Pesquisar este blog

29 de abr de 2010

OS 15 ANOS DE ALICINHA

Moacyr desfaz o nó da gravata e toma o último gole de chope. Nervoso, passa a mão pelos cabelos e chama o garçom :
- Amigo, mais um !

Aparecida dá um risinho de canto de boca com ar vitorioso:
- Cuidado, vai ficar bêbado. Já está no quinto chope.
- Depois dessa notícia, o que você esperava ? Estou arrasado.
- O mundo não acabou. Não faz drama.
- Não ? Sou casado. Sabia disso e agora me diz que está grávida ?
- Qual o problema ? Gravidez é coisa do outro mundo ?
- Para um homem casado , sim. Como teve coragem de me trair ?

Aparecida debocha :
- Fiz o filho sozinha?

Moacyr propõe :
- Dou o dinheiro do aborto e ainda uma graninha extra para você fazer compras no shopping.

Aparecida fuzila Moacyr com o olhar:
- Vou ter meu filho , mesmo contra a sua vontade ! E nem ouse me comprar.

Moacyr engole em seco e pede mais um chope. Vivem momentos de impasse. Agitado, ele olha o relógio e pede a conta :
- Amanhã conversamos melhor. Preciso ir. Eonice me espera.

Chega em casa tenso. Eonice recebe-o carinhosamente :
-Estava preocupada. Liguei para o seu celular e entrou caixa postal. Problemas?

Não consegue disfarçar o nervosismo. Amava a esposa. A amante era distração. Agora estava enrrascado. Tornara-se vítima de sua irresponsabilidade. A amante engravidara de propósito. Tinha certeza. A esposa não podia ter filhos. Moacyr não queria magoar Eonice . Esforça-se para parecer natural. Ela desconfia :
- Tem algo errado. O que é ? Está cheirando a bebida. Fala !
- Problemas no trabalho.

Jantam num silêncio constrangedor. Moacyr pensa na gravidez de Aparecida. Precisa convencê-la a tirar a criança.

Tornam a se encontrar. Moacyr insiste no aborto:
- Será melhor pra todos nós !

Aparecida dá-lhe um tapa no rosto:
-Vou ter meu filho longe de você . Monstro ! Você vai me pagar. Escreve o que digo : Vai me pagar. Hoje você morreu pra mim !
A amante não dá mais notícias. Moacyr tenta contato procurando-a no trabalho. Pediu demissão. Ninguém atende no antigo apartamento. O porteiro não dá informação.

Ele sente uma mistura de saudade e alívio. “ Dane-se. Que tivesse o filho longe dele” –

Os dias corriam dentro da rotina. Lembra de Aparecida raramente. Quase um ano depois sem ter notícias da amante, chega em casa depois do trabalho e assusta-se com a cena . Encontra Eonice sorridente embalando um bebê. Empalidece :

- De quem é a criança ?
- Não sei. É uma menininha linda. Deixaram aqui na porta num cesto. Não é fofa ?
- Precisamos chamar a polícia. A criança não é nossa. Vamos deixá-la no juizado.
- Polícia ? Juizado ?
- Claro. Podem pensar que a seqüestramos.

Eonice interrompe o marido :
- Se a mãe não aparecer, quero adotar o bebê. Já tenho até nome : Alicia. O nome da minha avó.

Moacyr tenta convencer a esposa a desistir da idéia. Ela insiste:
- É um sinal de Deus ! É o filho que eu tanto queria. Vamos adotá-la .
- Mas e se a mãe aparecer ?
- Moacyr, quero a criança. Ou a adotamos ou me jogo do prédio.

A atitude dramática convence Moacyr. Entram com o pedido de adoção.

Alícia sai do juizado nos braços afetuosos de Eonice.
Quando entram no carro, o celular de Moacyr toca. Ele atende e gela:

- Gostou da surpresa ? Querendo ou não agora vai criar sua filha ! SUA !

Ele estremece. Uma sombra negra passa diante dos seus olhos. Sente amargura na voz seca da ex-amante.
Ela dá uma risada neurótica e desliga. Eonice intriga-se com a reação do marido :
- Quem era ? Você está pálido.
- Engano.

O tempo passa. Eonice enche-se de amores por Alicia. Faz-lhe todas as vontades. No aniversário de um ano, a criança tem festa de princesa.

Quando completa cinco anos está mimadíssima. Moacyr preocupa-se :

- Você está estragando Alicinha. Está teimosa. Geniosa. Vai ficar insuportável quando crescer.
- Ela é a princesa da minha vida. Sabe que é parecida com você ?

Ele engole em seco . Depois que adotaram Alicinha, Moacyr não teve paz. Aparecida liga quase todos os dias ameaçando-o.

A vida de Moacyr transforma-se num cruel suspense. De um lado as ameças de Aparecida, do outro, a esposa torna-se fria e distante. Só tem olhos para Alicinha. Moacyr cobra sexo. Eonice ofende-se :

- Você é muito egoísta. Todos os meus momentos são dedicados a Alicinha. Se continuar querendo me agarrar, saio de casa e levo Alicinha.

Quando a menina completa dez anos, Eonice chama- a para uma conversa séria. Conta –lhe, bem intencionada, que ela é adotada . A garota traumatiza-se. Passa a fazer terapia. Com o tratamento, aparentemente, conforma-se com a revelação,mas sente raiva de Eonice. Acredita que a mãe adotiva destruiu sua felicidade ao revelar-lhe a verdade .

Numa sexta-feira chuvosa,Alicinha passa mal e pede para sair mais cedo do colégio. Chega em casa e não encontra Eonice. Aproveita a ausência da mãe e abre o coração para Moacyr :

- Papai eu sei que mamãe me adora. Mesmo não sendo mãe de sangue. Mas tenho que lhe confessar uma coisa.

Naquele instante Moacyr tem, pela primeira vez, um gesto de carinho com a filha. Acaricia - lhe os cabelos e suspira ternamente :

- Fala , filha. O que lhe angustia ?
- Não gosto mais da minha mãe. Algo se partiu dentro de mim. Veja: Contar que sou adotada ? Já o senhor, não sei, tenho uma afinidade enorme. Coisa de pele.

Moacyr emociona-se. Seus olhos enchem-se de lágrimas. O momento de ternura é cortado pela chegada de Eonice.

Ela entra em casa tirando as sandálias e grita eufórica. Fala compulsivamente e atropela as palavras. No rosto, um ar de despeito :
- Alicinha, como lhe prometi, farei uma festa de 15 anos pra você. Será inesquecível ! Eu e seu pai fazemos questão.Você é nossa filha de coração. Não é Moacyr ?

Moacyr concorda desconfiado. Eonice continua :

- Vim da rua agora . Estava pesquisando preços. Você terá uma festa de rainha !

Mesmo não gostando da mãe como antes, Alicinha se une a ela para agilizar os preparativos da festa. A última semana foi de muito trabalho e nervosismo. Na família e na vizinhança só se fala nos 15 anos da jovem. Os mais exagerados dizem que a festa será para quinhentos convidados. A vizinha de porta afirma que os convidados receberão um folheto com o roteiro da festa. A irmã de Eonice espalha que o cunhado presenteará Alicinha com um anel de brilhantes. Todos deliram . O ser humano precisa de pequenas futilidades e fofoquinhas para não enlouquecer.

                  O DIA DA FESTA
Depois de muito trabalho, chega, enfim, o dia da festa. A maquiadora dá os últimos retoques na aniversariante, quando ela pede que Eonice chame o pai.

- O que você quer ? Seu pai está se arrumando.
- É urgente e particular.

A curiosidade lhe corroe a alma :
-Alicinha quer falar com você em particular.

Sente uma pontada de ciúme. Alicinha fica a sós com o pai. Pede que ele sente ao seu lado. Concentrada, pega-lhe as mãos , coloca entre as suas e suspira :

- Pai, sinto cheiro de coisa estranha no ar e tem a ver com mamãe. Tenho mal pressentimento. Ultimamente está cheia de segredos . Não é a mesma de antes. Mudou.

Moacyr empalidece. Pensa em Aparecida. Disfarça :
- Deixa de bobagem. Eonice adora você.
- Não sei , pai. Meu coração está apertado.
- É a emoção. Vamos, sua mãe nos espera no carro.

A missa é rezada por Padre Antonio. Os convidados ficam emocionados com as palavras do religioso.Durante a recepção, na porta de entrada do clube, os convidados são recebidos por três jovens que lhes presenteiam com uma linda caixinha iluminada em forma de coração, com o nome de Alicinha . A aniversariante entra no salão triunfante num vestido azul –turquesa de tafetá. Um foco de luz violeta acompanha- a pelo salão até o palco. Ela chora de emoção. Um grupo de violinistas toca Fascinação. Os convidados comovem-se. Os mais sentimentais vão ás lágrimas.

A decoração é delicada e de bom gosto. Jarros de violeta enfeitam as mesas. O bolo de cinco andares, com glacê rosa, fica no meio da gigantesca mesa de doces, decorada com uma toalha dourada fosca.

Moacyr emociona-se ao ver a beleza da filha. Empenhara a alma para proporcionar momentos felizes para Alicinha. A festa começa com o Dj tocando as músicas escolhidas pela aniversariante. Enquanto a jovem se diverte, Eonice anda de um lado para o outro. Moacyr preocupa-se :

- Eonice, nunca te vi assim. Tensa demais !
- É a emoção, ora essa !
- Você está esquisita. Não aproveita a festa e nem conversa com os convidados.
- Impressão sua.

Vira as costas e vai atender o celular.
Moacyr respira acelerado: “ O que será que houve? Vem coisa aí....vem coisa aí !
Esfrega as mãos , tenso.

Meia-noite . Moacyr aproxima-se para dançar a valsa . Eonice impede. Ela sobe no palco e arranca o microfone das mãos do DJ. Rufam-se os tambores. Expectativa. Um telão se abre . Momentos importantes da vida de Alicinha passam na tela. A jovem abraça-se a prima chorando, emocionada. Moacyr treme de nervoso. Não tem bons pressentimentos. Assim que a apresentação acaba, Eonice pigarreia e fala alterada :

- Este é um momento importante não só na vida de Alicinha, mas também na minha . As máscaras cairão. Dj – pediu – rufe os tambores mais uma vez.

Moacyr tenta subir no palco. Alicinha o segura pelo braço. Eonice continua o discurso diante do olhar atento dos convidados :
- Pra quem não sabe, Alicinha é minha filha de criação. Eu a encontrei num cesto na porta da minha casa......

Alicinha chora e fala baixinho ao pai :
- Pra quê isso ? Ela tinha necessidade de contar pra todo mundo ? Quanta humilhação !

Eonice falou....falou...e no final do discurso , dá o golpe de misericórdia :
- Dj, ilumine a mesa perto da porta. Por favor Aparecida, levanta-se.

Com ar vitorioso, a mulher fica em pé e vai para o meio do salão . Eonice revela :
- Aparecida é a verdadeira mãe de Alicinha !

Os convidados ficam boquiabertos :
- Gente...o que é isso ? Baixaria ! – Comentam !

Outros fazem coro :
- Ohhhhhhhhhhhh !

Um colega de classe de Alicinha grita:
- Roupa suja se lava em casa ! Vamos continuar a festa . Quero bolo !

Eonice , possuída pelo despeito, prossegue com o discurso raivoso. Grita ressentida:
- Eu criei Alicinha. Filha do meu marido com a amante. Aparecida era amante de Moacyr. Ele nunca teve coragem de me contar. NUNCA ! Durante anos convivi com o fruto da traição, na minha casa !

Eonice tem convulsões. Humilhado, Moacyr sobe ao palco e arranca o microfone das mãos da mulher. Aparecida corre em direção a rival e a abraça. Choram emocionadas.

Moacyr sente a garganta seca e anda pelo salão perdido. Tem a vida devassada na frente dos convidados.
Reação pior teve Alicinha. Ela pega o microfone das mãos do pai e berra com ódio na voz :
- Odeio vocês duas. Estragaram a minha festa de 15 anos ! Saiam daqui ! Quero vocês fora da minha festa. FORA !

Num gesto de menina mimada, se joga no chão batendo os pés. Espuma de raiva. Num descontrole emburrecido, rasga o vestido, deixando um seio à mostra :
- Fora ! Saiam daqui vagabundas invejosas ! Vocês não valem nada ! Não pensaram em mim um instante. Egoístas !

Cega de despeito, Aparecida pega dois copos de chope na bandeja do garçom e vai até Moacyr. Despeja-lhe a bebida pelo corpo. Ri debochadamente :

- Eu não disse que me vingava ? Esperei quinze anos ! Consegui ! Agora crie sozinho a filha que você rejeitou no passado !

Os seguranças colocam-na porta à fora.
- Tirem as mãos de mim ! Estou saindo.

Eonice também sai. Antes, mete a mão no glacê e enfia na cara de Moacyr :
- É o que você merece por mentir durante anos ! Canalha ! Criei sua filha com outra ! Só não te mato porque não sou assassina!

Alicinha berra fazendo biquinho :
- Saiam ! Saiam da minha frente.

No desespero de continuar a festa, a aniversariante pega o microfone e ordena :
- Dancem ! Dj , a valsa ! Quero todos dançando. A festa continua !

Alicinha vai até o pai , pega-o pelas mãos e rodopia pelo salão, com fúria. Moacyr obedece, com o rosto sujo de glacê rosa e a gravata torta. A aniversariante ri histericamente com o vestido rasgado e um dos seios à mostra. Ao fundo, a Valsa de Strauss, Vozes da Primavera, dá leveza ao momento surreal .


Adquira o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS pelo site da editora :   http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242   ou autografado pelo e-mail :  soasfeiassaofieis@gmail.com

26 de abr de 2010

25 de abr de 2010

O Chuveiro

Noite quente de sexta-feira. Deuzenira desceu do ônibus cansada, depois de mais um expediente puxado. Vinha pensativa pela rua, olhando com inveja para os bares lotados de gente sorrindo com copos de cerveja na mão, quando encontrou Lucimara. A vizinha vestia um tomara que caia preto e sandálias de salto alto prateadas e descia a rua cantarolando. Com voz invejosa, Deuzenira perguntou:


- Nossa, aonde você vai vestida assim?
- Ao aniversário de uma amiga. Quer ir também?
- Não. Tô cansada . Trabalhei muito. Quero tomar um banho e cama.
- Depois reclama que não arruma namorado. Também. É de casa para o trabalho, do trabalho para a casa.

Deuzenira deu um sorrisinho amarelo e seguiu pela rua com os ombros caídos. Enquanto se aproximava de casa, pensava na vida. Tinha vontade de ir ás festas. Mas se achava muito sem graça. Geralmente quando resolvia sair de casa para dançar, esquentava cadeira tomando conta da bolsa das amigas, enquanto elas se rebolavam na pista, parecendo peixe se movendo no aquário.

Colocou a chave na porta, e o telefone tocou. Correu para atender. Era uma mulher com voz impostada querendo lhe vender um cartão de crédito. Não estava com paciência. Desligou e nada respondeu. O telefone tocou novamente. Assim que disse alô a mesma voz impostada de vendedora de telemarketing a agrediu:
- Podia ao menos ser bem educada, sua piranha, estou trabalhando.

A mulher do telemarketing desligou antes que Deuzenira reagisse. Resmungando tirou o telefone do gancho e foi preparar alguma coisa para comer. Olhou a geladeira, tirou o queijo branco e deixou ao lado do saco de pão de forma, em cima da mesa da cozinha. Encalorada, resolveu tomar um banho antes de lanchar.


Entrou no banheiro, e ligou o chuveiro. Nada de sair água . Interfonou para a portaria:

- Seu Jorge, porque o senhor não me avisou que ia cortar a água do prédio?
- A água do prédio tá cortada não senhora.
- Meu chuveiro não tá funcionando.
- Então seu chuveiro escangalhou.
- E como é que eu vou tomar banho?
- Sei não senhora.
- O senhor pode vir aqui dá uma olhada pra mim?
- Posso sair da portaria agora não. Só quando o Sebastião chegar.
- E que horas o Sebastião vai chegar?
- Ele me rende ás dez.
- Então dez horas estou lhe esperando no meu apartamento pra consertar o chuveiro.


Desligou o interfone e mordeu os lábios de raiva. O estômago de Deuzenira começou a dar voltas, a fome apertou e ela comeu o sanduíche quase se engasgando, enquanto via novela. Colocou o telefone no gancho. Cinco minutos depois, ele tocou. Denzenira olhou para o teto e gritou:

- Puta que pariu! Será que eu não tenho paz? Espero que não seja a mulher do telemarketing.

Era a mãe. Deuzenira contou que estava morrendo de calor e não tinha como tomar banho.

- Vem tomar banho aqui em casa.
- Sair de casa a essa hora, pegar um ônibus para ir até sua casa tomar banho? Prefiro dormir fedendo.
- Então pega um balde, enche no tanque e se refresca!
- Vou esperar o porteiro. Ele disse que ia consertar o chuveiro.

A campanhia tocou.
- Mãe, deixa eu atender que deve ser o Seu Jorge.

Abriu a porta. O porteiro lhe sorria simpático, com uma caixinha de ferramentas nas mãos. Convidado a entrar, comentou:

- Sabe quem morreu hoje?
- Não faço a menor ideia.
- Seu Onofre do 402.
- É mesmo? Mas o coitado também estava com câncer há uns dois anos.


Seu Jorge entrou no banheiro, mexeu no chuveiro, e com ares de quem entendia do assunto, decretou:

- O serviço vai demorar. Melhor deixar pra amanhã.
- Nunca, Seu Jorge. Se o senhor consertar hoje, dou-lhe um dinheiro extra. Preciso tomar banho. Tô morrendo de calor.
- Bom, então eu preciso desligar o disjuntor, dona Deuzenira.

Enquanto o porteiro consertava o chuveiro, Deuzenira foi até o quarto e ficou apenas de calcinha e sutiã. Andava pela casa se abanando:
- Ai, que calor! Doida por um banho. Vai demorar muito Seu Jorge?
- Não. Só mais um pouquinho!

Deuzenira comemorou ao escutar o barulho de água saindo do chuveiro. “Vou tomar aquele banho, e melhor – pensou – acompanhada” Correu até o banheiro e quando Seu Jorge saía do box, distraído, empurrou-o para debaixo do chuveiro ligado:

- Seu Jorge, olha o que eu fiz! Desculpe, foi sem querer.

Com a roupa molhada, Seu Jorge tentava disfarçar o constrangimento:

- Tem problema, não. Eu vou pra casa agora e me troco.
- Não. Quê isso. O Senhor vai pegar uma pneumonia.

Ele ainda tentou se livrar do assédio da moradora:
- Tenho que voltar pro quartinho. Esqueci minha televisão ligada.

Com jeitinho, Deuzenira convenceu-o a tirar a roupa. Assim que o porteiro ficou nu, ela se surpreendeu com as pernas grossas de Seu Jorge e o empurrou para debaixo do chuveiro:

- É pra ficar limpinho!
- Dona Deuzenira, isso não vai dar certo.
- E não é para dar mesmo.

Depois de tomarem um banho gelado, Deuzenira o carregou para a cama, puxando-o ofegante pelo braço. Pela manhã, depois de se espreguiçar na cama confortável, Seu Jorge se levantou fazendo alongamento, como de costume. Acordou Denzenira, sem querer.

– Desculpe. Não queria acordar a senhora. Tenho que ir pra portaria. Se a síndica passar por lá e não me encontrar, me demite.
- Vai, mais volta de noite. Tem uma carrapeta na pia da cozinha pra você trocar.

Tímido, Seu Jorge saiu prometendo voltar. Quando ela trancou a porta, olhou-se no espelho da sala e sorrindo disse baixinho: “Quando eu podia imaginar que a felicidade estava num chuveiro escangalhado? “

Adquira o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS pelo site da editora : http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242  ou autografado pelo e-mail :  soasfeiassaofieis@gmail.com

19 de abr de 2010

O ESCRITOR E A PROSTITUTA

Nasci escritor. Minha vocação me criou algumas dificuldades. Quando adolescente, enquanto a professora de matemática explicava trigonometria, eu voava em pensamento até a mesa da menina de rabo de cavalo. Imaginava minha colega de classe transformada numa famosa bailarina. Na minha mente criativa meu professor de física era um ex-presidiário pedófilo. Já minha professora de matemática era assassinada por um serial killer.

Nunca fui normal . Enquanto meus colegas jogavam bola, eu ficava no banco de reservas observando a reação das pessoas . Levei muita bronca da minha mãe. Ela reclamava que eu vivia no mundo da lua.

A situação piorou quando num domingo visitávamos meus avós , e vovô perguntou a netalhada o que seríamos quando crescêssemos. Meu primo mais velho, todo orgulhoso, respondeu que seria engenheiro. Minha priminha de dez anos queria fazer veterinária e meu primo do meio sonhava com a medicina. Fiquei na minha. Calado. Até lembrarem da minha existência :

- E você Luciano ? O que vai ser quando crescer ?

- Escritor .

Os adultos franziram a testa, meus primos me olharam como se eu fosse um fantasma e minha tia feiosa caiu na gargalhada. Debochada, comentou com mamãe :

- Juracy, teu filho quer ser artista.

Fiquei aborrecido e expliquei :

- Artista, não. Escritor.

Minha mãe se levantou da mesa irritada :

- Ele vai é estudar matemática para a prova de amanhã. Se tirar nota baixa vai ver o escritor no chinelo. Isso é o que ele vai ver.

Repeti o último ano duas vezes. Eu e a matemática nunca nos entendemos. Fingia para mamãe que estudava. Geralmente colocava um Machado de Assis debaixo do livro de álgebra. Com 16 anos comecei a rabiscar uns poemas para as garotas bonitas do meu prédio. Meu tesão poético acabou quando vi meu porteiro escrevendo :

- E aí Marcílio ? Fazendo contas ?

- Não. Tô acabando uma poesia para a Janaína.

Desisti de ser poeta, mas a vocação de escritor me persegue. É um vício. Sou inspirado vinte e quatro horas por dia.

Mas como na vida nada é perfeito, para agradar minha mãe, me tornei doutor. Devo dizer que sou um péssimo advogado. Ainda por cima cometi a loucura de me casar com Leonora, uma compulsiva ambiciosa. O casamento durou um ano. Levei um pé na bunda. Fui acusado de ser acomodado, sonhador e nada original :

- Vê se pode, escritor...escrever é igual a falar. Todo mundo fala. Todo mundo escreve.

Voltei para a casa dos meus pais. Para minha surpresa, meu pai me confessou que era um escritor enrustido e ajudaria a realizar meu sonho. Me indicou a um amigo, dono de uma pequena editora.

O aspecto da editora não era dos melhores. O editor, um velho barrigudo, de óculos na ponta do nariz, era um grosseirão. Fazer o quê ? Foi o que apareceu . O cara conhecia o caminho das pedras.

- Trouxe o livro ?
- Livro ?
- Porra, teu pai me falou que você é escritor. Cadê o livro ?
- Ainda não escrevi. Tá na cabeça.
- Então você tem dois meses para tirar o livro da cabeça e trazer aqui. É sobre o quê ?
- Uma tragédia shakesperiana.

O editor caiu na gargalhada. E gritou para o boy :

- Carnegão, você compraria um livro de tragédia shakesperiana ?
- Compraria não senhor.
- Tá vendo ? Arruma outra idéia. Que tal contar a história de uma prostituta ?
- Prostituta ?
- Sexo vende. Volta daqui a dois meses com a história de uma prostituta.

Antes de sair olhei um livro em cima da mesa e li em voz alta :

- “ Como ganhar dinheiro fácil e ser feliz no sexo. “
- Esse livro vai tirar a editora da lama. O pessoal só quer saber de sexo, dinheiro e poder. O resto é superflúo. Leva esse pra você. Aprende.

Precisava colher material para o meu primeiro livro. Fui para a zona do baixo meretrício. Entrevistei várias prostitutas. A maioria com a mesma história : veio do nordeste e foi abandonada pelo marido. Depois de tanta andança, conheci Indaiara. Uma morena de traços ciganos, falante, simpática e corpo violão. Saiu de um confortável apartamento em Ipanema, onde morava com os pais, para se prostituir. Adora sexo. Passei uma semana entrevistando Indaiara : uma mulher incrível, inteligente e bem humorada.

Terminei a história e fui direto no editor. Ele olhou e falou o nome do livro em voz alta :

- “ A história de Indaiara” .....Carnegão...você compraria um livro com esse nome ?
- Compraria não senhor.
- Sinto muito, com todo respeito, vou mudar o nome para Profissão prostituta.
- Mas....
- Tá decidido. Esse negócio de “A história de Indaiara” parece documentário indígena. Não vende.


O livro ficou pronto. Indaiara virou celebridade. Foi entrevistada em programa de televisão e recebeu convite para posar nua. Meu livro foi no embalo. O coquetel de lançamento foi badaladíssimo. Com direito a farta distribuição de camisinha e a presença de Indaiara e suas colegas de trabalho. Meu editor ria á toa .

- Não disse que faria sucesso ?

Fui obrigado a concordar com aquele porco falante .

No meio do coquetel, saí de fininho. Caminhava distraído quando escutei a voz de Indaiara :

- Já vai ?
- É....
-Quer carona ? Tô com um carro novinho aí fora. Podíamos esticar, o que você acha ?
- Tô liso.
- Cortesia da casa. Só faço questão do autógrafo. No bumbum.

A morena riu de um jeito tão intenso, que não tive como recusar. Enquanto caminhávamos em direção ao carro, já pensava num tema para o próximo livro.

Adquira o livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS pelo site da editora : http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=242  ou direto comigo autografado pelo e-mail :  soasfeiassaofieis@gmail.com

12 de abr de 2010

O HOMEM SOZINHO

Domingo de sol. Jairo olhou o relógio: 6 da manhã. Hora da caminhada no calçadão. Mesmo domingo não conseguia dormir até mais tarde. Levantou-se da cama, se espreguiçando. Colocou o café para fazer. Enquanto isso, foi ao banheiro, escovou os dentes, fez a barba e jogou uma água fria pelo corpo. Vestiu a bermuda que estava em cima do sofá do quarto, penteou os cabelos,.colocou as meias, em seguida os tênis.


Fez um rápido alongamento. Em seguida, voltou para a cozinha e viu o que tinha para comer na geladeira. Pensou na empregada. Ela precisava fazer compras durante a semana. Falaria com ela amanhã. Pegou um pedaço de queijo, colocou café no copo, comeu com prazer sua primeira refeição do dia.

Em seguida, o telefone tocou. Era a mãe para saber se Jairo ainda estava vivo. Falou com a mãe e foi fazer sua caminhada. Óculos escuros. Boné. Olhava as mulheres com biquínis mais ousados. Só isso. Apenas olhava. Acabou a caminhada e passou na banca de jornal. Conversou um pouco com o jornaleiro, deu uma olhada em todos os jornais. Levou um só. Pegou também uma revista semanal. Deixou o troco com o jornaleiro. Despediu-se.

Aproveitou e foi até a padaria. Comprou um frango assado para comer na hora do almoço. Chegou em casa e leu o jornal de ponta a ponta. Em seguida, pegou a revista, passou os olhos e almoçou. Já passava das duas da tarde. O almoço foi rápido. Aliás, era sempre assim. Gostava de tudo fácil e prático. Não queria perder tempo. Era um bom profissional.

Costumava articular seus passos. Tudo era medido, cronometrado. Nada podia falhar. Depois do almoço, relaxou. Nada como um copo de whisky com gelo. Ouviu um CD de músicas clássicas. Era, na verdade, o único dia que tirava para não pensar em trabalho. Domingo era sagrado. Seguia uma rotina, mas diferente da semana.

Até no sábado, levava trabalho para casa, mas domingo, não. Depois do relax dominical, navegava pela Internet. Visitava alguns sites, repassava alguns e-mails e conversava com alguém online no MSN. Qualquer pessoa. Apenas para passar o tempo. “Engraçado”, pensava, “domingo não sabia muito bem o que fazer”.

O apartamento ficava vazio demais. Mas era bom. Não conseguia imaginar uma mulher fazendo cobranças e nem crianças gritando. Ficava arrepiado só de pensar. O tempo passou rápido. Oito da noite. Fez um lanche. Ligou a TV. Nada de interessante. Pegou um DVD. Assistiu ao filme quase dormindo. Passava das 10 da noite. Levantou do sofá da sala, assustado. Foi para o quarto e arrumou meticulosamente a calça, a camisa social, a gravata e o paletó para o dia seguinte. Foi dormir feliz. Segunda-feira estaria de volta ao escritório .

Pensou nas muitas reuniões que tinha pela frente. Dormiu excitado!

Quem quiser adquirir meu livro de CONTOS :  " SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS" é só passar no site da Editora multifoco : www.editoramultifoco.com.br