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24 de mai de 2010

A VIRGEM

Quando Leninha falou para Lúcia e Verônica que era virgem, as colegas de trabalho quase caíram da cadeira.

- Com 30 anos, em pleno século vinte e um, camisinha, pílula, liberdade total e você NADA? Tá de brincadeira?
- Sou muito tímida e romântica. Meu sonho é casar virgem.
- Queridinha, acorda, os homens de hoje só gostam de mulheres experientes.
- Nem todos. Exagero seu.
- Há quanto tempo você não dá um beijo na boca?
- Mais de cinco anos. Depois que meu pai morreu, tenho que cuidar da minha mãe. Não sobra tempo pra namorar.
- Vai acabar morrendo virgem. As formigas vão aproveitar!

Disposta a acabar com a virgindade de Leninha, Lúcia fez o convite:

- Que tal sábado ir comigo e com a Verônica no aniversário de um amigo?
- Não sei. Não posso deixar minha mãe sozinha .
- Você está precisando desencalhar. Beijar na boca. Um sábadozinho só.

Pensou um pouco e aceitou. “Precisava mesmo se distrair. Passava o sábado assistindo TV e aos domingos ia à feira e depois à missa com a mãe, Dona Carmelina”. Empolgada com a possibilidade de um final de semana diferente, comprou vestido novo. A mãe comentou, invejosa:

- Vai me deixar sozinha no sábado? Que filha ingrata!

Na festa, livre das reclamações maternas, conversava animada com as amigas e ensaiava alguns passos de dança. Verônica incentivava:
- Quem sabe seu príncipe encantado aparece hoje?

Lúcia apoiava :
- É verdade . Você está precisando desencalhar. Gostou de alguém?

Leninha sorriu constrangida e apontou para um rapaz moreno que estava sozinho num canto.
- Aquele ali é uma gracinha. Parece tímido que nem eu.


Lúcia pegou-a pela mão:
- É o Jorge Antonio. Vem que eu vou apresentá-lo.
- Tô nervosa.
- Calma! É só uma apresentação, ele não vai comer você.
- Será que vai gostar de mim?
- Ele é um cara sério, não gosta de bagunça e acho que não tem namorada.

Fizeram as apresentações. Jorge Antonio chamou-a para dançar e no final da festa trocaram o número de telefone. No mês seguinte estavam namorando. Ela contou que era virgem. Ele respeitou a castidade da namorada e seis meses mais tarde a pediu em casamento.

Casaram-se no dia de São Jorge, Santo de devoção de Dona Carmelina. Depois de partirem o bolo, seguiram em lua-de-mel para Cabo Frio.

Na primeira noite, quando Leninha deitou-se depois de um banho demorado, percebeu que o marido dormia. “Tadinho, deve estar cansado”. Deu-lhe um beijo cheio de ternura e dormiu com o coração colorido de felicidade. Na segunda noite, Jorge Antonio alegou indisposição alimentar e dormiu logo depois do jantar. Na noite seguinte, quando o marido reclamou de dor nas costas e se deitou no chão, Leninha entristeceu-se:
- Você pode me dizer o que eu fiz de errado?
- Nada.
- Então por que não faz amor comigo?
- Você quer?
- Claro.
- É virgem com trinta anos, pensei que não gostasse de sexo.
- Como vou saber se gosto? Nunca experimentei e estou esperando por você.
- Então tranqüilize-se, você nunca vai sentir falta daquilo que não fez.
- Mas eu quero fazer. Pode me dizer o que está acontecendo?

Jorge Antonio engoliu a saliva, respirou fundo e olhou sério para Leninha :
- Sou gay. Entendeu?

Ela deu uma risada nervosa e esperou o marido dizer que era uma brincadeira. Nada. Silêncio total. Com o coração acelerado, Leninha desabafou:
- E por que quis se casar comigo? Não me ama?
- Não. Nosso casamento é só de aparência.
- Não quero continuar casada assim. Não quero viver de aparência.
- Agora é minha esposa . Vamos fazer de conta que está tudo bem.
- Não está tudo bem. Eu tinha o direito de escolher se queria brincar de casinha ou ter um casamento de verdade. Quero anular essa mentira. Sou virgem, mas não sou burra.

Desesperado, Jorge Antonio ajoelhou-se aos pés de Leninha. Chorava como se tivesse chegado ao inferno:
- Eu lhe imploro: Por favor, não faz isso comigo, meu pai morre se souber que sou gay. Não posso lhe dar esse desgosto . Faço o que quiser. Mas continua casada comigo!

Lentamente tirou a camisola :
- Então me come seu viado de merda! Seja homem pelo menos uma vez na vida.
- Não consigo. Tenho nojo de mulher!

Voltaram de Cabo Frio pela manhã. Assim que entraram no apartamento, Leninha jogou a bolsa em cima do sofá e olhou para Jorge Antonio destilando veneno:
- Vai se arrepender de um dia ter se casado comigo, não vou lhe dar sossego na vida.

Quando o marido saiu para trabalhar na segunda-feira, ela ficou em casa esperando o técnico para instalar a TV a cabo.Quando o homem encerrou o serviço, gritou da sala:
- Madame, acabei. Assina a nota pra mim, por favor?

Ela apareceu nua no corredor e com um olhar de odalisca no cio, aproximou-se do técnico, puxando-o pelo braço :
- Me come agora . Fiquei tarada por você! ME COME.

Depois da primeira vez, Leninha queria sexo todos os dias. Ia pra cama até com os vizinhos casados . Seduzia-os. Provocava-os. Tornou-se o terror da vizinhança. O comentário nas reuniões de condomínio. Quando passava pela rua era agredida verbalmente pelas mal-amadas.

Iradas com a postura leviana de Leninha, as vizinhas reuniram-se e procuraram Jorge Antonio. Queixaram-se chorosas. Ele ouviu as reclamações, deu um sorriso de corno e defendeu a esposa adúltera:

- Quanta maldade na cabeça de vocês. Leninha é apenas uma mulher interativa e excelente esposa. Tô pra ver mulher igual.

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17 de mai de 2010

ROTINA

Bebeu o último gole de vinho e deu a última garfada na pizza. Jogou os tomates na lixeira da pia. Entrou no banheiro, passou fio dental, escovou os dentes e usou um spray bucal com gosto de menta. Olhou-se no espelho, retocou a maquiagem, reforçou o batom e penteou o cabelo. Borrifou o perfume francês nos pulsos. Sentou-se na cama e colocou as sandálias com salto agulha. Andou um pouco com elas pelo quarto para os pés se acostumarem. Sorriu. Boa compra. Era confortável. Pegou a bolsa. Deu uma última olhada na casa. Verificou se as janelas estavam fechadas. O tempo nublado anunciava chuva. Trancou a porta com a papaiz e pegou o elevador. Chegou no calçadão, andou alguns quarteirões e encostou-se numa pilastra. Olhou o relógio: Quase onze e meia. Seria mais uma noite de muito trabalho. Deu um suspiro e ajeitou o cabelo com a ponta dos dedos. Mordeu os lábios pensando na vida.

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12 de mai de 2010

COMPORTAMENTO INADEQUADO

Anelice e Miro se conheceram numa academia de ginástica. A amizade começou entre uma série e outra de musculação. Para Anelice foi mais do que amizade: foi paixão à primeira vista.

Depois de um dia cansativo de trabalho, Anelice ia para a academia. Sempre que chegava, encontrava Miro saindo. Os dois se olhavam, mas nada diziam. Foi numa sexta-feira em que Anelice estava chateada, com problemas no trabalho, que a amizade começou. Miro chegou no mesmo horário que Anelice. Se olharam e sorriram. O coração de Anelice bateu mais forte. Trocaram de roupa e começaram a série de musculação.

Anelice ia fazer uma série no mesmo aparelho que estava Miro. Gentilmente, ele deu a vez a ela:

-Faz primeiro. Eu faço outro, depois eu volto.

Ela comentou sorrindo:

-Tá cheio hoje, né?

Saíram juntos da academia. Aproveitaram a sexta-feira e tomaram um chope. Despediram-se com um beijo no rosto e um sorriso largo. Final de semana Anelice não tirou Miro da cabeça. Ligou para Dorinha, sua melhor amiga e contou a novidade :
-Dô...o cara é um gato. Gentil...simpático, tão diferente dos homens que a gente conhece....

Dorinha deu uma força, mas com um pé no chão:
-Que bom que finalmente se falaram. Vai com calma, tá? Por enquanto é só papo.

Na verdade Dorinha se preocupava com a amiga. Sabia que ela era obsessiva. Quando cismava com um homem, falava nele o dia inteiro, criando milhões de fantasias na cabeça. Segunda-feira Anelice não conseguia trabalhar direito. Pensava em Miro. Se encontraram à noite na academia. Passaram a freqüentar o mesmo horário. Aproximaram-se mais. Miro contou que era historiador  e tinha vontade de lecionar. Anelice falou do trabalho. O tempo passou e o casal ficou cada vez mais próximo. Porém a amizade não evoluía. Anelice tornou-se ansiosa. Miro não pedia o telefone e nem a chamava para sair. Comentou a preocupação com Dorinha. A amiga abriu os olhos de Anelice:
- Eu acho ele estranho. ... lento demais.... só fica de conversinha.... deve querer só amizade e você fica delirando, aliás, como sempre.


Mulher apaixonada não escuta a voz da razão. E Anelice, muito romântica, imaginou o namoro, o noivado e até o casamento. O coração disparava quando via Miro. As pernas bambeavam. As mãos suavam... e as pupilas dilatavam. Finalmente ele passou o celular e o telefone de casa para Anelice:
-Eu moro com a minha mãe. Pode ligar quando quiser.

Com o telefone dele em mãos, ligou. Só que nunca encontrava Miro em casa. O celular sempre na caixa postal. Insistia. Deixava recado. Ele nunca retornava. Ela nada falava. Não queria cobrar. “Deus me livre parecer uma chata”, pensava. Dorinha era a voz da razão. Sempre alertando a amiga:
-Abre o olho. Não te chama para sair, nem como amigo. Não retorna suas ligações... Vocês só se encontram na academia e ele vem com o papinho de homem ocupado. Pura conversa. Quem quer faz.

No fundo Anelice também achava estranho. Sentia que ele fugia dela. Coração de mulher não se engana. Finalmente, depois de muitas conversas e troca de olhares, surgiu a oportunidade de irem juntos a festa de uma colega da academia.

Dançaram a noite toda. Na saída da festa, depois de se insinuar, sem sucesso, Anelice tentou abraçar Miro e foi rejeitada:
-Não confunda as coisas. É só amizade.
- Qual o problema? Eu gosto de você, além da amizade  e é só um abraço carinhoso.

Miro afastou Analice com as duas mãos, irritado:
-Esquece . Não dá. Gosto de você como amiga.
Ela insistiu:
-Você tem namorada?

Não, ele não tinha. Pediu um tempo. Ela deu. Duas semanas. Não tocaram mais no assunto. Saíram mais duas vezes para tomar chope. Só amizade. Viam-se na academia. Conversavam amenidades. Outra festa. Já perdendo a paciência e incentivada por Dorinha, resolveu se declarar novamente. Partiu de maneira agressiva. Puxou a cabeça de Miro para dar-lhe um beijo. Ele deu um pulo e a empurrou. Brigaram. Quase se agrediram. Sentindo-se humilhada, Anelice foi embora sozinha.

Na segunda- feira arrependida, queria falar com Miro na academia. Ele não apareceu a semana toda. Sentindo um aperto no coração, Anelice ligou. Celular na caixa postal. Em casa, nada. Duas semanas e nenhuma notícia. Depois de uns dez e-mails e vinte torpedos, recebeu uma resposta dele por e-mail. Quando olhou o nome de Miro na caixa postal, o coração acelerou. Porém, logo se decepcionou. O e-mail era uma despedida. Miro escreveu que estava magoado com ela, pois ele a considerava como amiga, e ela tivera um comportamento inadequado ao tentar beijá-lo na boca. Sentindo-se desrespeitado no seu carinho de amigo, pedia ainda, que ela não o procurasse mais.

Anelice ficou péssima. Naquele momento, sentiu-se incapaz de conquistar o amor de uma barata. Afinal, foram quatro meses acreditando que estava agradando. Quando soube, Dorinha decretou:
-É gay. Esquece.

Com a autoestima no chão, Anelice perguntou:
Sou feia? Seja sincera.

Dorinha franziu a testa :
- Claro que não! Tá cheio de homens querendo você: Jorge, Amarildo.... o problema é ele e não você. Já disse: esquece.

Anelice ficou tão triste que acabou largando a academia. Cada canto lembrava Miro. Dormia pensando nele. Acordava com Miro na cabeça. Ele sumiu. Foi abduzido. Carnaval chegou. Dorinha e mais duas amigas tentaram animar Anelice:
-Vamos sair. Você vai ficar eternamente com cara de trouxa por causa de um homem que te rejeitou e você nem experimentou???

Outra amiga completou:
-Vai ver que se experimentasse, não ia gostar. É carnaval! Levanta o astral.

Anelice gostava de sofrer. Passou três dias de carnaval chorando e sentindo saudade de Miro. Saudade do que não aconteceu. Só na terça -feira de carnaval, cansada de se lamentar inutilmente, aceitou o convite das amigas para ir ao sambódromo.
-Vamos Anelice.... é farra.. aproveita o último dia de carnaval.

Enxugando as lágrimas decidiu:
-Sabe de uma coisa? Eu vou. Não é hoje que a Escola de Samba da Sandrinha desfila no sambódromo pela divisão de acesso?

As amigas e Anelice ficaram no setor 3 da arquibancada vazia. Por volta de 3 da madrugada, de uma quarta feira de cinzas chuvosa e melancólica, a escola de samba de Sandrinha entrou na avenida:
-Será que a gente consegue ver a Sandrinha? – perguntou Dorinha, empolgada.

A bateria saiu do box. Horrorizada, Anelice reconheceu a rainha de bateria da escola. Com um minúsculo biquíni prata, e uma tiara de estrasse, Miro sambava animadamente, sorrindo e dando entrevistas. O coração de Anelice disparou. O estômago se contraiu. A cabeça rodava como se tivesse bebido duas garrafas inteiras de vinho.Tentou se jogar da arquibancada. Foi impedida pelas amigas. Alheio ao ataque de nervos de Anelice, Miro brilhava na avenida!

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4 de mai de 2010

O SEGREDO DA DOUTORA LACERDINHA

Doutora Lacerdinha era uma chefe rigorosíssima. Temida e também odiada pelos funcionários, sentia prazer em humilhá-los. Saboreava com ares de sadismo, sentindo-se poderosa cada vez que descobria uma funcionária chorando no banheiro por causa de alguma bronca.

Quando chegava na empresa era um tormento para os subalternos.
- Guarda a revista que lá vem a bruxa!
- Gente... doutora Lacerdinha está chegando!
- Psiuuuuuu, silêncio, sente o perfume da peruona! É ela!

Era um tal de se ajeitar. Arrumar roupa. Parar de conversar. Jogar copinho de café no lixo. Doutora Lacerdinha chegava pisando firme e dando ordens.

- Claudomiro, vá até minha sala! Quero ver como ficou o relatório!
- Dulcineia, já ligou para o homem do tapete?
- Por que este ar-condicionado não está ligado? Já disse que quero a sala gelada quando chego.

O horário de expediente era de 9 às 18 horas, mas doutora Lacerdinha tinha simpatia por funcionários que chegavam duas horas antes e saíam duas horas depois. Geralmente quando chegava, às nove, gostava de ver os funcionários sentados em seus lugares. Quando percebia um lugar vazio perguntava com ares de enfado:
- Quem é o atrasadinho que senta neste lugar? Por que ainda não chegou? Nove horas! Manda na minha sala assim que colocar os pés na porta.

Às vezes, doutora Lacerdinha madrugava no escritório. Isso quando não trabalhava nos finais de semana e ainda convocava funcionários. Gostava de adiantar serviço. Nos dias em que acordava mal-humorada, passava o expediente trancada na sala e não saía nem para almoçar. Curiosos, os empregados colocavam o ouvido na porta na esperança de escutar alguma coisa. Tinha gente que jurava ouvir gemidos:

- Acho que está se masturbando...
- Coitada, no fundo é uma infeliz, deve estar chorando...

Os funcionários não conheciam a vida particular de doutora Lacerdinha. Sabiam apenas que não era casada e morava com a mãe. Costumavam especular:

- Parece que doutora Lacerdinha é viúva. O marido e o filho morreram num acidente de carro e ela dirigia.
- Que nada! É solteirona. Quem vai casar com essa perua?
- Foi abandonada pelo noivo no altar e revoltou-se!
- Traída pela melhor amiga...
- O noivo era gay... ficou com nojo de homem!
- Aposto que é virgem...

Ao que a funcionária mais debochada falou:
- Só se for nos ouvidos!

Eram muitas as especulações. Sabia-se apenas que ela administrava com mãos de ferro a filial da empresa com matriz em São Paulo. Aparentava 50 anos. Pintava os cabelos de vermelho – há quem apostasse que usava peruca – era magra, andava com roupas de griffe e perfumada. Porém exagerava na maquiagem e nas bijuterias. Daí o apelido de perua. A fama da doutora Lacerdinha era conhecida nas filiais de outros estados. Quando um funcionário discutia com um colega de trabalho, chegava atrasado ou faltava, era ameaçado com transferência para o Rio.
- Cuidado, se continuar faltando vai trabalhar com a doutora Lacerdinha no Rio de Janeiro!

Foi o que aconteceu com Joelson no Espírito Santo. Ele e o chefe tiveram um desentendimento sério; como Joelson era bom funcionário, seu Etebaldo fez-lhe uma proposta:

- Você sabe que nosso relacionamento está arranhado. Gosto de você, sei que é um excelente funcionário, mas infelizmente não podemos mais trabalhar juntos. Temos pontos de vista diferentes. Aceita esta transferência?

Com família para sustentar e medo do desemprego, não teve escolha. Os colegas de escritório sentiram pena.
- Vai trabalhar com aquela perua recalcada? Coitado!!

Foi recebido pelos colegas no Rio com festa.

- Oba chegou mais um para dividir o esporro com a gente!
- Legal, você vai adorar os seus colegas de escritório. Sou o Arthur...
- Oi, sou Luciana!
- E eu sou a contadora: Waléria.

Joelson sentiu-se à vontade. Quando doutora Lacerdinha chegou, apresentou-se:
- Senhora Lacerdinha, sou Joelson. Seu novo funcionário... venho do...

Foi interrompido. Quando ele chamou Lacerdinha de senhora... os funcionários se entreolharam... alguns abaixaram a cabeça...
- Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Lá vem esporro.
- Coitadinho... logo no primeiro dia.

Lacerdinha o interrompeu furiosa:
- Faça-me o favor: me chame de DOUTORA Lacerdinha. Entendeu ou preciso explicar novamente? Como é seu nomezinho mesmo?

Joelson, sem graça, apenas balançou a cabeça e pronunciou baixinho o nome. Quando ela virou as costas, ele perguntou:
- Ela é advogada? Fez doutorado? É médica?? Por que doutora Lacerdinha?
- Não procure entender. Ela gosta de ser chamada de doutora. Deve ser algum complexo. Não discute. Chama a perua frustrada de doutora e pronto.

Com um mês de trabalho, Joelson não agüentava mais as arbitrariedades de doutora Lacerdinha. Quando falou que no domingo todos os funcionários trabalhariam, Joelson se revoltou.

- De novo?! É aniversário da minha filha. Já não basta que essa semana a perua só liberou a gente 10 da noite? Não agüento mais! Vou pedir demissão.

Os colegas aconselharam:
- Calma. Emprego tá difícil.
- É verdade. Temos que pagar nossas contas no final do mês. Tenha paciência!
- Chega! Paciência tem limite. Não aceito ser comandado por essa perua mal-amada e mal-comida. Vou pedir demissão agora.

Saiu apressado em direção a sala de doutora Lacerdinha. Nem pediu licença. Meteu a mão na porta e entrou. Ela estava sentada mexendo no computador e se assustou ao ver Joelson:
- Que atrevimento é esse?! Quem deu autorização para entrar na minha sala seu intrometido abusado?!
- Vim pedir demissão! Não agüento mais olhar para a sua cara de perua carente!

E para extravasar a tensão durante o mês que trabalhou com a doutora, exagerou: tirou as calças, arriou as cuecas e sacudiu o saco para ela.
- Aqui ó! Sou muito macho e não tenho medo de você, Lacerdinha!

Doutora Lacerdinha arregalou os olhos, se levantou da cadeira e por alguns instantes olhou admirada o pênis de Joelson. Em seguida, saiu correndo em direção a ele gritando. Um grito que mais parecia um uivo, quase uma redenção:
- Ai meus Deus! Acode! Nossa!!!... é muito bom... é bom de... demaissssssssss.

Não aguentou a emoção e desmaiou aos pés de Joelson, com um enorme sorriso nos lábios.


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