Pesquisar este blog

25 de out de 2009

O EDREDON





Noite fria de quarta-feria. Macedo assistia ao jogo do Flamengo pela televisão, quando Marinilce apareceu na sala aborrecida.

- Não tá me escutando chamar lá do quarto?
- Fala?! O que é? Vou perder o gol do mengão.
- Depois você vê isso. Agora vai lá no quarto para pegar o edredon em cima do armário. Não alcanço.
- Edredon? Outro? Mas você não pediu para eu pegar um na segunda-feira?
- Pedi. Agora tô pedindo para você pegar outro.
- Como se gasta sabão em pó nessa casa – reclamou Macedo.
- O que tem uma coisa a ver com a outra?
- Usou o edredon dois dias e já colocou pra lavar?
- Não. Esse que você vai pegar é outro. Quem vai dormir com ele sou eu.
- Você?
- É.
- Você está querendo dizer que cada um vai dormir com um edredon?
- Nossa como você é inteligente! – debochou Marinilce.

Macedo, que ia se levantando do sofá, tornou a sentar-se.
- Macedo, eu quero dormir. Vai logo pegar meu edredon.
- É por isso que nosso casamento tá indo para o buraco. Agora cada um dorme com um edredon. Daqui a pouco dormiremos em camas diferentes...
- Não acredito que você vai arrumar briga por causa disso.
- Posso saber por que a princesinha quer dormir com um edredon só pra ela? – ironizou.
- Porque durante a noite você puxa o cobertor para o seu lado e eu fico morrendo de frio.
- E por que você não me acorda ou puxa o cobertor?
- Toda noite, Macedo? Não é mais fácil cada um dormir com um edredon?
- Não. Assim eu não posso ficar juntinho de você.
- Na hora que a gente dorme você tá juntinho. Depois você se espalha e aí quem se dá mal sou eu.
- Eu não vou pegar outro edredon. Nós vamos dormir juntinhos. Fim de papo.
- Ah é? Vou no seu Aníbal pedir para ele pegar o edredon pra mim!
- Duvido. Você não é besta.
- É?

Decidida, Marinilce abriu a porta. Macedo impediu-a de sair. A discussão recomeçou .

- Marinilce, desiste da história de cada um dormir com um edredon. Você está colocando nosso casamento em risco.
- Deixa de ser besta, Macedo. Dez anos de casados. Até parece que casamos ontem!
- Fim de papo, Marinilce! O jogo vai começar! Vai dormir com o edredon que tem e quando eu for deitar, me viro.
-Tá frio Macedo. De noite você vai puxar o edredon e quem vai ficar com frio sou eu!
- Isso vai dar em separação. Foi por causa disso que o casamento do Ismael acabou.
- O que tem a ver o casamento do Ismael com o nosso?
- Primeiro a esposa começou a dormir no sofá por causa da tosse do Ismael Depois, foi dormir na casa da mãe . E em seguida....arrumou um amante.
- Não dava para ele tomar um remédio pra tosse?
- Outro edredon, não! Fim de papo! O jogo vai começar. Psiu!
- Ah é? Então vou no apartamento da Judith pedir um edredon emprestado.
- Pois então, vá! Só estou lhe avisando : Nosso casamento está por um fio!

Marinilce saiu decidida. Tocou a campanhia na casa da vizinha. Sérgio André atendeu :
- Você poderia chamar a Judith?
- Hoje ela vai dormir na casa da irmã. Deseja alguma coisa? Entra – disse, simpático.

Marinilce achava o marido da vizinha pedante, mas aceitou o convite para entrar. Ele fez um café e gentilmente ofereceu a ela.

- Posso ajudar em alguma coisa?

Aquela pergunta delicada fez Marinilce gelar as entranhas. Estremeceu quando Sérgio André tocou-lhe levemente nos braços.

- Está sentindo alguma coisa? O café está muito quente?

Um torpor estranho tomou conta de  todo seu corpo. Viajou sem sair do lugar.  Em seguida, ajeitou a roupa e gaguejando despediu-se de Sérgio André.

- Eu falo com a Judith depois.

Saiu batendo a porta. Chegou em casa em estado de êxtase. Os pensamentos fervilhavam. Passou pela sala e não deu nem boa noite ao marido, que gritava sem tirar os olhos da TV:

- E aí? Pegou o edredon com a Judith?

Não respondeu. Entrou no quarto, deitou na cama lentamente e cobriu-se com o  edredon, ainda em estado de letargia. Logo adormeceu. Sonhou que fazia sexo selvagem com Sérgio André. Acordou suspirando. Voltou a dormir e a sonhar. Com medo de desagradar Marinilce, Macedo dormiu com um lençol. Tremendo de frio, pegou no sono quando o dia clareava.

18 de out de 2009

O SEGREDO DO NOIVO





Neli folheava uma revista no sofá da sala, saboreando um pedaço de torta de brigadeiro, quando a irmã chegou com a novidade.

- Vou casar!

- Com quem?

- Só pode ser com o Vicente.

- Duvido.

- Duvida? Por quê? Sabe de alguma coisa que eu não sei?

- Duvido.

- Existe um motivo para você duvidar. Qual é? Conta.

- Duvido.


Nádia se irritou e começou a sacudir Neli pedindo uma explicação. Para deixar a irmã mais irada, ela respondia aos gritos compulsivamente:

- Duvido. Duvido. Duvido.


As duas iniciaram uma discussão interrompida pela mãe.

- O que é isso meninas? Que gritaria é essa?

- A culpa é da Neli. Ela está de deboche comigo – gritou Nádia, chorosa.

- Não quero saber de quem é a culpa. Acabem com isso, JÁ!


Nádia se trancou no quarto, confusa. As palavras de Neli caíram-lhe na cabeça como um tijolo. A dúvida plantou-se no seu frágil e inseguro coração e ela se perguntou, apertando os lábios e franzindo a testa: “O que a irmã sabia, que ela não sabia?” Enquanto Nádia se martiriza e rola na cama de um lado para o outro, no quarto ao lado, Neli apaga a luz e adormece com um sorriso no rosto.


Durante o café da manhã, não se falaram. Para provocar a irmã, antes de se fechar no banheiro, Neli gritou:

- Duvido. Duvido muito que saia casamento!


E caiu na gargalhada. No fundo, tinha raiva de Nádia. Culpava-a pela morte de Rodrigo, o homem com quem um dia, pretendia se casar. Rodrigo morreu pilotando a moto que comprara um mês antes de sua trágica morte. Na noite do acidente, o rapaz teve uma discussão com Nádia, que o acusou, na frente de Neli, de beijar outra mulher.

A morte prematura do noivo deixou cicatrizes profundas na vida e na alma de Neli. Aconselhada pelas lembranças mórbidas, entrou em depressão e afogou a tristeza nos doces e chocolates. Engordou 30 quilos. Agora, passa os dias em frente à televisão ou lendo revistas de fofoca e comendo avidamente pedaços de torta de brigadeiro.

Naquela manhã, ao escutar as gargalhadas de Neli, Nádia saiu de casa disposta a ter uma conversa séria com Vicente. Chegou ansiosa no trabalho e ligou para o futuro esposo.

- Dá para almoçar comigo hoje?

- Aconteceu alguma coisa?

- Dá ou não dá?

- Tá , eu vou .


Durante o almoço, Nádia olhava Vicente de soslaio. Ele estranhou.

- Pode me dizer o que está acontecendo?

- Quero saber o que você me esconde.

- Não entendi?!

- Vamos, diz a verdade. – gritou, batendo na mesa.

- Mas quê verdade? Não tô entendendo.

- Não seja sonso. Abre o jogo.


Vicente não reconheceu a mulher serena do dia anterior. Discutiram. Ele voltou para o trabalho aborrecido. Quando Nádia chegou em casa, Neli perguntou, curiosa:

- E aí, descobriu?

- Descobri o quê?

- O segredo do Vicente.

- Qual segredo? Fala Neli , o que você sabe?

- Não vai haver casamento. Só digo isso.

Confusa e atormentada pela maledicência da irmã, Nádia não deu trégua ao futuro esposo. Vicente passou a ser vigiado compulsivamente. A noiva aprontava escândalos em cascata. Não podia vê-lo conversando com uma mulher que a confusão se formava. Quase fez Vicente perder o emprego ao discutir enciumada com uma cliente importante da loja. O celular do noivo virou alvo de sua cobiça ciumenta. Esperava-o chegar da rua, para crivá-lo de perguntas.

Vicente não entendeu a mudança de Nádia, que de carinhosa, transformara-se numa mulher ciumenta e tirana. Chegou a desabafar suas angústias com Neli:

- Sua irmã era tão doce. Agora virou uma mulher rabugenta e desconfiada. Já me aprontou vários escândalos.

Neli aconselhou:

- Toma cuidado. Ela não é essa criatura doce que aparenta. É tudo fachada.

Com vergonha dos escândalos e com medo de novos constrangimentos, terminou o romance. Nádia gritou, esperneou e ameaçou. Não surtiu efeito. Vicente sentiu que tirava um peso das costas. Chegou em casa e fez as malas. Se encarregou de tudo. Pediu transferência no trabalho e embarcaria no dia seguinte, para outro estado.

Nádia chegou em casa aos prantos e ameaçando tomar veneno. Neli esperava-a no sofá:

- O que houve?

- O Vicente terminou comigo.

- Eu não disse?

E olhou para a irmã com ares de sabedoria. Nádia sentiu-se a pior das mulheres e procurou consolo no colo da irmã. Neli deu um sorriso vitorioso e ofereceu-lhe, satisfeita , um pedaço de torta de brigadeiro.

12 de out de 2009

SEXO POR TELEFONE


Verão. Tarde de domingo. Três amigas conversam na areia da praia de Ipanema, em frente à Rua Vinícius de Moraes. Lidiane bebe seu refrigerante, quando Maria Alice fala empolgada :
- Vai ser hoje. Estou morrendo de curiosidade!
- Sexo por telefone? Qual é a graça?
Maria Alice responde ironicamente:
- Vou fazer e depois conto tudinho, tá bom assim?
Para as duas não discutirem, Regina Lúcia tenta mudar o rumo da conversa:
- Maria Alice há quanto tempo Jorginho está na Bahia?
- Um mês . Volta daqui a duas semanas. Isso se a empresa não inventar outro curso.
- Já sei! Já sei!
- Que susto, Lidiane! Sabe o quê?
- Faz sexo virtual. Se tiver uma webcam melhor ainda.
- Só se for na lan house do hotel com todo mundo olhando.
Acabaram rindo e encerraram o assunto chamando o vendedor de mate. Saíram da praia no início da noite. Maria Alice estava excitada com a idéia de fazer sexo por telefone. Seria a primeira vez. Se preparou especialmente para o momento. Depois de um longo banho, colocou o perfume preferido do namorado e escolheu uma camisola sensual. Quando o telefone tocou, andava ansiosa de um lado para o outro á espera da ligação:
- Jorginho?
- Oi , minha linda!
- Que saudade , meu lindo! Pensei muito em você hoje.
- Eu também. Estudava e pensava no que íamos fazer à noite. Está pronta?
- Sim. Quem começa?
- Como foi seu dia?
- Já começou?
- Não, linda , só quero saber o que você fez de bom. Foi à praia?
- Fui com a Lidiane e a Regina Lúcia. Comentei com elas sobre nossa aventura.....
Foi interrompida por Jorginho :
- Contou para elas sobre o sexo por telefone?
- Qual o problema?
- Tudo você conta pra elas? Isso é coisa só nossa.
- Elas me conhecem há tantos anos . Não temos segredos....
- É chato, Maria Alice. Não vou ter coragem de olhar para a cara das suas amigas. No dia que eu broxar você também vai contar pra elas?
- Deixa de bobagem. Esquece. Vamos começar? Estou excitada .
- Muito ou pouco?
- Muito. Sua voz está super sensual .
- Estou fazendo essa voz só pra você, minha linda.
- Nossa, me arrepiei toda agora.
- Queria estar aí para ver. Estou morrendo de vontade de pegar....
Maria Alice cortou a conversa :
- Jorginho, me lembrei de uma coisa: você comprou o azeite de dendê que minha mãe pediu? Se você esquecer ela vai falar pra caramba!
- Pô Maria Alice, isso é hora de lembrar de azeite de dendê? Cortou meu tesão.
- Desculpe, é que eu fiquei com medo de não lembrar depois. Ela já me ligou hoje cobrando.
- Não comprei, mas vou comprar. Pode deixar.
- Anota na sua agenda. Não me esquece esse azeite!
-Tá bom. Agora vamos começar. Essa ligação vai ficar cara demais.
- Estou esperando. Começa .
- Você me deixou perdido. Estava indo tão bem. Ia começar e você veio com essa história de dendê.
- Desculpe, já disse. Foi sem querer.
- O problema é concentrar novamente. Sexo é cabeça.
- Vai, amor , você consegue. O que eu preciso dizer para você ficar excitado?
- Me chama de cachorrão.
Maria Alice faz uma voz melosa para impressionar o namorado:
- Vem meu cachorrão. Late pra mim, late.
- Sacanagem! Latir, Maria Alice?!
- Exagerei. Desculpa. Vamos tentar mais uma vez..
- Tá. Se dessa vez falhar , a gente desiste. Combinado?
-Combinado. Quem começa?
- Você.
- Eu? O que é que eu vou falar?
- Que falta de imaginação!Alguma coisa romântica.
- Não, Jorginho. Começa você.
- Desligou o celular? Não quero ser interrompido pelo toque de celular.
- Tá desligado. E o seu?
- Também. Vou começar. Concentração. Qual é a cor da sua calcinha?
O interfone toca insistentemente.
- Jorginho, o interfone está tocando. Quem pode ser a essa hora?
- Não atende.
- Não pára de tocar. Péra aí, vou ver.
Era o porteiro:
- Dona Maria Alice, o apartamento 202 está pegando fogo. Os bombeiros estão evacuando o prédio.
- Pegando fogo? Fooogooo?
Desceu de camisola. No telefone, Jorginho gritava:
- Maria Alice, ei, você está aí? Fala, o que aconteceu? Maria Aliiiiiiiccceeeeeeee...

5 de out de 2009

TARADO POR CALCINHA


Pericles adorava calcinha . Sonhava com calcinha, venerava calcinha. Quando criança, amava espiar a mãe e a irmã pelo buraco da fechadura. No banho, deliciava-se quando, por um descuido, elas deixavam as calcinhas penduradas no box. Ao completar 22 anos tornou-se um obsessivo pela roupa íntima feminina. Familiares e amigos acreditavam que só um psicólogo poderia entender-lhe a tara. Sempre que uma mulher o interessava, logo ele perguntava curioso:
- Eu sei que pega mal, mas por favor, não se ofenda com o que vou perguntar. Poderia me dizer que tipo de calcinha você gosta de usar?
As mulheres sentiam-se invadidas com a pergunta e o romance acabava antes de começar. As amigas o achavam um boboca infantil. Ele não se importava. Ria de fazer borbolhas. Na mesa de bar, com dedo em riste, defendia suas idéias como se estivesse num palanque. Ficava vermelho e se engasgava com os petiscos.
-Não admito ir para a cama com uma mulher de calcinha furada e grandona e nem com calcinha de florzinha. Não sou pedófilo!
Recebia conselhos:
-Cara, tá certo que você gosta de calcinha cavadinha, preta, sensual, também gostamos. Mas ficar perguntando isso pra mulher que você acabou de conhecer é grosseria. Não se mede uma mulher pela calcinha que ela usa.
Pericles retrucava:
-Você transaria com uma mulher com a calcinha suja? Rasgada? Melhor broxar antes do que broxar na cama.
Nas festas ou baladas os amigos ignoravam Péricles. Não queriam passar vergonha . Na cara-de-pau, ele perguntava ás desconhecidas nas baladas:
-Que tipo de calcinha você gosta de usar?
Se recebia um fora, disfarçava e arrumava outra vítima.
-Posso ver sua calcinha? Deixa?
As mais desinibidas levavam na brincadeira e o chamavam de excêntrico. As mal humoradas, porém, partiam para a agressão verbal e o chamavam de bêbado. Nem assim tomava jeito. Ainda contava para os amigos gargalhando:
- Se a vadiazinha ficou ofendida é porque devia usar calcinha ordinária.
O coração de Pericles bateu mais forte quando conheceu Leninha. Moça linda e com sorriso de capa de revista. Era prima de um grande amigo. Encantou-se pela morena e abriu o coração para Reginaldo, que o preveniu:
- Vai com calma, é minha prima! Se ficar de palhaçada vai se ver comigo. É meu sangue.
- Pode deixar. Fica tranqüilo.
O namoro completou um mês. Meio a contragosto, Péricles segurou a curiosidade a respeito das calcinhas da moça . Tentando se controlar, pensava: “Uma mulher bonita só pode usar calcinha sensual. Ela é a mulher da minha vida”.
A primeira e única noite de quase amor entre os dois aconteceu na casa da namorada. Estavam sozinhos assistindo a um DVD. Depois de duas taças de vinho, começaram as carícias. Quando Pericles levantou o vestido de Leninha, gritou assustado:
-Cueca ??!! Isso não é uma calcinha !!!?? É uma cueca do piu piu!
Com voz adocicada, ela o puxou pela nuca:
-Qual o problema, amor? Gosto de usar cueca. São mais confortáveis.
Vem, gostoso, tira a minha cuequinha.Ele perdeu o tesão. Broxou. Teve ânsia de vômito. Tonto, empurrou Leninha, vestiu-se e saiu se batendo pelas paredes. Nunca mais viu a jovem.
Revoltado, Reginaldo tomou satisfação:
- Você é um desequilibrado. Precisa de um psiquiatra. Como você pôde humilhar minha prima assim, cara? Louco de pedra!
Péricles não se intimidou:
- Sou como sou. E pronto. Não gostou ? Então bate.
Para evitar futuras decepções, Péricles passou a comprar calcinhas e distribuir entre as ficantes e namoradas. Em casa, tinha uma coleção delas, de todas as cores, modelos e tamanhos. Quando conhecia uma mulher, no primeiro dia presenteava-a.
- Na nossa primeira vez, faço questão que você use a calcinha que eu escolher. É um presente.
Aliás, sempre que a gente tiver relações, quem escolhe a calcinha sou eu!Pericles está casado com Mirialva há dois anos. Até hoje é ele quem compra as calcinhas da esposa