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28 de jul de 2009

AMOR VIRTUAL

Jane colocou a melhor roupa. Passou um perfume suave.
Chegou no shopping dez minutos antes da hora.
Nervosa, olhava o relógio e esfregava as mãos.
" Será que ele vai gostar de mim" ?
Teclavam há quase um ano. Amavam-se pela
webcam. Era feliz assim.
Mas....ele quis um encontro real.

Foi pontual.
Era exatamente como Jane imaginou.
Tocaram-se pela primeira vez.
Abraçaram-se emocionados.
O perfume dele empregnou-lhe as narinas.
Jane teve convulsões estomacais.
Ele suava entre as pernas.
Sorriram sem graça.
Faltava alguma coisa.
Mas....o quê ?
Uma hora depois, despediram-se amuados.
Jane chegou em casa e conectou-se primeiro.
Logo depois , ele apareceu.
Não falaram sobre o encontro.
Teclaram até o dia amanhecer.

27 de jul de 2009

O EX-MARIDO CACHORRO

Rose andava apressada pelo Largo da Carioca, sendo perseguida por Ismael.

- Pára, Rose! Preciso falar com você.
- Me deixa em paz, Ismael! Some da minha vida!
- Não posso. Sou pai dos seus filhos!
- Então não enche o meu saco.


Ismael alcançou a ex-mulher e segurou-a pelo braço.
- Me escuta, pelo amor de Deus! Você tem que me escutar.
- Larga meu braço , Ismael, tá todo mundo olhando.
- Você foi a mulher que mais amei na vida! Ainda amo!
- Foda-se!

Rose se desvencilhou e entrou no prédio. Ismael foi barrado pelo porteiro. A mulher chegou no escritório ofegante.
- Nossa, que bicho mordeu você?! Que cara feia! Dá um sorriso!
- Adivinha, Regina?
- Ismael, de novo?
- Isso. Atrás de mim no Largo da Carioca fazendo declaração de amor .
- Que homem insistente! Só pode ser doido.....
- E vai me enlouquecer....

Rose tomou um copo de água e nervosa, foi ler os e-mails. Não conseguiu se concentrar. Está separada há seis anos e não tem sossego. O ex-marido vive perseguindo-a. Manda mais de dez torpedos com declarações amorosas por dia. Telefona. Quando descobre que ela sai com alguém, envia flores ou vai visitar as crianças nas horas mais impróprias. Os pretendentes somem.

Pensava na agonia vivida desde a separação, quando Regina grita:
- Tem um homem na cobertura ameaçando pular!
O coração de Rose acelera e ela dá um pulo assustada.
- Será que é Ismael?

Desce pelas escadas. Quando chega na portaria, a confusão está formada: Carro de polícia, bombeiro, imprensa e populares gritam e olham para o alto. No terraço, Ismael berra e tira a roupa. Quando se desfaz da cueca e atira na calçada, a multidão delira. As mulheres se estapeiam para levá-la. Rose chega na hora. Uma confusão de sentimentos invade-lhe o coração: sente nojo, vergonha e pena do ex-marido. Quando se aproxima para falar com um policial, avista a ex-sogra chegando com os netos.:
- O que a senhora faz aqui com os meninos?
- Eles viram o pai pela televisão.

Furiosa por Arminda colocar as crianças no meio da confusão, começa a discutir chamando a atenção. Um policial puxa-a pelo braço.
- A senhora é a Rose, esposa do homem que tá lá em cima?
- Ex, seu guarda. Ex.
- Ele grita seu nome toda hora e ameaça se atirar se a senhora não falar com ele.

Quando Rose chega no terraço, ele corre para abraçá-la e é agarrado pelo bombeiro. Ismael é levado para uma casa de repouso, enrolado num lençol e aplaudido pela multidão. Durante o tempo que ficou internado, Rose viveu em paz. Porém, estremeceu, ao pensar na possibilidade do ex-marido sair do hospital. Numa sexta–feira, depois do trabalho, chegou em casa exausta e encontrou Ismael sentado no sofá, vendo televisão com as crianças . Os meninos estavam eufóricos e correram para contar a novidade.:

- Papai saiu do hospital! Papai voltou!
Rose colocou a mão na cintura e falou decidida:
- Ismael, você não mora mais aqui! Vai pra casa da sua mãe, anda, arruma suas coisas!

Choroso, ele se ajoelhou e juntou as mãos implorando:
- Por favor, deixa eu ficar! Eu não atrapalho, juro. Faço o que você quiser.
- Ah é? Quer ficar? De qualquer maneira?

Balançou a cabeça eufórico. Sem dizer uma palavra, Rose bateu a porta e foi na rua. Voltou meia hora depois com uma sacola de compras.
- Vai ficar? Então, coloca a coleira no pescoço.

Não adiantou o protesto das crianças. Rose tirou os apetrechos caninos da bolsa. No fundo, ela tinha esperança de que ele desistisse e fosse embora. Impossível. Ela colocou a coleira em Ismael e ele ficou amarrado ao tanque, junto com o Yorkshire da família. Apesar da condição humilhante, estava feliz. Rose chegou ao exagero de levar Ismael para passear na coleira. Teve prazer em humilhá-lo. Um prazer sádico,até então, desconhecido por ela.

Na vizinhança, o escândalo foi grande.
- Corre aqui , mãe, vem ver o Ismael passeando na coleira.
- Já não se faz mais homem como antigamente!
- A culpa é da imprensa que dá mau exemplo....

Chamada por uma vizinha, Arminda chegou na hora que o filho levantava a perna para fazer xixi no poste. Houve bate-boca. Arminda teve um ataque cardíaco e está internada no CTI. Rose passou a levar a família para passear aos domingos na Quinta da Boa Vista. Com a língua de fora e de quatro, Ismael corre satisfeito pelo gramado, para pegar o osso jogado pelas crianças. Em seguida, entrega-o à ex-mulher e gane de felicidade. Uma felicidade canina.

22 de jul de 2009

O PRESENTE

Fonseca saiu da loja de lingeries com um sorriso de felicidade no rosto. Colocou o embrulho na pasta e pegou o metrô de volta pra casa. Quando chegou, a esposa, Adelaide, assistia novela na sala. Fonseca deu boa noite, jogou a pasta no sofá e foi direto para o banheiro:

- Caramba , deixa eu correr que tô apertado!

Logo depois, a campanhia tocou e era o entregador da farmácia. O rapaz não tinha troco. Adelaide gritou da sala:

- Fonseca, tem dinheiro trocado?

- Pega na pasta.

Adelaide pagou o remédio e viu o presente dentro da pasta. Quando Fonseca chegou na sala, ela estava com o embrulho na mão.

- Quê presente é esse?

Fonseca ficou sem ação. Coçou a cabeça. Disfarçou e respondeu sem jeito:

- Pra você, ué!

- Pra mim? Mas não é meu aniversário nem nada. Aliás, em 15 anos de casamento você nunca se lembrou do meu aniversário.

- É que eu passei por uma loja de roupa íntima que tava liquidando então resolvi fazer uma surpresa.

- Posso abrir? Tem certeza?

- Tenho.

Adelaide abriu o presente e deu um gritinho de espanto:

- Um baby doll roxo? Que cafonice! Esse troço não cabe em mim!

- Como não cabe? A vendedora disse que era tamanho grande.

- Grande? Olha aqui Fonseca, olha o tamanho, P....de pequeno. Tá cego? Esse baby doll não é pra mim . Pra quem você comprou esse troço?

- Juro, é seu . Queria fazer surpresa. Pra quem mais eu ia comprar?

- Mais P? E roxo? Parece coisa de defunto.

- Vai ver que na hora que a vendedora foi embrulhar pra presente, eu me distraí. Aí ela confundiu os números . Me dá, amanhã eu passo na loja e troco.

Adelaide fuzilou o marido com os olhos. Ele não sabia mais o que dizer. Ela ficou vermelha e apertou as bochechas. Quando fazia assim, Fonseca sabia, a esposa começava a babar, ficava histérica e cheia de manchas pelo corpo.

- Sei. Se distraiu com alguma bunda andante que passou na hora.

- Quê isso, Adelaide?! Que bunda?!

- Não se faça de ingênuo, que de ingênuo você não tem nada. Sem vergonha... cínico ... faz meses que você não me encosta um dedo e agora vem com essa história de que comprou esse troço de defunto pra mim!?

Irritada, começou a jogar o que via pela frente em cima dele. Voaram almofadas, livros, bibelôs e quase foi a televisão. Fonseca saiu correndo e se trancou no quarto do computador. As brigas e discussões eram rotina na vida do casal e aquele baby doll com número trocado foi apenas mais um motivo para a confusão começar. Quando Adelaide se acalmou, Fonseca saiu do quarto na ponta dos pés. Faminto, caminhava em direção à cozinha, quando ouviu Adelaide gritar do quarto deles:

- Joguei aquele troço no lixo. Você pensa que me engana! Pode pegar aquele despacho e dar para a sua piranha.

Fonseca sabia que nessas horas de animosidade, o melhor que tinha a fazer era se calar. Foi até a cozinha, esquentou a comida que a empregada deixou no microondas e jantou quietinho. Quando se deitou, Adelaide já dormia um sono profundo. “Certamente” – ele pensou – “se encheu de tranqüilizante”.

Ficou na cama meia hora. Só levantou e saiu do quarto quando teve certeza que Adelaide ferrara no sono. Na ponta dos pés, foi até o quartinho de empregada. Jandira estava deitada quando sentiu duas mãos percorrendo-lhe o corpo e tirando-lhe a coberta.

- Deixa eu ver como ficou o baby doll, minha formosura!

Jandira levantou-se e desfilou para Fonseca, fazendo pose de stripper.

- Gostou, Fonsequinha?

- Vem cá minha delícia, vem tortura da minha vida. Caminho de perdição!

Passava das 4 quando Fonseca voltou para a cama. Dormiu até ás 7 e acordou bem disposto . Depois do banho, tomou um café especial feito por Jandira.

- Fiz tudo o que você gosta, meu patrãozinho gostoso .

- Você é maravilhosa, se eu não fosse casado, casava com você.

Assim que ele saiu para trabalhar, Adelaide gritou do quarto:

- Jandira, vem cá, agora! Já!

- Sim, senhora. O que houve?

- Não se faça de sonsa, me diga : o baby doll era pra você?

- Era sim, senhora.

- Gostou?

- Adorei, seu Fonseca é um homem muito bom e....

- Poupe-me os detalhes. Toma trinta. Só tenho isso. Sabe que não ganho muito. Esse dinheiro compra minha paz, pelo menos na cama.

- A senhora sabe que sempre que precisar.....

- Agora vai. Vai. Estou me arrumando. Quanto puder, aumento seu salário.

Adelaide levou uma hora para se arrumar. Escolheu os acessórios cuidadosamente, colocou o melhor perfume, caprichou na maquiagem e saiu para trabalhar cantarolando .

17 de jul de 2009

CANSADO DE SER CORNO

Elza olhou o relógio. Onze da noite. Respirou fundo, passou a língua nos lábios, colocou a chave no portão e entrou. A casa estava silenciosa. Jogou a bolsa no sofá e se dirigiu para o banheiro. Tomou banho, enrolou-se num roupão e entrou no quarto. Assim que abriu a porta e já ia acender a luz, Aderson agarrou-a pelo pescoço e jogou-a na cama.


- Onde você estava até essa hora?
- Me solta Aderson. Tá machucando meu pescoço.
- Não vou soltar enquanto não responder. Fala. Anda.
- Acende a luz e vamos conversar!
- Anda. Fiz uma pergunta e você não respondeu. Onde você estava até essa hora?

- Eu falei pra você que ia no aniversário do filho da Marise.
- Que Marise? Nunca ouvi falar em Marise.
- A Marise, minha colega de trabalho.
- E precisa deixar o celular desligado?
- Me solta Aderson!
- Não! Primeiro me conta . Quem é ele?
- Ele quem?
- O macho com quem você está saindo?!
- Não tô saindo com ninguém, deixa de maluquice!
- Fala. Quanto mais mentir , vai ser pior.
-Quer mesmo saber?
- Abre logo essa boca! Fala, merda.
- Tá me machucando. Tira isso dá minha cabeça.
- Fala. Ou vou apertar mais seu braço.

- Você quer saber mesmo?
- Quero. Sua última chance.
- Seu irmão .
- Você me traiu com meu irmão, sua cachorra?
- Nós só tomamos um chope . Nada demais.
- E não é nada demais?
- Não me bate. Na minha cara não.
- Pra você aprender. Fala. E naquele dia que você chegou mais tarde e colocou a culpa na chuva? Quem era o cara?

- Que dia?
- O dia da chuva. Quem era ele?
- O cara da academia.
-Aquele fortão?
- É. Aquele mesmo que me deu carona naquele dia.
- Vagabunda.
- Pára Aderson. Tá machucando.
- Você pensa que eu gosto de ser corno é?
- Eu disse isso?
- Pensa é? Responde!
- Não. Mas a culpa é sua.
- Minha? Você me trai e a culpa é minha?
- Quem deixou de me procurar na cama? Quem, Aderson? Quem? Responde
- Já disse que estou com problemas.
- Mas eu sinto falta.
- Você sente falta é? Você é uma vadia!
- Não Aderson. Vira esse troço pra lá! Pára de brincadeira.
- Você acha que eu tô brincando?
- Acho. Você não tem coragem.
- Ah é? Então quer dizer que além de corno , você acha que eu sou covarde ?
- Eu vou gritar.
- Grita. Pode gritar. Você vai morrer gritando.
- Não . Aderson. É mentira . Eu não traí você. É tudo mentira. Eu tava brincando.
- Brincando? É? Liga pra tua mãe. Vai. Toma o celular. Liga agora.
-Pra quê?- Pra avisar aquela sogra filha da puta que a filhinha dela vai para o inferno junto com ela.
- Não Aderson. Me dá isso aqui. Não, Aderson.
- E vai ser na cara. Pra na hora do enterro seus amantes não olharem pra esse rostinho sem vergonha!
- Não....nãooooooooooooooooooooo!

Aderson puxou o cabelo da mulher com força. Enlouquecido, urrava :
- Fala, vagabunda! Fala que me traiu.
- Traí sim! Traí com três homens lindos!
- Eles eram melhores do que eu na cama?
- Muito melhores! Eles me fizeram gozar gostoso!
- Repete, vadia!
- Eles me fizeram gozar gostoso!
- Vagabunda! Pilantra!
- Tira isso da minha cabeça e vem aqui comigo, Aderson!


Aderson jogou a arma no chão e falou no ouvido de Elza quase gemendo :
- Tô cansado de ser corno, sua cadela!
-Repete!
- Tô cansado de ser corno, CADELA!
- Duvido! Eu sei que você gosta!


Ele estapeou a mulher. Ela gritou excitada. Transaram até quase o dia amanhecer.Quando Elza adormeceu, Aderson foi até a sala, pegou uma taça de vinho tinto e bebeu com satisfação de criança

13 de jul de 2009

O NAMORADO DE CLARINHA

Clarinha olhou-se mais uma vez no espelho. Dona Geny entrou no quarto e avisou:
- O Juliano está na sala esperando .
- Tô bonita , mãe?
- Linda. Vai ser a mulher mais bonita da festa.

A jovem apareceu na sala jogando os cabelos para o lado. Juliano tirou os olhos da TV e se levantou esticando as pernas.
- Vamos?
- Ué, só isso?
- O que você queria mais?
- Não vai me elogiar?
- Não precisa. Você sabe que é bonita.
- Ah tá! Eu fico boba com o seu romantismo.
- Deixa de história Clarinha. Vamos logo que eu quero aproveitar a festa.


Meia hora depois abraçavam o aniversariante. Juntaram-se a um grupo de amigos para conversar e beber. Disfarçadamente, Juliano colocou os olhos numa morena de vestido vermelho que gesticulava e apontava para a varanda. Encantou-se com a mulher. Pediu licença a Clarinha e foi até o aniversariante.

- Cara, que morena é aquela de vermelho?
- A Natália?
- Isso. Aquela ali. Quem é?
- Ex- colega de faculdade. Gente boa.
- Que mulherão. Me apresenta!
- Toma vergonha, a Clarinha tá aí. Quer apanhar?


Juliano coçou a cabeça e voltou para o lado da namorada. Flertou com a morena . A mulher correspondia com olhares famintos, jogando a cabeça para trás e passando as mãos pelos longos cabelos. Juliano se imaginou beijando-a e apertando-lhe os seios fartos. Clarinha o fez voltar a realidade ;

- Ei , acorda! Você tá longe.
- Nada disso. Estou só deixando você falar. Fala amor.

Clarinha repetiu a última briga que teve com o chefe.
- Você acha que ele vai me demitir?
- Quem?
- Tem certeza que você está prestando atenção no que eu estou falando?


Provocante, a morena deixou a pequena bolsa preta em cima de uma mesinha e passou por Juliano, esbarrando no braço dele.

- Ah desculpe! Machuquei?
- Não. Quê isso!
Quando a morena saiu, Clarinha falou com o namorado, ressentida:
- Nossa, que mulher cega!
- Coitada, foi sem querer.
- Sem querer? Você acha que eu não notei ela olhando pra você?


Com medo das desconfianças da namorada, disfarçou:
- Acho que aquela coxinha de galinha não me fez bem. Muito gordurosa!
- Tá passando mal?
-Tô com dor de barriga.
-Poxa, coxinha fulminante, hein?
- Acho que sim. Vou até falar com o Souza....
- É, tem que falar mesmo.Coxinha perigosa. Você come e cinco minutos depois passa mal. – diz Clarinha ironicamente.


Juliano começou a se contorcer, simulando dor. Acreditando no teatro do namorado, ela deu a ideia :- Vamos embora?
- Melhor, né? Estou mal!


Juliano deixou Clarinha na porta de casa. Despediram-se:
- Quando chegar, ligo pra você, amor!
- Liga, sim. Estou preocupada. Melhoras.


Juliano voltou pra festa. Ligou para Clarinha do celular, avisando que já estava em casa. Os amigos espantaram-se ao vê-lo :

- Ué, não estava passando mal?
- Melhorei.


Sorrindo, procurou pela paquera : “ Só falta ela ter ido embora” – pensou. Natália conversava alegremente com quatro amigos. Juliano se aproximou e entrou na conversa. Quinze minutos depois, ficaram sozinhos. Ela perguntou, com voz adocicada:

- E a sua namorada?
- Já está em casa. Voltei por sua causa.


A mulher sorriu e encarou Juliano. Conversavam se tocando. Ele empolgou-se e já imaginava intimidade maior. A morena pediu licença e se afastou para falar ao celular. Voltou e com a mão no lábio pediu delicadamente:

- Você podia me levar em casa?
Juliano pensou : “ É agora “.
- Claro.


Entraram no carro. Juliano ligou o rádio e cantarolou feliz. Deixou Natália na porta do prédio. Tentou beijá-la. Ela recuou. Ele não entendeu, mas disfarçou :

- Quando nos veremos novamente?
- Nunca mais.
- Não entendi!?
- Queridinho, detesto homem galinha! Coitada da sua namorada!

Colocou a mão no queixo de Juliano, fez biquinho, sorriu e saiu batendo a porta do carro . Ela seguiu em direção a um homem alto e forte que a esperava na portaria. Abraçaram-se ,beijaram-se e desapareceram entre as portas de vidro do condomínio.

Juliano saiu cantando pneu. Pensou em Clarinha. Consumido pela raiva e pelo despeito, acelerou o carro e avançou o sinal . Não percebeu que no cruzamento vinha um ônibus em alta velocidade

9 de jul de 2009

CONSELHO DE AMIGA

Queridinha dobrou o guardanapo mais uma vez. O gesto irritou Altamir.

- Não entendo. Quis sair para comer uma pizza para ficar com essa cara emburrada?

- Você não respondeu a minha pergunta.

- Qual?-

Estamos namorando há dois anos. Todas as minhas amigas já estão casadas, menos eu.

- Qual o problema? Não temos nada a ver com a vida de ninguém. Cada um na sua.

- Quando é que você vai se decidir? Está com 34 anos. Não é mais um adolescente.

- Não tá bom do jeito que está? Casamento é complicado.

- Por quê?

- Dormir e acordar junto todo dia acaba com o amor. As despesas aumentam. Aí vem reclamação, filhos e rotina.

- É só não deixarmos cair na rotina. O que não dá é para namorar a vida inteira.

- Não está feliz?-

Não. Quero me casar com você.

- Queridinha, entenda, já falei: Não me imagino dividindo jornal pela manhã. Sou cheio de manias.

- Resolvemos o problema fazendo duas assinaturas.

- Mas também não gosto que mexam nos meus livros e nem nos meus cds.

- Isso é muito pouco para não querer casar. Tudo se resolve.

- Tá, mas aí você vai achar que somos um só porque casamos e vai querer saber a senha do meu e-mail. Saber quanto eu ganho. Esquece. Não nasci para casar.

- Como você é mesquinho, Altamir!

- Tá vendo? Só de imaginar já dá confusão. Sou assim. Moro sozinho há dez anos, não quero dividir travesseiro, nem escova de dentes.Gosto da solidão.


Os olhos de Queridinha encheram-se de lágrimas. Era a quarta vez que conversavam sobre o assunto e Altamir negava-se a assumir compromisso sério. Magoada, recomeçou a dobrar o guardanapo. Diante do impasse, ele chamou o garçom e pediu a conta.


No carro, ouvia-se apenas a respiração agoniada de Queridinha. Enquanto dirigia, Altamir olhava a namorada de canto de olho. Quando chegou em casa, ela saiu batendo a porta do carro. Adormeceu com o dia clareando. Acordou meio-dia com o corpo doído e os olhos inchados de chorar.


Pegou o telefone e ligou para a melhor amiga.

- Suely, vou terminar com Altamir. Ele não quer saber de casamento.

- Só você não tinha percebido. Aceita o convite do Joaquinzinho para sair.

- Aquele mala?

- Esse casa com você. Pode apostar.

Não quer um marido?

- Quero.

- Então. Vai formar uma família com direito a marido e filhos . Assim como eu.

- Mas e o sexo? Vai ser duro transar com Joaquinzinho.

- Fecha os olhos e fantasia. E mesmo casada, pode continuar dando suas voltinhas, como eu faço. Mas na foto, está lá, a família feliz e sorridente!

- E o amor?

- O amor acaba. E quando acaba, você olha para a cara do marido e pensa: onde eu estava com a cabeça quando me casei com esta merda?

- Mas se com amor já é difícil, imagina sem amor!?

- Melhor. Você não se ilude, portanto, não se decepciona. Com o Altamir, é solteirice na certa.

- Será?

- Claro. E escreve o que eu digo. Qualquer dia ele lhe dá um pé na bunda e aí, nem Joaquinzinho.

- Você tem razão, ele me enrolou .Vou ligar pra ele e dizer que ele é um canalha.

- Queridinha, todo canalha sabe que é canalha e gosta de ser chamado de canalha. Vai dar esse gostinho pro Altamir?

- Mas ele merece ouvir umas verdades!

- Não seja ingênua. Ele vai rir da sua cara com os amigos, coçando o saco numa mesa de bar e dizendo com orgulho: Queridinha me chamou de canalha!


Depois da conversa com Suely, Queridinha resolveu aceitar o convite de Joaquinzinho para ir ao cinema. Eram colegas de trabalho há dois anos e o rapaz vivia se declarando. Em pouco tempo, o relacionamento ficou sério e com seis meses de namoro, ele a pediu em casamento. Queridinha fez questão de uma união tradicional. Joaquinzinho, apaixonadíssimo, concordou. Na hora de enviar os convites, ela mandou também para Altamir.


Cheia de expectativa, contou a novidade para Suely.

- Quero só ver o que ele vai pensar quando receber meu convite de casamento!

- Você quer que eu seja franca? Vai ficar feliz!

- Você acha?

- Tenho certeza. Espere e verá!


No dia do casamento, Queridinha estava apreensiva. Queria desistir, mas foi convencida por Suely a ir até o final. Logo que entrou na Igreja, avistou Altamir. Teve vontade de sair correndo e cair nos braços do ex, mas ao olhar para Joaquinzinho no altar, sentiu pena e encaminhou-se até o futuro marido, exibindo um sorriso forçado. Durante a cerimônia religiosa, Queridinha emocionou-se com as palavras de Padre Firmino. Na hora dos cumprimentos, porém, estremeceu com a aproximação de Altamir.


O ex- namorado pegou suavemente em suas mãos e lhe falou, sussurrando no ouvido:


- Quando você voltar da lua-de-mel, me liga ou vai lá em casa para conversarmos.
Em seguida, olharam-se com ardor. O coração de Queridinha rejuvenesceu.


Quando ela avistou Suely lhe sorrindo, abraçada ao marido e aos filhos, teve certeza de que a amiga era uma mulher de muita sabedoria. Pela primeira vez, naquele dia, sentiu-se feliz por tornar-se esposa de Joaquinzinho.

3 de jul de 2009

CRIME NA MADRUGADA

Madrugada fria.
Recostou-se na soleira da porta.
A respiração ofegante impediu-o
de fugir de imediato.
Olhou para o chão sem arrependimento.
Lá estava Eugênia: Linda. Morta.
Ensanguentada.

Jamais perdoaria uma traição.
Desceu os dez andares pela escada.
Chegou na portaria vazia,
pegou o carro e seguiu em
direção a praia.
Limpou o sangue na água do mar.
Jogou a arma do crime no oceano.
Voltou para o carro e partiu sem destino.
Ao longe, a sirene da polícia
invadiu a madrugada.