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30 de jan de 2010

A REVELAÇÃO DA NOIVA


Final de expediente. Neide se despede da colega de trabalho no ponto de ônibus. Sueli  deseja boa sorte.

- Vai dar tudo certo. Você vai ver.
- Vou precisar. Será mesmo que tenho que falar?
-Conta . Vocês vão se casar. Não pode haver segredos .

Despedem-se com um abraço carinhoso. Vinte minutos depois Neide desce na porta do trabalho do noivo. A chuva começa a cair. Ela corre protegendo-se com a bolsa, e se abriga embaixo da marquise . Dá um suspiro de irritação e liga para Lúcio:

- Seis e meia. Vai fazer hora extra? Então anda logo. Já cheguei. Estou na portaria te esperando.

Quinze minutos depois Lúcio aparece apressado:
-Até que enfim!
- Neide, você não pode ficar chateada. Isso não é brincadeira. É meu trabalho. Hoje é quarta-feira. O que tanto você quer falar comigo?
- Precisamos conversar. Urgente.

Lúcio pega a noiva pelo braço . Os dois seguem para a garagem da empresa. Antes de dar a partida no carro, ele pergunta:
- A conversa vai ser na minha ou na sua casa?
- Não. Nada de casa. Tem sempre alguém para atrapalhar. Telefone. Cachorro latindo...
- Então a conversa é séria?!
- Muito. Tem que ser lugar calmo.
- Motel.
- Motel coisa nenhuma. Vamos naquele barzinho lá perto de casa.

Seguem para o bar em silêncio como se houvesse entre os dois o peso do mundo. Descem do carro. A chuva já parara. Lúcio suspira e ajeita a camisa. Neide reclama:

- Sempre cansado e com esse olhar de peixe morto.
- Trabalhei duro o dia todo.
- Você vive cansado. Deve ser por isso!
- Por isso o quê?

Neide desconversa. Entram no bar procurando uma mesa. Lúcio puxa a noiva para uma mesinha de canto com dois lugares. Pede dois chopes e verifica se está com os cartões do banco. Passa a mão pelos cabelos e finalmente pergunta:

- Fala. O que aconteceu?
- Vamos nos casar daqui a duas semanas.
- Sim e daí?
- Daí que não pode existir mentira entre nós.
- E qual é a mentira que existe entre nós? Não faz suspense. Fala logo.

O garçom chega com os chopes, dá um sorriso, pega o cardápio e fica esperando o pedido. Lúcio mexe nas sobrancelhas, e passa a mão na boca:
- Uma pizza média de calabresa.


O garçom se afasta. Ele pressiona a futura esposa:
- Chega de suspense. O que está acontecendo?

Neide sente o rosto corar e começa a coçar os braços, nervosa. Olha para os lados procurando disfarçar:
- Eu não sei como você vai receber a notícia, mas preciso dizer.
- Você já está me irritando. Não quer mais casar, é isso?
- Não. Não é isso. Pelo amor de Deus!
- Então o que é?
- Lúcio, nesses três anos que estamos juntos, nunca gozei com você.

O noivo franze a testa e faz cara de espanto :
- O quê?
- Isso que você escutou. Não posso falar mais alto, alguém pode ouvir.

Lúcio toma o chope de um gole só. Chama o garçom:
- Suspende a pizza e vê quanto dá os dois chopes.

Levantam-se e saem do restaurante. Lúcio sai na frente, caminhando pesado. Neide o segue com passos apressados:
- Ei , dá para andar mais devagar?

Não tem resposta. Entram no carro calados. A noiva de Lúcio começa a chorar e funga entre uma lágrima e outra:
- Vai ficar fazendo tipinho agora? Parece que confessei uma traição.
- E mentir não é traição? Fingir durante três anos? TRÊS?

Neide defende-se:
- Acho melhor ser sincera antes do casamento . A gente pode tentar novas posições....

Lúcio dá uma gargalhada nervosa e continua dirigindo sem olhar para os lados. Chegam na porta da casa dela. Despede-se de Neide, friamente:

- Pode sair . Está entregue.
- Nossa , quanta grosseria! É só o que você tem pra dizer?
- Quer que eu diga o quê? Detesto mentira. Dizia que gozava gostoso comigo. Uma. Duas vezes.
 Desculpe. Só queria agradar. Não vai me perdoar?
- Quem mente por causa disso, mente por outras coisas também. Não tem perdão.
- Estou sendo sincera. Você não pode brigar comigo por causa de uma bobagem.
- Bobagem? Faltando 2 semanas para o casamento e você me vem com historinha? Você feriu minha dignidade. Não confio mais em você. Sai do meu carro.
- Você não pode fazer isso.....perdoa...
- Sai do meu carro! ACABOU, Neide. ACABOU!

A mulher entra em desespero. Implora. Segura o noivo pelo braço . Ele a empurra.
- Sai do meu carro. Você não entende? Para o homem isso é muito importante.
- Mas podemos consertar. Nos amamos.
- Quem ama não mente. Não dá para casar com uma mentirosa! Paro por aqui.
- Você quer dizer que não vai ter mais casamento?
- Nossa, como você é inteligente! – ironizou.

Neide sai do carro aos prantos. Lúcio respira fundo. Os olhos brilham. Passa a língua pela boca, pega o celular e faz uma ligação:
- Não vai haver mais casamento. Não disse que conseguia?


Do outro lado, a voz feminina grita eufórica :

- Juraaaaaaaaaa?????? Você agora é só meu? Só meu?
- Só seu. Mas você precisa me responder uma coisa. Uma coisinha só.
- O que você quiser, meu amor!
- Você goza ou finge que goza quando estamos transando? Não mente!

24 de jan de 2010

SURPRESA DE ESPOSA

Três da madrugada. Subiu as escadas cambaleando. O hálito de cerveja o incomodava. O estômago apertava. A cabeça girava. Antes de entrar em casa, pegou uma bala de hortelã e colocou na boca. Procurou a chave no bolso da calça. Nada. Procurou no bolso do paletó. Ouviu um barulhinho.Finalmente. Pegou e rodou a chave na fechadura, devagar, para não fazer barulho.

O Poodle da vizinha latiu. Deu um pulo para trás. Prometera a Elvira nunca mais chegar tarde. Ela o ameaçara. Terminaria o casamento se acontecesse de novo. Não queria trair a esposa. Mas não resistiu. Tinha a cabeça mole demais. As mulheres eram seu ponto fraco. Elas o provocavam. Tinha imã. Atraía mulheres de todos os tipos e idade. A loira era linda. Um fenômeno. Acenou com o olhar enquanto atravessavam a Avenida Rio Branco. Os bicos dos seios endurecidos na blusa transparente lhe deram vertigem. Quase morre atropelado. Ela o puxou para a calçada antes que o ônibus o deixasse no asfalto . Estavam embriagados de tesão.

Fez o convite. Beberam e gargalharam como velhos conhecidos. Terminaram a noite num motel ordinário no Centro da Cidade. Quase três da manhã lembrou-se de Elvira. O coração acelerou. Deixou a loira perto de casa. Fingiu que anotou o telefone no celular. O aparelho estava desligado.

Abriu a porta. Colocou os pés na sala com o coração acelerado. Deu um pulo. A luz do abajur clareou o rosto de Elvira. A esposa estava com os olhos trepidando de ódio. Um sorriso de mulher mofada na boca pequena. A cadeira de balanço rangia. Nas mãos, ela segurava uma arma. Lambia os beiços. Passional. Desgovernada. Num gesto de desespero, tentou desarmá-la. Só que, enquanto ele saía com as outras, ela treinava pontaria. Um tiro no coração. Sem barulho . Eficaz.

Com pose de vilã de filme de bang-bang, saiu da cadeira, chutou o corpo com cara de nojo, cuspiu no rosto do morto, colocou a arma dentro da mala, trancou a casa e desceu as escadas em silêncio. Na calçada, um Monza 89 esperava-a com os faróis ligados. Na direção, uma mulher com o cabelo pintado de duas cores fazia sinal . Entrou no carro. Olharam-se cheias de cumplicidade. A motorista partiu apressada. Elvira respirou aliviada. Missão cumprida.

14 de jan de 2010

ALMOÇO DE DOMINGO

Maria José arrumou a mesa da sala, ajeitou pratos, talheres, refrigerantes e chamou o marido, o filho e a vizinha Solange para o almoço. Enquanto sentavam-se à mesa, ela entrou na cozinha para pegar as travessas. Solange gritou:

- Quer uma ajuda?
- Não. Fica sentadinha aí que faço tudo. Eu gosto.

Primeiro chegou com a travessa de macarrão, depois com o frango, sentou-se e quando ia se servir, Tavares reclamou:

- De novo?
- De novo o quê?
- Frango com macarrão? Todo domingo a mesma coisa?
- Você tem ideia melhor? – desafiou Maria José.
- Tenho. Empadão de frango. Lasanha. Feijoada. Você sabe que eu adoro empadão.
- Macarrão com frango dá menos trabalho e você sempre gostou.
- Mas todo domingo? Enjoa.

Alheio ao bate-boca que se formou entre os pais, Juninho se serviu:
- Eu tô morrendo de fome. Vou pegar, tá mãe?
- Pega sim, meu filho. Pega o quanto quiser, tem mais na cozinha.

Silenciosamente, a vizinha, serviu-se de macarrão e pegou dois pedaços de frango. Maria José também botou a comida no prato, enquanto Tavares continuava reclamando:

- Me recuso a comer frango com macarrão. Não quero!
- Tavares, olha o vexame, primeira vez que eu convido a Solange para vir almoçar aqui e você arruma confusão?
- Dane-se.Eu não agüento mais comer macarrão com frango todo domingo. Tortura.
- Então fica com fome, seu grosso.
- Não vou ficar com fome, não.
- Ah não? E vai fazer o quê?
- Vou comer no boteco da esquina. Pelo menos lá eu sou bem tratado.
- Você pensa que me engana, Tavares? Tá é arrumando desculpa para ir almoçar na casa da vagabunda do segundo andar.
- Que vagabunda?
- Você pensa que eu não sei que você e ela estão de coisinha? Pensa que a sua cara de pau me engana? Quando você ia, eu vinha.
- Quê isso? Olha o menino na mesa. Isso não é assunto para a hora do almoço, nem na frente da Solange.
- E é assunto pra quando? Você vive criando briguinhas e picuinhas, tenho certeza que você quer uma desculpa pra ir para a casa da vagaba.
- Quê isso, Maria José! Você nem conhece a moça!
- Como não conheço? A vagaba adora dar show nas reuniões de condomínio com aquela saia micro e as pernas cheias de celulite!

A discussão cresceu. Com medo que voassem as travessas do frango e do macarrão, Solange disfarçou e levou-as de volta pra cozinha.
- Vocês desculpem, eu estou tirando porque acho que todo mundo já acabou.

Maria José respondeu irritada:
- Tira sim, que o meu marido traidor não vai mais comer em casa. E ainda conseguiu estragar o almoço de todo mundo.

Acostumado com as discussões entre os pais, Juninho acabou de almoçar, pegou a bola de futebol e desceu para o playground. Maria José e Tavares continuaram discutindo. Irritada com os gritos do marido, a mulher o ofendeu na frente da vizinha:

- E sabe do que mais, Tavares? Você é um merda. Um homem que não presta nem pra trepar, devia mesmo era comer pedra . Da próxima vez eu vou te dar pedra pra comer. PEDRA!

Vermelho e com as bochechas tremendo, o homem decidiu :
- Vou pra rua agora antes que eu tenha um treco!
- Isso. Se manda. Vai comer na casa da vagabunda!

Tavares ainda ficou alguns minutos no corredor, andando de um lado para o outro. Nervoso, pegou o elevador e apertou o botão. Saiu no segundo andar. No corredor olhou desconfiado de um lado para o outro e tocou no 202. Elisa abriu a porta de short e mini-blusa. Ao ver Tavares deu um gritinho de satisfação:
- Que milagre é esse? Tocando aqui em casa domingo? Cuidado, os vizinhos podem ver e vão contar para a Maria José camburão – debochou.
- Fica tranqüila. Arrumei uma briga para poder sair de casa. Tem alguma coisa aí pra comer? Tô morrendo de fome.
- Acabei de colocar o almoço na mesa. Especialidade da casa : Frango com macarrão.

Faminto, Tavares avançou nas travessas. Comeu com satisfação de criança. Enquanto se lambuzava com a comida, Maria José e Solange assistiam a um DVD de comédia romântica. Empolgada com o filme, a vizinha alisou os cabelos de Maria José. Não encontrou resistência e arriscou:

- Você teria coragem de beijar uma mulher na boca?
- Beijo – disse mordendo os lábios - Em troca você vai fazer o almoço de domingo que vem.
- Eu?
- Uma lasanha, especialmente para o Tavares.
- Fala, o que é que você está aprontando?
- Você não reclamou que a sua cozinha está cheia de formigas?

As duas se olharam e caíram na gargalhada.

8 de jan de 2010

OS AMANTES DE GISELE

Quando Rafael fechou a porta, a velha sensação de fracasso tomou conta de mim . Estava sozinha novamente. Pensei: “o que Rafael havia me acrescentado nos 4 anos de relacionamento?” Me magoava com desconfianças e humilhações. Implicava por pequenas coisas.... muitas vezes, depois de pintar os cabelos no salão, quando chegava em casa, ao invés de elogios, era recebida com deboche:

-Gastando dinheiro com besteira? Você nunca vai ficar bonita.....só se fizer plástica!


As agressões de Rafael me deixavam paralisada. Lembrava da minha infância na Baixada Fluminense, quando brincava nas ruas enlameadas de Caxias, de pés descalços e vestido de chita. Meu pai chegava bêbado, tropeçando nas pernas. Quando me via rindo com outras crianças, me pegava pelo braço e me empurrava para dentro de casa:

-Vadia, é isso o que você é. Gisele: a exibidinha. Vai esquentar minha janta que sua mãe ainda não chegou do trabalho e eu estou morto de fome!

Lá ia eu, de cabeça baixa, ombros caídos e descalça, fazer o que papai queria. Esquentava a comida, com lágrimas caindo pelos meus olhos pequenos e entristecidos. Antes de servir o jantar, limpava meu rosto magro molhado pelo choro, com um pano de prato. Colocava a mesa sem dizer uma palavra. Meu pai comia feito um bicho. Pedia mais. Era insaciável. Depois, enquanto eu lavava a louça, ele puxava meu vestido e me acariciava por cima da calcinha. Sentia uma mistura de nojo e prazer.

Me tornei adolescente, tomei corpo e nunca falei para minha mãe dos momentos íntimos com meu pai. Se eu contasse, não ganharia balas. Quando me tornei adolescente, papai me dava dinheiro. Em troca, eu o acariciava. Tinha verdadeira repulsa. Mas precisava da grana para comprar cigarros e bijuterias. A cada trepada, eu ia para o banheiro, ligava o chuveiro e deixava a água fria banhar meu corpo curvilíneo. Tinha ânsia de vômito quando lembrava do pescoço azedo de papai perto da minha boca.

Minha vida mudou quando completei 18 anos. Eu, meu pai e minha mãe jantávamos na sala. Como sempre, papai falava alto e gesticulava muito. A comida escorria pelo canto da boca se misturando à saliva. Numa fração de segundos ficou vermelho.... tombou da cadeira, caiu no chão e colocou a mão no pescoço. Queria buscar fôlego e não conseguia. A língua arroxeada caiu pelo canto da boca. Me esticou uma das mãos pedindo socorro. Mamãe ficou impassível. Tentei fazer alguma coisa. Me abaixei, sacudi, gritava num misto de medo, desespero e alegria:

-Papai... pára de brincadeira!? Levanta daí...

Morreu. Envenenado. Duas semanas depois, eu e minha mãe assistíamos televisão quando a polícia prendeu mamãe . Ela saiu algemada de casa. Chorei convulsivamente. Fui morar na zona norte na casa do irmão de minha mãe e da esposa dele. Eles não tinham filhos.

Só então tive uma vida igual à das moças da minha idade. Festinhas, namoros e estudo. Meu tio pagou meu curso de Nutrição. Aparentemente sou feliz. Dentro de mim, porém, um buraco negro de dias torturantes me acompanha sempre. Lembro das cenas de sexo com meu pai. Da agonia da morte. Das algemas lustradas nos pulsos de mamãe. Cada relacionamento que acaba, as recordações voltam à minha mente. Vejo papai na minha frente, com dedo em riste, bronqueando comigo:

-Você ainda é a minha vadia. A minha Gisele exibidinha!

Outro dia recomendava uma dieta para uma cliente obesa. E ela reclamava do marido:
-Depois que engordei meu marido arranjou uma amante. Me despreza. Mas não tem coragem de se separar. O dinheiro é meu... se ele pede a separação fica pobre ... então cheguei para ele e disse: ou fode comigo ou não tem mais dinheiro!

Me contou essa história escrota e depois ainda fez cara de poderosa. Levantou as sobrancelhas e começou a rir. Fiquei com raiva da gorda. Lembrei que tinha nojo de meu pai, mas transava para receber balas e dinheiro. Encaminhei a gorda para um colega de profissão. Quando penso nessa anta filha da puta e chantagista, me dá asco.

O problema é que, apesar das relações conturbadas lembrarem meu pai, só me relacionei com homens problemáticos. O primeiro homem com quem vivi era viciado em drogas. Me batia, me chamava de vagabunda e roubava meu dinheiro para comprar cocaína. Me livrei dele quando foi assassinado. Chorei a morte do desgraçado. Porém, logo esqueci meus dias de calvário. Meus sofrimentos sempre foram descartáveis. Assim como as pessoas.

Vivi com meu segundo amante um ano apenas. Eu o conheci na fila da padaria. Comprávamos pão no mesmo horário. Era mecânico perto da minha casa. Aquela mão suja de graxa me excitava. No dia que me deu o cartão da oficina onde trabalhava, fiquei mal intencionada. Dois dias depois levei o carro para revisão. Em uma semana, o mecânico se deitou na minha cama e entrou na minha vida. No início era dócil. Me enlouquecia de prazer. O cheiro de fumo lembrava meu pai. Os dois misturavam água de colônia com cheiro de cigarro. Eu me envergonhava de apresentá-lo às minhas amigas. Ele me cobrou:

-Só por que não tenho canudo você não me apresenta às suas amigas? Fresca. Convencida. Babaca!

Quando me agrediu fisicamente dei parte à polícia. Me mudei. Nunca soube o que aconteceu depois. Não apareci na delegacia e nem vi mais o mecânico. Senti falta do sexo gostoso quando o abandonei. Mas se eu não tomasse uma atitude, um dia ele me matava. Foi o melhor homem que tive na cama.

Meu terceiro amante, antes do Rafael, foi o mais velho de todos. Fisicamente era parecido com meu pai. Tinha um olhar petulante, as sobrancelhas grossas e os lábios bem vermelhos. Era gerente de banco. Me decepcionei quando um dia cheguei em casa e o peguei na cama com o caixa . Expulsei-o da minha casa com as calças na mão.

Me senti um barco naufragado. Na profissão meus clientes são compulsivos e querem dietas milagrosas. Bando de ansiosos depravados! Na vida sentimental não me acerto com ninguém. Meu passado me persegue. O cheiro de azedo de meu pai. Ele caindo da cadeira e se debatendo. Minha mãe algemada. Eu preciso de um psicólogo. Urgente! Quero sair de mim.

Pensei que Rafael pudesse me transformar. Quando o conheci era bem-humorado e fazia piada de tudo. Aprendi a rir com o Rafa. Ria de fazer cócegas no esôfago. Menos de um ano e já morávamos juntos. Durante um tempo fomos felizes. Embora debochasse das minhas roupas discretas e sem graça. Só que das roupas, passou a implicar com as amigas. Me descartei de todas. Desconfiava dos meus clientes obesos. E quando eu não queria foder, se masturbava na minha frente. Isso me lembrava papai quando pedia que eu o masturbasse. Acabava de masturbá-lo, corria para o banheiro e lavava as mãos durante 10 minutos. Ás vezes mamãe chegava do trabalho e me via no banheiro me lavando. Impaciente gritava para papai:

-Que porra essa menina tem que tanto lava as mãos? Vou levar essa garota ao médico. Ela é muito esquisita.

As semelhanças entre papai e Rafa aumentaram. As agressões verbais viraram rotina. Optamos pela separação. Ele já tinha outra:

-Tenho outra sim e trepa muito melhor do que você!

Novamente o buraco negro. A porta bateu. Ele partiu. Não volta mais. Sempre foi assim. O cheiro de azedo. papai se debatendo.... mamãe algemada.....

Corri para o quarto, abri meu armário e peguei com as duas mãos minha caixinha mágica. Depois deitei na cama e me encolhi toda. Fiquei admirando a caixinha de madeira, de fios dourados nas laterais, pintada com uma rosa no meio e cadeado prateado. Ganhei a caixinha de mamãe quando tinha 8 anos. Ela disse que eu a guardasse e quando estivesse triste, abrisse. Nela encontraria a felicidade. Nunca abri a caixinha.

Quando Rafael fazia as malas para ir embora, ligaram do presídio para avisar da morte de mamãe. Uma saudade do que ainda estava por vir me invadiu. Com cuidado, coloquei a chave no cadeado, rodei e abri a caixinha. Não tinha nada. Lágrimas de emoção escorreram pela minha face. Pela primeira vez entendi o que mamãe quis me dizer.

2 de jan de 2010

COISINHAS DE AMIGA

Cinco e quinze da tarde. Final de expediente. A chuva fina fez o trânsito ficar ainda mais lento. No ônibus, Celina olhava toda hora para o relógio. O celular tocou. Não conseguia encontrar o aparelho dentro da enorme bolsa. Pediu ao homem sentado ao lado para segurar seus objetos pessoais, enquanto procurava o celular. Assim que o encontrou, ele parou de tocar. O passageiro comentou:

- Acontece sempre comigo.

Celina deu um sorriso de agradecimento e esperou o celular tocar novamente.

- Já estou chegando, Nicinha . É o trânsito.

Desceu do coletivo, apressada. Encontrou a amiga no bar pedindo o terceiro chope. Antes de se acomodar na cadeira, perguntou curiosa:

- E aí, terminaram?
- Sim.
- Contou que eu o vi com outra?
- Eu disse que quem viu fui eu. Não quis te comprometer.
- E ele?
- Disse que inventei uma desculpa para terminar, mas iria respeitar minha decisão.
- Os homens não valem nada! – comentou com voz de desprezo.
- É, e eu estou com nojo do Marcos César!
- Esquece. Daqui a pouco você arranja outro. Vamos comemorar sua solteirice.


Beberem e conversarem futilidades. Foram juntas pra casa. Moravam na mesma rua.

Antes de se despedir da amiga, Nicinha pediu , chorosa:
- Vou precisar muito do seu apoio agora que estou sozinha.
- Sou sua amiga. Quando precisar desabafar, é só ligar.


Nicinha abriu a porta e encontrou a mãe cochilando no sofá da sala. Ela deixou uma estátua cair. Dona Izaldina acordou com o barulho:

- Que bicho mordeu você? Já chega derrubando as coisas. Que cara é essa, filha?
- Mãe, se o Marcos César ligar, diz que eu não estou.
- Brigaram de novo?
- Terminei. Ele me traiu .
- Você viu?
- Quem viu foi a Celina .
- Aquela encalhada? Vai atrás. Ela tá é de olho no seu namorado. Aquela lá é uma invejosa.
- Olha o veneno, mãe. Celina é minha amigona.
- Quando tem homem no meio, mulher nenhuma é amiga.

Nicinha preferiu não argumentar. O dia havia sido cansativo demais para entrar em polêmica. Em silêncio, fechou a porta do quarto para tentar dormir. Deitou-se e começou a chorar lembrando de Marcos César. Acordou antes das sete com gosto de ressaca . Assim que abriu os olhos pensou: “ Teria feito a coisa certa?”

Tomou um banho frio para pensar melhor. Na cozinha fez um café bem forte. Passou o final de semana escutando música e remexendo papéis. Não disfarçou a ponta de decepção. Pensou que o ex-namorado fosse procurá-la . Segunda-feira antes de sair para o trabalhou, ainda se certificou :

- Mãe, o Marcos César ligou?
- Você passou o final de semana todo em casa. Ouviu o telefone tocar?


Trabalhou de má vontade. Celina ligava todos dias, atenciosa, incentivando-a arranjar novo namorado. Um mês e nem um e-mail de Marcos César. Nenhuma notícia. Nada. Conversando com Celina depois de um café com bolo na casa da amiga, comentou com ressentimento na voz:

- Acredita? Ele nunca me ligou. Nem para devolver minhas roupas que ficaram na casa dele .
- Parte pra outra. Eu não disse que ele não prestava?


Nicinha quase desmaiou quando, dois meses sem ter notícias do ex, entrou numa sorveteria com a prima e viu Celina e Marcos César aos beijos . Congelou. Os olhos queriam saltar do rosto. O cabelo arrepiou. Fez menção de se aproximar do casal. A prima impediu, segurando-a com força pelo braço:

- Calma! Só você não percebia que a Celina tinha inveja de você e do Marcos César. Ela intrigou vocês pra ficar com ele.
- Ela parecia tão sincera.
- Os invejosos dominam com perfeição a arte da dissimulação.


Quando Celina procurou-a para contar que namorava Marcos César, Nicinha fingiu não se importar:

- Melhor estar com a minha melhor amiga do que com outra. Se der casamento, quero ser madrinha – mentiu despeitada.

“Lutaria com as mesmas armas de Celina” – pensou com o coração ardendo de ódio. Surpreendeu-se com o próprio fingimento . Arranjou um namorado para ficar mais perto do casal. Passaram a sair todos juntos. Tornaram-se inseparáveis. Nicinha aparentava uma felicidade de fachada. Um ano depois, Celina e Marcos César anunciaram o casamento. Ela fez questão de ser madrinha e ainda deu a lua-de-mel de presente.

Quando Celina e Marcos César voltaram da viagem, surpreenderam-se com a transformação da amiga. Nicinha terminou o namoro enfadonho. Colocou silicone nos seios e mudou o guarda-roupa. Passou a usar decotes provocantes e minissaias ousadas Pintou os cabelos de ruivo, afinou a sobrancelha, engrossou os lábios e colocou lentes de contato verde . Marcos César surpreso, gostou .Celina enciumou .

Na primeira semana de trabalho, Marcos César encontrou Nicinha almoçando sozinha num restaurante, perto do escritório dele. Passaram a almoçar duas vezes por semana. Provocante, Nicinha passou a assediá-lo! Não demorou para que o almoço passasse a ser no motel. Encantado com as artimanhas da ex, Marcos César propôs:
- Meu casamento com a Celina foi um erro. Vou me separar para ficarmos juntos.


Com ares de poder, Nicinha jogou o cabelo de lado, empinou os seios e arrastando a voz, sentenciou:
- Prefiro ser amante! Dá mais tesão. As amantes se divertem mais.