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9 de set de 2009

A JANELA DO VIZINHO

Sábado chuvoso. Sonolenta, Thaís acordou, se espreguiçou e olhou o relógio. Dez horas. Dia de folga. Virou para o lado e dormiu mais um pouco. O quarto escuro e o barulho da chuva deram vontade de ficar na cama até mais tarde. Levantou depois do meio-dia, tomou café, leu os jornais, verificou os e-mails e preparou uma salada para o almoço.


Três da tarde, abriu a janela do quarto e percebeu que o apartamento em frente não estava mais vago. Imaginou como seriam os novos vizinhos. Recém-casados? Mãe e filha? Idosos? E se fosse um casal com três crianças barulhentas? Sentiu uma pontada na cabeça, ao imaginar um garoto de oito anos, gritando e acordando a vizinhança, tocando uma corneta.


Lia uma revista na sala, quando no final da tarde a chuva apertou. Com medo de cair água dentro do quarto, foi fechar a janela e viu, pela primeira vez, o novo vizinho, andando pelo apartamento, de sunga. Pegou o binóculo para olhar melhor. O homem arrumava as roupas dentro do armário. Thaís ficou por trás das cortina: “Um Deus Grego” – pensou empolgada.


Desceu para comprar pão e passou pela portaria do prédio do novo vizinho. Viu o porteiro e aproveitou: - Boa noite, seu Argemiro. Que chuva, hein?

- Chuva é coisa boa! Molha as plantinhas. Tava muito quente.

- Temos vizinho novo no prédio, né?

- Sim, senhora. E o apartamento dele fica de frente para o seu.

- Eu sei . É um casal com filhos ou sem filhos?

- É um solteirão. Deve ter uns 36 anos. É piloto. Viaja muito.


Satisfeita com a resposta, se despediu, sorridente. Assim que voltou para o apartamento, ligou para a amiga Anelise.- Você precisa ver o homem lindo que veio morar na janela em frente a minha!

- Solteiro?

- Solteiríssimo. Acho que vou passar o dia na janela.

- E se for gay?

- Não tem a menor pinta. É piloto. Já me informei com o porteiro.

- Então amanhã me espera. Quero conhecer seu novo vizinho.

-Combinado. Mas, olha, ele já tem dona. Eu!


Antes de adormecer, Thais imaginou que estava no apartamento em frente, escutando música e bebendo vinho. Acordou de madrugada para ir ao banheiro e aproveitou para olhar pela janela. Lá estava o vizinho dormindo de sunga, esparramado na cama de casal, com as cortinas abertas.


No dia seguinte Anelise chegou para almoçar a uma da tarde.

- E aí , cadê o gostosão?


Foram até a janela. O vizinho estava de short, sem camisa, sentado no sofá e lendo jornal. Quando percebeu que era observado, levantou e se debruçou na janela.

- Boa tarde, sou o novo vizinho! Tudo bem com vocês?

As duas estremeceram de emoção. Refeitas do impacto, se apresentaram. Frederico conversou um pouco e depois, educado, pediu licença, avisando que iria arrumar o restante da mudança. Anelise brincou:

- Se quiser ajuda, pode me chamar!


Ele agradeceu e saiu da janela. Thaís não gostou.

- Eu chamei você pra vir aqui para almoçar e não para paquerar meu vizinho.

- Por acaso ele é propriedade sua?


Almoçaram em silêncio. Thaís saiu da sala para lavar a louça e deixou a amiga sozinha. Quando voltou, viu Anelise sair correndo da janela. Thais desconfiou. Uma hora depois, Anelise se despediu, agradecendo pelo arroz de camarão.


Durante a semana Thaís pouco viu Frederico. Quando se encontravam na janela, ele dava um tchauzinho, mas não puxava conversa. A amiga se mostrou esquiva e ocupada quando ela ligava. No sábado descobriu o motivo, quando viu Anelise e o vizinho aos amassos no apartamento dele. Teve vontade de gritar. Sentiu-se enganada. “Que amiga da onça! Rápida como um coelho e falsa como uma cobra.”! . Passou a noite deprimida e chorosa, e jurou que se vingaria .


Vingança planejada, ligou para Anelise, convidando-a para comer um bobó de camarão na sexta-feira. Convite aceito, Thais escolheu uma garota de programa pela internet, marcou um encontro para o mesmo dia e hora e deu o endereço do vizinho. Fez uma única exigência: A mulher teria que deixar a janela aberta pois o cliente era um tarado exibicionista.


Nove em ponto de sexta-feira, Anelise chegou. Conversaram amenidades. Thaís olhou o relógio e aparentando naturalidade, comentou:

- Você não sabe, menina, mas esse vizinho Frederico, é a maior chave de cadeia.


Sentiu que Anelise ficou interessada. Maliciosa, Thaís puxou a amiga pelo braço:

- Vamos até a janela ver se ele está em casa.

- Espera, antes preciso falar com você.

- Depois você fala. Vamos lá! Tenho uma fofoca boa para lhe contar sobre ele.


Puxou a amiga. Quando chegaram no quarto, Thaís apagou a luz e deixou apenas um pedaço da janela aberta.

- Vem ver , o cara está com uma mulher no apartamento!

Thaís tocou no braço de Anelise e percebeu que ela suava frio.

- Está passando mal?

- Não, não é nada. – disfarçou. – Vamos sair da janela.


Thaís envenenou:

- O Frederico é taradão! Todo dia tem uma mulher diferente na cama dele . Maior cafajeste. E só gosta de piranha!

- É?

- É. As aparências enganam. Muito promíscuo. Ainda bem que não fui pra cama com ele! Bem que ele tentou.

- É?

- E tem mais .

- O quêeeee?

- A vizinha do quinto andar já transou com ele. Ela pegou gonorréia, acredita?


Anelise empalideceu. Correu para o banheiro, se ajoelhou no chão, colocou a cabeça dentro do vaso e vomitou. Thaís deu um risinho e falou com voz sonsa:

- Amiga, acho melhor suspender o jantar. Você está passando mal.

7 comentários:

LuRJ disse...

Ai,que peste!Eu sei que escritor(a)cria mundos e situações,mas precisava fazer isso,precisava? Mesmo a amiga sendo da onça,Thaís foi uma peste!Anelise comeu o cara,mas ficou sem mais nada...rss...gonorréia não estava no script da coitada.
Bjs (está crescendo uma verruga no seu nariz,uau!!!)

Rê :) disse...

Ai adorei esse post! Lindo d+!!!!

Bah vou adotar a tua frase: não estu desempregada, estou disponivel para o mercado de trabalho, heheeheh!

bjos

Alma inquieta disse...

Celamar,

parabéns!

Muito bom!
Não é por acaso que se diz que vingança "é um prato que se serve frio".

Beijos.

tossan® disse...

Mulher é fogo viu?! Se elas não fossem tão egoístas podiam dividir, afinal tudo não passaria de uma aventura, elas sempre seriam amigas e o sujeito ia adorar. Belo texto de novo! Beijo

Carla disse...

uiiii mazinha essa amiga...afinal há gente que não pode ver ninguém bem
beijo e bom fim de semana

Se o "se" não tivesse ficado só no "se" disse...

Isso que é vingança, o resto é resto hein.

Leo Mandoki, Jr. disse...

por indicação do amigo Tossan..passei por aqui para te ler..e descobri que temos algo em comum (alem do amigo Tossan): gostamos de Nelson Rodrigues. E a sua escrita me lembra mto a dele.
Se eu fosse ela desconfiaria logo: piloto pegando gonorreia? nem na roça existe mais gonorreia...eheheheh
beijocas