Pesquisar este blog

23 de jun de 2010

INVEJA MORTAL

Rosirene via-a sair todos os dias. Sempre  a mesma hora. Ficava  sem respiração. A vizinha era alta, magra, usava  vestidos justos e provacantes. Cada dia um carro diferente a lhe apanhar na porta  . Carros de propaganda. E ela ali, pendurada na janela, observando a felicidade da outra que nem a olhava na cara. Nada acontecia de diferente na sua vidinha morna. A vizinha  tinha vida movimentada. Glamourosa. Era linda. Cabelos longos. Sedosos. Boca de atriz de hollywood. Tinha  dinheiro. Prestígio. E inteligência. Até a casa era mais bonita. E ela ali, chafurdada no marasmo . Naquela casinha humilde . Precisando pintar. Recepcionista de consultório de dentista. Dinheiro contado até o final do mês. Só Arnaldinho a amava. Mas nunca o amou  . Ele tinha hálito pesado, rosto de chiuaua e ganhava mal. Queria  homem bonito. Cheiroso. Inteligente. Rico. Mas quem iria olhar para ela ? Tão sem viço. O que faltava nela, na vizinha sobrava. A danada podia distribuir para a humanidade que ainda lhe sobraria graça e beleza. " Será mesmo que Arnaldinho a amava ?" Tiraria a prova dos nove. Sem sono , esperando a vizinha chegar, ligou para Arnaldinho uma da madrugada :
- Preciso falar urgente com você.
- Fala.
- Pessoalmente.
- Quando ?
- Não pode passar de amanhã.
- Então amanhã vou lhe pegar na saída do trabalho. Ainda sai seis horas ?
- Sim.
Arnaldinho desligou em êxtase. Pensou : " Será que finalmente ela lhe daria uma chance ?"

Dia seguinte, final de expediente, Arnaldinho esperava-a com uma rosa nas mãos. Ela desdenhou do presente :
- Arnaldinho, o assunto é sério.
- Pois fale. Sou todo ouvidos.
- Você me ama de verdade ?
- Sabe que sim. Desde a adolescência. Você é o amor da minha vida.
- Só acredito se você provar.
- O que quer que eu faça ?
Puxou Arnaldinho pela camisa. Falou com voz rouca no ouvido esquerdo dele. O rapaz assustou-se :
- Tá brincando, né ?
- A pura verdade. Ou isso ou nunca vou acreditar no seu amor.
- Posso pensar ?
- Não. Ou aceita ou nunca mais me vê.
- Aceito.
Rosirene foi pra casa com um sorriso no rosto. Início da noite. Lá estava a vizinha saindo glamourosa. Usava um vestido justo vermelho. Scarpin preto.  Linda de doer o peito. Sentou no sofá e sorriu : " Não perde por esperar".
Meia-noite Arnaldinho tocou a campanhia. Rosirene atendeu com ar de autoridade :

- O que está fazendo aqui ?  Daqui a pouco ela está de volta.

Arnaldinho desceu. Rosirene ficou na janela. Atenta. Finalmente uma emoção diferente na vida. Quase duas da manhã. A vizinha sai do carro. Linda. O veículo  parte cantando pneus. Arnaldinho aparece em cena de luva e máscara. Agarra-a por trás e coloca um lenço no nariz da mulher, que desmaia. As chaves de casa caem no bueiro.  Ele  pega o facão. Vinte furiosas facadas.  A rua continua silenciosa. Arnaldinho faz o serviço completo. Em seguida, coloca o corpo dentro do porta-malas do seu velho carro e vai até a casa de Rosirene. Entrega-lhe alguma coisa. Ela o beija. Arnaldinho vai embora sentindo-se realizado.
Rosirene corre até a cozinha, pega  garfo e faca. Coloca o coração da vítima num prato branco com detalhes dourados . Saboreia-o com apetite de leoa.

Adquira on line o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS  http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242

13 de jun de 2010

Quem matou dona Shirley ?

Quando saiu do metrô e olhou na direção da calçada, o coração de Souza acelerou. Uma multidão se formava ao redor do prédio em que ficava seu escritório de advocacia. O carro do corpo de bombeiros e uma patrulhinha também chamaram sua atenção.


- O que aconteceu? – pensou.

Se aproximou do prédio desconfiadíssimo e quando tentava colocar o pé no saguão do edifício, a mão forte de um bombeiro barrou-lhe a passagem:

- Não tá vendo que está interditado? É proibido ultrapassar a faixa.
- Trabalho no prédio. Tenho uma reunião daqui a meia hora. É urgente.
- Não pode subir.
- O que aconteceu?


O bombeiro não respondeu e foi atender um outro colega de profissão. Uma senhora que ouviu a conversa se intrometeu:

- Não tá vendo aquele corpo ali na calçada debaixo do saco preto, moço? Foi uma mulher que se jogou do oitavo andar.

Um outro homem que escutava a conversa balançou a cabeça discordando:

- Se jogou, não. Foi empurrada. Crime. Passional.

Souza colocou a mão na cabeça e correu querendo ver o corpo. O bombeiro mais uma vez impediu a passagem:

- O senhor é teimoso. Já disse, não pode passar.


Souza colocou a mão no bolso do paletó e pegou a carteira da OAB.

- Não tá vendo? Trabalho no prédio. Sou advogado.
- Então o senhor deve conhecer a moça assassinada.
- Assassinada? O senhor pode me deixar ver o corpo?


O bombeiro se aproximou do corpo e levantou o saco preto. Souza empalideceu:

- Minha secretária! Essa moça é minha secretária! Dona Shirley!
- Foi assassinada. Empurrada do oitavo andar.
- Assassinada? Como? Ela estava no meu escritório sozinha quando liguei.
- Não estava, não. Inclusive temos uma suspeita na sala da administração do prédio. Estamos esperando a multidão dispersar para levar a suspeita até a delegacia para averiguação.

Souza pegou o celular e telefonou para conhecidos. Ninguém atendia. Ligou para o celular da esposa Waldete. Caixa-postal. Um pressentimento estranho passou-lhe pela cabeça. Chamou o bombeiro novamente. Precisava saber quem era a pessoa presa na sala da administração. O bombeiro voltou com um policial:
- Esse senhor. Conhece a moça assassinada. Trabalhava no escritório dele.

O policial fez uma série de perguntas para Souza. Ele se irritou:
- Peraí. Sou doutor. Advogado. Não pode falar assim comigo.
- Quem não pode falar comigo assim é o senhor – disse o policial aumentando o tom de voz.

A multidão que a tudo ouvia ficou eufórica. Alguns mais exaltados gritaram:
- Assassino! Assassino!

Souza se irritou com o policial:
- Veja o que o senhor foi me arrumar!

Um outro homem forte de barba por fazer e voz rouca, gritou mais alto:
- Lincha! Lincha!

A multidão de curiosos e desocupados seguiu o coro. O policial percebeu que a situação ficou insustentável e levou Souza para a sala da administração. Quando Souza entrou na sala viu a filha encostada numa parede, abatida, com os cabelos em desalinho e a roupa rasgada:
- Magda, minha filha? O que você está fazendo aqui?

Magda correu para os braços do pai num choro convulsivo:
- Eu empurrei dona Shirley...
- Mas porque você fez isso minha filha? Tá doida?
- Mamãe me disse que o senhor e a dona Shirley tinham um caso. Por isso não me dava mais atenção e chegava tarde em casa.

Souza ficou irado. Os lábios tremiam de nervoso. Exaltado, arrancou a gravata e andando de um lado para o outro gritou:
- Aquela vaca da sua mãe! Aquela piranha! Me colocou contra você! Que merda minha filha! Que merda! Você matou minha secretária. Ela não era minha amante. Sou inocente. Meu xodó sempre foi você! Sua mãe tem ciúme de nós dois. Ela armou tudo! Tudinho! Disse que um dia se vingaria de mim! VACA!! Ela é uma VACA!

Magda chorou mais forte ainda. O policial que estava do lado de fora abriu a porta e deu uma ordem:
- Falem mais baixo!
- Já sei filha. Já sei o que vou fazer. Assumirei a autoria do crime. Você se livra dessa. Não posso deixar você ir presa. Injustiça. Mas antes eu tenho que achar a vaca da sua mãe.


Ligou para o celular da Waldete, mais uma vez, e tornou a dar caixa-postal. A filha argumentou com Souza:
- Não adianta mentir, pai! O porteiro me viu subindo com a dona Shirley. Nós duas estávamos discutindo. Eu a cerquei na portaria.
- Que merda você fez, minha filha. Mas sou advogado. Vou dar um jeito nisso. Vou livrar você! Sou advogado, entende?


Assim que ele acabou de falar, o policial entrou:
- Sinto muito. Acabou o papo. Vou levar sua filha para depor.
- Sou advogado dela!
- Vou levar. Flagrante. Não tem como escapar.
- Não leva ela! Eu empurrei dona Shirley da janela quando entrei no escritório e vi que ia golpear minha filha com um cinzeiro.

O policial gritou então para o Negão perto da porta:
- Antunes, pega outra algema! Vamos levar os dois. Isso está parecendo uma trama. Na delegacia eles decidem quem matou quem. Algema!

Souza gritava que era advogado e ia prender todo mundo. Foi algemado com a filha e levado para a patrulhinha. Os pedestres que se aglomeravam para acompanhar o final da história, ávidos por uma novidade, gritavam em coro:

- Prende! Prende! Prende! Assassino! Assassino!

Pai e filha fizeram o trajeto abraçados:

- Fica calma, minha filha. Vou salvar você. Não chora. Você ainda é o xodó do papai!

Enquanto pai e filha eram levados para a delegacia, em Angra dos Reis, num iate em alto mar, Waldete servia mais champanhe para o amante, moreno, alto, musculoso e 25 anos mais jovem.

7 de jun de 2010

BODAS DE PRATA

Lédia falava sem parar, empolgada com o sucesso da festa das bodas de prata. O marido dirigia em silêncio. Ela nem notou a tensão no rosto de Walter. Quando chegaram em casa, Walter pegou uma escada, subiu no armário e jogou a mala empoeirada no chão. Lédia apareceu no quarto:

- O que é isso? Vai fazer arrumação a essa hora?
- Não. Vou fazer as malas. O casamento acabou. Meu advogado vai tratar de tudo.
- Que brincadeira é essa? Viemos da festa das nossas bodas de prata!?
- Eu fiz o que prometi, não fiz? A festa. Gostou?
- Sabe que sim. Mas o que tem a ver com o fim do nosso casamento?
- Realizei seu sonho. Não era uma festa de bodas de prata que você queria para exibir uma felicidade falsa? Agora chegou a hora de realizar meus sonhos. Sempre ficaram por último por causa da família.
- E tem que ir embora para realizar seus sonhos? Sem nenhum motivo?
- Dou um motivo agora: o tesão acabou faz tempo.
- Do jeito que você fala, acho que nunca teve.
- Tive, sim, mas cansei das suas dores de cabeça e do seu tédio na cama.
- Casamento é mais do que sexo! São vinte e cinco anos, Walter.
- De martírio. Aparência. E começou logo depois do “até que a morte os separe”. Se eu soubesse que as relações terminam exatamente com essa frase...
- Vamos sentar e conversar. Está faltando diálogo entre nós.
- Será que você não percebe que nunca existiu diálogo entre nós?
- A culpa é sua. Nunca quis conversar sobre as coisas erradas. Sempre fugiu.
- Lédia, coloca uma coisa na cabeça: o amor acabou junto com o tesão. Você nua e nada é a mesma coisa. Sem conversa. Dá para entender?
- Cala a boca! Você não está sendo cavalheiro.
- É a última vez que você me manda calar a boca...
- Nunca fiz por mal. Você nunca reclamou.
- Você acha que sou feliz por ter me casado com um general?
- General, Walter? Esperou justo hoje para desabafar suas mágoas?
- Se eu falasse antes, o casamento já teria terminado.
- E por que general?
- Foi no que você se transformou logo no primeiro ano de casamento.

Irritado, Walter abre o armário e joga as camisas dentro da mala, falando com voz de mulher:

- Walter, hoje a empregada não veio, lava o prato. Walter, você encheu a sala de migalha de pão. Walter, a tábua do vaso... Walter... Walter...
- Você nunca falou da sua insatisfação. Fingiu muito bem. Parecia feliz.
- Você se tornou uma grande cobradora: Walter, você pagou a conta de luz? O Eduardo tirou nota baixa na escola, conversa com ele.
- Você queria morar aqui e não fazer parte do dia-a-dia da casa?
- Que maneira besta você arrumou de me colocar a par das coisas. Até com as minhas unhas você implica. Está sempre de prontidão: Walter olha a sujeira. Não corta as unhas. A faxineira esteve aqui hoje.
- Você é relaxado. Não gosto de sujeira e você sabe disso.
- Custava você pegar uma vassoura? Ia cair seu braço? O amor sobrevive de pequenas gentilezas.
- Você também não podia fazer a gentileza de pegar a vassoura?
- Tá vendo? Depois de um tempo é difícil ir pra cama com uma cobradora. Sempre apontando defeitos. Foi quando passei a me interessar por outras mulheres. Cobrança corta o tesão.
- Tesão... tesão... só sabe falar de sexo.
- Mas sem ele o que resta de um casamento? Você acha que eu quero ficar casado com uma irmã? Foi no que você se transformou. E numa irmã chata.
- Pensa que eu não sei das suas amantes? Aquela secretária. Como se chamava? Márcia! Ligava pra cá e quando eu atendia, desligava o telefone.

Walter deu uma gargalhada.
- Qual é a graça? Disse alguma piada?
- A Márcia nunca foi minha amante. As mulheres são ingênuas, miram sempre nas erradas.
- Vai querer me convencer que você e aquelazinha nunca foram pra cama?
- Não teria motivos para mentir.
- Os homens mentem sem motivos. Hoje descobri que casei com um adversário. E eu boba, acreditando que formávamos um casal.
- Faz tempo que deixamos de ser um casal.
- Então pega tudo o que é seu. CDS, livros, não quero nada que lembre você.
- Eu volto para pegar o resto das minhas roupas e meus livros outro dia.
- Não garanto que eles estejam aqui quando voltar.
- Não seja mesquinha. Durante todos esses anos você foi mesquinha. Sempre mais preocupada com a feira, a casa, a conta da luz, do que comigo. Seja menos mesquinha, pelo menos no dia da nossa separação.

Humilhada, atirou os vidros de perfume em cima de Walter. Ele corria pelo quarto tentando escapar.

- Nosso casamento foi uma mentira, Lédia. Quando você engravidou, nossas famílias me obrigaram a casar.
- Se eu não tivesse engravidado, você estaria me enrolando até hoje? E nossos bons momentos? Não contam?
- É passado. Não temos bons momentos faz tempo. Mas você fez questão de levar a farsa adiante. Eu me acomodei.

Nervosa, Lédia começou a tirar a roupa do marido de dentro da mala.

- Será que você conseguirá sobreviver sozinho? Hein? Quem vai lhe dar remédio quando você ficar doente?
- Não seja dramática. Me dá minha roupa. Você acha que vai me impedir? Estou decidido. Demorei vinte e cinco anos para tomar coragem.
- Você está apaixonado por outra?



Walter deu um sorriso sarcástico.
- Estou apaixonado por outras. Pela primeira vez estou livre para amar quantas eu quiser. Aos 53 anos posso gritar: sou um homem livre!

Ofegante, Lédia senta na cama, coloca a cabeça entre as mãos e pensa alto:
- O que vai ser de mim sozinha aos 50 anos? Você me roubou os melhores anos da minha vida. Nunca tive outro. Conheci você adolescente, me apaixonei, casei, tive empregos medíocres. O casamento esteve sempre em primeiro lugar.
- A culpa não é minha. Não impedi você de crescer, fez porque quis.
- Ingrato! O que me resta agora? Acompanhar as amigas solitárias ao baile dos solteiros? Dançar com os coroas cheirando a perfume ordinário? Não tem maior solidão do que essa.
- O que você vai fazer da sua vida agora não é problema meu.
- Quem sabe ir para academia pegar garotões?
- A cabeça é sua. A partir de hoje não somos mais marido e mulher.

Derrubando tudo o que viu pela frente, Lédia se desesperou:

- O que você tá fazendo comigo é covardia! Você não tem esse direito.

Quando Walter pegou a mala e seguiu em direção à porta, se jogou aos pés dele:

- Como aprender a viver sem você? Me diz. Você não me preparou para esse momento. Eu queria ficar com você a vida toda.
- Nunca estamos preparados. Mas precisamos. Seja feliz, Lédia!

Bateu a porta. Lédia ficou sozinha. O peito doía-lhe. Deu um grito. Sentiu a vida lhe escapar. Quando escutou o carro sair da garagem, foi até a geladeira e pegou uma lata de cerveja. Nunca bebera. Seria a primeira vez. Descabelada, sentada no sofá, bebeu todas as latas disponíveis.

Tonta, foi até o armário, pegou o restante das roupas de Walter, na estante recolheu os livros e CDS do marido, e subiu até o terraço. Fez uma fogueira e ficou vendo tudo queimar. Olhou para o céu e percebeu que uma estrela brilhava. Cansada, dormiu no terraço, ao lado das cinzas que restaram.


Adquira on line o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242

1 de jun de 2010

O PUSILÂNIME

A família e os amigos comemoravam os 23 anos de Dedinha, no terraço da casa dela, com muita carne, cerveja e pagode. Havia umas 30 pessoas presentes rindo e dançando sem parar. Ás 5 e meia da tarde, os convidados e os donos da casa estavam enfastiados de tanto comer e beber. Depois do bolo da aniversariante, Arnaldinho, o noivo, fez um comunicado.

Ele subiu num pequeno palco improvisado no meio do terraço, pegou o microfone do karaokê e pediu a atenção de todos: “Queiram olhar para mim ... Seu José, por favor venha aqui na frente, faço questão....o senhor é o pai da aniversariante”.

Dedinha ficou vermelha de vergonha com aquela atitude do noivo. Fez cara feia e um sinal de longe para Arnaldinho descer do palco improvisado. A advertência foi pior. Arnaldinho, meio que trocando as pernas, depois de dúzias de cerveja, respondeu:
-Só saio daqui depois que falar com seu pai...quero que todos ouçam o que vou dizer...

Os parentes presentes, primos, tios e alguns amigos começaram a gritar, os mais chegados vaiaram Arnaldinho e outros em coro gritaram:
-Arnaldinho vai pedir a Dedinha em casamento!

E começaram a cantar: “Com quem será... com quem será que a Dedinha vai casar.... vai depender .... vai depender do que o Arnaldinho vai dizer......!?”

Arnaldinho aproveitou a deixa e respondeu:
- Então façam silêncio. Eu preciso falar . Seu José, por favor, do meu lado.

Seu José subiu ao palco e ficou pertinho do suposto futuro genro. Dedinha colocou a mão na cabeça e falou para a amiga de infância que acompanhava tudo, atenta e com cara de riso: :
- Eu vou entrar, Solange. Vou para o meu quarto. Não vou suportar ficar presenciando essa palhaçada. Lá vem merda. Arnaldinho só fala merda, ainda mais de porre..
- Espera. Deixa ver o que ele vai falar. Arnaldinho adora você. Eu acho até que ...

Foi interrompida pelo Arnaldinho:
- Psiu!.Silêncio! Vou falar.

Todos se calaram e ficaram olhando atentos para Arnaldinho. Enquanto isso, ele se ajeitava, limpava a garganta, encolhia a barriga.
- Seu José, o senhor sabe o quanto eu respeito a sua filha, o quanto eu amo a sua filha. Eu quero pedir a mão da Dedinha em casamento. Eu quero me casar com a Dedinha.

Assobio geral.. Seu José foi ás lágrimas. Se emocionou. Pediu um lenço à esposa. Enquanto isso, Dedinha rangia os dentes de raiva.
-Filho da puta! Esse babaca vai me pagar!
- Pagar o quê? - perguntou a amiga.
- Ele perguntou se eu quero casar com ele?!
- E não quer?
- Não! Boboca demais, fiel demais, telefona sempre,.vem me ver todos os dias. Enfadonho!
- E isso não é bom?!
- Gosto de homem cachorro. Nasci para ser cachorra. Hhomem comportado comigo não tem vez. Não dá tesão! E quer saber mais? Nós nunca transamos.
- O quê? – A amiga fez cara de espanto – Nada? Nadinha?
- Nada. Tenho até vergonha de falar. Acho que ele é broxa.

Nisso, Arnaldinho pede a presença de Dedinha no palco Os tios empurram a sobrinha:
- Vai lá! Seu noivo tá chamando. Anda. Deixa de ser envergonhada.

A prima solteirona e zarolha solta um comentário invejoso:
- Se fosse comigo eu já estava lá. Que romântico!

Dedinha, quase matando, Arnaldinho subiu ao palco e falou no ouvido do noivo:
-Eu vou matar você! Hoje mato você!

Arnaldinho deu um sorriso sem graça, puxou Dedinha com força e beijou a noiva na boca. Dedinha mandou a mão na cara de Arnaldinho. O burburinho foi geral.
-Ahhhhhhhhhhhhhhhh

A prima zarolha e solteirona murmurou:
- Tem gente que abusa da sorte.

Arnaldinho colocou a mão no rosto e ficou com a boca aberta sem acreditar no tapa que recebera. Dedinha, que até aquele momento teve uma atuação discreta, apesar de aniversariante, gritou:
- Reage!! Eu quero ver você reagir, seu frouxo! Você é um frouxo mesmo!

Arnaldinho desceu do palco, ainda sem rumo pelo que acabara de acontecer. Seu José brigou com a filha:
- O que é isso Dedinha?! Foi assim que eu criei você?!

A mãe gritava:
- Meu Deus, que vergonha!!!! Que vergonha!!!

Dedinha fez um muxoxo, balançou os ombros e respondeu:
- Eu tenho culpa se não gosto dele para casar?

Seu José foi até o microfone e sentenciou:
- Podem ir para casa, o churrasco acabou. Por hoje é só!

Os familiares recolheram seus pertences e tomaram o rumo da porta. Arnaldinho arrumou os espetos do churrasco, desligou a churrasqueira e foi falar com Dedinha.
- Dedinha, meu amor, vem cá – disse, segurando a noiva pelo braço.

O pai entrou em casa com a mãe e deixou Dedinha a sós com o noivo.
- Larga meu braço! Você não teve consideração, meu aniversário, minha festa de aniversário, e você apronta essa palhaçada!
- Você não quer se casar comigo? Você não gostou do pedido que fiz ao seu pai?

Com raiva, pela atitude impensada do noivo, Dedinha terminou o noivado com Arnaldinho. Ele ainda chorou, se ajoelhou aos pés dela, mas quanto mais ele fazia, com mais raiva ela ficava.
- Sai, seu frouxo! Eu não gosto de homem frouxo. Gosto de macho. De homem que tem pegada.

Arnaldinho chorava tanto que gania. Fez de tudo para convencer Dedinha. Foi inútil. Foi embora cabisbaixo. Durante dois meses ficou atrás de Dedinha. Ligou. Foi no trabalho dela. Na faculdade. Procurou as amigas. Até que encontrou consolo nos braços de Solange, a amiga de infância de Dedinha. Primeiro procurou Solange para desabafar. Depois ficaram íntimos. Aconteceu o primeiro beijo. Começaram a namorar. Quando Solange contou a Dedinha sobre o namoro, o mundo veio abaixo.
- O quê??!! Namorando meu ex?!! Sua traíra! Não quero ver mais você!!!

Com o orgulho ferido, Dedinha cortou relações com Solange. Voltou a procurar Arnaldinho. Depois de alguma insistência, conseguiu o ex de volta. Só que um mês depois, o jeito comportado de Arnaldinho, começou a lhe causar tédio. Voltou a maltratar o noivo, que não reagia, pelo contrário, se mostrava cada dia mais apaixonado.

Casaram assim: com Dedinha agredindo Arnaldinho com palavras. E ele, abaixando a cabeça para tudo. A primeira transa foi na noite de núpcias. Não era broxa. O casamento durou anos. Tiveram dois filhos e 4 netos. Alguns amantes também. Os dois. Dedinha morreu primeiro.

Arnaldinho ia todos os domingos levar flores no túmulo da esposa. Num domingo chuvoso, encontrou Solange. Foi levar flores no túmulo do marido. Se viram, se olharam e se abraçaram comovidos.

Adquira on line o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS   http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242
Quer adquirir diretamente comigo ? Entre em contato pelo e-mail do blog