Pesquisar este blog

27 de set de 2009

DOUTOR NEVES E A MULHER DAS MEIAS

Segunda-feira, nove da manhã! Neves desceu do metrô e seguia em direção ao consultório na Senador Dantas, quando a chuva apertou. Apressou o passo. Uma mulher morena, alta, se aproximou, lhe oferecendo abrigo no guarda-chuva. Aceitou. Entraram no mesmo prédio. A morena fechou o guarda-chuva. Livre da tempestade repentina, Neves observou melhor seu anjo de guarda. Corpo esbelto, longos cabelos lisos, olhos verdes e lábios carnudos. “Que mulher linda. Parece modelo de capa de revista”. Saiu do transe.:
- Não sei como posso lhe agradecer. Muito obrigado. Se não fosse a sua gentileza, acho que eu ficaria ensopado.
- Não custou nada.
- A senhora trabalha aqui no prédio?
- Não. Na verdade vou para uma entrevista de emprego. E o senhor?
- Tire o senhor, por favor. Eu sou médico. Urologista.
- É uma profissão muito bonita. A medicina é um sacerdócio.
- Gosto muito do que faço.
O elevador chegou.
- Por favor, a senhora primeiro.
- Senhora não, você – brincou a morena com um sorriso de canto de boca.
Subiram. No meio do caminho a morena soltou um gritinho sensual. Neves levou um susto.
-Aconteceu alguma coisa?
- Olha só! – disse a morena com voz de sabiá apontando para a perna.
- Estou indo para uma entrevista de emprego e minha meia rasgou. E agora?
- Não dá para notar –respondeu Neves, sem graça com aquele par de coxas à mostra.
- Não posso chegar na entrevista com as meias rasgadas. Pode arranhar minha imagem. Seu consultório é em qual andar?
- Chegamos. É aqui. Décimo oitavo.
- Desculpe, eu poderia tirar a meia no seu consultório? Pega mal aqui no corredor. As câmeras podem me filmar...
-Claro. Acompanhe-me por favor.

Constrangido, Neves abriu a porta do consultório e deixou a morena entrar primeiro. Pensou na esposa. Se Marizete o visse com aquela morena, criaria um caso. A esposa era muito ciumenta . Neves trancou a porta, enquanto a morena observava tudo.:
- Seu consultório é confortável!

Neves deu um riso sem graça. Era tímido. Casou com a segunda namorada, aos 22 anos, viveu para a medicina e a família e só agora, aos 49, se deu conta de que só teve duas mulheres na vida. Quando a morena levantou o vestido e começou a tirar a meia calça na frente dele, Neves engoliu em seco e se abanou nervoso. “Ai se a Marizete tivesse aqui “ – pensou.

Passando a língua nos lábios e rodopiando o corpo a morena sorriu.
- Desculpe tirar a meia na sua frente, é que o senhor é médico e acho que não tem problema.
- Tire o senhor, por favor.
-Desculpe..., você é médico, acho que não tem problema.
- Fique à vontade.
- Vai atender algum paciente agora?
- Deve estar chegando. Mas se quiser, pode ficar.
- Obrigada . Está na hora da minha entrevista. Qual é o seu nome?
- Neves e o seu?
- Regina.

Ela pegou o celular e anotou o telefone de Neves. Depois ligou para o celular dele.
- Meu número está no seu celular. Qualquer coisa me liga, tá?

Saiu piscando os olhinhos de forma sensual. Neves atendeu os pacientes no automático. Só conseguia pensar nas pernas da morena. Nunca havia traído Marizete. “Quem sabe se ele e a morena ...?!
– Não, não podia nem pensar. Era areia demais para o seu caminhãozinho.” – sonhou, suspirando profundamente .

Ao chegar em casa encontrou Marizete com uma camisola velhinha, deitada no sofá, vendo televisão. O coração apertou. Jantou pensando na morena. “Será que teria coragem de ligar pra ela?” Nunca havia traído a esposa. Só que a vida estava muito sem graça. Era de casa para o consultório, do consultório pra casa. Marizete era uma esposa fria na cama. Ia fazer cinqüenta anos, precisava de um estímulo, uma injeção de ânimo. Passou a semana pensando na morena. Pegou no celular, mas não teve coragem de ligar. E se ela não lembrasse dele? E se eles se apaixonassem? Teria coragem de terminar o casamento? A imaginação de Neves voava. Tinha sonhos eróticos. A cena da mulher tirando a meia não lhe saía da cabeça. Aquelas pernas roliças e macias. A virada de cintura sensual. Era uma grande tentação do demônio, até para homens fiéis.
Dormiu e sonhou com a morena. Os dois estavam nus, numa enorme cama de casal, com lençóis vermelhos de cetim. Ao redor do quarto, velas acesas, cortinas transparentes e uma bandeja de frutas. A morena colocava morangos em sua boca e cobria seus olhos com uma meia-calça. Acordou molhado. Não podia mais adiar o encontro. Decidiu ligar na sexta-feira. “Ou tudo ou nada” –Ligou.
Marcaram para sábado , meio-dia , no consultório.Criou expectativa. À noite não conseguiu dormir direito. Assustava-se com o ronco de Marizete. Teve pesadelo. As pernas da morena se transformavam em duas cobras enormes . Acordou suado. Foi até a cozinha e bebeu um copo d` água. Adormeceu.

Pela manhã tomou um banho de meia hora. Passou perfume francês. Saiu avisando a Marizete que ficaria no consultório até o final da tarde. Expectativa. Quase receita um remédio errado. Onze e meia. Despediu-se do último cliente e arrumou o consultório. Acendeu incenso. Molhou o cabelo. A campanhia. Abriu a porta. A morena estava de mãos dadas com um homem alto e forte. Não entendeu. “O que significava aquilo?”
Teve a resposta :
- Doutor Neves, boa tarde! Tomei a liberdade e trouxe meu marido. Ele está com problemas para urinar.

20 de set de 2009

MADAME LU

Madame Lu entra na igreja depois da missa das seis, encaminha-se para a segunda fila à esquerda e ajoelha-se lentamente. Em seguida, abre a bolsa e pega um terço, segura-o firme com as duas mãos, fecha os olhos e começa a rezar. Uma senhora aproxima-se e toca em seus braços. Ela dá um salto, mas relaxa quando a mulher mostra a sacolinha. Madame Lu pega uns trocados, coloca na sacola e volta a rezar. A igreja fica vazia e silenciosa. Quinze minutos depois, olha o relógio e perde a paciência. Resmunga alguma coisa e quando prepara-se para guardar o terço, sente duas mãos pesadas pressionando-lhe os ombros.

- Desculpe a demora. Foi o trânsito.

- Pensei que não viesse.

- Jamais. Trato é trato e seria perigoso não aparecer .

- Certamente. Trouxe a outra parte?

- Está tudo aqui. Conforme o combinado.

- Então ajoelhe-se ao meu lado.

- Pra quê? Rezar? Já tenho um lugar reservado no inferno – riu, apertando os lábios.

- Pode ser que rezando Deus o perdoe. Nunca se sabe.

- Não existe perdão para o que eu mandei fazer.

- Acredita em Deus?

- É mais fácil acreditar. Sim, acredito.

- Então porque me pediu para fazer o serviço?

- E você? Acredita em Deus?

- Nunca tive tempo para pensamentos existenciais. Sou pragmática. Muito ocupada.

- Ocupada? Eu diria que intrigante e misteriosa.

-Faz parte da minha profissão.

- Não quer jantar um dia desses comigo?

- Não me envolvo com clientes.

- Nosso contrato encerra hoje. Serviço feito e pago. Não sou mais seu cliente.

- Não misturo lazer com trabalho. Aliás, a polícia desconfia de alguma coisa?

- Me fez algumas perguntas. Mas parece convencida de que foi latrocínio.

- Vi sua foto nos jornais. Parecia um marido sinceramente desesperado, abraçado ao corpo da mulher no asfalto, clamando por justiça.

- Sou um artista. E você uma excelente profissional. Muito boa no que faz.

- É a prática. Não deixo rastro. Na cidade do Rio de Janeiro sua finada mulher já virou estatística .

- Nada como contratar uma matadora experiente. Aprendeu com quem o ofício?

- Vocação. Arrependido?

- Não. Se pudesse mataria aquela vaca gorda novamente.

- Você é um perfeito cavalheiro – disse ironicamente - Não sei quem é pior: Se sou eu ou meus clientes .

- E nós dois?

- O que tem nós dois!?

- Que tal passarmos uma noite juntos? Gostaria de saber se trepa tão bem quanto mata.

- E você acha que eu treparia com um homem que manda matar a esposa?

- Você não é minha esposa. É apenas uma paquera perigosa – riu cinicamente.

- Sou matadora e não prostituta.

- Mas é uma mulher e linda por sinal.

- Sexo despende muita energia. Gasto minha energia no trabalho.

- Não acredito que só veio ao mundo para matar . Uma mulher sensual como você?

- O cheiro da morte me excita. Preciso de adrenalina para preencher o vazio que existe em mim.

- Não acredito que seja tão perversa. Existem outras maneiras de se preencher um vazio.

- Desculpe, preciso ir. Já fiquei tempo demais aqui.

- Tem medo de se apaixonar por mim?

- Medo? Não existe essa palavra no meu dicionário. Preciso ir. Não insista.

- Não vai conferir o dinheiro?

- Confio em você.

- Não quer mesmo sair comigo?

- Não. Toma meu cartão. Se precisar dos meus serviços novamente, entre em contato.

- Você é uma metamorfose: “Cynara Pedicure. Atendo a domicílio” – leu o cartão em voz alta e segurou no braço de Madame Lu :- Era uma cartomante e agora se transformou numa pedicure!?

- Na minha profissão é preciso mudar. Não existe rotina.

- Posso ligar amanhã?

- Amanhã viajo para outro estado. Novo cliente. A indústria da morte não pára.

- Desse jeito vou largar meu emprego e começar a matar gente.

- Se tiver vocação, pode virar meu concorrente. Dá dinheiro. Nunca passei fome.

- Você trabalha sozinha?

- Você é muito curioso. Já disse: Não me envolvo e nem dou informação a respeito da minha vida .

- É uma pena. Gostaria de conhecê-la melhor.

- Nosso contato termina aqui. Hora de partir. Sai primeiro.Ninguém pode nos ver juntos.


Madame Lu fica sozinha. Torna a pegar o terço. Coloca a pasta com o dinheiro em cima das pernas e fecha os olhos. Concentra-se durante alguns minutos. Quando vira-se pra ir embora, esbarra em Padre Antonio :

- Desculpe, Padre.

- Nossa, que moça bonita! Qual é seu nome, minha filha?

- Bárbara.

- Devota de Santa Bárbara?

- Minha mãe colocou o nome em homenagem a ela.

- Que Deus a abençoe e a conserve assim, sempre bela.

- Que assim seja, Padre!

14 de set de 2009

A ESPOSA E O SANTO

Tarde de sábado de muito calor. Yeda está na cozinha com a irmã fazendo um bolo, quando Moacyr entra e despede-se:
- O Carlos chegou. Vou jogar minha peladinha. Lá pelas oito tô de volta!
Antes de ir, vai até a imagem de Santo Expedito, que fica na estante da sala, faz uma oração, benze-se e sai. Jussara olha de longe e comenta com a irmã:
- E aí, como vocês estão?
- Na mesma, Jussara. Moacyr já virou parente, parece irmão.
- Você precisa apimentar o casamento. Por que não aceita a minha idéia?
- Ele é muito moralista . Imagina se vou convidá-lo para ir num sexshop.
- Lá tem brinquedinhos muito interessantes.
- O Moacyr é católico fanático. Acha que tudo é pecado. Ainda tem o Santo Expedito.
-O que é que tem o santo?
- Sabe aquela imagem enorme que tem lá no quarto?
- Sei.
- Da última vez que a gente tentou alguma coisa, ele disse que não conseguia pensar em sexo por causa do olhar fixo do santo em cima dele.
- Tira do quarto. Coloca em outro lugar. Eu, hein!
- Moacyr me mata. Deus me livre! É todo chameguento com a imagem...

O marido era devoto fervorso de Santo Expedito. Aos 5 anos de idade teve leucemia e foi desenganado. Mas, contrariando as previsões catastróficas dos médicos, sobreviveu. A mãe, dona Carmosina, atribuiu a cura às promessas e orações, feitas ao santo das causas urgentes. Moacyr se apegou a ele. Como gratidão, aos domingos, vai à missa das seis e todo final de ano distribui cestas-básicas, além de confessar-se com padre José. Por saber que o marido é defensor ferrenho da moral e dos bons costumes, Yeda tem medo de falar sobre sexo na intimidade da cama e ser mal-interpretada.
- Jussara, você conhece o Moacyr. Agora ele deu para dizer que as mulheres de hoje estão muito vulgares. Acha mesmo que devo levá-lo ao sexshop?
- Então vai sozinha, compra um brinquedinho e mostra pra ele, com jeitinho.
- E se ficar ofendido?
- Arrisca. Não custa nada. Sexo faz bem pra pele.

Antes de dormir, pensou na conversa que teve com a irmã. No dia seguinte foi trabalhar e na hora do almoço, passou na porta de um sexshop no centro da cidade. Avistou um casal saindo aos beijos. Começou a suar nas mãos. Engoliu em seco. Não teve coragem de entrar. Deu meia volta e retornou ao escritório. Passou a tarde dispersa. No final do expediente, resolveu voltar à loja. Pesquisou a vitrine durante meia hora. Tomou coragem e entrou, reparando tudo em volta com curiosidade. Pediu uma sugestão. A vendedora mostrou-lhe vários objetos. Acabou fazendo sua escolha e saiu apreensiva com o embrulho.

Chegou em casa uma hora mais tarde. Moacyr esperava-a, preocupado. Durante o jantar, Yeda pensava na melhor maneira de falar com o marido sobre o sexshop. Deu a última garfada, colocou o garfo de lado, e pronunciava a primeira palavra, quando Moacyr a interrompeu:
- Yeda, trocou a água do copo do Santo Expedito?
- Vou trocar. Esqueci. Desculpa.
- Fala, o que você ia me dizer?
- Nada. Bobagem. Até esqueci o que era!
Depois do jantar, Moacyr ficou na sala assistindo ao noticiário, enquanto Yeda aproveitou e ligou para a irmã:
- Jussara, fui lá.
- E aí, comprou alguma coisa?
- Comprei , só não sei qual vai ser a reação do Moacyr.
- O que você comprou?
- Depois eu falo. Tchau .
Ficou envergonhada de contar os detalhes da compra. Apesar da cumplicidade que tinham, Yeda sempre foi muito reservada e se arrependera de revelar suas intimidades sexuais para a irmã. Na hora de dormir, antes de entrar no quarto, foi ao banheiro. O marido deu-lhe boa noite, fez a oração habitual em frente à imagem de Santo Expedito e deitou-se. Dez minutos depois, quando Yeda entrou no quarto, Moacyr já havia adormecido.

Durante os dias que se seguiram, reuniu forças para ter a tão esperada conversa. Decidiu que não passaria de sexta-feira. Deitaram-se ás onze da noite. Yeda começou a acariciá-lo. O marido estranhou:
- Tá carinhosa hoje. O que deu em você?
- Peraí.Levantou-se, foi até o armário, pegou o embrulho e entregou a Moacyr. Ele abriu o pacote rapidamente, cheio de curiosidade.
- Quê é isso? – franziu a testa, espantado.
- Um vibrador!
- Vibrador?!! Eu sei, mas pra quê?!
- Ué, pra gente usar! A moça do sexshop me explicou que é super macio, flexível.
- Sexshop? Você entrou num sexshop?!

Moacyr apalpou o objeto em silêncio. Os olhos brilharam. Pediu licença a esposa e se trancou no banheiro com o vibrador. Cansada de esperar pelo marido, adormeceu. Sonhou que beijava, com ardor, o dono do botequim da esquina. Durante o beijo, abria os olhos e se deparava com a imagem de Santo Expedito piscando para ela.

9 de set de 2009

A JANELA DO VIZINHO

Sábado chuvoso. Sonolenta, Thaís acordou, se espreguiçou e olhou o relógio. Dez horas. Dia de folga. Virou para o lado e dormiu mais um pouco. O quarto escuro e o barulho da chuva deram vontade de ficar na cama até mais tarde. Levantou depois do meio-dia, tomou café, leu os jornais, verificou os e-mails e preparou uma salada para o almoço.


Três da tarde, abriu a janela do quarto e percebeu que o apartamento em frente não estava mais vago. Imaginou como seriam os novos vizinhos. Recém-casados? Mãe e filha? Idosos? E se fosse um casal com três crianças barulhentas? Sentiu uma pontada na cabeça, ao imaginar um garoto de oito anos, gritando e acordando a vizinhança, tocando uma corneta.


Lia uma revista na sala, quando no final da tarde a chuva apertou. Com medo de cair água dentro do quarto, foi fechar a janela e viu, pela primeira vez, o novo vizinho, andando pelo apartamento, de sunga. Pegou o binóculo para olhar melhor. O homem arrumava as roupas dentro do armário. Thaís ficou por trás das cortina: “Um Deus Grego” – pensou empolgada.


Desceu para comprar pão e passou pela portaria do prédio do novo vizinho. Viu o porteiro e aproveitou: - Boa noite, seu Argemiro. Que chuva, hein?

- Chuva é coisa boa! Molha as plantinhas. Tava muito quente.

- Temos vizinho novo no prédio, né?

- Sim, senhora. E o apartamento dele fica de frente para o seu.

- Eu sei . É um casal com filhos ou sem filhos?

- É um solteirão. Deve ter uns 36 anos. É piloto. Viaja muito.


Satisfeita com a resposta, se despediu, sorridente. Assim que voltou para o apartamento, ligou para a amiga Anelise.- Você precisa ver o homem lindo que veio morar na janela em frente a minha!

- Solteiro?

- Solteiríssimo. Acho que vou passar o dia na janela.

- E se for gay?

- Não tem a menor pinta. É piloto. Já me informei com o porteiro.

- Então amanhã me espera. Quero conhecer seu novo vizinho.

-Combinado. Mas, olha, ele já tem dona. Eu!


Antes de adormecer, Thais imaginou que estava no apartamento em frente, escutando música e bebendo vinho. Acordou de madrugada para ir ao banheiro e aproveitou para olhar pela janela. Lá estava o vizinho dormindo de sunga, esparramado na cama de casal, com as cortinas abertas.


No dia seguinte Anelise chegou para almoçar a uma da tarde.

- E aí , cadê o gostosão?


Foram até a janela. O vizinho estava de short, sem camisa, sentado no sofá e lendo jornal. Quando percebeu que era observado, levantou e se debruçou na janela.

- Boa tarde, sou o novo vizinho! Tudo bem com vocês?

As duas estremeceram de emoção. Refeitas do impacto, se apresentaram. Frederico conversou um pouco e depois, educado, pediu licença, avisando que iria arrumar o restante da mudança. Anelise brincou:

- Se quiser ajuda, pode me chamar!


Ele agradeceu e saiu da janela. Thaís não gostou.

- Eu chamei você pra vir aqui para almoçar e não para paquerar meu vizinho.

- Por acaso ele é propriedade sua?


Almoçaram em silêncio. Thaís saiu da sala para lavar a louça e deixou a amiga sozinha. Quando voltou, viu Anelise sair correndo da janela. Thais desconfiou. Uma hora depois, Anelise se despediu, agradecendo pelo arroz de camarão.


Durante a semana Thaís pouco viu Frederico. Quando se encontravam na janela, ele dava um tchauzinho, mas não puxava conversa. A amiga se mostrou esquiva e ocupada quando ela ligava. No sábado descobriu o motivo, quando viu Anelise e o vizinho aos amassos no apartamento dele. Teve vontade de gritar. Sentiu-se enganada. “Que amiga da onça! Rápida como um coelho e falsa como uma cobra.”! . Passou a noite deprimida e chorosa, e jurou que se vingaria .


Vingança planejada, ligou para Anelise, convidando-a para comer um bobó de camarão na sexta-feira. Convite aceito, Thais escolheu uma garota de programa pela internet, marcou um encontro para o mesmo dia e hora e deu o endereço do vizinho. Fez uma única exigência: A mulher teria que deixar a janela aberta pois o cliente era um tarado exibicionista.


Nove em ponto de sexta-feira, Anelise chegou. Conversaram amenidades. Thaís olhou o relógio e aparentando naturalidade, comentou:

- Você não sabe, menina, mas esse vizinho Frederico, é a maior chave de cadeia.


Sentiu que Anelise ficou interessada. Maliciosa, Thaís puxou a amiga pelo braço:

- Vamos até a janela ver se ele está em casa.

- Espera, antes preciso falar com você.

- Depois você fala. Vamos lá! Tenho uma fofoca boa para lhe contar sobre ele.


Puxou a amiga. Quando chegaram no quarto, Thaís apagou a luz e deixou apenas um pedaço da janela aberta.

- Vem ver , o cara está com uma mulher no apartamento!

Thaís tocou no braço de Anelise e percebeu que ela suava frio.

- Está passando mal?

- Não, não é nada. – disfarçou. – Vamos sair da janela.


Thaís envenenou:

- O Frederico é taradão! Todo dia tem uma mulher diferente na cama dele . Maior cafajeste. E só gosta de piranha!

- É?

- É. As aparências enganam. Muito promíscuo. Ainda bem que não fui pra cama com ele! Bem que ele tentou.

- É?

- E tem mais .

- O quêeeee?

- A vizinha do quinto andar já transou com ele. Ela pegou gonorréia, acredita?


Anelise empalideceu. Correu para o banheiro, se ajoelhou no chão, colocou a cabeça dentro do vaso e vomitou. Thaís deu um risinho e falou com voz sonsa:

- Amiga, acho melhor suspender o jantar. Você está passando mal.

4 de set de 2009

O ESCROTO

João Paulo bateu com uma das mãos na mesa do bar mais uma vez e falou com ar de dono da verdade:

- As mulheres são todas interesseiras! Gostam de um carro importado e de uma boa conta bancária. Não pago despesa de mulher. Meu dinheiro é meu! Só minha mãe usufrui dele.

Os dois amigos que ouviam atentos o discurso de João Paulo, discordaram. Cassiano, amigo de infância, foi o primeiro a falar:

- Você exagera. É por isso que está solteiro. Vai me dizer que a Ana é interesseira? Estamos casados há 6 anos e felizes.

Jader, o outro amigo, também foi em defesa das mulheres:
- Cassiano tem razão. Nem todas as mulheres são interesseiras. Você está precisando se apaixonar, namorar e casar.

João Paulo bateu mais uma vez na mesa, indignado:
- Tá louco. A solteirice é um sacerdócio. Na verdade o amor é um grande jogo de interesse.

Os amigos balançaram a cabeça. João Paulo, inflamado, continuou o discurso:
- E tem mais: quando saio com uma conquista, a despesa é dividida. Elas não quiseram igualdade? Uma vez saí com uma interesseira e levei para o motel. No final, na maior cara de pau, só para irritar, perguntei: vai dividir ou vai pagar sozinha?

Cassiano comentou, já conformado com as idéias do amigo:
- Esse aí não tem jeito não. É um escroto narcisista e arrogante!

Acabaram rindo e pediram mais uma rodada de chopp. Incentivado pela risada dos amigos, terminou o discurso diante do olhar atento de um homem que estava sozinho na mesa ao lado :

- Mulher é um bicho confuso: queriam igualdade e agora reclamam de solidão? As carentes até pagam para ter companhia. E eu lá tenho cara de psicólogo para acabar com a carência de alguém?

João Paulo, 38 anos e bem sucedido profissionalmente, morava com os pais. Com um físico invejável, freqüentava academia todos os dias. Nunca namorou sério. Tinha aversão a compromisso. Enjoava logo das namoradas. Quando chegava nas festas, as mulheres se agitavam.

Relacionava-se sempre com mais de uma. Além de namoradas, colecionava também amigos. Era popular. Não tinha amigas. Não acreditava em amizade entre um homem e uma mulher, principalmente com mulheres bonitas. Apaixonou –se por si mesmo.

A primeira coisa que fazia, quando tirava a roupa no motel, era se olhar no espelho. Se admirava durante um tempo e dizia, cheio de orgulho. para a namorada que o acompanhava no momento:

- Sou ou não sou gostoso?

Cassiano era o melhor amigo. Apesar das diferenças de idéias, se respeitavam. Sabendo da aversão de João Paulo a casamento, costumava provocar:

- Um dia aparece uma mulher para tirar você do sério! Quero ser padrinho dos seus filhos.

- Isso que é amigo. Me desejar uma coisa dessas. Tenho alergia a compromisso e mulher pegando no meu pé....! Gosto de liberdade, trabalhar, ganhar dinheiro, viajar e aproveitar muito. Tem muita mulher gostosa se oferecendo. Não dá para ficar com uma só .

Por causa de uma viagem de trabalho à Europa, Cassiano e João Paulo ficaram afastados durante um ano.

Assim que voltou do exterior, João Paulo ligou para o amigo. :

- Cassiano, tenho uma surpresa para você. Quando posso ir até sua casa jantar e revê-lo? Estou com saudade dos nossos papos!

Marcaram um almoço três dias depois, no sábado. Quando João Paulo chegou acompanhado de uma jovem alta, simpática e sorridente e apresentou-a como noiva, Cassiano se surpreendeu.:

- Que milagre é esse?! Achei que ia morrer solteiro.
- Pois é, milagres acontecem. Nos conhecemos na Espanha. Começamos a namorar para espantar a solidão e ficou sério. E mais: vamos casar e quero você padrinho do meu casamento .
- Casar? Como manda o figurino: igreja, festa, véu....?!.

João Paulo interrompeu e continuou:

- Exatamente.....grinalda, flor de laranjeira, festa....padrinho....os pais dela são católicos tradicionais e fazem questão.

- Quem diria.....parabéns! Estou orgulhoso do amigo.

No dia do casamento, com a igreja lotada, amigos e familiares de João Paulo comentavam o enlace, considerado uma grande zebra. Marcado para ás 7 da noite, deu 7 e meia e nada de João Paulo aparecer. Cassiano ligou para o celular dele mas não obteve resposta .

A noiva chegou e recusara-se a descer do carro enquanto o noivo não aparecesse. Quando o relógio bateu 8 da noite, as fofocas e comentários maliciosos começaram. O padre avisou que não teria mais casamento.

Os pais de João Paulo ligavam para o celular do filho, que não atendia. A mãe de João Paulo tentava se desculpar com os familiares da noiva:

- Deve ter acontecido alguma coisa....não é possível....saí de casa, ele estava se arrumando ..

Sentindo-se humilhada e prometendo se vingar dos homens, a noiva Melissa pediu ao motorista que a tirasse da porta da Igreja. Cassiano, finalmente, conseguiu contato com o amigo:

- Rapaz, onde você se meteu? Tá a maior confusão na Igreja. Seus pais estão constrangidos.....a Melissa já foi embora....os convidados também....

Do outro lado da linha, João Paulo ria:
- Estou dirigindo em direção a Angra dos Reis com uma morena de dar inveja. Conheci na festa de solteiro. Lembra? Me fez perder a cabeça. A vida é boa demais para viver o resto da vida com uma mulher só .. Quanto mais, melhor!

Cassiano tentou convencer o amigo a voltar para dar uma satisfação. No final, sem sucesso, falou:
- Cara posso dizer uma coisa, com todo respeito?
- Diga. Somos amigos. Unha e carne.

- Você é mesmo um escroto narcisista e arrogante !!!!

E começaram a gargalhar