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26 de jul de 2010

SÓ SE FOR BURRA !

Geraldo estava com 48 anos. Filho único, morava com os pais e trabalhava num cartório. Solteirão convicto, não tinha namorada. A família e os amigos cobravam um relacionamento sério:

- Geraldo, quando é que você casa? Já está com 48 anos, bem-sucedido. Não quer uma companheira para esquentar seu travesseiro?

Geraldo argumentava:

- Deus me livre! Arrumar mulher para me tirar do sério? Discutir relação? As mulheres de hoje são inteligentes, independentes e adoram um confronto. Não tenho paciência para discussões filosóficas com o sexo oposto. Esse mundo globalizado estragou nossas mulheres!! Já não existe mulher delicada e calada como antigamente. Bando de homens de saias!

As esposas dos amigos chamavam Geraldo de machista. Havia a turma que apostava que ele era gay enrustido. Geraldo não se aborrecia. A única coisa que não tolerava era mulher com ar de inteligente, metida a falar difícil. A última namorada gostava de conversar sobre política e futebol. Geraldo enjoava. Acreditava que o namoro perdia o glamour. "Qual a graça de transar com mulher que gosta de futebol? Bebe cerveja? E faz comício em praça pública?", pensava.

Em dois meses, o relacionamento se desfazia. Mas a pressão da família era grande. Nas festas familiares, as tias comentavam:
- Geraldo, você precisa casar. É filho único. Quando vai dar neto aos seus pais? Vai deixar sua mãe morrer sem segurar um bebezinho nos braços?

Geraldo se entediava. Logo abandonava a reunião. Saía pela porta dos fundos. No churrasco, na casa dos amigos, a mesma pressão. Sempre tinha uma encalhada que arrastava as asas para ele. Porém, era só começar uma conversa, para qualquer interesse se dissipar. A encalhada, querendo mostrar inteligência e sabedoria, logo falava de literatura, economia ou violência. Queria impressionar. Mal sabia que Geraldo tinha urticária a papo cabeça.

Na verdade, seu fetiche era uma mulher submissa. Cachorrinho. Estilo bonita e burra. Era exigente. Queria mulher para obedecer sem questionar. Sem reclamar. "Mas as mulheres de hoje estavam perdendo toda a feminilidade. Mais pareciam homens! Com dois meses de namoro, tinham um discurso de igualdade na ponta da língua. Francamente!" - Geraldo comentava.

Ao mesmo tempo, ele estava cansado da insistência dos amigos, das tias, e do pessoal do trabalho. Ou ele conviveria com uma mulher determinada ou seria obrigado a conviver com a gozação dos conhecidos. Ora o chamavam de gay, ora de encalhado e ora de broxa. Um dia, lendo o jornal, teve uma idéia. As cobranças acabariam. Colocou um anúncio nos classificados pedindo uma esposa. As interessadas em casar com ele, responderiam a um questionário.

Choveram cartas. Geraldo passava o final de semana lendo todas. Bastava uma resposta certa para ele descartar:
- Não serve. Sabe que o nome do Presidente dos Estados Unidos é George Walker Bush. Bem-informada. Gosta de discutir a relação.

Geraldo leu cartas durante um mês. Foi um processo seletivo minucioso. Finalmente, se encantou com a carta de uma mulher de 25 anos. Morava no interior de Minas. As respostas estavam todas erradas. Ficou fascinado ao ver a futura esposa responder que o poeta Victor Hugo era lateral direito do Flamengo, vendido ao São Paulo. Amou quando ela escreveu que Clarice Lispector era cantora de axé-music.

Apaixonou-se por tamanha burrice e desinformação da moça. Enfim, suspirou, encontrou a mulher para dividir o resto dos seus dias. Imediatamente, ligou para Totinha. Era esse o nome dela. Marcaram um encontro. Quatro meses depois, estavam casados. Os amigos nem acreditaram. A família danou-se a pagar promessas. A mãe queria logo um neto. No dia do casamento, os sobrinhos colocaram uma faixa na Igreja: "finalmente o tio desencalhou". Aleluia!

Geraldo se divertia com a burrice ingênua da esposa. Nada de discussões filosóficas, feministas, jornal, livros, nada. Comprava todas as revistas de fofoca para Totinha. Leitura preferida da esposa. Ela se deliciava, depois do serviço doméstico, sentar no sofá, para folhear a revista e saber dos próximos capítulos da novela. O mundo artístico fascinava Totinha.

Enquanto isso, Geraldo amava quando domingo podia sentar em frente à TV para assistir ao futebol, bebendo uma cervejinha. A esposa, desprovida de qualquer intelecto, ficava na cozinha fazendo bolo. Ela não questionava. Reivindicações para sair final de semana, nem pensar. Queria estar casada. Acatava todas as ordens do marido. Na cama era um furacão.

Porém, a felicidade de Geraldo durou pouco. Um dia, ao chegar em casa, ele encontrou uma carta da esposa. Era uma carta de despedida. Na carta, Totinha contava que tinha um amor de infância deixado em Minas. Os dois brigaram e terminaram o namoro. De pirraça, ele casou com a melhor amiga dela. Agora, ele se separou e queria reatar o romance interrompido. Totinha o perdoou e foi ao encontro dele. Queria realizar seu sonho de menina. Além disso, sentia muitas saudades do ex-namorado.

Na carta, pediu desculpas ao marido. E combinou de mandar um advogado para tratar da separação.

Foi uma decepção grande para Geraldo. Como não gostava de homem e ficou com nojo de mulher, se tornou assexuado.

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17 de jul de 2010

MEU NAMORADO ARISTEU

Sexta-feira. Final de expediente. Verinha se arruma no banheiro da empresa e comenta com as amigas:
- Tenho que ficar linda para o Aristeu.

Marlene debocha:
- Como é o nome dele? Repete.
- ARISTEU. Qual o problema?
- Isso é nome de namorado que se arranje?
- O nome dele tem história na mitologia grega.
- Mitologia à parte, me diz se ele é bonito, pelo menos.
- Bonito e gostoso. Um príncipe encantado!

Marlene grita, com ar sonhador:
- Homem gostoso é tudo de bom! Então já experimentou?
- Ainda não. Estamos no reconhecimento de campo, mas dá pra sentir, né?

Vânia entra na conversa:
- Tem carro?
- Do ano. Você acha que vou namorar desmotorizado? Aristeu é perfeito.
- Só o nome é que não bate – comenta Marlene - Imagina na hora de transar: Aristeu, pega aqui, Aristeu, mais embaixo.

Verinha reage, bem-humorada:
- Homem hoje é artigo de luxo e quando arrumo um, vocês jogam piadinhas por causa do nome?! Eu tava a perigo. Sabe há quanto tempo eu não dava um beijinho de língua? Seis meses!
- Pior eu – disse Marlene - sabe há quanto tempo não rola um sexo básico com o maridão? Oito meses! Até peguei emprestado o vibrador da minha irmã.
- Acho que vou precisar de um. É bom pelo menos? – perguntou Vânia, curiosa.
- Não tem pegada, mas no sufoco, é melhor do que nada.
- Bom, eu pelo menos tenho o Aristeu e quando rolar não vai sobrar pedra sobre pedra. Ele é todo gostoso. Perna grossa, bumbum arrebitado, tórax de dar inveja no Van Damme.

Vânia aproveita a conversa afrodisíaca e desabafa:
- Tá com água na boca. Sabe há quanto tempo não transo? Dois anos! Acreditam?!
- E aquele cara que vi com você no metrô? – Verinha pergunta, curiosa.
- Um babaca. Pratica o desapego carnal para atingir o nirvana.
- Cruzes! Esses homens de hoje estão perdidos! Ainda bem que tenho o Aristeu.
- Vamos embora, meninas, porque o meu maridão broxão tá me esperando pro jantar.

Descem no elevador contando suas agruras amorosas. Na portaria despedem-se.
- Bom fim de semana, Marlene! Com ou sem vibrador.
- O meu será com muito DVD e pipoca! – falou Vânia, desanimada.
- Esperamos que você experimente o gostosão do Aristeu.

Cinco minutos depois, ele estaciona o carro e, com jeito de poucos amigos, abre a porta para Verinha. Deixa-a em casa uma hora depois, alegando dor no estômago. O final de semana foi decepcionante. No sábado foram à praia e antes das seis, Verinha já estava em casa. Domingo, apenas uma ligação de meia hora. Segunda-feira as amigas quiseram saber:
- E aí, e o Aristeu?
- Nada. Inventou um monte de desculpas para não ficar sozinho comigo.
- Não rolou nem um amasso mais ardente?
- Nada. Nem mão naquele lugar, se quer saber.
- Vai ver faz parte de alguma seita religiosa, sei lá! Será que é gay enrustido?
- Você disse que gostava dele? Homem quando descobre que a mulher se apaixonou, foge. Eu tenho um ex que já deve estar no Japão!
- Que nada. Namoro hoje é assim mesmo. Se você tiver sorte, o gostosão aparece uma vez por mês. São muitas namoradas.

Verinha fica zonza:
- Vocês estão me deixando confusa. É muita mulher falando ao mesmo tempo.

As mal-amadas continuam nas conjecturas:
- Será que é viciado em drogas? Alcoólatra, pedófilo?
- Já sei – grita Marlene – faz sexo com cachorro!
- Chega, Marlene. Pára Vânia. Não adianta tentar adivinhar.
- Só mais uma pergunta: Quando vocês se beijam você reparou se... se?
- Sobe. Já reparei. E é grande! – Verinha responde sem muita paciência.
- Vai ver o problema é grana, quando homem tá duro, nada funciona.
- Queridinha, isso é desculpa. Quando tá a fim, escala até prédio de vinte andares.


Verinha perde a paciência:
- Olha só, o namorado é meu, a vida é minha e quem tem que resolver esse problema sou eu, tá bom?
- Tá!!!! Já não está mais aqui quem falou. Vamos trabalhar. Vem Vânia.


Durante os cinco meses que se seguiram, o casal viveu um namoro em total abstinência sexual. Cansada do jejum, Verinha aproveita uma sexta-feira, de clima romântico num happy hour e coloca-o contra a parede:

- Aristeu, você não acha que está faltando alguma coisa no nosso namoro?
- Tá?
- Fez voto de castidade? Tem algo de anormal com você? Vou saber entender. Diz.

Segurando o rosto de Verinha com as duas mãos, olha fundo nos olhos da namorada e dá um sorriso enigmático:
- É isso o que você quer? Tem certeza?
- Tenho. Amo você e quero ser toda sua.

Pressionado, Aristeu marca para o dia seguinte. Verinha duvida que ele apareça. À noite, na hora marcada, buzina em frente a casa dela. Escolhe a melhor suíte. Bebem champanhe. A performance sexual impressiona. Tudo perfeito. Depois da noite de amor, desaparece sem deixar rastro. As invejosas amigas de Verinha chamam-no de Aristeu, o ilusionista.

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12 de jul de 2010

MULHER SOZINHA NA NOITE

Abri a janela do quarto. O sol entrou luminoso e bateu na minha cama. Olhei mais uma vez o relógio: 9 da manhã. Sábado. Um dia de folga. Até que enfim! A semana passou lenta demais. O céu azul era um convite para um banho de mar. Não seria má idéia. Tinha tanta coisa para fazer. Aproveitaria o sábado para colocar as roupas em ordem. Fazer compras. Não daria para ir à praia. Pena. Quem sabe amanhã, domingo? Ouço o miado rouco de Mimi vindo da sala. É minha gata vira- lata, amarela e branca. Devia estar com fome.

Fui até o banheiro. Escovei os dentes. Olhei meu rosto. Uma espinha nascendo no queixo. É a TPM. Parece coisa de adolescente. Saí do banheiro com Mimi embolada nas minhas pernas. Na cozinha, coloquei um pouco de ração na tigela da bichana. Tomei meu café e fui agilizar meu sábado. Compras. Resolvi tudo na rua e voltei para meu apartamento no final da tarde.

Arrumei os armários e fiz uma faxina rápida. Lá se foi o sábado. Olhei o relógio: 8 e 40. Horário de verão. Me deu vontade de comer uma pizza. Pedir em casa? Não. Vou a um restaurante. Beber um chope. Ver gente. Pensei: "Sozinha? Sábado à noite e sozinha na rua? Nem pensar! O que os outros vão dizer?"

O telefone tocou me tirando das minhas digressões. Era Carla.
- Qual a boa de hoje?
- Estou com vontade de comer uma pizza.
- Pizza?
- Sim. Tem coisa melhor?
- Vamos para a balada. Beijar na boca. Dançar. Pizza engorda.
- Não, isso não. Coisa chata. Acho que vou comer uma pizza.
- Com quem?
- Sozinha.
- Sozinha? Vão pensar que você é uma puta da noite pegando homem.
- Não seria má idéia.
- Ser uma puta?
- Não. Pegar um homem.
- Então mais fácil na balada.
- Não estou com vontade de dançar. Bom proveito.

Despedi-me de Carla. Sei que Carla é deslumbrada, adora uma festa, ensaio de escola de samba, baladas. Não relaxa. Chega procurando homem. Não desiste enquanto não consegue um. Nem que seja para uma noite. Não é o que quero. Divergência de opinião. Nossa amizade é assim: cada uma na sua.

Eu procuro paz e sossego. Poderia ficar em casa lendo um livro. Mas a noite estava tão bonita. Merecia uma pizza com um chope. Mas chamar quem para me acompanhar? Na verdade, queria ir sozinha. Desejava ficar a sós com meus pensamentos. Porém, tinha medo que pensassem que era uma jogada fora. Sempre assim. Medo do que os outros vão pensar.

Dei uma olhada na agenda telefônica. Pensei em Rose. Ela não. Começaria a falar dos problemas no trabalho. Tadeu. Muito chato. Ia fazer discurso. Injustiça social e divisão de bens eram seus assuntos preferidos. Papo-cabeça, tremendo sábado de verão? Calor? Desisti. Seria demais para meu coração.

Jorge. Adorava conversar com o Jorge. Tinha senso de humor. Não o via há algum tempo. Mas logo, ele começaria com o papo de sempre. Se sentia discriminado. Costumava me dizer: "ninguém aceita um negro inteligente". Conversávamos, às vezes, horas sobre esse assunto. Hoje, não. Essa conversa havia se esgotado. Chega.

Ainda folheei a agenda algumas vezes. Um amigo de faculdade. Não o via desde que o curso terminou. Bem que podíamos nos reencontrar. Não. Nada a ver. Todos eram entediantes. Ou era eu o tédio? O problema sou eu. Admito: "Mea-culpa".

Novamente o telefone tocou. Era Beatrice. Outra amiga. Ia com mais três colegas da academia a um restaurante novo. Comidas deliciosas. Fiquei tentada a ir também. Mas sabia que chegaríamos no bar e conversa vai, conversa vem, falaríamos mal dos homens. Não! Adorava os homens. Chega de falar mal deles. Não tenho um no momento. Falta de oportunidade, só isso. Melhor pensar desse modo. Se pensasse nos meus amigos gays, ficaria deprimida. Tremendo sábado à noite. Não!


Levantei-me do sofá rapidamente. Tomei coragem: sairia sozinha. Fui até o quarto. Coloquei um vestido básico. Tamancão. Uma pintura leve. E saí. Peguei o carro e percorri as ruas da zona sul. Olhei um bar. Olhei outro. Todos cheios. Gente do lado de fora dos bares conversando e gesticulando muito. O Rio fervilhava. Que violência nada! Todo mundo quer é se divertir. Olhei o relógio. Quase meia-noite.

Escolhi uma pizzaria. Estacionei o carro, depois de muito rodar, é claro. Ia entrar na pizzaria, quando fui barrada na recepção. Uma moça de saia, camisa de mangas compridas, colete e gravatinha, perguntou:

- Sozinha? Espera mais alguém?


Quando respondi que estava sozinha, ela fez uma cara de piedade. Fiquei constrangida. Deu vontade de dizer: "Estou bem. Não precisa se preocupar. Apenas vontade de ficar sozinha. Não é qualquer companhia que me agrada. Sou exigente". Desisti. Achei que seria apelação. Me arranjou uma mesa no canto. Sem problemas. Ficaria em lugar discreto. Comeria minha pizza, tomaria meu chope e depois rumo de casa. O garçom fez a mesma pergunta:
- Esperando alguém?

Balancei a cabeça negativamente. Novamente aquela cara de piedade. Pensei: “será que sou um ET? Não tenho direito a estar sozinha? Preciso sempre estar em turma, em bando para sair sábado á noite? Que saco!!”

Saco mesmo. Um casal de namorados que estava ao lado comentava e olhava para mim. Pelo jeito eu chamava a atenção. Gostaria de dizer ao poeta que é possível ser feliz sozinho. E como é! Liberdade. Preciosa liberdade. Melhor sozinha do que assistir uma cena que presenciei num bar numa quinta-feira, quando acompanhava um casal amigo.

Um outro casal, que estava sentado em uma mesa ao lado, protagonizou uma cena deprimente. A mulher pediu uma massa e o homem uma sopa. Não conversaram nada. Ele abriu o jornal na mesa do restaurante e começou a ler as notícias enquanto sua companheira olhava para o nada. Falta de cavalheirismo. Solidão a dois. Dividir solidão é frustrante. Devo ser meio voyeur. Adoro me sentar sozinha e ficar reparando as outras mesas, assim como estavam reparando em mim.

O garçom me fez voltar à realidade. Trouxe a pizza. Pedi mais um chope. Dois rapazes olhavam insistentemente para a minha mesa. Não tinha ninguém atrás. Era parede. O alvo era eu . Disfarcei. Olhei para o outro lado. Um deles se aproximou e, sem pedir, sentou na cadeira em frente à minha.

- Posso lhe fazer companhia?

Sorri, para não ser antipática, mas respondi:
- Gostaria de ficar sozinha. Posso?
- Ele não vem mais. Desiste.
- Ele quem?
- O namorado. Deu bolo.
- Não estou esperando ninguém.
- Não? Sábado á noite, sozinha?!
- Algum crime?
- Estranho. Você deve ser sozinha. Não tem amigos?
- Tenho. Mas estou com vontade de ficar sozinha. Tenho direito, não?


Trocamos mais algumas palavras. Fui seca. Quando queria, sabia ser antipática. A pizza esfriou. Desisti. Chamei o garçom. Pedi a conta. Paguei. Saí do restaurante chateada. Não podia sair sozinha. Ditadura da companhia. Entrei no carro. Fui direto para casa.

Coloquei a chave na fechadura, entrei. Olhei o relógio de parede. Uma e meia da madrugada. Hora de dormir. Fui até a janela da sala. Ainda olhei a noite estrelada. Respirei fundo. Fui para o quarto. Mimi dormia no sofá que ficava perto da mesa de cabeceira. Senti inveja. Ela devia ser feliz. Não era cobrada. Gostava de ficar sozinha e ninguém a censurava pela sua maneira de ser.

4 de jul de 2010

O SOFÁ

Maria de Lurdes morava numa quitinete no Centro da Cidade . Sempre que chamava o namorado para dormir no apartamento , ele se recusava. Dizia que o sofá - cama dava-lhe dor nas costas. Ela resolveu fazer uma surpresa.  Comprou um  sofá-cama à prestação e convidou-o para experimentá-lo. Transaram. Pela manhã, antes de ir embora, ele terminou o namoro . Maria de Lurdes não suportou a dor. Encerrava  o expediente bebendo num bar perto do trabalho . Um dia chegou em casa num porre de dar inveja a bêbado e vomitou no sofá. Pegou uma tesoura no armário e picotou o verdadeiro culpado pelo fim do namoro.



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2 de jul de 2010

A ALMA GÊMEA

A astróloga olhou mais uma vez o mapa astral de Roseane e afirmou:

- Sim, é ele mesmo. Os signos combinam perfeitamente. Encontrou sua alma gêmea. Acontece uma em 10 mil vezes.

Roseane saiu da consulta com o coração em rebuliço com a notícia! A amiga que esperava na ante-sala foi a primeira a saber:

- Esteves é minha alma gêmea. Sabia! Assim que olhei para ele senti um calor intenso subir pelo meu corpo. Pensei: é o homem da minha vida!

Aurealina, curiosa, perguntou:

- Madame Nercina tem certeza?
- Me garantiu. Disse que nossos mapas se encaixavam. Nossa sinastria amorosa é perfeita.
- Engraçado - disse Aurealina com ar de descaso - Madame Nercina me revelou apenas que vou demorar a casar. Na certa não foi com a minha cara!


Quando Roseane chegou em casa, contou a novidade para a mãe:
- A astróloga que fui hoje disse que o Esteves é minha alma gêmea!

Dona Damiana deu um risinho de canto de boca:
- Essa astróloga não deu os números da mega-sena? Não falou que você vai receber aumento?!

Roseane se irritou com a mãe:
- Astrologia não funciona assim. Sabe de uma coisa? Vou tomar meu banho. Não temos diálogo mesmo.
- Isso mesmo, vai tomar banho, e pára de sonhar!! Melhor estudar para sair detrás daquele balcão de loja. Que Esteves, que nada! Vê se pode! Alma gêmea!


Antes de dormir, Roseane ligou para Esteves:
- Amor, preciso contar uma coisa para você.
- Fala princesa, conta.
- Pessoalmente.
- Mas hoje ainda é quinta. A gente só vai se ver no domingo.
- Domingo? E sábado?
- Sábado não vai dar, princesa. Tenho cursinho de tarde e à noite é o batizado da minha sobrinha.
- E eu não posso ir ao batizado?
- Princesinha, sabe como é, festa de família. Não vou submeter você a uma tortura.


Roseane ficou sentida. Tortura ou não, queria estar ao lado de Esteves. Bronqueou. Houve início de discussão. Esteves acalmou a fera:
- Para não brigar, faremos o seguinte: domingo a gente vê aquele filme que você queria tanto, combinado?
- É, tá. Fazer o quê?
- Faz beicinho não. Abre um sorriso gostoso. Eu sei que você está de biquinho.


Roseane movimentou o corpo, fazendo charminho, como se Esteves estivesse olhando. Com voz meiga se despediu do namorado.
- Tá bom, amor. Conto a novidade no domingo. E não se esqueça: você prometeu ver o filme. Beijo nessa boca linda!

Roseane pegou o mapa astral e fantasiou até adormecer. Sonhou que se casava com Esteves.

No domingo, quando Roseane entrou no carro do namorado, ele logo perguntou:
- O que você queria me falar na quinta-feira!?
- Depois do cinema. Vou fazer um suspense básico.


O filme acabou e o casalzinho foi para a praça de alimentação do shopping:
- Queria fazer uma pergunta para você, Esteves!
- Fala amor. Sou todo seu.
- Você acredita em alma gêmea?
- Alma gêmea? Não sei... nunca pensei nisso.
- Acredita ou não?
- Sei lá. Você vem com essa novidade. Acho meio bobo esse negócio.
- Fiz uma pergunta e quero que você responda. Sim ou não?
- O que você quer que eu diga?
- A verdade.
- Tá bom. Acho que esse troço não existe!
- Existe, sim!
- Ah é? Então porque perguntou?
- Você é minha alma gêmea!
- Euuuuuuuu? E quem falou uma coisa dessas para você?
-Uma astróloga. Fiz meu mapa astral e também a sinastria amorosa.
- Sina o quê? Que viagem Roseane!
- Não é viagem. É verdade. Ficaremos juntos para sempre. Combinamos em tudo!
- Sei, entendo.

A conversa esvaziou. Esteves mudou de assunto, deixou Roseane em casa e se despediu com um beijo frio. Saíram mais três vezes. Na terceira saída, Esteves terminou o namoro.
- Como? Você é minha alma gêmea!
- Até posso ser. Mas no momento estou ocupado: estudo para concurso, trabalho e não tenho tempo para ser a alma gêmea de ninguém.


Roseane bateu o pé. Se descabelou. Ameaçou. Esteves se despediu e não atendeu nem o telefone quando ela ligou.

Com raiva, pegou a amiga Aurealina pelo braço:
- Eu vou na Madame Nercina tomar satisfação!
-Eu disse, Roseane, eu disse para você desconfiar. Olha no que deu. Ficou sem namorado. Essa conversa de alma gêmea assustou o cara.
- Cala a boca, Aurealina! Já estou p da vida e você enchendo meus ouvidos!

A astróloga relutou em atender Roseane. Alegou que não tinha horário.

Roseane fez plantão na porta da casa dela.
- Entra, Roseane, arranjei uma vaga para você. Vou consultar os astros.

Durante um tempo, desenhou, fez mapas, pegou canetas, Roseane olhava, curiosa e ansiosa, na esperança de que os astros lhe dessem uma boa resposta:
- Já tem o resultado? O que aconteceu?

A astróloga franziu o cenho. Balançou a cabeça, mordeu o lábio inferior.
- É, os astros se enganaram.
- Se enganaram? Como?!
- Uma conspiração interplanetária numa fase da lua inconstante levou a esse equívoco. Vocês não têm nada em comum. Os signos combinam, mas se chocam no ar, formando um gás, uma espécie de conjunção planetária diferenciada.
- Pera aí! Não entendi nada! Dá para explicar melhor?
- Resumindo: vocês não são almas gêmeas. Enganos acontecem.

Roseane se levantou da cadeira, furiosa. Se preparou para sair. A astróloga segurou a jovem pelo braço:
- Ei, mocinha: 50 reais a consulta!


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