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30 de ago de 2009

MISTÉRIOS NA NOITE....


Noite de chuva. Fazia frio. Desceu do táxi, ajeitou o casacão preto de linho , subiu as meias finas, correu até a portaria, colocou as luvas, abriu a porta e subiu três andares de escada, em silêncio. Tirou com cuidado a faca que trazia na bolsa. Cortante. Afiada. Olhou-a com prazer demoníaco. Mordeu os lábios e se livrou da peruca que a incomodava. Soltou os longos cabelos pretos.



Parou em frente ao apartamento 303. Olhou para um lado. Depois, para o outro. Respirou fundo. Tocou a campanhia. O homem abriu a porta só de cueca. Fez cara de espanto. Ela o empurrou para o interior da sala . Colocou-lhe a faca no pescoço . Sorriu cheia de malícia. O peito arfando. Gozava pelo prazer que ainda não tivera.


Em seguida, mandou-o se ajoelhar. Obedeceu acuado. Ela tirou o casacão lentamente. Nada por baixo. Jogou as luvas em cima do sofá . Colocou as meias em volta do pescoço dele. A faca brilhava imóvel no chão ao lado das sandálias prateadas. Fizeram amor até o dia amanhecer. Meio-dia o homem acordou e sonolento pediu :

- Da próxima , quero uma lutadora de boxe !


24 de ago de 2009

EU TE AMO

Sábado de céu estrelado e noite de lua cheia. Lucília e Macedo entraram num restaurante perto da praia e escolheram uma mesa no canto. Depois de fazerem o pedido, trocaram carícias discretas . Envergonhada, Lucília declarou-se:

- Eu te amo!
- O quê?

Repete com voz pastosa:
- Eu te amo, Macedo.
- O que você quis dizer com isso?
- O que você escutou.
- Amor é coisa séria, Lucília.
- Que falta de romantismo! Eu digo que te amo e você me trata friamente?
- Não quero iludir ninguém. Você sabe que eu gosto de liberdade. Sou sincero.
- Em outras palavras, isso quer dizer: Saio com você, mas também saio com outras. Sou infiel. É isso?
- Sem drama, Lucília. Só não quero perder minha individualidade.Amor é prisão.
- Não sabia que você se sentia algemado – disse ofendida.
- Fui claro desde o início : Prezo minha liberdade.
- Isso é desculpa pra sacanagem, Macedo.
- Impressão sua. Só não gosto de cobrança.
- Não cobrei nada, apenas expressei o que sinto. É pecado?

- Quem dá, pede de volta. Amanhã vai me cobrar a mesma coisa. Mulher é tudo igual.
- Você está me confundindo com a sua ex que era ciumenta e te sufocou. Sou diferente.
- Vamos mudar de assunto, essa conversa tá ficando chata.
- Por quê?
- Não estou preparado para compromisso sério. Preciso de espaço para respirar.
- Ei , não te pedi em casamento, apenas disse que te amava.
- Primeiro diz que me ama, depois quer conhecer minha família, dormir na minha casa.
- E qual o problema? Você é alérgico a compromisso sério?
- Tentei outras vezes e não deu certo. Quero uma relação leve. Cada um na sua.
- Então você não é meu namorado?
- Estamos tentando.
- Há quase um ano Macedo? Você é um cara-de-pau!
- Pronto, começaram as agressões. Vamos mudar de assunto.
- Quando é que você vai estar pronto para ser meu namorado oficial?
- Hoje nada é oficializado.
- Então você não me ama?
- Amor é relativo. Você pode amar o time de futebol, pai, mãe. Eu amo meu labrador.
- Você é um filósofo, Macedo. Ama o cachorro, mas não me ama?
- Cachorro não cobra . Homem pensa diferente. Não quero me sentir preso.
-Você perdeu o interesse por mim, é isso?
- Nossa sintonia não está combinando. Não foi isso que eu disse.
- Foi o que você acabou de dizer. Quer ficar livre de mim.
- Não tente adivinhar meus pensamentos. Mulher tem essa mania .
- Não generaliza. Eu sou A MULHER.

O garçom serviu a pizza, enquanto eles continuavam a conversa. Para descontrair, Macedo brincou:
- Mulher é tudo igual .Adora complicar, né?

O garçom deu um risinho sem graça, cortou a pizza e balançou a cabeça timidamente.
- Se precisarem de mais alguma coisa é só chamar. Com licença.
- Macedo, que palhaçada é essa de colocar o garçom na nossa conversa?
- Tava brincando. Tudo você leva a sério. Que mau-humor!
- Perdi a fome – empurrou o prato com cara de nojo.
- Quê isso, Ritinha!
- Ritinha? Você me chamou de Ritinha?
- Chamei? Nem percebi. Desculpe. Você me deixa nervoso. Come a pizza.
- Não quero, pode comer tudo.
- Vai estragar nossa noite?
- Quem estragou foi você.
- Eu?!
- Você, sim. Tá filosofando pra cima de mim, só porque eu disse que te amava. Homem é tudo igual . São todos egoístas.
- Vamos deixar esse papo feminista pra depois. Já pedi desculpa. Come a pizza e vamos mudar de assunto .
- O que você sugere? – falou irritada, balançando a perna e batendo com o pé no chão.
- Que tal falarmos sobre as várias espécies de moscas existentes no planeta terra?
- Você é uma delas, né? O popular mosca de padaria.
- Deixa de ser boba. Minha bobinha.
- Você não aceita o meu amor, troca meu nome e eu é que sou boba?
- Caramba, mulher tem mania de ficar batendo na mesma tecla. Vai, come.
- Pra você é fácil.
- Bobinha, vamos sair daqui e fazer as pazes na cama. Adoro transar com você irritadinha.
- Homem só pensa em sexo. Sou apenas um objeto sexual pra você?
- Você não gosta de ser usada?
- É isso que eu sou pra você. Uma VAGABUNDA?
- Não disse isso. Tá difícil conversar, Lucília! Você leva tudo para o outro lado.
- Que lado?
- Esquece, Ritinha. Desculpe, Lucília. Tá vendo como você me deixa confuso?

Silêncio. Lucília respirou fundo, esticou o corpo, mordeu os lábios e falou decidida:
- Macedo, você é um babaca. Como eu não percebi isso antes?! Vai pra puta que te pariu!Pegou a bolsa e saiu

18 de ago de 2009

INSÔNIA...

Chegou em casa agoniada.
Seria mais uma noite daquelas.
Tirou a roupa. Tomou um banho quente.
Bebeu leite morno.
Pensou no homem amado. Respirou fundo.
Deitou-se. Olhou para o relógio.
Duas da manhã.
Levantaria ás 7 para o trabalho.
No silêncio da madrugada,
o tic-tac aumentou.
Parecia uma bomba relógio prestes a explodir.
Virou-se para o lado direito. Esquerdo.
Nada.
Olhos arregalados.
Dançaria um tango se fosse preciso.
Três da manhã.
O nervosismo venceu.
Tomou um tranquilizante.
Travou o despertador e voltou a dormir.
Acordou nove e meia.
Chegaria atrasada pela quarta vez.
Dessa vez assinaria advertência.

12 de ago de 2009

A RUIVA DO BAR



Terminei meu plantão e entrei no boteco, doido por uma cerveja. Trabalhei o sábado inteiro tirando foto de cadáver .Estava puto com a minha vida de merda e com a calhordice humana. Tenho seis irmãos. Sou o filho caçula, o único solteiro. Voltar pra casa significa aturar a úlcera crônica do meu pai e a artrose da minha mãe. Só bebendo pra esquecer.


Pedi uma cerveja ao Antonio. Quando saboreava meu primeiro gole, uma ruiva franzina, cabelos escorridos, olhos de beagle e rosto afilado, entrou e seguiu em direção ao balcão. Pediu um maço de cigarro. Tirou do bolso o dinheiro amassado e jogou pro Antonio. A ruiva me intrigou. Gosto de desvendar mistério. Me aproximei. Ela cheirava a colônia ordinária, misturada com cigarro. Aquele cheiro de vagabunda me deixou com tesão. Resolvi brincar.

- Cigarro faz mal a saúde, gata!.
- Vai se foder, cara! Te perguntei alguma coisa?


Deu um pinote e saiu sem olhar pra trás. Fiquei com cara de babaca. O Antonio riu de peidar. Sentei no meu canto e bebi outro copo. Não era o meu dia de sorte. Decidi acabar com a garrafa e pegar meu ônibus pra Nilópolis. Chegaria em casa, tomaria um banho quente e assistiria uma merda qualquer na tv até pegar no sono.
Pensava na minha cama quentinha, quando a ruiva voltou. Ela sentou-se na minha frente e começou a chorar. Fiquei sem ação. Não sabia se coçava o saco, se pedia outra cerveja, se perguntava o nome dela. Me enrolei todo. Juro. E ela abrindo o berreiro. Nestas horas o Antonio sabia o que fazer. Era um psicólogo de boteco. Trouxe outra cerveja. Enchi um copo e estiquei minha mão pra a ruiva.

- Bebe e pára de chorar, porra!

Ela entornou tudo de uma vez. Arrotou na minha cara, tirou a garrafa da minha mão e encheu o copo de novo. Peguei de volta.

- Peraí, me diz primeiro o que tá acontecendo. Quer se matar?
- Quero.
- Por quê?
- Meu namorado terminou comigo. Tá apaixonado por outra.
- Quantos anos você tem?
- Vinte.
- Tá de sacanagem? Com essa idade e chorando por causa de homem?
- E tem idade pra chorar? Que teoria babaca, cara! Vai me dar sermão agora?
- Tá cheio de homem carente por aí, precisando de um colo – brinquei
- Eu quero ele.
- Ele fode gostoso?
- Caramba, você é mais grosso do que eu. Vou nessa me atirar na frente de um carro.
- Peraí. Não faz drama . Senta.


Segurei o braço da ruiva, aflito. Eu atraia morte. “Vou dar um porre nessa aprendiz de suicida“ – pensei. Bebemos oito garrafas de cerveja. Ela ficou alegrinha. Ria de qualquer besteira que eu falava. Uma da madrugada. A essa hora não voltaria mais para Nilópolis. Joguei:

- E ai, ruiva? Onde você mora?
- Pô eu moro com o meu ex. Mas ele não deve tá e eu não tenho a chave.
- O que você acha da gente dormir num motel aqui na Mem de Sá?
- É um convite?
- Se você quiser.
- Vamos nessa.

Agarrei a ruiva pelo ombro e lá fomos nós desafiando a madrugada. Entramos num motelzinho ordinário, como ela. Subimos por uma escada de madeira barulhenta. Abri a porta. O cheiro de mofo me deu azia. Escancarei a janela cheirando a cupim. A ruiva sentou na cama. Perguntei, tirando a calça:
- Quem vai tomar banho primeiro?
- Vai você.
- Fica quieta aí, hein?! Não vai fazer merda!
- Pode deixar!
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faz.
- Tá menstruada?
- Não.Por quê?
- Não transo com mulher menstruada.
- E quem disse que a gente vai transar?
- É, não vai.

Tomei um banho frio. Esfreguei o sabonete quase arranhando meu corpo. Acho que eu tinha esperança de me livrar das mazelas daquele dia com água e sabão. Saí do banheiro sem roupa. A ruiva foi tomar banho. Voltou nua. Muito magra. Branca demais. Pálida. Perdi o tesão. Mas não podia recusar carne fresca. Não tem coisa pior para um macho do que ser chamado de broxa. Fechei os olhos e pensei na peituda da minha rua que não me dava bola. Deu certo. Foi rapidinho. Peguei no sono com a ruiva reclamando:

- Igual a todos os homens. Fode mal. Vira pro o lado e dorme. Babaca.

Acordei com o estômago reclamando e o hálito fedegoso. Sete horas. Olhei para o lado e não vi a ruiva. Tomei uma chuveirada. Peguei minhas coisas e o maço de cigarro dela em cima da cadeira. O cara da portaria não a viu sair. Caminhei pelas ruas com um mau pressentimento. Quando entrei na Gomes Freire vi uma pequena multidão olhando pro céu. Era a ruiva, do alto de um prédio, ameaçando se jogar. Me aproximei de um cara vestido com roupa de trocador.
- Há quanto tempo ela tá aí?
- Sei não. Cheguei agora. Tão comentando que ela foi corneada. Acho que o namorado é aquele ali.

Vi o cara conversando com um policial. Fui até eles e me identifiquei. O rapaz era o namorado da ruiva. Chamei o colega para um canto e comentei:

- Se o cara tá aí, ela não vai se jogar
- Como é que você sabe? Conhece a moça?
- De vista. Quando ela sair do terraço, dá o maço de cigarro pra ela. Diz que foi o, diz nada não. Tchau.

“Caramba” - pensei. “Fui pra cama com a mulher e nem sei o nome dela.”. Andei até a Central do Brasil e peguei meu ônibus pra casa. Sentei no último banco. Olhei pela janela e respirei o ar poluído. O céu azul me deixou esperançoso. Me deu vontade de cochilar. Recostei no banco e quando tava quase dormindo, escutei alguém gritando:
- Perdeu, cara! Perdeu!. Dá o celular, anda!. Vou te furar todo! Porra, passa logo!


Dois homens roubavam os passageiros. Quando chegou a minha vez foi tudo muito rápido. Prendi a respiração, peguei minha pistola e mirei no assaltante com o trêsoitão:

- Vamos ver quem vai pro inferno primeiro!?

7 de ago de 2009

FESTA SURPRESA

Sexta-feira, sete da manhã. Marielza acordou Salustiano com um beijo festivo.
- Parabéns pra você, nesta data querida!
- E eu lá tenho motivo para comemorar alguma coisa?
- Nossa, homem, que baixo astral! Hoje é seu aniversário! Toma, abre o presente.
- Cueca nova!
- Gostou?
- É uma coisa que a gente sempre precisa, né?

Deu um sorriso apertado, saiu da cama e foi tomar banho para ir trabalhar. Tentando agradar o marido, Marielza caprichou no café. Salustiano saiu para a repartição mais animado. Em seguida, Marielza se arrumou e foi para o escritório. Antes, tocou a campanhia da vizinha e amiga Rosiele.
- Tudo certo para logo mais?
- Certíssimo! Fica tranqüila.
- Então vou deixar a chave lá de casa com você.
- Deixa sim. Eu adianto os preparativos. Bom trabalho.

Marielza pegou o ônibus cantarolando. Trabalhou de bom-humor. Ás cinco em ponto bateu o cartão e foi pra casa. Encontrou Rosiele montando os arranjos e enfeitando a sala.
- Tá conseguindo encontrar tudo?
- Só tive dificuldade para achar os guardanapos, mas já estão na mesa.
- E o bolo?
- Em cima da geladeira.

Empolgadas, colocaram as cervejas e os refrigerantes no freezer. Montaram uma mesa com o bolo e os doces e deixaram os salgadinhos prontos para serem aquecidos no microondas. Às sete, em ponto, a mãe de Salustiano tocou a campanhia :
- Nossa, tô orgulhosa! Meu filho merece tudo isso?
- Isso e muito mais. A senhora sabe que amo seu filho.

Logo chegaram os irmãos, as cunhadas e os sobrinhos do aniversariante. Oito da noite, quando Salu colocou a chave na porta, apagaram as luzes e fizeram silêncio. Assim que ele entrou, iluminaram a casa toda e cantaram parabéns. Salustiano empalideceu. Nos olhos, uma sombra de alegria e outra de preocupação. Marielza foi a primeira a abraçá-lo. Entre surpreso e preocupado falou baixinho no ouvido da esposa:
-Depois você vai me explicar que loucura é essa.

Ela deu uma risadinha e tentou disfarçar o constrangimento. Em seguida, a família rodeou Salustiano. Queiroz, o irmão mais velho, deu um tapa na barriga e gritou:
- E aí cunhadinha, sai ou não sai a loura gelada?

Rosiele ajudava Marielza a servir os convidados. A sogra, com um sorriso de mostar as gengivas, jogava com os pés, um salgadinho para debaixo do sofá e comentava, para disfarçar:

- Que vizinha maravilhosa é a Rosiele!

A família conversava animada enquanto mastigava com avidez. Só o aniversariante, em meio à alegria, demonstrava um estranho abatimento. Queiroz foi quem o tirou da prostração:

- E aí, Salu, desce ou não desce outra loira gelada?
Ensimesmado, Salustiano entrou na cozinha e encontrou Marielza e Rosiele cochichando. Pediu licença à vizinha e ficou a sós com a esposa. Levou-a para um canto da cozinha e desabafou o que carregava entalado na garganta.
- Você tá maluca de dar essa festa?! Nós estamos afundados em dívidas, devendo a banco e você me gasta dinheiro com festinha de aniversário?
- Deixa de ser mal-agradecido. Não está gostando?
- Como é que eu vou gostar sabendo que terei que pagar pelo seu delírio? Você quer me arruinar? Como a gente vai pagar isso?

- Não se preocupe. Deixa comigo.Já acertei tudo. Você não vai gastar nada.
- Você vendeu alguma coisa? Roubou? Sei lá. Fez alguma merda?
- Nada disso. Depois eu falo. Curte a festa.
- Não consigo. Minha cabeça está explodindo.
- Já disse, curte a festa, depois conversamos.

Queiroz entrou na cozinha gritando, interrompendo as lamúrias do irmão:
- Sai ou não sai mais uma gelada? Que festão hein? Depois diz que tá no fundo do poço!

Meia-noite em ponto, os convidados cantaram os parabéns. Marielza fez questão que a primeira fatia fosse a dela. Saindo pedaço de bolo pelos cantos da boca, Queiroz comentava, com ares de inveja:
- A Carminha nunca fez uma festa surpresa pra mim! Que se dane minha glicose alta. Esse bolo de chocolate tá uma delícia!
Quase uma da madrugada, os convidados se foram, empanzinados. Rosiele piscou para Marielza:

- Amiga, vou ficar para ajudar na limpeza.Trocaram um sorriso de cumplicidade. Marielza foi até o quarto, pegou uma bolsa, colocou a camisola e chamou o marido. Ela tranca a porta.
-Precisamos conversar, Salu . É importante.

Ele se sentou na beirada da cama, intrigado. Depois de conversarem, Salustiano, colocou a mão na cabeça, enquanto balançava a perna, nervoso:

- Você é maluca, Marielza. E se eu não concordar?
- Se você não concordar, vai ficar mais encalacrado ainda Escolhe.
- Mas isso é coisa que se faça?
- A Rosiele está sem homem há dois anos. Custa dar uma moral pra minha amiga?
- Mas logo eu?! O que é que eu faço agora?
- Até parece que você não sabe. Se vira, queridinho. A festa foi um sucesso.
- E você? Vai pra onde?
- Durmo na casa dela. E olha, seja homem pelo menos pra isso. Não me decepcione.

Marielza foi embora, carregando um pratinho com doces e salgados. Antes de bater a porta, desejou boa sorte, falou para o marido usar a cueca nova e fez uma última recomendação:
- Comportem-se! Nove horas quero voltar pra casa e encontrar meu maridinho inteiro.

Sem escolha, Salustiano tomou um banho para relaxar. Enquanto a água escorria-lhe pelo corpo, pensou: “Até que a Rosiele é gostosinha. A Marielza é muito criativa!”

Foi pra sala só de cueca. Para suavizar o ambiente, colocou um CD de música romântica. Na cozinha, pegou a última garrafa de cerveja. Serviu. Beberam no mesmo copo. Excitado, apagou a luz e esticou as mãos tirando a vizinha para dançar. Apertou-a contra o corpo e beijou-lhe a nuca. Ela correspondeu.

Enquanto Salustiano pagava a dívida, Marielza se deliciava com os doces, ouvindo Maria Bethânia. Antes de dormir, suspirou, sonhadora, e sentiu orgulho de si mesma. A madrugada rompia no céu estrelado quando ela adormeceu com um sorriso no rosto.

3 de ago de 2009

DIA D

Levantei da cama 9 da manhã. Abri a janela e deixei o sol entrar no quarto. Segunda-feira. Primeiro dia de férias. Estava disposto. Um dia inteiro só pra mim. Preciso mesmo descansar, ocupar a cabeça com as coisas belas da vida. Não agüento mais botecos fedorentos. Tiros. Sirene de polícia. Delegacias. Algemas. Acabar com a bandidagem é tarefa ingrata. Estressa. Destrói a família . Aumenta a pressão. Causa labirintite. Por falar em labirintite, deixa eu tomar meu remédio.


Hoje nada me impede de ser feliz. Nem as ligações insistentes da mãe dos meus filhos. Aquela jararaca. Três anos de namoro. Casei achando que encontrara a mulher da minha vida. Durante o namoro era boazinha, carinhosa e compreensiva. Concordava com tudo o que eu dizia. Não reclamava dos meus plantões na delegacia. E adorava quando saíamos e eu estava armado. Casamos. Durou oito anos. No primeiro ano de casado ela já mostrava que eu me metera numa grande roubada. O docinho se transformou numa mulher ciumenta, autoritária e chata. Implicava com os meus plantões e quando eu era chamado para algum atendimento de emergência, ela fazia a maior cena de ciúme.


Só faltava me amarrar no pé da mesa. Ainda assim, tivemos dois filhos. Quando o menor completou um ano, saí de casa. Em meio a muitas ameaças, abandonei a vidinha de casado: medíocre e sem emoção.Já tinha outra engatilhada. Uma ex-namorada que reencontrei no velório de um amigo. Saí de casa e fui morar com ela. Durou pouco. Seis meses. Ela não suportou os escândalos da mãe dos meus filhos e nem meus plantões. Decidi dar um tempo e passei a sair sem compromisso. Toda semana uma mulher nova. Adoro mulher. São boas por pouco tempo. Depois de alguns meses começam a dar defeito. E eu passei a trocar morenas, por ruivas, por mulatas, loiras. Eu não queria me aborrecer. Já tenho uma profissão desgastante, uma ex-mulher no meu pé, não dá para arrumar namorada chata.


Meu negócio é relaxar nas folgas. No momento estou sozinho.Terminei com Rose tem uma semana. Mas acho que sou muito gostoso. Ela não sai da minha cola. Dez torpedos no celular, só no domingo. Chato quando uma mulher não entende que terminou. Elas se humilham, correm atrás, fazem escândalo. Pelo visto Rose é o tipo pegajosa. Sabe do que mais? Não quero nem saber. Vou curtir minhas férias. Vou passar uma semana na casa dos meus pais no interior de Minas e depois vou pegar muita praia e muita mulher. Beber. Dançar e recuperar meu tempo perdido com aporrinhação. O que a gente leva da vida? Momentos. Apenas prazer e momentos felizes. Chega de Rose. Já falei que não quero mais. Se ela não me entende, que se dane. Não sou babá de mulher carente.


Entediado, abro a geladeira: “Nada pra comer. Nem um pãozinho.Vou ter que ir na padaria“. Preciso de um pão doce. Adoça a boca. Antes, bermuda. E claro, mesmo de férias, não largo a minha pistola, nem para tomar banho. Desci o elevador com a minha vizinha gostosona. Vai trabalhar. Beleza estar de férias! Coloquei o pé pra fora do prédio. A poluição me fez mal . Fiquei tonto de repente. É a maldita labirintite. Frescura. Agora é só atravessar a rua e comprar o pão. Depois volto pra casa e leio meu jornal de ponta a ponta.


Entro na padaria e bato o olho numa loira linda, tomando café. Ela me encara. Tem os olhos azuis mais tristes que já vi. Escolho um pão doce, sem desviar o olhar da loira. Nunca a vi na padaria. Será que mora no meu prédio? Estou de cabeça baixa separando as moedas para pagar meu pão. Sinto um bafo quente no meu cangote. Um homem fedido me empurra gritando com o caixa :


- Perdeu meu irmão ! Perdeu ! A grana.Anda. Se não te furo todo !


Não acredito! Assalto? Férias? Que merda tava acontecendo? Minha visão embaçou. Peguei minha pistola. Atirei. Senti as costas ardendo. Levei um tiro. Caí. Porra! Que sensação de merda. Tudo rodando. A loira se aproxima gritando :


- Sou médica ! Chamem uma ambulância.


Segurou forte minha mão :

- Agüenta firme. Não se mexe.


Foram as últimas palavras que ouvi. Não senti mais meu corpo. Passei a flutuar. Que delícia ir para o céu refletido naqueles olhos azuis.