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30 de mar de 2010

O PLANO

Tarde de sábado. A chuva apertou quando Marizete entrou no café. Lurdes fez um sinal e ela se aproximou ajeitando o cabelo:

- Senta logo pra não cair!
- O que aconteceu? Você me ligou hoje de manhã e disse que era urgente, fiquei roxa de curiosidade. Conta.
- Além de roxa, você vai ficar besta também! Adivinha quem vai casar?


A garçonete anotou os pedidos e se afastou. Marizete chamou-a de novo e fez outro pedido:

- Por favor, traz também uma água mineral. Bem gelada. Agora fala, Lurdinha, quem?
- A Soninha.
- SONINHA DENTUÇA?


Marizete ficou alguns minutos em silêncio e depois continuou:

- Fala. É ela?
- A própria.
- Com quem?
- Continua sentada para não cair.
- Você quer me matar de curiosidade?
- Com o Nogueira.
- O NOGUEIRA? Aquele filha da puta que não queria compromisso sério?
- NÃO queria com você, queridinha, mas queria com a Soninha Dentuça.

A garçonete serviu as amigas e deu um sorriso antes de se afastar. Desanimada, Marizete empurrou o pão de queijo e deu um gole no chocolate.

- Não quero mais comer. Perdi a fome.
- Por que, amiga? Vai me dizer que você estava apaixonada pelo Nogueira?
- O Nogueira vivia atrás de mim, e eu esnobei o cara. Todo mundo dizia que ele não queria compromisso sério.
- E não queria mesmo!
- Como? Agora tá de casamento marcado com a Soninha Dentuça. Ela é horrorosa.
- Amiga, ele deve estar apaixonado pela Soninha Dentuça.
- Duvido. Ele vai se casar com ela por despeito. Porque eu não quis ir para a cama com ele.
- Então é isso. A Soninha foi, ele gostou e se apaixonou. Deve ser boa de cama.
- Ela é muito sem graça. Duvido que seja boa de cama. Além de tudo é burra.
- Os homens preferem as burrinhas, fica mais fácil para manipular.
- Burra, nunca. A burrice é uma vergonha. Prefiro ficar só.



Marizete bateu com as duas mãos na mesa e fez careta. Irritada, puxou um fio de cabelo do rosto.

- É amiga, só que as inteligentes estão ficando encalhadas – disse Lurdes com ares de maledicência.
- Encalhada, eu?


Marizete virou os olhos de despeito, pediu licença e foi até o banheiro. Voltou fazendo mistério e chamou a garçonete. Pediu um café expresso, virou-se para Lurdes e apertando a ponta do guardanapo, falou:

- Tenho um plano. Não vai ter casamento. O Nogueira não casa com a Soninha Dentuça.

Lurdes respirou fundo com jeito entediado e desdenhou da amiga:

- O que você vai fazer? Matar o Nogueira?
- Não. Tenho um plano e a Soninha Dentuça vai cair. É burra demais.
- Qual?

Cochicharam. Marizete pegou o celular na bolsa e ordenou:

- Anota o número da Soninha Dentuça. Ela não conhece o número do seu celular. Vou ligar para o Nogueira e marcar um encontro. E você liga pra ela.
- E quando será o encontro?
- Agora. Não posso perder tempo. Enquanto eu marco com ele, você liga para a Soninha Dentuça e dá as coordenadas. Ela vai também e pega nós dois em flagrante. O resto é comigo.
- E se ele não quiser?
- Duvido. Nogueira é de negar mulher se oferecendo pra ele?


Marizete ligou primeiro. Com a voz macia, seduziu Nogueira:

- Como é que você está, amor? Saudade.

Marcaram um encontro para às sete da noite.

- Te espero então naquele barzinho do nosso último beijo. Vamos rever os velhos tempos. Até já.


Lurdes apertou os lábios e fez uma careta:

- Será que vai dar certo?
- Deixa de ser pessimista. Ele já caiu. Agora liga para a Soninha Dentuça e diz que o noivo dela vai se encontrar com outra e dá o endereço do bar.


Lurdes desligou o celular e olhou para Marizete:

- Mordeu a isca.

Fizeram hora passeando pelo shopping. Seis e meia Marizete olhou o relógio, nervosa:

- Tá na hora. Já vou. A chuva pode apertar e não quero chegar atrasada. Me deseja boa sorte.

Sete em ponto Marizete entrou no bar. Dez minutos e nada de Nogueira. “Será que ele não vem? Não é possível. Nunca me deu bolo“.


Sete e vinte da noite. Marizete abriu a bolsa para pegar o celular. Antes, olhou para a porta do restaurante. O coração acelerou. Quase deixou o celular cair no chão. Nogueira aproximou-se sorridente, de mãos dadas com Soninha. Cumprimentou-a educadamente e em seguida puxou uma cadeira para a noiva. Acomodado, pigarreou e olhando nos olhos de Marizete comentou:

- Fiz questão de trazer a Soninha. Vocês se conhecem?

Marizete não respondeu. Apenas balançou a cabeça sem jeito e lançou um sorriso tímido para a rival. Depois de acarinhar Nogueira no rosto, Soninha tirou da bolsa um envelope branco e dirigiu-se com ar superior para Marizete:

- Nosso convite de casamento. Gostaria muito que você fosse. Faço questão.

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25 de mar de 2010

Entrevista com a sereia

ATENÇÃO. Silêncio ! Entrando no ar.

Apresentadora : Boa tarde ! No De Cara Com a Fama de hoje estamos recebendo Nayana Lúcia. Ela é a capa do mês da Revista The Girls. Boa tarde, Nayana!

Nayana : Boa tarde. É um prazer conversar com você e seus telespectadores.

Apresentadora: Você imaginava que seria convidada para posar nua ao beijar o jogador na boca, na porta de um restaurante no Leblon?

Nayana : Posar nua, não. Mas queria ficar conhecida.

Apresentadora: E como surgiu essa ideia de beijar o jogador?

Nayana: Eu vi um paparazzi rondando a área, quando o jogador saiu do restaurante sozinho. Me aproximei e tasquei-lhe um beijo na boca. No dia seguinte a foto saiu na primeira página dos jornais e das revistas especializadas. Aí pensei: Tô famosa!

Apresentadora : E ai, o que aconteceu depois?

Nayana: Começaram a me ligar para dar entrevistas. Queriam saber se eu era a nova namorada do jogador.

Apresentadora : É verdade, você mexeu com a imaginação das pessoas. E como surgiu o convite da revista?

Nayana: Fiquei famosa, comecei a aparecer em todos os programas e a The Girls me convidou para posar nua como a garota que virou a cabeça do jogador.

Apresentadora: Valeu a pena?

Nayana: Claro. Fiz alguma coisa para chamar a atenção. Hoje em dia é a única maneira de se tornar conhecida.

Apresentadora: Mas por sua causa o casamento do Jogador acabou e ele vai lhe processar.

Nayana: Não tem problema. Com o dinheiro que ganhei dá para pagar o que ele vai me pedir.

Apresentadora: Você não tem vergonha de confessar que beijou o jogador para ficar famosa?

Nayana: Na verdade eu não beijei o jogador para ficar famosa, eu beijei o jogador para divulgar meu livro.

Apresentadora: Não entendi. Você não está divulgando as suas fotos na Revista The Girl? Que história de livro é essa?

Nayana: Sou escritora e precisava ficar famosa para lerem meus livros. Hoje em dia é assim: Primeiro ficar famosa, para depois escrever. Só que eu escrevi antes. Meu livro não vendeu.

Apresentadora: Você é escritora? Ninguém me deu essa informação na ficha.

Nayana: Mas ninguém sabia. Estou dizendo agora. Escrevi um livro, mas o livro ficou encalhado. Na verdade eu só vendi quinze exemplares. E tudo para amigos. Alguns nem quiseram comprar.

Apresentadora: Então você ganhou mais uma leitora. Vou comprar seu livro. É sobre o quê?

Nayana : É um livro policial. Gosto de escrever histórias policiais.

Apresentadora: Adoro histórias policiais. Qual o nome do livro?

Nayana: Assalto na esquina.

Apresentadora : Ele está aí com você?

Nayana: Claro. Tá aqui na bolsa. Deixa eu pegar.

Apresentadora : Interessante. A capa é que está meio escura.

Nayana: A capa vai mudar. Meu editor está até pensando em lançar uma promoção : Compre a revista e ganhe um livro grátis.

Apresentadora: E como será a capa do livro?

Nayana: Vamos aproveitar essa foto da The Girls que apareço com a tatuagem da sereia na coxa.

Apresentadora: Vai ser um sucesso!

Nayana: Eu espero que comprem. Já estou até pensando num segundo livro. Dessa vez mais apimentado.

Apresentadora : Hummmm sobre o quê?

Nayana: Que tal “Na Cama Com a Sereia? “

Apresentadora: Sugestivo! Parabéns pelas fotos na The Girls e pelo livro. Gente, vamos aplaudir o mais novo fenômeno editorial !

Nayana acordou com o choro do bebê. Foi até o berço e pegou o filho. “Caramba, que sonho louco! Acabei dormindo e ainda tenho que revisar cem páginas do livro antes de entregar para a editora“.

O marido chegou do trabalho reclamando:

- Já viu a conta de luz? Aumentou novamente. Você está usando muito esse computador. Tá precisando arranjar um emprego fora de casa. Trabalhar em casa dá nisso.

- E quem vai cuidar do Juninho?- Coloca na creche. O que eu não posso é todo mês pagar conta de luz mais cara.
- Me dá a conta . Eu pago!

Nayana olhou para o marido entediada. Juarez era um mesquinho! “Um dia eu ainda mato esse homem”. – pensou.

Boa ideia, escreveria um livro na prisão: “Como matar um marido sem dor – Em dez lições“. Venderia horrores.

Riu da própria imaginação. Deixou o marido falando sozinho, colocou o filho no berço e foi acabar de revisar o livro : “A vida sexual dos Chimpanzés“.

Você pode adquirir meu livro de CONTOS " SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS "  pela Internet através do site da editora : http://www.editoramultifoco.com.br/

21 de mar de 2010

Fotos do lançamento de Só as feias são fiéis

Meu livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS é uma realidade.
Lançado na quinta-feira, dia 18 de março,  com vários amigos e leitores presentes,
você já pode adquiri-lo pelo  site da editora multifoco.

Leia o livro e coloque sua opinião no blog.






                                             

16 de mar de 2010


Esperando todos vocês para o lançamento do meu



primeiro livro de contos SÓ AS FEIAS SÃO FIÈIS.


Quinta-feira .


Dia 18 de março.


18 horas.


Espaço Multifoco.


Avenida Mem de Sá, 126, Lapa


Histórias da vida. Histórias de pessoas comuns.


Ciúme. Inveja. Solidão. Intriga.


O lado cruel do ser humano.


Um mergulho dentro da intimidade de cada um.


Do pensamento.


Um mergulho na alma do ser humano.


40 contos  que não estão no blog .


O jornalista e escritor Pedro J. Bondaczuk fala sobre o livro :

Celamar Maione é uma das mais gratas revelações literárias dos últimos tempos. Dotada de uma capacidade narrativa ímpar, cativa e prende o leitor com suas histórias fortes, de personagens marcantes, tramas originais e finais surpreendentes. Ao ler seus enredos, o leitor sente-se como se estivesse assistindo a um filme, tamanha sua capacidade descritiva e de elaboração de diálogos. Celamar, com seu talento, traduz a vida exatamente como ela é.

13 de mar de 2010

DESCONFIANÇA DE AMOR

- Onde você estava, Ricardo César? Demorou para atender!

- Tava no banho.
- Eu estou há mais de dez minutos ligando.
- Pronto. Atendi agora. Satisfeita?
- Você vem aqui hoje?
- HOJE?
- É.
- Não dá.
- Por quê?
- Amanhã acordo cedo pra trabalhar. E ainda tenho que organizar umas papeladas agora.
-Todo dia é isso?
- Isso o quê?
- Não me vê mais dia de semana. Só sábado e domingo. Deve ter outras.
- Que outras? E eu lá tenho tempo para ter outras? Trabalho que nem um louco e você vem com historinha de que tenho outra.
- Então por que você não vem aqui em casa hoje?
- Porque é quarta-feira e eu saí cansado do trabalho. Dia de semana não é dia de namorar .
- Não? E se a gente se casar? Só vai ter sexo final de semana?
- Aí é diferente. Pode ter sexo todo dia.
- Então a gente podia treinar .
- Treinar? Não precisa. Estou em forma.
- Duvido. Se tivesse, hoje vinha aqui e não inventava essa história de cansaço.
- Tá me desafiando?
- Tô . Vai me decepcionar?
- Infelizmente vou, meu amor.
- Jura que você não vem? São nove e meia ainda, dá tempo.
- Amoreco, deixa pra sexta-feira.
- Você tem outra. Ela está aí com você. Escutei um barulho agora.
- Barulho? Você está escutando demais.
- Ouvi uma porta batendo. Você mora sozinho. Quem está aí com você?
- Foi na televisão .
- Televisão? Mentiroso. Fala, Ricardo César. Quem está aí com você?
- Já disse que ninguém. Quantas vezes eu preciso falar?
- Não acredito em você.
- Então não posso fazer nada. Tenho que desligar . Tô com fome e quero jantar.
- Quanta frieza. É isso o que você tem pra me dizer?
- O que você quer que eu diga?
- Pelo menos dá um boa noite. Diz que amanhã vai me ligar. Manda beijo.
- Tá bom, meu amor. Dorme com os anjos. Sonha comigo. Amanhã te ligo. Beijo.
- Assim melhorou.
- Boa noite.
- Amanhã você vem aqui?
- Vai começar de novo? Já disse : Sexta-feira. Amanhã vou sair tarde do trabalho.
- Tô com saudade.
- Eu também. Depois a gente se fala. Um beijo.
- Escutei de novo. Barulho de porta.
- Você está escutando demais, amoreco. Um beijo gostoso.
- Beijo.
Ricardo César desligou o telefone resmungando e gritou :
- Marcelo, tá na cozinha?
- Tô.
- Abre a geladeira e pega duas latinhas de cerveja geladinha pra gente.
- Posso cortar uns queijinhos?
- Pode.
- Que canseira para se livrar da namorada. Por isso que eu não quero mais saber de nada fixo, cara.
- Sabe que você tem razão?
- Mulher é boa para usar e jogar fora.
- Vamos esquecer da chatice feminina que o jogo vai começar.
- Opa, nada como um jogo de futebol pela TV com uma cerveja gelada.
- Aperta o controle e aumenta a televisão. Imagina perder o início da partida por causa de mulher?
- Aposta quanto que o mengão vai ganhar?
- Uma caixa de cerveja.
- Apostado.
- Deixa eu desligar meu celular, não quero ser interrompido .
- Eu também. Jogo é sagrado.

O juiz apitou o início da partida. Ricardo César e Marcelo não desgrudaram os olhos da tela.

8 de mar de 2010

O Aniversário da Falecida

Parte I



Aparecida acordou com imensa angústia no peito. Chamou o marido para trabalhar e preparou o café .

Enquanto colocava a mesa, a angústia voltou. Sentiu uma vontade inexplicável de chorar. Sentou-se a mesa, cortou o pão, passou manteiga e assim que Juarez deu o primeiro gole no café com leite, Aparecida desabafou :

- Acordei tão estranha hoje. Com uma dor no peito.
- Como assim ? Ta passando mal ?
- Tô com um aperto no peito. Um mal pressentimento.
- Pressentimento ?
- Aposta que não duro até o meu aniversário ?
- Mas seu aniversário é daqui a um mês .
- Morro antes.
- Besteira. Vou deixar o dinheiro para você pagar o bolo antecipado.

Aparecida apertou a boca em sinal de desânimo. O marido saiu gritando que os quarenta reais estavam em cima da mesa da sala. Ela nem agradeceu. Durante o banho se debulhou em lágrimas. Decidiu que passaria na casa da doceira e depois visitaria a irmã .

Tocou a campanhia e quem atendeu foi o sobrinho :
- Oi, tia.
- Sua mãe está em casa ?

Anita apareceu na sala e abraçou Aparecida, satisfeita com a visita surpresa .
-Minha irmã, que bom te ver ! Me diga, quais são as novidades ?
- Vim aqui porque preciso que você me prometa uma coisa.
- Pode falar.
- Não estou com bom pressentimento. Acho que não duro até meu aniversário.
- Como assim ? Brincadeira, né ?
- Não. Sério. Morro antes.
- Você está doente ?
- Não. Minha saúde está ótima.
- Então que maluquice é essa ? Vai fazer trinta anos, tá muito nova para morrer .
- Não vou morrer de morte natural. Será um acidente.
- Já sei. Foi numa cartomante e ela falou essa bobagem ?
- Pesadelo. Tive um pesadelo horrível. É um aviso.
- Me conta. Como foi o pesadelo ?
- Não conto. Me arrepio quando penso. Só quero que você me prometa uma coisa.

Perdida com a conversa da irmã, pede licença e vai para a cozinha tomar um copo de água . Volta com café quentinho e biscoitinhos . Encontra Aparecida com olhar distante e mão na boca. Preocupa-se :

- Toma um cafezinho. Come os biscoitinhos também Acabei de fazer.
- Não quero. Estou sem apetite.

Nervosa, Aparecida segura nas mãos de Anita com força. Chorando, um ganido de dar dó, repete :

- Me promete uma coisa ! Diz que sim. Pelo amor de Deus !
-Diga logo. O que é. Você está me assustando.
- Se eu morrer antes do meu aniversário, você faz uma festa pra mim mesmo que eu esteja morta ?
- Festa ? Na minha ou na sua casa ? – Debochou levando na brincadeira.
- Não. No cemitério. No meu túmulo.
- Que maluquice ! Vou levar você ao médico. Endoidou.


Aparecida continuou o lamento :
- Diz que jura. Isso não é loucura. É pressentimento. Os salgados e o bolo já estão pagos. Presente do Juarez.
- Você não vai morrer !
- Diz que jura !? Eu imploro.


Aparecida se ajoelhou diante da irmã, beijando-lhe os pés com a humildade de um cachorro sarnento.
Para se ver livre da situação constrangedora, Anita concordou. Aparecida era teimosa. Sabia. Desde criança. Quando cismava com alguma coisa, ninguém conseguia fazê-la mudar de ideia.

- Tá bom Aparecida. Tá bom.
- Se você não cumprir com a promessa puxo seu pé de noite !
- Cruzes! Já aceitei. Farei uma bela festa no cemitério. Pode deixar.


Amedrontada com as próprias palavras, bateu na mesa de madeira três vezes. Aparecida se despediu da irmã e saiu apressada :
- Quase na hora do almoço. Deixa eu ir. O tintureiro ficou de entregar as calças do Juarez antes das duas da tarde.

A conversa com a irmã lhe fizera bem. Agora sabia que viva ou morta teria festa de aniversário. Gostava de festas. Desde garota.

Juarez chegou do trabalho preocupado com a conversa que tivera com a esposa pela manhã. Cheio de medo da resposta, perguntou :
- E a angústia ? Passou ?
- Passou. Conversei com a Anita e ela prometeu que se eu morrer faz a minha festa de aniversário no cemitério.
- Coisa mórbida. Acho que vou levar você ao psiquiatra.
- Pra quê gastar dinheiro com médico ? Não passo do meu aniversário.
- Você não tem jeito , não. Chega !

Juarez se trancou no banheiro. “ Precisava de um longo banho. A noite ia ser longa . Aparecida estava pirando” – Pensou.

.........................................................

                                 Parte II



Quinze dias antes do aniversário, Aparecida acordou feliz. Voltaria a trabalhar e o chefe já lhe dera a novidade por telefone : “ Seria promovida.”

Despediu-se do marido e saiu apressada , cantarolando. Queria chegar cedo na repartição para conhecer a nova sala. Com a bolsa debaixo do braço, viu o ônibus parar no ponto , do outro lado da rua. Correu para pegar a condução. Não percebeu o carro que vinha em sentido contrário. O Corsa pegou Aparecida em cheio jogando-a para o alto.

Caiu estatelada na calçada.

Logo a multidão rodeou o corpo da atropelada . Juarez chegou transtornado, vinte minutos depois do acidente. Consolado pelos pedestres, repetia :

- Ela saiu de casa tão feliz ! Ia fazer trinta anos ! Tão nova ! Por quê ????

Anita apareceu histérica amparada pelo filho. Atirou-se no chão urrando junto ao corpo da irmã . Aparecida abriu os olhos, pegou Anita pelo pescoço e num último suspiro, murmurou no ouvido dela :

- Minha festa de aniversário. Não esquece.

Alguém gritou para o bombeiro :

- Ela tá viva ! A morta tá viva !

Logo se formou uma pequena confusão no meio da rua :
- Impossível. O médico falou que ela ta morta !
- Tá viva !

O burburinho aumentou . Chamaram o médico de volta. Ele reexaminou o corpo de Aparecida. Impaciente, sentenciou :

- Tá morta. Mortinha. Parem de brincar com coisa séria. Tenho mais o que fazer.

A multidão gritava :
- Ela falou !

Anita confirmava :
- Me puxou pelo pescoço. Tô sentindo a mão dela até agora.

Duas horas depois o rabecão levou o corpo de Aparecida.

O velório seguiu em clima de consternação com direito a berros, discursos e tumulto. Anita e Juarez não saíram de perto da morta . Na hora que o caixão baixou a sepultura, Anita olhou para o alto e gritou batendo no peito:

-  A festa do seu aniversário será inesquecível ! Promessa é dívida !

Na missa de sétimo dia, Juarez tentou convencer a cunhada a cancelar a comemoração. Ela bateu o pé:

- Não, não e não. Minha irmã ameaçou. Se eu não cumprir com a promessa , ela puxa meu pé de noite.
- Ela tá morta ! Os mortos não voltam!
- Você diz isso porque o pé não é seu.

O sobrinho de Aparecida se meteu na discussão :

- Aí tio, deixa minha mãe fazer a festa. É surreal, mas deve ser maneiro uma festa no cemitério. Dark. Super dark.

Depois de muita discussão, Juarez cedeu, mas com uma condição :
- Você é quem vai convidar as pessoas. Não quero me meter e nem ser chamado de louco. Nem apareço na festa.
- Combinado. Vai perder um festão.

Disposta a não decepcionar a morta , Anita ligou para vizinhos , amigos e alguns parentes, convidando-os para a estranha comemoração :

- Aparecida fazia questão da sua presença. Terá bolo e salgadinho. Nada de reza e nem música fúnebre. A aniversariante gostava de pagode.

Alguns convidados duvidaram da sanidade de Anita :

- Coitadinha , não suportou a morte da irmã. Destrambelhou de vez !

Se para os impressionados o convite parecia mórbido, os festeiros gostaram da ideia . No dia da festa compareceram mais de trinta pessoas entre parentes, vizinhos e amigos. Os convidados bebiam e comiam em volta da sepultura . Baixinho, o aparelho de som portátil, tocava pagodes da moda. Há quem ensaiasse alguns passos de dança .
A animação era grande. Teve até fila para tirar foto segurando o porta retrato que enfeitava o túmulo da aniversariante.

O sobrinho era o mais entusiasmado :
- Vou colocar as fotos no orkut. Meus amigos vão morrer de inveja . Irado !

Onze horas cantaram parabéns e partiram o bolo. Antes da meia-noite a festa acabou.

A irmã da aniversariante aconselhou :

- Não é de bom agouro ficar no cemitério depois da meia-noite. Os mortos precisam descansar.

Antes de ir embora, Anita ficou sozinha para se despedir da morta . Emocionada e com lágrimas nos olhos, deixou um pedaço de bolo ao lado da foto de Aparecida.

Com uma rosa na mão, Anita encaminhava-se sozinha, para a porta de saída, iluminada pela luz da lua. De repente, sentiu um vento frio fazendo-lhe cócegas nos ouvidos. Sorriu. Sabia que era a irmã, agradecida pela homenagem. Com a alma mais leve, prometeu voltar no próximo ano.

Fim de festa. Hora de gatos e cachorros invadirem a sepultura da falecida. Famintos, acabaram com os restos de salgadinho e se fartaram com o pedaço de bolo.

2 de mar de 2010

A FAMÌLIA DO ADERBAL

Sábado de sol. Aderbal lia o jornal na varanda antes do almoço, quando Ritinha chegou do salão e sentou-se ao lado dele. Com a testa enrugada, colocou o corpo pra frente e murmurou:


- Precisamos conversar. É sério.

O marido não tirou os olhos do jornal e com voz entediada respondeu:
- Fala.
- Dá para você olhar pra mim?

Aderbal fez uma careta, dobrou o jornal, cruzou os braços e respondeu:
- Fala. O que é?
- Há um ano que eu tenho outro homem. Um amante.

O marido olhou sério para Ritinha, prendendo a respiração. Silêncio total. Nenhum gemido . Ela tentou de novo:
- EU TENHO UM AMANTE. Não vai dizer nada?
- Sim e daí? Eu tenho UMA amante. Há três anos. Mais tempo que você . Ganhei.

Ritinha engoliu em seco. Olhou para o marido, enciumada. Logo ela que imaginou não sentir mais nada por Aderbal . Agora estava ali, com o coração apertado. Um bolo na garganta. Enganada durante três anos e nunca desconfiou . Irritada, se levantou e enfiou o dedo no rosto de Aderbal :

- Diz. Quem é ela? Fala! É a Conceição?
- Vai começar o inquérito? Hoje em dia é normal ter amantes. Ajuda no casamento.
- Cínico. Quer dizer que durante três anos você me enganou? Quem é ela?


Aderbal lançou-lhe um olhar de interrogação. Passou a língua pelos lábios, coçou a cabeça e respondeu com um sorriso forçado:
- Acho que você não se lembra.
- Então eu conheço? Fala. Quero saber o nome. Anda Aderbal.
- Sabia que se eu falasse, ia dar confusão.
- Aderbal, não disfarça. Quem é?
- Do meu trabalho. A secretária do Souza .
- Aquela branquela que fica coçando as pernas nas festas da empresa?
- É e daí?
- Sabia. Nunca fui com a cara dela. Sempre te olhou com olhar de bêbada no cio.
- Você é engraçada. Fica cheia de coisinha mas também tem um amante.
-Quero a separação, Aderbal. Não vou aturar amante sua. Corna, não!
- Você não tem outro também?
- Tenho.
-Então. Separar pra quê? O Juninho vai fazer dez anos. Precisa do pai e da mãe. Separar o que Deus juntou? Dividir casa? Pensão? Dá muito trabalho.
-Mas  vamos viver essa vida de hipócrita?
- Não somos hipócritas. Somos práticos. Casamento é tudo igual.

Ritinha correu o olhar pelos cantos. Andou pelo jardim. Mexeu nas plantas, balançou os cabelos e olhou as unhas que acabara de fazer . Pensou no amante. No casamento das amigas. Na solteirice da irmã. No namorado da amiga de infância, flagrado com duas mulheres na cama. A cabeça girava. “Quem estava certo nesse mundo?” – se perguntou arrancando as folhas do arbusto. Aderbal voltou a ler o jornal. Ritinha sentou-se perto do marido novamente e decidida, propôs:

- Tenho uma idéia!
- Será que eu não vou conseguir ler o jornal?
- Presta atenção. A ideia é boa.
- Qual?
- Vamos chamar a sua namoradinha e o meu namorado para jantar aqui em casa?
- Tem certeza? Tá preparada?
- Tô. E você?
- Se é isso o que você quer. Topo qualquer parada. Sou um cara de mente aberta.
- Mas eu não quero que eles saibam que a gente sabe, entende?
-Como você quiser.

Combinaram o jantar para o sábado seguinte. Ritinha dispensou a cozinheira e fez questão de fazer o empadão de camarão e a salada de lentilha. De sobremesa, torta de morango. Preparou o filho para a visita.
- Hoje eu e seu pai vamos receber um casal amigo. Comporte-se! Nada de grudar chiclete nos móveis .

Oito da noite. Alice chegou primeiro. Desconfiadíssima com o convite. Presenteou Ritinha com um vaso de violetas. A esposa de Aderbal sorriu e fez voz de nojo:
- Adoro violeta. Você é muito gentil.

Quinze minutos depois chegou Cardoso, com uma garrafa de vinho. Presente para Aderbal. O jantar transcorreu animado com direito a algumas palavras recheadas de veneno. Juninho dormiu logo depois da sobremesa e os quatro conversaram sobre amenidades até quase uma da manhã. De vez em quando, enciumada, Ritinha percebia a troca de olhares entre Aderbal e Alice. Mas disfarçadamente, roçava a canela direita nos pés do amante. Espreguiçando-se e abrindo a boca, Cardoso olhou o relógio:

- Uma da manhã! Já vou . Tenho que acordar cedo. Prometi caminhar com o meu pai..

Alice convidou-se:
- Você pode me dar uma carona? Moramos perto.
- Será um prazer.

Os dois saíram sorridentes com a promessa de novos jantares. Quando ficou sozinho com a esposa, Aderbal perguntou cheio de expectativa :
-Gostou?
- Meio estranho. E se eles resolvem ir para o motel?
- E daí? Nós também não vamos dormir juntos?

Encaminharam-se para o quarto abraçados e trocando gracinhas. Exaustos e festivos, pegaram no sono ás cinco da manhã. Antes de adormecer, Aderbal amornou a voz:
- Foi bom pra você, Ritinha?
- Ótimo. Melhor , impossível.