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26 de fev de 2010

O TROTE


Cinco horas da tarde de uma quarta-feira nublada. Ferreira está de saída, quando a secretária o chama:
- Telefone para o senhor. É uma mulher. Diz que é urgente!

Contrariado, pega o aparelho.

-Sim.... Ferreira. Quem fala?

Do outro lado, a voz misteriosa debocha:
- Sua esposa tem um amante.– E desliga o telefone antes de Ferreira responder.

Ele sai do escritório intrigado. Liga o rádio enquanto dirige, para distrair-se e afastar os maus pensamentos. Quando chega em casa é recebido pela esposa com carinho. Para não aborrecê-la com desconfianças, não comenta sobre o trote.


No dia seguinte, assim que entra no escritório, encontra a secretária preocupada.
- A mulher do trote já ligou duas vezes. O que faço se ligar novamente?
- Passa pra mim.

Durante um mês, Ferreira recebe diariamente, a ligação da mulher misteriosa. Como se não bastasse, quando vai pra casa, encontra sempre um bilhete no pára-brisa do carro, escrito com letras de jornal : SUA MULHER TEM OUTRO. VOCÊ É CORNO.

A dúvida instala-se como erva daninha no coração de Ferreira. Não pode ver a esposa com roupa nova que imagina: “Está se arrumando muito...Será que é para o amante? Quem será ele? Algum conhecido?” O estresse é tão grande, que quando Conceição avisa que a mulher misteriosa está na linha, Ferreira se descontrola e range os dentes de raiva.:

- FALA LOGO! QUEM É O AMANTE DE ISAURINHA? FALA?!

A mulher desliga dando risadas. Conceição providencia um copo com água para acalmar Ferreira, prestes a ter uma convulsão:

-Não agüento mais. Quem é essa desocupada? Vou enlouquecer! A dúvida me envenena.

Com o peito ardendo e corroído pelo pavor da traição, no domingo, vai almoçar na casa dos pais. Enquanto a esposa vê televisão com a sogra, Ferreira desabafa com o pai e o irmão:
- Acho que Isaurinha me trai.
- Você tem faltado com sua esposa na cama?
- NÃO.
- Então porque acha isso ? – pergunta o irmão curioso.


Angustiado, fala dos trotes e dos bilhetes. Em seguida, chora como criança:
- Será que Deus me castiga por causa da minha ex? Por causa de Anete?

O irmão consola-o :
- Você não queria mais Anete. Aconteceu o que aconteceu porque ela era uma fraca.
- Ás vezes acho que fui covarde e não mereço ser feliz...


Penalizado, o pai tenta encontrar uma solução.
- Por que não contrata um detetive? Você conhece Isaurinha muito pouco. Namoraram e casaram-se em quatro meses....
-E se o detetive descobrir que ela tem outro?
- Terá que tomar uma atitude de homem.

Sem perceberem, Isaurinha ouve a conversa atrás da porta. Na segunda-feira, no escritório, depois de procurar pela internet, Ferreira contrata um detetive.
- Quero todos os passos de Isaurinha. Até no banheiro.

Os trotes continuam. A desconfiança martiriza-o. Em casa, não olha mais nos olhos de Isaurinha. Os dias tornam-se tormentosos. As noites, insones. Quando adormece, tem pesadelos com Isaurinha numa sauna esfumaçada, desfilando nua, com homens entrando em êxtase. No teto da sauna aparece o rosto de Anete sorrindo. Acorda assustado e confuso: “Não, não pode ser, o que faz Anete na sauna com Isaurinha?”, pensa angustiado. “Anete enforcou-se! Anete está morta!”

O detetive segue Isaurinha durante um mês.
- Sua mulher é virtuosa. Vai da casa para o trabalho e do trabalho para a casa. Uma vez por semana, visita o sanatório, onde faz trabalho voluntário.

Ferreira duvida do detetive. Manda a secretária procurar outro investigador na internet. Conceição percebe o estado de debilidade do chefe, liga para Isaurinha e fala dos trotes. Meia hora depois, o telefone toca e é a voz misteriosa. Dessa vez, se identifica:

- Lembra de mim? Sou eu, Anete, sua noiva! – Em seguida, dá uma risada satânica e desliga.


Trêmulo e com os lábios arroxeados, Ferreira grita ao telefone:
- ESSA SUICIDA LOUCA QUER SE VINGAR DE MIM! FANTASMA MAL-AMADO!

E sai destruindo o que vê pela frente no escritório. Isaurinha chega no momento da confusão. Acompanhada de dois enfermeiros do sanatório, ela dá as ordens:
- Podem carregá-lo. Se precisar, usem a força.

Ferreira é internado. Uma semana depois, quando sai da cama, Isaurinha o leva para passear no jardim. De braços dados, ela fala debochadamente:
- Vem amor, quero-lhe mostrar uma amiga que o espera aqui há mais de um ano...

Ferreira aterroriza-se ao ver Anete com um vestido branco, comprido, cabelos desalinhados e falando sozinha.
- O que Anete faz aqui? Ela não se enforcou ?
- Claro que não! Não está vendo? Quando você a abandonou na Igreja, ela foi encontrada vagando pelas ruas e a trouxeram pra cá .
- E o que você tem a ver com Anete?
- Anete nunca falou de mim?
- Não?!?!! Que eu saiba você é minha esposa e me trouxe cá.
- Eu sou Isa, amiga de infância da Anete. No início do namoro de vocês me mudei para Recife e...

Ferreira não deixa Isaurinha terminar... Sai apavorado gritando pelos jardins do sanatório:
- Não sou maluco! Socorro, não sou louco! Me tirem daqui!

Isaurinha senta no gramado ao lado de Anete, penteia-lhe os cabelos e ri psicoticamente.

19 de fev de 2010

FELICIDADE APARENTE


Final de tarde de sábado. Chovia muito. Rochinha esfregava as mãos e passava a língua pelos lábios, demonstrando nervosismo. Pegou o celular mais uma vez e ligou. Nada. Guardou o celular no bolso da camisa. Chamou o garçom, cochicou alguma coisa, pegou o copo vazio e começou a brincar com ele. Assustou-se quando Sandrinha sentou-se na cadeira em frente:
- Desculpe o atraso. A culpa é da chuva. Aquele rio lá perto de casa encheu.

- Não entendi porque você não quis que eu te pegasse.
- Sei me virar sozinha. Não tô aqui?
- Bobagem, Sandrinha. Somos noivos, vamos casar daqui a duas semanas.
- Íamos.
- Como?
- Não quero mais me casar com você.

Rochinha abriu o primeiro botão da camisa, olhou para a rua, deu um sorriso sem graça e perguntou :
- Por quê?
- Nunca te amei e nem sinto desejo quando estamos na cama.

Rochinha deu uma risada e balançou a cabeça :
- E daí ?
- E daí ? Você acha que eu vou me casar sem amor? Sem desejo?
- E precisa casar por amor? Você vai ser minha esposa e eu vou ser seu marido. Só.
- Só? Casada perco a oportunidade de conhecer alguém por quem eu possa me apaixonar de verdade.


Rochinha deu uma sonora gargalhada, chamou o garçom, pediu mais um chope e gentilmente dirigiu-se a Sandrinha:

- Chope também?
- Não. Mate.


O garçom saiu levando os pedidos e Sandrinha enfureceu-se com Rochinha :

- Olha bem pra mim. Tá olhando?
- Sim, e daí?
- Tenho cara de palhaça?
- Não.
- Então não entendi. Digo que não quero casar, que não te amo mais e você ri?
- Você quer que eu chore? Então eu vou chorar....

Começou a fingir que estava chorando passando a mão nos olhos e abrindo a boca, chamando a atenção dos clientes próximos. Envergonhada, Sandrinha ameaçou se levantar:

– Se você não parar com a palhaçada agora, deixo você sozinho.
-Tá bom! Qual é o problema então?
- O problema é que eu não quero mais me casar e estou terminando tudo. Satisfeito?


Rochinha ficou sério. Pegou o chope da bandeja, tomou de um gole só, pediu outro e colocou o mate no copo de Sandrinha.

- Você quer falar sério?
- Estou falando sério.
- Você tem outro?
- Não. Mas eu gosto muito de sexo e a gente não tem sintonia na cama. Não existe amor.
- Deixo a desejar? É isso?
- Sabe há quanto tempo a gente não transa, Rochinha? Dois meses. Isso antes do casamento, imagina quando a gente se casar?


Rochinha coçou o queixo, olhou dentro dos olhos de Sandrinha, pegou as mãos da mulher e ficou brincando com elas durante um tempo. Cabeça baixa, resmungou:

- Então o problema é sexo? Você quer mais sexo? É isso?
- Também. Mas eu não sinto amor por você. Amor pra casar. Achei que a gente podia se entender na cama e...

O noivo interrompeu Sandrinha com um pigarro. Franziu os olhos, tossiu, largou as mãos de Sandrinha e esticou o corpo:

- Você é muito ingênua. Presta atenção. Tenho uma proposta pra te fazer.
- Ingênua? Que papo é esse agora? – respondeu desconfiada.


Ele falou vagarosamente, como se explicasse matemática para uma criança recém-alfabetizada:
- Você não me ama? Certo? Quer saber? Também não te amo.
- Não?
- Nossa relação é teatro. Eu não te amo e você não me ama. Podemos fazer um acordo.
- Acordo? Tá delirando?
- Casamos sem amor.
- Já disse que sem amor não quero.
- Calma, deixa eu explicar. Como as mulheres são ansiosas.
- Não sou ansiosa, sou curiosa. Continua o discurso.
- Casamos, e eu te dou uma vida de princesa. Tudo o que você quiser. Carro. Jóias. Dinheiro. Você não quer?
- Rochinha, chega de rodeios e diz logo. Anda. O que é que está acontecendo? Você não tem tanto dinheiro assim pra me dar mordomia.
- Vou explicar. Casada você pode continuar saindo com os homens que quiser. E melhor :As casadas atraem mais homens porque não comprometem.
- Rochinha, diz logo. Seja direto. O que está acontecendo? Posso saber de onde você vai tirar dinheiro para me dar uma vida de princesa?
- Amaury, meu chefe. Eu e o Amaury somos amantes .
- Amantes? Você é gay?
- Nós nos amamos. Eu e ele. Aconteceu. Eu ia casar com você apenas para dar uma satisfação aos meus pais. Estão idosos, sabe como é. Vovó também quer me ver casado.
- Hipócrita! Escroto!
- Olha o preconceito....cada um faz o que deseja para ser feliz!
- Sua família sabe?
- Tá difícil de você entender. Claro que não! E eu não quero que ninguém saiba. Confio em você.


Sandrinha sentiu uma dor no peito. As pernas começaram a tremer. “Bem que as amigas diziam que Rochinha era bi” – pensou. Teve vontade de puxar a toalha da mesa e gritar. Não gostava de ser enganada.


Saiu da inércia com Rochinha sacudindo-lhe os braços com força:

- Ei, acorda. Só abri o jogo porque você disse que não me amava.
- Você me enganou durante todo esse tempo.
- Nada disso. Você também não me ama. Assim fica mais fácil para haver casamento. Casamos, moramos na mesma casa e eu e Amaury continuamos como amantes. Um segredo nosso. Ninguém engana ninguém.
- Preciso pensar. Você me pegou de surpresa.

Rochinha insistiu com ar envolvente :
- Seremos felizes. Eu com o homem que amo e você com quantos homens quiser.

Sandrinha pegou a bolsa, se levantou, jogou o resto de mate no rosto de Rochinha e saiu arrastando o tamanco:
- Seja feliz, seu indecente!


Rochinha não moveu um músculo. Pagou a conta e saiu sem olhar para os lados.
De madrugada o celular tocou. Era Sandrinha:

- Rochinha, mudei de ideia. Precisamos conversar.


Almoçaram juntos no domingo. Sandrinha deu as cartas:
- Pensei melhor e aceito a proposta. Não agüento mais morar com a minha mãe e nem ganhar salário de fome. Você vai fazer tudo o que prometeu?
- Tudinho. Com a aprovação do Amaury.


Envergonhada, ela puxou o noivo e cochichou no ouvido dele. Rochinha respondeu com sorriso de satisfação:
- Combinado!

Casaram-se . Um casamento de Princesa. Igreja. Bolo. Convidados. Pose para as fotos. Abraços efusivos. Risadinhas e até comentários invejosos das amigas:

- Até que o Rochinha não é mau partido. Pelo menos agora ela tem marido.
- Prefiro o irmão do Rochinha .
- O irmão? Eu ficaria com o Rochinha mesmo. E pensar que eu o dispensei e ele começou a namorar a Sandrinha. Dá um aperto no peito.

Despediram-se dos convidados e seguiram em direção à lua-de-mel que seria em Angra dos Reis. Rochinha dirigiu dois quarteirões e parou o carro. Um homem veio na direção do casal e abriu a porta do carona. Sandrinha saiu e foi para a parte de trás do carro. Amaury sentou-se ao lado de Rochinha.

Vinte minutos depois, o carro entrou num motel na Avenida Brasil. Enquanto Sandrinha tomava banho, Rochinha e o amante transavam na cama redonda e aconchegante do quarto iluminado com uma luz vermelha. Banho tomado, Sandrinha vestiu um roupão, colocou champanhe no copo, sentou-se no sofá e observou atentamente o marido com Amaury. Em seguida, ligou para a portaria. Cinco minutos depois a campanhia tocou. Um homem alto, musculoso, de dentes brancos e olhos verdes, sorriu para ela.


Sandrinha abraçou o desconhecido, serviu-lhe uma taça de champanhe e convidou-o para entrar na suíte ao lado. Depois de um longo beijo, Sandrinha teve certeza de que a “ felicidade era uma questão de oportunidade.”

Quando ela, o marido e Amaury saíram do motel e seguiram viagem até Angra dos Reis, as últimas estrelas se escondiam. O dia prometia ser calorento. Sandrinha queria tomar um banho de mar.

17 de fev de 2010

SÓ AS FEIAS SÃO FIÉIS


O carnaval acabou e eu aproveito para fazer um convite nada carnavalesco.

O lançamento é só em março, mas não custa dar uma força desde agora e convidar a todos que me acompanham  a comparecer no lançamento do meu  livro de Contos " Só as feias são fiéis "

São 40 contos " rodriguianos" escritos numa linguagem simples, objetiva e eficaz.
Contos inspirados no lado cruel do ser humano, com suas paixões,
taras e obsessões.
Personagens entediados. Ciumentos.
Invejosos.

Pessoas comuns. Como eu. Como você. Envolvidos nas tramas e nas voltas que a vida dá.


Amanhã eu volto com um conto novo que não está no livro  !

12 de fev de 2010

O ENCONTRO



Encontraram-se vinte anos depois. Rosana atravessava a Avenida Rio Branco com um vestido verde até os joelhos, sandália de salto fino e bolsa preta. O mesmo rosto. Os cabelos pretos e longos de sempre. Namoraram na adolescência. Terminaram o romance quando ela descobriu que ele ficou com outra em uma festinha do prédio.


Para se vingar, Rosana começou a namorar Acácio, o rapaz mais bonito da rua. Almeidinha entrou em depressão. Era muito sensível. Na infância vivia em médicos por causa das alergias. Logo depois, mudou-se com os pais da Tijuca para Copacabana. Nunca mais se viram. Os ares da zona sul lhe fizeram bem. Virou um conquistador disputado. A antiga namoradinha fazia parte do passado. Formou-se em Administração de Empresas. Casou-se com Juraciara. Teve três filhos. Todos homens. Passou a sonhar com Rosana. Sonhos eróticos e românticos. Sempre que encontrava uma morena de cabelos longos, lembrava-se dos lábios doces da namorada da adolescência.


Agora Rosana estava ali, mais próxima do que nunca, atravessando a Avenida Rio Branco com passos suaves de bailarina. A boca secou. As pernas bambearam e um leve tremor tomou-lhe o corpo inteiro. Desnorteado, correu e segurou a mulher pelos braços:
- Lembra de mim?


Rosana apertou os olhos, encarou-o durante alguns segundos e depois deu um sorriso balançando a cabeça e jogando os cabelos para o lado. Conversaram na calçada como velhos conhecidos. Falaram de trabalho. Filhos. Ela casou-se com Norberto. Amigo de faculdade.

Enquanto conversavam no meio da multidão, que caminhava apressada pela Avenida Rio Branco, Rosana olhava Almeidinha com apetite de tigresa. Molhava os lábios, fazia charme, empinava o corpo. Almeidinha sentiu a proximidade e ficou excitado, em meio ao burburinho do Centro da Cidade.

Rosana falou primeiro. Ousou .Era extrovertida e decidida. Fazendo charme, pegou as mãos de Almeidinha, deslizou os dedos entre os dele e com voz de colibri fez o convite. Olharam-se por alguns segundos.
- “ Por que não?”

Almeidinha ligou para o escritório e disse que depois do banco iria ao médico com a esposa e não voltaria para o trabalho. Rosana fez o mesmo. Viraram dois adolescentes em véspera de vestibular. Procuraram um motel aconchegante. Almeidinha suspirava com ar sonhador. Rosana conduzia a cena.

Relaxaram depois de duas taças de vinho. Ele tomou coragem e depois de abraçar a namoradinha dos tempos da adolescência, beijou-a com paixão. A mulher estava indomável. Solta. Feliz. Tomou mais uma taça de vinho. Dançou para Almeidinha. Fez striptease. Tirou da bolsa brinquedinhos de sexshop e fotografou os principais momentos, no celular. Beberam mais vinho e deliciaram-se com a bandeja cheia de maçãs, pêssegos e uvas . Brincaram e exploraram cada centímetro do corpo um do outro, até ás seis da tarde. Almeidinha pensava arrependido que ao invés de Juraciara, podia ter ficado com Rosana. “Seria tarde demais para recomeçar?“ – “Vida ingrata“, blasfemou.


Despediram-se e trocaram os números do telefone. Chegou em casa e sentiu nojo ao olhar Juraciara com uma camisolinha de algodão, colocando a mesa do jantar. Não conseguiu dormir. Pensava em Rosana. No gosto. Na pele. No cheiro. Precisavam encontrar-se novamente. “Podiam fugir” – pensou com o coração apertado.

Ficariam juntos pra sempre . “Tinha algum dinheiro guardado“. Rolou na cama e só conseguiu adormecer quando o dia clareava. Saiu da cama com o corpo dolorido. Resultado da noite insone e cheia de pesadelos. Antes de entrar no escritório ligou para o celular de Rosana para lhe dar bom dia. Precisava ouvir a voz dela. Não conseguiu contato. Ligou o dia inteiro. Só na caixa postal. No carro, antes de entrar em casa, descobriu, decepcionado, que o número estava errado. Depois de várias tentativas um homem atendeu :

- O celular é meu. Meu nome é Mario e não conheço nenhuma Rosana. O senhor já ligou para o meu celular vinte e cinco vezes.

“Devo ter anotado errado. Logo ela vai me ligar” – pensou conformado. “E se nunca mais se vissem? Enlouqueceria. Precisava beijar mais uma vez o pescoço macio e aveludado de Rosana. Era paixão fulminante o que estava sentindo”.

Espantou-se ao abrir a porta do apartamento e encontrar duas malas no corredor, perto da cozinha. A esposa o olhava com olhos de coruja, mastigando os lábios, com as mãos na cintura.
- Vai viajar, Ju? - disse inocentemente.


Juraciara jogou um envelope pardo amassado no rosto do marido e ordenou com voz arrastada:
- Abre esta merda, seu porco depravado!

O sangue sumiu quando Almeidinha abriu o envelope e viu as fotos dele no motel fazendo poses ao lado de Rosana . Em uma foto, ele sorria com brinquedinhos de sexshop nas mãos. Na outra, bebia vinho . Dançava . Colocava pêssegos na boca.

Envergonhado, Almeidinha sentiu enjoo e uma forte pressão na nuca. Depois de ver a sala rodar, vomitou nos seios de Juraciara e desmaiou.

5 de fev de 2010

ROSAS VERMELHAS

Escovei os dentes, lavei o rosto, passei um perfume e dei uma olhada no relógio: sete e meia da noite. Saí do plantão e antes de voltar pra casa, passei num boteco perto do hospital e pedi pão com pernil e um refrigerante. Fazia meu lanche olhando pra televisão do bar, quando um casal discutindo entrou e sentou do meu lado. A mulher estava com um vestido vermelho curto e uma maquiagem carregada. Os cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo. O homem vestia uma calça jeans e uma camiseta branca. Gesticulava, falava alto e grosso. O bar tinha pouca freguesia. Ouvi com atenção a conversa. Ele falava, e ela chorava.


- Será que você não entende? Acabou. A minha mulher está desconfiada.
- Mentira . Você quer pular fora. Sei que já tem outra.
- Outra? Duas me dão trabalho demais. Vou arrumar três? Só se eu fosse maluco.

O choro da mulher aumentou. Olhei de canto de olho e percebi que o homem estava impaciente. Franzia a testa, batia com os dedos na mesa e olhava para o teto. Num gesto brusco, empurrou a cadeira, se levantou e saiu sem dizer nada. O choro da mulher aumentou. Fiquei com pena. Peguei um guardanapo de papel e ofereci.

Ela enxugou as lágrimas e assoou o nariz:
- Viu só o que ele me fez? Vocês não prestam.
- Não me mete nos seus rolos. Cheguei agora. Não tenho nada com isso.


Ela pulou para a minha mesa e agarrou minhas mãos:
- Desculpe, não falei por mal. Estou muito nervosa.


Dei um sorriso de cortesia, peguei um palito e fiquei brincando com ele para descarregar a tensão. A mulher pegou outro guardanapo e voltou a assoar o nariz. Com voz agressiva me perguntou:

- Você é casado?
- Pra que você quer saber?
- Curiosidade, mas se não quer dizer respeito sua privacidade.
- Muito obrigado. Bom, eu já vou indo. Boa sorte.
- Não, fica comigo – segurou na minha camisa num gesto de desespero.
- Preciso de companhia. Se você for embora, posso fazer uma besteira.
- Eu tô cansado. Saí do plantão agora e preciso dormir.
- Você é médico?
- Enfermeiro.
- Você trabalha no hospital da esquina?
- Trabalho. Espero que você não precise, mas se precisar é só me procurar. Desculpe, tenho que ir.

Ela insistiu. Puxou assunto e segurou meus braços pedindo para eu ficar. Olhei mais uma vez o relógio : Nove horas. Penalizado, concordei.

- Qual é seu nome? Você não me disse seu nome.
- Elisa , mas pode me chamar de Isa.
- Tá bom, Isa.


Engrenamos uma conversa animada. Isa era uma mulher carente, meiga e engraçada. Pedi uma cerveja para relaxar. Ela bebeu comigo. Duas horas depois já tínhamos entornado cinco cervejas. Paguei a conta, agradeci a Isa e me preparei para chamar um táxi.

- Bom, acho que agora você já está melhor. Está rindo à toa.
- Você me fez bem. Não sei o que teria acontecido se eu não tivesse te encontrado.
- E você? O que vai fazer a respeito do cara?
- Nada. Há dois meses ele vem tentando terminar comigo. Ontem ensandeci e liguei vinte vezes para o celular dele.
- Você é obcecada. Fiquei com medo agora – brinquei.
- Pois é. Acho que ele também ficou com medo. Hoje ele me procurou porque ameacei ir na casa dele contar para a esposa que somos amantes.
- Isso não se faz – comentei debochado - Sem chance de volta, então?
- Infelizmente, sim. E você? Ainda não me disse se é casado. Se tem alguém.
- Você é muito curiosa. Eu preciso ir.


Andávamos sem destino. Isa me olhava com jeito de cachorrinho pidão. Esperei-a se aproximar. Ela tomou a iniciativa. Pegou nos meus braços, ficou na ponta dos pés e falou baixinho no meu ouvido:

- Dorme comigo. Só hoje. Estou tão carente.

Cocei a cabeça. Olhei mais uma vez para o relógio: Meia-noite. Não deixaria uma mulher sozinha na rua, àquela hora. Peguei Isa pelo braço e fomos caminhando em ziguezague pelo meio-fio. A noite estava quente e o céu estrelado. Um vendedor de rosas passou ao lado de Isa, e ela o fez parar:
- Adoro rosas vermelhas. Compra pra mim?


Peguei uma rosa e entreguei para ela. Ficamos em silêncio durante cinco minutos.
- O que aconteceu? Você ficou triste de repente. Falei alguma coisa que não devia?
- Não é nada com você. Coisa minha.


Olhei para o letreiro e puxei Isa:
- Tô com sono. Vamos dormir?


O quarto era pequeno, simples e limpo. Uma cama de casal, um espelho no teto, duas mesinhas de cabeceira e um banheiro com cheiro de eucalipto. Isa entrou no banheiro, tirou a roupa, e abriu o chuveiro.

- Você não vem? A água está uma delícia.
- Bom proveito.

Deitei de cueca e liguei a televisão em qualquer canal. Apenas para distrair meus pensamentos.

Isa voltou pra cama de roupão. Fingi que dormia. Ela desligou a televisão, passou a perna por cima do meu corpo e logo adormeceu. Acordei com o sol entrando pela fresta da cortina. Olhei o relógio e dei um pulo. Dormi demais: Nove e meia. Tinha que voltar pra casa.. Chamei Isa. Ela se espreguiçou durante alguns segundos, vestiu a roupa e não fez comentário sobre a noite anterior. Olhei para ela coçando o queixo:

- Vou direto pra casa. Tenho muita coisa pra resolver.

Isa deu apenas um sorriso e balançou a cabeça constrangida. Pedi um café simples com torradas para não sairmos de estômago vazio. Não toquei nas torradas. Bebi duas xícaras de café sem açúcar. Na rua nos despedimos sem promessas. Dei-lhe um beijo no rosto. Isa passou as mãos pelos meus cabelos:

- Obrigada por ficar comigo. Você é um cara legal.

Assim que virei a esquina, entrei numa floricultura e comprei um buquê de rosas vermelhas. Peguei um ônibus e segui para o Catumbi com um nó preso na garganta.

Cheguei no cemitério perto da hora do almoço. Segui direto para a sepultura de Elaine. Ela morreu atropelada na esquina de casa, faltando uma semana para o nosso casamento. Adorava rosas vermelhas, filmes de suspense e sorvete de creme.

Coloquei o buquê em cima da sepultura e fiz uma oração.

Saí do cemitério com o sol a pino. Comprei uma garrafa de água mineral e peguei um ônibus para o Engenho Novo. Preciso ir ao banco e depois passar na casa da minha mãe. Sete horas tenho plantão em outro hospital.