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22 de dez de 2009

RECORDAÇÕES


Lúcio estacionou o carro em frente ao número 54 da Rua Leopoldo. Olhou mais uma vez o papel. As mãos suavam .O suor escorria pela testa. Parecia um adolescente tímido. Largou o volante e esfregou uma mão na outra. “Então era naquela Vila que Denise morava? Wilson garantiu que sim“.

A noite estrelada o convidou às recordações. Lembrou-se de Denise. Do sorriso meigo. Da boca carnuda. Dos cabelos sedosos. Conheceram-se na adolescência. Moravam no mesmo prédio. Brincavam de pique-bandeira, pique-esconde. Adoravam jogos de estratégia. Aos 16 anos começaram a namorar. A primeira namorada. Primeira mulher. Amavam-se às escondidas pelas escadas do prédio, suando e cheios de pressa, com medo de serem descobertos pelos vizinhos.

O namoro terminou quando Denise se mudou para outro bairro. Encontraram-se ainda algumas vezes na praia. Depois que entraram para a faculdade, nunca mais se viram. A última vez que soube de Denise, ela formara-se professora de Literatura e estava casada com um dentista.


Ele casou-se com Nadir. Tiveram três filhos. Montou um escritório de contabilidade . Vivia uma rotina tranquila. A vida estruturada desmoronou com o câncer da esposa. Dois anos de sofrimento. Ela morreu nos braços dele. No velório de Nadir, pensou em Denise. “Como será que ela está? Teve filhos? Separou? Ama o marido?“

Durante um ano tentou localizá-la através da internet. Uma maneira de se distrair e suportar a perda da esposa . Não teve sucesso. Por coincidência do destino, encontrou Wilson numa festinha de criança. Quando adolescentes, os três moraram no mesmo prédio. Perguntou se ele tinha notícias de Denise. Dois anos antes vira-a no Centro da Cidade. Contou que ela morava na mesma Vila do tio dele. Estava casada mas não tinha filhos.

Lúcio pediu o endereço. “O que fazia?“ – pensou. “Ela estava casada. Não tinha o direito de estragar a felicidade da ex-namorada. Mas a curiosidade era maior”

O endereço de Denise deslizou por entre os seus dedos durante duas semanas. Agora estava diante da casa dela. Queria ver Denise, mesmo de longe. “Será que ela o reconheceria? Lembraria dos bons momentos depois de vinte e cinco anos? E se ele se aproximasse e ela o rejeitasse? Era melhor não mexer no passado”.

Saiu do carro impulsivamente. Amassou o papel. Jogou na calçada, atravessou a rua e tocou o interfone. Número 54, casa 8. “Precisava ver Denise. Tinha urgência. E se o marido atendesse?”


Tocou novamente. Um morador abriu a porta e fez sinal para ele entrar. Agradeceu . Preferiu continuar na calçada. Finalmente escutou uma voz do outro lado. Voz de homem. “ O marido dela . E agora? O que eu digo?” – pensou.

A voz insistiu, irritada:

- “ Alô?! Quem é? Não vai responder?’”

Entrou no carro sentindo-se culpado. Pensou em Nadir. “O que ele fazia ali? Precisava livrar-se das lembranças. Quem sabe viajar para a Bahia? Aceitaria o desafio de abrir um escritório em outro lugar . Melhor assim”.

Denise apareceu na sala cheia de embrulhos. Olhou para o cunhado com ar de interrogação:

- “Quem era?’
- Ninguém.
- Ninguém?
- Não responderam. Devem ter tocado errado.


Denise esticou os braços:

- Pronto. Aqui estão as roupas do seu irmão. Dê para uma casa de caridade. É muito duro guardar tudo isso . Nem parece, né? Seis meses que ele se foi .


Leandro abraçou Denise:

- Força, cunhada. Domingo, eu, Zoraide e as crianças estaremos aqui para almoçar com você.

Sorriu desanimada. Levou Leandro até a porta. Despediram-se. Entrou em casa melancólica. Voltou para o quarto. Abriu uma caixinha que guardava desde os tempos da adolescência. Pegou uma foto de Lúcio: “Por que ainda tenho essa fotografia comigo?” Rasgou. Jogou na lixeira. e preparou-e para dormir. “No fundo – pensou – tinha certeza que nunca mais o veria“.

Adormeceu.

Sonhou que dançava uma valsa . O par não tinha rosto. Sabia que era Lúcio.

14 de dez de 2009

COMPRAS DE NATAL



Ernestina arrumou a mesa, acordou as crianças e chamou o marido:

- Abílio, levanta e vai tomar café para irmos ao shopping.
-Que horas são?
- Nove .
- Só? Acordo cedo a semana inteira, hoje tenho direito de ficar na cama até mais tarde.

Voltou a se cobrir e fechou os olhos. Ernestina sacudiu o marido contrariada:

- É melhor irmos cedo, mais tarde o shopping vai ficar cheio.
- Não dá para ir sozinha com as crianças? Eu pego vocês na hora da saída.
- Nada disso. Ano passado eu dei uma camiseta que não coube no seu pai e sua mãe encheu meus ouvidos. Lembra? Esse ano você vai comigo.

Abílio coçou a cabeça e se espreguiçou. Tomou café de mau-humor. Entrou na garagem mais relaxado, porém voltou a ficar mal-humorado quando saíram com o carro e Ernestina deu um gritinho:

- Estaciona rapidinho em frente ao prédio. Vou lá em cima.
- Pra quê? Tá com vontade de ir ao banheiro?
- Esqueci a lista dos presentes.
- Vamos sem lista. Se eu ficar aqui parado, vou ser multado.

Ernestina não deu ouvidos ao marido e saiu do carro batendo a porta. Voltou dez minutos depois. Seguiram para o shopping em silêncio. Abílio entrou na praça de alimentação resmungando:

- Vou ficar por aqui tomando um chopinho enquanto você faz as compras. O shopping tá muito cheio.
- Não senhor, você vai comprar o presente do seu pai comigo.

O homem revirou os olhos contrariado. Entraram numa loja de departamento e foram direto para a seção de artigos masculinos. Ernestina se distraiu procurando presentes. O marido se afastou com as crianças. Para chamar a atenção dele , ela gritou:

- Já escolheu o que vai dar de presente para o seu pai?

Ele tentou ser discreto:
- Estou olhando.
- Que tal cueca ? – falou alterada, perto do cesto de cuecas em promoção.

Abílio concordou com a cabeça, sem graça. Ela continuou:
- Média ou grande?

Pegou três cuecas coloridas e balançou :
- Estão boas?

Ele apressou os passos e se aproximou da esposa :
- Não dá para ser mais discreta e parar de berrar no meio da loja?
-Então fica perto de mim. Vai ou não vai levar?
- Vou. Manda embrulhar pra presente.
- E que tal essa para você?

Pegou uma cueca preta, ousada e mostrou ao marido :
- Bem que você podia usar uma assim, né?
- Deixa isso aí. Cueca ridícula. Isso é coisa de gay.
- Bobão, preconceituoso. Não se garante, não é?

Discretamente Ernestina colocou a cueca no interior da cesta. Ainda ficaram mais de uma hora na loja escolhendo presentes . Quando acabaram, o marido determinou:

- Agora vamos almoçar. Depois você fica com as crianças e faz o resto das compras, enquanto eu vou dar um pulo na oficina para dar uma olhada no carro.
- O que é que tem o carro?
- Problemas no carburador.


Depois do almoço, Abílio se despediu. Ernestina foi comprar o resto dos presentes e as crianças ficaram numa Lan House. Marcaram de se encontrar ás sete, no estacionamento.Assim que entrou no carro, Abílio pegou o celular e discou um número.

- Tá em casa? Tô indo praí.

Dez minutos depois, estacionou e saiu apressado em direção a um prédio de quatro andares. Colocou a chave no portão de ferro, entrou e parou no segundo andar. Tocou a campanhia do 201. Uma mulher magra, com o cabelo pintado de loiro com tinta vencida, atendeu a porta de calcinha e sutiã, com um copo de cerveja na mão. Ela ficou feliz ao vê-lo:

- Que milagre aparecer aqui num sábado?!
- Minha mulher está fazendo compras com meus filhos. Temos duas horas.

Quando voltou para o shopping, Ernestina e as crianças já o esperavam impacientes. Com a mão na cintura, ela reclamou:

- Por que você deixou seu celular desligado?
- Deixei ? Nem reparei. – respondeu cinicamente.

O domingo se arrastou.

Na segunda-feira, Abílio saiu cedo para trabalhar. Ernestina levou as crianças para ficarem com a mãe e voltou para casa decidida a faltar ao trabalho. Ligou para o chefe e inventou uma doença. Depois pegou o caderninho e teclou um número:

- Arizinho, sua mãe está em casa?

Diante da resposta negativa, Ernestina disse que precisava de alguém para ajudá-la a arrastar os móveis do quarto. Solícito, ele se ofereceu. Arizinho é um rapaz de 19 anos, filho da vizinha do quinto andar e Ernestina sempre o cobiçou em silêncio. Ele é moreno, alto, pratica esportes e tem a inocência do olhar de um jovem recém-saído da adolescência. Orgulho da mãe e objeto do desejo das vizinhas carentes. Assim que Arizinho chegou, Ernestina o pegou pelo braço e o levou até o quarto. Com ar misterioso, mostrou um embrulho e ordenou:

- Veste.

Arizinho obedeceu e vestiu a cueca. Ernestina colocou uma música, cruzou as pernas e sorriu ansiosa por um momento de prazer:
- Agora desfila pra mim!


O filho da vizinha arriscou uma dança e passou a rebolar desnecessariamente. Empolgado, começou a dar gritinhos histéricos. Ernestina estranhou :

- Quê isso Arizinho? Deixa de brincadeira e faz um desfile sensual pra mim .
- Então não sabe? Sou gay e faço shows eróticos na boate em que eu trabalho. Meus shows fazem o maior sucesso.
- Sua mãe sabe?
- E precisa ? Quem cuida da minha vida sou eu.

Envergonhada, Ernestina pediu desculpas pelo equívoco. Balançando os braços, Arizinho agradeceu o presente, se vestiu e saiu jogando beijinho. Decepcionada, Ernestina sentiu um torpor percorrendo-lhe o corpo. Tinha a impressão de que os vizinhos, em poucos segundos, tomariam conhecimento do vexame que acabara de passar. Fungando, enxugou as lágrimas, pegou uma escada e subiu no armário do quarto. Alcançou um embrulho e voltou pra sala. Abriu o pacote e começou a arrrumar os enfeites natalinos. Sorrindo esperançosa, olhou para a estrela em cima da Árvore de Natal tentando encontrar na alma a criança que havia perdido.

7 de dez de 2009

A MULHER INSATISFEITA



Tereza colocou o filho de dois anos para dormir e foi até o quarto, abriu o armário, pegou a camisola nova e se trancou no banheiro. Tomou um banho demorado, espalhou creme pelo corpo, se vestiu, penteou os cabelos e passou uma colônia de rosas na nuca. Saiu do banheiro esbanjando charme. Rubens esperava na cama.

- Como você está cheirosa ! Vem cá, deixa eu sentir esse cheiro gostoso.

Sorrindo, entrou nos braços do marido. Cinco minutos depois Rubens adormeceu. Tereza olhou para o teto frustrada. Estavam juntos há oito anos. Na época do namoro e nos primeiros anos de casados, o sexo era quente. Depois que ela engravidou, sem explicação, o marido perdeu o desejo. Quando Tereza cobrava sexo, ele desconversava.

Num sábado, quando Rubens chegou em casa bêbado, depois do aniversário do sobrinho mais velho, recusou-se a transar com Tereza. Enraivecida, ela jogou um livro em cima dele e o acusou de infidelidade. Pressionado, Rubens confessou, com a boca mole :

- Não sinto mais tesão por você. Você agora não é mais mulher, é mãe do meu filho.

Na tentativa de salvar o casamento, Tereza procurou uma terapeuta de casal. Rubens não compareceu ás sessões. Ela fez garrafada, simpatia e até promessa. Tudo inútil. Intrigada, procurou uma cartomante.
- Seu marido tem uma amante.
- Então essa coisa de que sou mãe do filho dele é desculpa?
- É.
- O que faço?
- Gosta dele?
- Gosto de sexo e ele é meu marido.
- Procure inovar e se enfeitar na hora da intimidade.

Tereza comprou calcinha e camisola novas. Não adiantou. Frustrada, desabafou com a irmã:
- Meu casamento está por um fio. Uma cartomante me falou que Rubens tem outra.
- Será?
- Ele não me procura mais e quando forço a barra parece que me faz um favor.
- Será que ele desconfia de você?
- Nunca me acusou de nada. A desculpa dele é outra.
- Qual?
- Diz que depois que o Juninho nasceu, não sente mais desejo por mim.
- Quer continuar casada?
- Claro! Ficar sem marido? Jamais. Já diz o ditado, ruim com ele , pior sem ele.
- Então coloca um investigador atrás do cachorrão.

Tereza contratou um detetive. Um mês depois, ele deu-lhe a notícia com um sorriso de canto de boca:

- Seu marido é um virtuoso. Vai de casa para o trabalho e do trabalho para a casa.
- Não é possível. Mentira?!
- Não encontramos nada. Fizemos escuta telefônica. Tiramos fotos. Nada.
- Nenhuma suspeita?
- Nenhuma. Seu marido é fiel . Um pai de família exemplar.

Saiu do escritório confusa. Será que ele estava com problema na próstrata? Desconfiava dela? Ou se contentava com sexo virtual, já que ficava muito tempo no computador de madrugada? Não se conformaria com qualquer desculpa. Gostava de sexo. Faria mais uma tentativa. Numa quarta-feira, depois de colocar o filho pra dormir, montou um cenário romântico. Acendeu velas, incensos e espalhou pétalas de rosa pela sala. O marido, que assistia TV, reclamou:

- Tô vendo meu futebol e você pra lá e pra cá na frente da televisão. Esse cheiro de incenso tá me sufocando. E essas velas acesas? Quer colocar fogo na casa?

Desapontada, se trancou no quarto emburrada. Da cama ainda ouviu o marido gritar:

- Golllllllll! Dá-lhe Mengão!!

A raiva incendiou-lhe o peito. Não gostava de rejeição. Lembrava da infância. Tinha cinco anos quando o pai abandonou a mãe. Decidiu mexer com os brios do marido. Talvez desse resultado. O que não podia – pensou – era continuar casada com um homem sexualmente distante. No final de semana, na hora do jantar, fez nova tentativa, Rubens reagiu, impaciente:

- De novo? Não cansa? Pode dar um tempo pra mim?
-Que tempo você quer?
- Você parece uma tarada. Caramba, você é a mãe do meu filho, vê se entende!
- Então nunca mais vamos fazer sexo? NUNCA MAIS?
- Sinto Tereza, é mais forte do que eu.
- E se eu fosse uma puta?
- Você não é uma puta. Você é mãe do meu filho!

Com o peito apertado , ela gritou , jogando o prato no chão :
- O JUNINHO NÃO É SEU FILHO!
- O QUÊ?
- RUBENS MACHADO JUNIOR NÃO É SEU FILHO!

Com a cabeça girando, Rubens jogou a tigela de arroz contra a parede. Com o sangue subindo-lhe às faces, pegou a mulher pelo braço e foi empurrando até a cama :

- Puta! Sua puta mentirosa.
- Não é mentira. SEU FILHO NÃO È SEU FILHO.

Transaram selvagemente. Tereza adormeceu. Rubens não conseguiu pregar o olho. Foi até a geladeira e bebeu uma cerveja pelo gargalo. Bebeu mais outra. De madrugada, bêbado, acordou a esposa :

- Me diz : Quem é o pai do Juninho? QUEM?
- Hã? O quê?
- Qem é o pai do Juninho?!
- Deixa isso pra lá. Esquece. Vem dormir.
- Quem é? Preciso saber .
- É o seu irmão Geraldo! Ele é o pai do Juninho.

Com o orgulho doendo, sentiu a vida descer pelo corpo. Abriu o armário, vestiu uma camisa e foi até a gaveta . Remexeu, pegou a chave do carro e saiu batendo a porta. Tereza escutou quando o marido saiu cantando pneu. Olhou o relógio. Cinco da manhã.

O céu clareava, quando Rubens tocou a campanhia na casa do irmão. Regina, esposa de Geraldo, acordou o marido, assustada:

- Quem será a essa hora?

Ele se levantou sonolento. Espiou pelo olho mágico e abriu a porta nervoso:
- O que houve? Aconteceu alguma coisa com o Juninho?

Mudo, Rubens puxou a pistola e deu dois tiros no peito do irmão. Em seguida, colocou a arma na cabeça e atirou.

Foram velados juntos. Durante a cerimônia fúnebre, a família e os amigos comentavam a tragédia, chocados. Sentada perto dos caixões, Tereza fazia cafuné em Juninho enquanto trocava olhares discretos com Ricardinho, um jovem de vinte anos, filho do irmão mais velho dos falecidos.

Nota de rodapé : Aguardem.  Em 2010 meu livro de CONTOS pela Multifoco. 40 contos não publicados no blog.