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29 de nov de 2009

SURRA DE AMOR NÃO DÓI

Waldete descascava a cebola para o molho do cachorro-quente do aniversário do filho quando a irmã apareceu.


- Bom dia....bom dia.... cheguei! Vim lhe ajudar a preparar as comidas para a festa logo mais.
- Bom você chegar, Marlene. Falta fazer muita coisa. Aproveita e vai enrolando a massa dos pasteizinhos..... e olha que já adiantei muita coisa durante a semana.

- O Osvaldino tá aí?
- Saiu com o irmão. Foram comprar mais cerveja. Por quê?
- E o aniversariante?
- Tá na rua brincando com os coleguinhas. Não viu ele não?
- Não vi não. Eu tenho uma coisa chata pra lhe dizer Waldete.


Waldete nem percebeu que o tom de voz da irmã mudou e continou a cortar a cebola.
- Fala. Tá precisando de dinheiro emprestado? – brincou.
- Você não pediu para eu investigar se o Osvaldino voltou a sair com outras mulheres?

Imadiatamente Waldete se virou para a irmã.
- O que você descobriu?
- Vira essa faca pra lá, Waldete. Cruzes! Não é para mim que você tem que apontar esse troço .
- Tá , me diz, anda, o que você descobriu?
- Ele voltou a sair com outras. Tem um monte de rolo. Os colegas do trabalho colocaram até um apelido nele: bico doce.
- Bico o quê?
- Bico doce. Enrola a mulherada, conta um monte de vantagens, diz até que é solteiro. Seu marido é um cafajeste.


Waldete sabia da fama de conquistador do marido. Porém pensou que era coisa do passado. Revoltada com a notícia, colocou a mão na cintura e apertou os lábios de nervoso.

- Bico doce? Ele me paga. Já conversamos sobre isso. Disse que não ia mais me trair. Acredita que chorou? Fiquei com pena. Perdoei e agora volta a aprontar?!
- E você acreditou? Uma vez infiel, sempre infiel. Mas olha lá o que você vai fazer. Hoje é aniversário do seu filho. Não vai estragar a festa do garoto.
- Deixa comigo. Encerra o assunto, eles estão chegando.


Waldete ajudou a guardar as bebidas no freezer e não comentou mais sobre o assunto da traição. Porém, cada vez que olhava o marido, uma raiva lhe subia a cabeça. Tinha vontade de socar Osvaldino. Os preparativos para a festinha, em comemoração aos 8 anos de Marquinho, único filho do casal, seguiram. De noite, depois de fritar os salgados, Waldete estava exausta e com o coração apertado. Comentou com a irmã:

- Se eu pudesse ia dormir agora. Além de cansada, não consigo olhar para a cara de cocker spanish do Osvaldino.
- Ânimo! A festa está só começando. Daqui a pouco nossa mãe chega, suas cunhadas, sogra, alguns colegas de trabalho do seu marido. Tem que ficar bem bonita. Se mostrar superior.
-Tá bom, tá bom. Deixa eu colocar uma máscara e fingir que não sei de nada.


Se arrumou de má vontade. Pensava na traição de Osvaldino. Ele jurara que nunca mais ia sair com outra. Dessa vez – pensou – daria um jeito. Ele merecia uma lição. Cansou de fazer vista grossa para as sacanagens do marido. Se encheu de coragem e foi receber a família. A irmã e a vizinha ajudavam a servir os salgadinhos. A mãe de Waldete reclamava:

- Minha filha, esse croquete está muito massudo. Não foi assim que eu lhe ensinei.
- Da próxima vez a senhora chega cedo para ajudar, tá bom?


Irritada, Waldete foi até Osvaldino e arrancou-lhe o copo de cerveja da mão.

- Quem vai beber agora sou eu!
- Tá doida? Nunca foi de beber.
- Mas hoje vou beber para comemorar o aniversário do NOSSO filho.


Exagerou na bebida. A irmã se preocupou. Waldete falava enrolado:

- Daqui a pouco tá na hora de partir o bolo...e...
- Waldete, me dá esse copo aqui, já bebeu demais.
-Me deixa beber Marlene, hoje é aniversário do meu filho.


E olhava para o marido. que conversava empolgado com os irmãos, de olho nas pernas da vizinha. O olhar de Osvaldino parecia um radar. E foi na hora de partir o bolo que a confusão começou.

- Osvaldino fica aqui do meu lado, a gente vai cantar parabéns para o Marquinho agora.
- Não tem necessidade. Fico aqui mesmo.


Osvaldino – Waldete percebeu – queria ficar numa posição estratégica para olhar melhor as pernas da vizinha. O sangue foi subindo.

- Osvaldino, já falei , quero você aqui do MEU lado.
- Não vou. Tá pensando que vai mandar em mim? Vou ficar aqui.
- É? Vai? Então depois não diz que não avisei.


Na frente dos convidados, Waldete avançou pra cima do marido. Tirou o tamanco do pé direito – um tamanco de madeira, pesado, com um salto enorme – e começou a bater em Osvaldino. Surra de tamanco.

- Isso é para você aprender a me respeitar, bico doce. Agora vai apanhar na frente de todo mundo. Quero ver essa fama de dom juan durar.


Os irmãos tentaram tirar Waldete de cima de Osvaldino. As esposas não deixaram.
- Ele merece apanhar.Deixa. Todo mundo conhece a fama do Osvaldino.

A mãe de Osvaldino gritava :
- Tirem essa doida de cima do meu filho! Ele é homem!


Waldete batia mais no marido.
- E a senhora sai daqui. Não se mete. Quem se meter, apanha também. E de tamanco.


Osvaldino gritava:
- Pára, tá doendo. Não bate aí. Machuca.


A vizinha paquerada, ria.
- Que vexame! Coitado! Que vexame!

Os colegas de trabalho davam risadinhas, se entreolhando. Uma surra histórica na carreira de conquistador de Osvaldino. Tinha até torcida das cunhadas. Não sabiam porque, mas sentiram-se vingadas.:
- Se me trair faço o mesmo com você!


Durante um mês ficou com dores pelo corpo. Foi o comentário principal no trabalho e na vizinhança. Com medo de outra surra, tornou-se um homem fiel. Se Waldete soubesse que surtiria efeito, o teria surrado há mais tempo. Mesmo assim não relaxou. Sempre que saíam, ela o prevenia:
- Se olhar para o lado, leva outra surra! E de tamanco! Comprei um novo, ótimo.

Osvaldino, com medo, nem respirava.

23 de nov de 2009

MARIA CRISTINA

Sábado de sol. Maria Cristina se levantou da cama, fez café e chamou o marido:


- Osório, vamos à praia?
- Que horas são?
- Quase nove.
- Preguiça. E mesmo assim, dia de sábado, a praia está cheia.


Virou-se para o lado, resmungou alguma coisa e voltou a dormir. Maria Cristina se encaminhou para a sala reclamando baixo:
- Eu me casei com um merda. Não gosta de nada.

Abriu a janela e olhou para a rua com o olhar distante. Sônia, vizinha da casa em frente, lhe fez o convite:
- Vem até aqui . Hoje fiz um super café da manhã. Com direito ao bolo que você gosta!


Aceitou. Empolgou-se ao ver uma farta mesa preparada cuidadosamente pela vizinha. Sônia contou o motivo da comemoração:

_ Lembra do Julinho? Meu menino?
- Claro. A última vez que eu o vi estava com 13 anos.
- Pois é. Foi morar com o pai em Sergipe, mas voltou para ficar definitivamente comigo. Meu garoto está com 19 anos. Você não vai reconhecer.

Julinho apareceu na sala cinco minutos depois. Maria Cristina impressionou-se com a beleza do rapaz. O menino franzino transformara-se num belo homem. Alto. Forte. Cabelos pretos ondulados e olhos brilhantes, cheios de juventude. A mulher, carente de carinho, sentiu uma pontada no estômago ao lembrar do marido que dormia em casa: “Horrível, barrigudo e preguiçoso”. Voltou à realidade com Julinho abraçando-a.

- Dona Maria Cristina, lembro da senhora. A senhora brigava tanto comigo porque minha bola de futebol ás vezes ia parar dentro da sua varanda.

Riram das lembranças. Maria Cristina voltou pra casa meio-dia. Osório reclamou impaciente:
- Posso saber onde voce se enfiou?
- Interessa?
- Claro. Quero almoçar e descansar, para mais tarde ir ao Maracanã. Hoje tem jogão de bola.
- Ah é?! Pois eu tenho uma novidade pra você.


Olhou pra esposa curioso. Mordendo os lábios, Maria Cristina falou com voz afetada:

- Hoje não tem almoço.
- Quê isso? A gente almoça fora a semana toda, hoje quero comer da sua comidinha.
- Vai ficar querendo. Eu vou para o quarto ler e dormir.
- Não vai almoçar?
- Não. Tomei um farto café da manhã na casa da Sônia. O filho dela voltou pra casa.
- O garoto voltou é? O pai deixou?
- Voltou para morar com ela..
- Egoísta. Não trouxe um pedaço de bolo pra mim?
- Você não merece.

Osório tomou banho e saiu. Almoçou um prato feito no botequim da esquina. A semana foi entediante para Maria Cristina. De casa para o trabalho, do trabalho pra casa. Passou a colorir a vida com sonhos eróticos. O protagonista? Julinho. Imagina-se passeando com ele pelas areias da praia de Copacabana . Terminava o passeio assistindo o pôr-do-sol no Arpoador. Aos 35 anos, sentia-se uma mulher sem motivação para viver. Lamentava o casamento falido, sem filhos, com um marido frio e distante.

Julinho tornou-se uma válvula de escape. Uma ilusão que a incentivava a acordar todos os dias. Numa sexta-feira, ela chegou mais cedo do trabalho, e encontrou o rapaz voltando da faculdade. Convidou-o para um café. Conversaram na sala. Maria Cristina empolgou-se acreditando que o sonho poderia se transformar em realidade. “Loucura?” – ela pensou – “Não, loucura é continuar casada com Osório“ – justificou.


Osório chegou do trabalho e encontrou Julinho na sala. Entrou na conversa. O rapaz passou a visitar o casal quase todos os dias. Quando Julinho saia, Osório comentava com a esposa:
- Que rapaz gentil! Sabe que não temos filhos e resolveu nos fazer companhia!


Maria Cristina não gostou do comentário e devolveu:
- Ele não tem idade para ser meu filho. Nunca seria mãe aos 16 anos.
- Não falei por mal. Você leva tudo a sério demais. Como você é mal-humorada!
- Eu?

Osório fugiu da discussão aumentando o som da televisão. Antes de dormir, falou com a esposa:
- Amanhã saio cedo de casa. Vou fazer um extra no trabalho.

Maria Cristina gostou. Seria uma ótima oportunidade para conversar a sós com Julinho. Não teve sorte. Sônia avisou que o filho saiu cedo com amigos. Carente, Maria Cristina insinuava-se para Julinho. Ele fingia não entender. Ela insistia. Ele fugia. Prometeu não desistir. Daria um tempo.

Resolveu passar um final de semana na casa da mãe. Longe do marido, assediaria Julinho por telefone. Despediu-se de Osório dizendo que voltaria segunda-feira depois do trabalho. Ligou no sábado para o celular do rapaz. Desligado. Domingo a mesma coisa. Desistiu da estratégia. Voltou para casa no domingo à noite, desolada. Passava das onze quando enfiou a chave na fechadura. Silêncio. Maria Cristina pensou: “A pústula do Osório deve estar roncando”.

Do corredor percebeu que a luz do abajur do quarto estava acesa. Andou em silêncio. Não queria acordar o marido. O coração quase parou quando entrou no quarto. Osório e Julinho estavam na cama aos amassos. A respiração parou. Pensou em gritar. Avançar nos dois. Teve uma idéia . O desespero a encorajou. Tirou várias fotos no celular Agiria rápido. Foi até o quarto ao lado, abriu o armário e pegou dinheiro no bolso da calça do marido. Em seguida, pegou os talões de cheque de Osório. Voltou para a casa da mãe.

Usou o computador do quarto do irmão. Mandou as fotos para todos os e-mails conhecidos. Espalhou pela internet. De madrugada, treinou a assinatura de Osório.

Pela manhã, despediu-se da mãe. Falsificou a assinatura do marido e deixou apenas dez reais na conta dele . Raspou a conta conjunta. Estourou os limites dos cartões adicionais comprando roupas e sapatos. Passou o dinheiro da poupança que tinha com Osório para uma conta particular. Ligou para o trabalho e xingou o chefe. Desligou aliviada.

Viajou sem destino.

16 de nov de 2009

SEGREDO DE FAMÍLIA



Final de expediente. Horácio bebia com os amigos num bar no Centro da Cidade quando olhou para a mesa perto do banheiro e engoliu em seco: “O que a filha da puta da Ritinha tá fazendo aqui com outro homem? “. Deixou os amigos conversando e se aproximou da mesa em que estava a esposa. Segurou-a pelo braço:

- Quem é esse cara? Tá pensando que eu sou o quê? Me traindo na minha cara?

O acompanhante da mulher se levantou aborrecido.

- Qual é a sua? Quem é você?
- Sou o marido dela .
- Marido? Não sabia que você era casada!

A mulher se levantou colocando a mão na cintura.
- Que história é essa de marido? Nunca vi você na minha vida!
- O que é isso Ritinha? Tá me estranhando?
- Quem está me estranhando é o senhor. Nunca o vi. Por favor, retire-se ou chamo o segurança.

O garçom se aproximou.

- Algum problema?

Para evitar escândalos, principalmente na frente dos colegas de trabalho, Horácio disfarçou:

- Não é nada. É apenas uma dúvida que estou tirando.

A mulher mexeu nos cabelos nervosamente e olhou de lado para Horácio.

-Então faça o favor de se retirar .
- Ritinha, pára de palhaçada. Vamos embora juntos.
- Já lhe disse que meu nome não é Ritinha.

O acompanhante chegou mais perto de Horácio.:

- Ela não se chama Ritinha. E se o senhor não se retirar agora, vou chamar o segurança.

Em dúvida, Horácio voltou a sentar-se com os amigos.

- E aí, Horácio? Conhecidos?

- É. É – respondeu sem graça e cabisbaixo.

Passou o resto da noite calado. “Será que bebi demais?” – pensou. “ Amulher é a cara da Ritinha”. Chegou em casa dez da noite. Ritinha estava na sala lixando as unhas.

- Isso são horas?

- Eu é que pergunto se tenho cara de palhaço! Tenho?
- Você está se sentindo mal Horácio? Que história é essa?
- Ritinha, me diz a verdade. Juro, não vou brigar com você. Seja sincera!
- Que verdade?
- Juro que não brigo com você.
- Tá vendo o que dá beber demais? Pode me contar o que está acontecendo?
- Eu vi você no bar do Aníbal com outro homem e você disse que você não era você.
- Surtou, Horácio?
- Era você, né? Fala. Não vou brigar.


Ritinha passou a língua pelos lábios, coçou a cabeça e fez cara de suspense. Horácio insistiu:

- Era você?
-Não. Era a Regina!
- Regina? Que Regina? Não conheço nenhuma Regina.


Ritinha começou a chorar. Olhou para a televisão apagada e perdeu-se em pensamentos.

O marido sacudiu a mulher :
- Fala, quem é Regina?
- Minha irmã gêmea.
- Você nunca teve irmã gêmea.
- Era segredo. Minha mãe me fez prometer que eu nunca contaria nada. Quebrei a promessa.
- Mas por quê? Sou seu marido. Quero saber de tudo!
- Mamãe deu a Regina para outra família quando fizemos um ano. Não podia ficar com as duas.


A mulher contou chorosa a triste história da família. Comovido, Horácio desculpou-se com a esposa pelas desconfianças. No dia seguinte, enquanto tomavam café, o marido comentou:

- Se eu encontrar a Regina novamente, vou falar de você, tá bom?
- Nunca! Ela não sabe da minha existência. Não perdoaria mamãe.
- Ela vai ficar feliz quando souber que tem uma irmã gêmea – argumentou.
- É um segredo de família. Morre aqui.


Horácio chegou no trabalho frustrado. Queria reaproximar Ritinha e Regina. Durante uma semana, depois do expediente, passava no bar, esperando encontrar a gêmea da esposa. Um mês depois, quando andava pela Sete de Setembro, viu a gêmea saindo de uma loja . Aproximou-se, segurando-a pelo braço:

- Desculpe, não sei se lembra de mim. Bar do Aníbal.

Ela fechou o rosto :

- Lembro . O que o senhor quer dessa vez?
- Desculpe, Seu nome é Regina e não Ritinha. O garçom me contou – mentiu.
- Tá desculpado.
- Para eu acreditar nas suas desculpas, aceita  um café?


Sentaram-se num bar perto do metrô. De início estavam encabulados. Meia hora depois pareciam íntimos. Passaram a se encontrar durante o almoço às sextas-feiras. Horácio impressionava-se com Regina. Achava a gêmea mais bem-humorada que a esposa. Manteve os encontros em segredo. Numa quinta-feira, no final da tarde, Regina o convidou para um happy hour. Aceitou. Encontram-se. Sorridente, Regina mostrou:

- Trouxe uma coisa e quero que você veja!

Tirou da bolsa um baby doll vermelho.

- Que tal? É bonito? – disse com um ar ingênuo cheio de sensualidade.

Horácio ficou confuso. Ele e Ritinha não faziam sexo há quase seis meses . “Fazer sexo com a irmã gêmea dela?” – pensou. “Não, loucura. loucura”. Ela tomou a iniciativa. Ele seguiu os instintos. Quando percebeu, estavam subindo as escadas de um motel no centro da cidade. Entraram no quarto em silêncio. Regina vestiu o baby doll. Viveram momentos de prazer. Oito da noite. A mulher olhou o relógio, assustada:

- Tenho que ir pra casa, meu marido me espera!
- Quando vamos nos ver novamente? – perguntou Horácio com ar apaixonado.
- Semana que vem. Já vou. Tenho pressa.


Despediram-se. Horácio foi tomar banho sonhando com novo encontro. A mulher entrou no táxi e deu o endereço :

- Rápido, moço. Por favor.


O celular tocou . Atendeu contrariada :

- Fala mãe!

A mãe gritava. A mulher deu um sorriso e respondeu calmamente:

- Quem é Regina???? Ahhhhhhh mãe, já sei, o Horácio foi falar com você?!
-Sim e eu quero saber quem é Regina . Você nunca teve irmã.
- O que você falou com ele, mãe?
- Nada. Disfarcei e não respondi .

- Então fica calma. Amanhã lancho com a senhora e conto tudo. É uma longa história.

O táxi chegou. Ritinha pagou o motorista e saiu do carro cantarolando!

6 de nov de 2009

BOA NOITE, MEU AMOR !



Saí do quarto na ponta dos pés. Fechei a porta devagar e fui até a sala. Abri a janela e respirei o ar da noite. O vento bateu nos meus cabelos. As luzes da cidade me lembraram, por alguns momentos, da minha infância. De repente uma onda de melancolia invadiu meu ser. Meu coração acelerou e quase saiu pela boca.


Fechei a janela, me sentei no sofá e desandei a chorar. As lembranças de nós dois giravam na minha cabeça. O sorriso. O toque. A boca. Dois anos de namoro. Como eu o amava! Nos conhecemos na fila da locadora. Escolhemos o mesmo filme. Animados, saímos da loja e ficamos meia hora conversando na calçada. Na despedida, entre brincadeiras, ele pediu meu telefone.


Dois dias depois saímos para jantar num restaurante. Luz de velas. Vinho tinto. Troca de olhares. Conversa ao pé do ouvido. A voz doce fazia cócegas na minha imaginação, arrepiando meu corpo. Começamos a namorar. Um mês depois, com o coração acelerado, eu disse pela primeira vez “te amo”. Nosso amor causava inveja. Despertava cobiça.

O som estridente do telefone me trouxe de volta ao presente. Estremeci. Lembrei da minha realidade. Dos sonhos desfeitos. Das promessas jogadas no lixo. Da mentira. Da traição. O telefone tocou novamente. “Deve ser minha mãe”. Peguei o aparelho e falei com voz sonada :

- Alô!

- Minha filha, estou preocupada. Desde cedo ligo para o seu celular e dá fora de área. E seu telefone convencional, estava fora do gancho?
- Sim.
- O que você tem minha filha? Você quer que eu vá para aí?
- Não.
- Você vai ficar bem sozinha?
- Vou.
- Você vem almoçar amanhã aqui em casa?
- Não . Quero ficar sozinha.
- E ele? Ligou?
- Não.

Mamãe desligou preocupada. Fui até a cozinha procurar alguma coisa para comer. Fritei dois ovos com bacon e peguei uma lata de cerveja. “Pra quê comer?” – questionei. Tudo me parecia fora do lugar. A vida fugia de mim. Meu corpo não respondia meus movimentos. Tornei-me uma boneca de pano. Sem expressão.

Peguei dois comprimidos para dormir na mesinha da sala. Desmaiei no sofá. Durante a noite tive pesadelos. Acordei assustada. Pela manhã, o sol invadiu a sala. Acordei com um gosto amargo na boca. Lembrei da noite passada. Fui até o quarto. Abri a porta. Tudo como eu havia deixado. As janelas fechadas. A cama desarrumada. Roupas no chão. Cheiro de morte.

Desliguei os telefones, fui até a padaria, comprei pão e ao passar pela portaria avisei ao porteiro que eu não estava para ninguém. Arrumei cuidadosamente a mesa do café. Duas xícaras. Pães. Queijo. Frutas. Café e leite. Ele não estava ali comigo. Nunca mais. O leve roçar das bocas. Éramos tão felizes. Adeus encanto. Tchau felicidade. Íamos nos casar. Por que mudou de idéia? Quem era ela? Quem destruiu meus sonhos?

O café esfriou. Arrumei a mesa e fiquei assistindo DVD. Presentes dele. Almocei quatro da tarde. O dia empalideceu. A decisão estava tomada. Coragem. Era preciso. Fim de caso. Oito da noite. A cidade novamente ás escuras. Fechei todas as janelas com cuidado.Vedei janelas e portas.

Tomei um banho morno. Coloquei o perfume preferido dele. Liguei o gás. Abri a porta do quarto e lá estava ele. Adormecido. Ainda a sorrir. Deitei-me cuidadosamente para não acordá-lo. Em seguida, limpei as manchas de sangue que manchavam-lhe o rosto de anjo. Coloquei-lhe os braços em volta do meu pescoço e olhei pela última vez o rosto do homem que eu amava. Dez da noite. Respirei fundo. Minhas narinas ardiam. Senti o peito explodir.

- Boa noite, meu amor! Juntos, pra sempre!


NOTA : Em breve meu livro de CONTOS pela Editora Multifoco

2 de nov de 2009

O MISTÉRIO DA CALCINHA VERMELHA

Quando Albertinho buzinou Maria Lúcia já estava pronta. Antes foi até a cozinha se despedir de dona Odélia. :


- Mãe, não tenho hora pra chegar. Sabe como são as festas na casa da Tereza....

- Cuidado minha filha. Diga para Albertinho não beber, não correr.

- Tá bom...tá bom. Pode deixar. Fica com Deus.

- Vai com Deus , minha filha!

Albertinho e Maria Lúcia casariam-se em dois meses. Assim que ela entrou no carro foi recebida com um longo beijo na boca.

- Hummmmmm, tá cheirosa....aposto que é....

- Carolina Herrera. Acertou..

- Sabe que adoro esse perfume!.Coloca para me provocar..

- Olha que assim vamos acabar não indo à festa. – brincou Maria Lúcia.

Durante o caminho conversavam animadamente, quando Maria Lúcia tocou num pedaço de pano com a sandália.

- Tem uma coisa no chão do seu carro me atrapalhando....

- Pega, deve ser a flanela.

Se abaixou e quando trouxe o que a atrapalhava teve um misto de espanto e desespero: :- O que é isso? Não tô acreditando.....


Virou de um lado,.do outro,.esticou.

- É isso mesmo o que estou pensando?! Uma calcinha?!!!

Deu um tapa no braço de Albertinho.

- O que significa isso????

- Tá maluca? Quase bato com o carro por sua causa. Isso o quê?

- Olha aqui, calcinha vermelha, transparente, dessas usadas por vadias.


Albertinho encostou o carro e olhou perplexo:

- Fala Albertinho, de quem é essa calcinha?

- E você pergunta pra mim?

- O carro é seu, ora! Só você sabe de quem é a calcinha. Com certeza não é minha. Não uso calcinha de vagabunda. E mesmo assim é muito pequena..

- Minha fofa, não sei nem o que dizer.

- Fofa? Me chifra com uma magrela e agora vem de nhénhénhén? Pois vai arrumando uma explicação, aliás, uma boa explicação, Albertinho!

- O que você quer? Que eu invente uma história?

- Albertinho, como essa calcinha veio parar no seu carro? Responde. Estou esperando.

- Não sei. Juro. Não sei.

- Teria sido alguma mágica? Ou você estava parado no sinal e a calcinha veio vooooaaando de algum enxugador e entrou pela janela do seu carro?

- Pode ter acontecido isso mesmo.

Maria Lúcia começou a socar o braço do noivo:

- Cara- de- pau! Você é um grandessíssimo cara- de- pau!

- Calma, violência não leva a nada. Vamos raciocinar: .de quem pode ser essa calcinha?

- De alguma piranha que transou com você. – e começou a chorar

Continuou falando em tom comovido:

- Logo no carro que você me leva pra passear? Foi no banco que eu sento? Me diz!? Foi?

- Não andei com ninguém,.juro, fofa! Deve ser da minha irmã. Não chora.

- Você quer me fazer de palhaça? – irritou-se.

- Sua irmã tem mais de 80 quilos, impossível entrar nela! Essa calcinha cafona é de alguma vadia do SEU TRABALHO . É isso! Quem é ela, Albertinho?

- Quê isso! No meu trabalho não tem vadia. Sei lá como essa calcinha veio parar no meu carro. Coisa de louco!

- Então é sua! Você é gay! Você faz programa vestido com calcinha vermelha........

- Viajou, Maria Lúcia......

- Abre a boca Albertinho, abre essa boca!

- O que você vai fazer? Eiiiiii......


Maria Lúcia fez um bolinho com a calcinha que estava na mão e enfiou pela boca de Albertinho :

- Engole essa porcaria! Não quero tão cedo ouvir sua voz, seu mentiroso, tarado!

Saiu do carro e pegou um táxi. Albertinho passou o final de semana tentando falar com Maria Lúcia. Ela só atendeu o telefone uma vez:

- Quem é a dona da calcinha?

- Maria Lúcia, eu ...

- Não sabe?


Desligou o telefone. Na segunda-feira, Albertinho chegou ao trabalho e foi direto falar com Claudia Helena, colega do departamento pessoal.

- Toma! – jogou a calcinha em cima da mesa de Claudia Helena.

- O que é isso ? – assustou-se .

- Minha noiva achou sua calcinha no meu carro. Satisfeita agora? – falou com ironia.

- Você contou pra ela que a calcinha é minha?

- Claro que não! Nem vou contar. Morro, mas não conto...


Querendo separar o casal, Claudia Helena liga para Maria Lúcia e diz em tom debochado que é a dona da calcinha vermelha. Dois meses depois da confusão, Maria Lúcia se casa, mesmo sabendo da traição. Durante a lua-de-mel, Albertinho curioso quis saber:

- Minha fofa, você é uma mulher intrigante....

- Por que , fofo?

- Achei que você nunca fosse me perdoar por causa da tal calcinha. O que fez você finalmente acreditar que eu não sabia de quem era aquela calcinha horrorosa?

Maria Lúcia deu um sorriso cínico e com ar misterioso respondeu:

- Deixa pra lá. Coisa de mulher, fofo!