolveram se encontrar no Centro da Cidade. No mesmo café em que se conheceram. Quando Olinda chegou no bar, Clodoaldo já estava esperando por ela com um sorriso. Na mão uma dúzia de rosas vermelhas, cuidadosamente embrulhadas num papel celofane.

Olinda beijou Clodoaldo e ele lhe entregou as rosas:
- São pra você. Para marcar nosso primeiro encontro. Toma: rosas para uma rosa!

Olinda pegou as rosas... ainda tentou procurar, para ver se tinha alguma caixinha de jóia por entre as rosas. Nada. Ela então perguntou:
- Só isso? E o meu presente?
- Minha doçura... não existe nada mais singelo do que dar rosas para uma mulher.

Olinda se decepcionou:
- Mas rosas? Só rosas? E as jóias?
- Jóias? Mas jóias são muito caras e não provam o amor que um homem sente por uma mulher... as rosas são mais românticas.

Olinda se enfureceu. Pegou as rosas jogou no chão e foi amassando uma por uma com a sandália salto alto, que ela havia comprado especialmente para aquela ocasião:

- Sabe o que você faz com essas rosas? Enfia garganta adentro. Rosa por rosa, eu prefiro as que o meu marido compra aos sábados na feira, para enfeitar a casa.

Dito isso, pegou a bolsa e saiu, deixando Clodoaldo com a maior cara de trouxa.


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2 de ago de 2010

CALCINHA DA DISCÓRDIA

Terça-feira, dez e meia da noite. Heloísa passa pela sala em direção a área de serviço, quando André Henrique dá um grito:

- Heloísa!
- Ai meu Deus, que susto. Quer me matar?
- Por que você está com as mãos fechadas? O que você tá escondendo?
- Não é nada. Deixa de ser curioso – e deu uma risada sem graça.
- Mostra.
- Já disse, não é nada.
- E por que não posso ver? Que mistério é esse?
- O que você acha que tenho nas mãos? Uma bomba?
- Não disfarça com piadinha. Abre a mão, anda.
- Que baixaria, agora que não mostro mesmo.
- Você tem andado muito estranha. Vou me aborrecer e a gente vai brigar por besteira. Abre essa mão, anda.
- Quem está brigando por besteira é você. Cisma boba.
- Se é cisma, mostra. Quero ver.

Contrariada, Heloísa obedece. André Henrique enruga a testa e aperta os olhos.

- Que calcinha é essa?
- Minha. De quem mais pode ser?
- Nunca vi essa branca de rendinha e cavada ainda por cima.
- Comprei hoje.
- Tá molhada. Você lavou. Compra calcinha suja agora?
- Lavei pra usar limpinha com você, mas depois desse show perdi o tesão.
- Lavando calcinha nova? Não me enrola. Tenho cara de palhaço?
- Essa é boa. Além de controlar o horário que eu chego em casa, vai controlar também a lavagem das minhas calcinhas?
- Sou seu marido.
- Ser meu marido não lhe dá o direito de controlar minhas roupas íntimas.
- Tenho que tomar conta do que é meu.
- O seu ciúme estraga tudo, sabia? Não adianta querer agradar.
- Você nunca quis me agradar, Heloísa.
- Quanta ingratidão! E no dia que eu almocei na casa da sua mãe e ela fez galinha assada? Você sabe que eu detesto. Mas comi pra te agradar.
- Não mete mãe no meio. Tô falando de mim.
- Ué, mas agradar sogra é a mesma coisa que agradar marido.
- Tá ficando sonsa? Estou falando de nós dois. De sexo.
- Qual o problema?
- Você tem deixado a desejar. Parece um robô na cama.
- Ah é? Engraçado, você nunca reclamou do robozinho aqui.
- Você não é a mesma. Quando a gente acaba de transar, você vira para o lado e dorme.
- Tenho andado cansada. Muito trabalho.
- Isso não é motivo. Sexo é bom pra relaxar.
- Conversamos mais tarde sobre a nossa vida sexual. Deixa eu colocar minha calcinha pra secar.
- Me dá a calcinha, anda.
- Não. É minha.
- Me dá, Heloísa, deixa de ser infantil.
- Infantil é você.
- Me dá essa merda aqui.
- Não dou.

Começam a gritar. Ele puxa de um lado. Ela do outro.

- André Henrique, os vizinhos vão botar nosso nome no livro!
- Se você me der a calcinha a discussão acaba.
- Larga.

André Henrique arranca a calcinha da mão de Heloísa e cheira.

- Essa calcinha não é nova. Tá cheirando a homem. Tá saindo com quem?
- Pára de colocar merda na cabeça. Eu não tenho ninguém. Me dá a calcinha.
- Se eu não devolver o que vai acontecer?
- Experimenta não devolver.
- Vai me bater? Tá muito cheia de valentia. Muito cheia de nhenhenhém.
- Tudo por causa de uma calcinha nova! Não acredito. Seu ciúme passou dos limites.
- É? Essa você não usa mais. Detesto calcinha branca.


E jogou pela janela.

- Sabia que custou dinheiro?
- Eu pago. Quanto foi?
- Você é paranóico. Hoje joga a calcinha, amanhã pode me jogar.
- Não seja dramática. Acabou a discussão. Boa noite.

André Henrique vai para o quarto resmungando. Heloísa chega na janela e vê um homem olhando pra cima. Envergonhada, esconde-se. Dois minutos depois, o interfone toca.

- Dona Heloísa, é o Raimundo. Tem um moço aqui na portaria querendo falar com a senhora. Posso mandar subir?
- Não! Vou descer.


Chega na portaria e encontra um homem alto, elegante, cabelos pretos, olhos esverdeados, boca carnuda e um sorriso de capa de revista. Sem jeito, fala baixinho:

- Boa noite, o senhor deseja falar comigo?

O desconhecido estica a mão e se apresenta. Em seguida, tira a calcinha do bolso da jaqueta de couro e entrega a Heloísa:

- Acho que caiu do seu apartamento. É sua?

Ela estica a mão intimidada.

- Caiu na sua cabeça? Desculpe, não tive a intenção.
- Não precisa se desculpar. Adorei o encontro inusitado. Sou um homem de sorte. Você é muito bonita.
- Obrigada – responde com modéstia.
- Estarei sendo ousado se lhe pedir o número do seu telefone? – disse com voz rouca e sensual.
- Serve o celular?

Ela volta para o apartamento com um sorriso de felicidade nos lábios. Entra e vai direto para a cozinha esconder a calcinha atrás da geladeira. Deita-se devagar para não acordar o marido. Estremece quando escuta a voz de André Henrique:

- Quem era no interfone?
- O Raimundo pra avisar que você deixou o farol do carro aceso.
- Apagou?
- Apaguei.
- Ah tá! Boa noite.


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