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29 de jun de 2009

VAMOS DANÇAR ?

Lucineide conversava com Verinha e Marta no aniversário de Tavinho, quando um homem moreno, alto e de corpo atlético caminhou em direção a ela. As amigas comentaram, invejosas:

- Nossa, acho que esse colosso vem falar com você!

O homem aproximou-se e, sorridente, puxou conversa:

- Lembra de mim?

Lucineide fez pose, cruzou as pernas e respondeu, arrogante:

- Deveria?

Ele não se intimidou diante da secura e falou, gentilmente:

- Meu nome é Reginaldo. Estudamos juntos no primeiro período do curso de economia, depois eu não sei o que aconteceu, você sumiu. Mudou de curso?

Verinha e Marta olhavam para a amiga reprovando-lhe a atitude grosseira. Porém, estranhamente, Lucineide continuou, arrogante:

- Mudei, sim. Não gostei dos colegas de turma. E sinceramente, não lembro de você.

- Deixa de ser debochada – ele riu e continuou:

- Nós conversávamos durante os intervalos e você sempre foi muito brincalhona.

- Meu querido, não lembro mesmo – e ignorou-o, abaixando a cabeça.

Reginaldo desculpou-se e sem perder a pose, olhou para Verinha e sorriu.

- Já que sua amiga não gostou de mim, vamos dançar ou a estou incomodando também?

Verinha se atirou nos braços de Reginaldo com os olhos brilhando. Enquanto eles se encaminhavam, de mãos dadas, para a pista de dança, Marta reprovou a atitude de Lucineide:

- Não entendi?! O homem é lindo e simpático. Você deveria fingir que se lembrava.

- Eu lembro e até paquerava ele!

- Então, por que o tratou grosseiramente? Ele ficou sem graça.

- Homem tem que ser tratado assim. Imagina se eu ia me abrir toda? Não quero parecer uma mulher fácil.

- Você vai me desculpar, você foi muito estúpida e até mal-educada. Espantou o cara.

- Queridinha, homem gosta de ser maltratado e pisado.

- Não acredito. Quem espalhou isso foi algum gay ou uma mal-amada. Homem saudável gosta de ser bem-tratado.

- Que nada! Você vai ver. Está só me provocando.

- Não parece. Acho que você dançou. Olha a sintonia dele com Verinha.

- Está só me instigando. Logo volta com o mesmo papo e me tira para dançar.

- Se eu fosse você não teria tanta certeza – provocou Marta.

Enquanto conversavam, a namorada de Tavinho aproximou-se comentando:

- Verinha é uma sortuda! Dançando com um dos solteirões mais cobiçados do Rio.

- Jura? – instigou Marta.

- Vocês não o conhecem? Reginaldo é um bom partido, além de um rico executivo, é solteiro e educadíssimo. O único problema é que viaja muito e fica sem tempo para arranjar namorada.

Lucineide ficou intrigada :

- Se fosse tão bom assim estaria casado. Deve ser um galinha!

- Está enganada. Ele quer namorar sério, é um romântico assumido e com quase 40 anos acredita em relações saudáveis e até em alma-gêmea.

Marta deu um sorriso debochado e comentou, maliciosamente:

- Pelo jeito encontrou, olha como dança animado com Verinha!

Lucineide arrependeu-se da grosseria feita e mordeu os lábios de raiva. Teve vontade de gritar, quando Verinha, sorridente, despediu-se:

- Estou indo. Reginaldo me ofereceu uma carona.

O casal saiu de mãos dadas, conversando como velhos amigos.

Marta virou-se para Lucineide e falou com ar professoral:

- É amiga, você dançou. Eu não disse?

Despeitada, Lucineide mentiu e disse que ele não lhe interessava. Uma semana depois da festa, ela tentou uma aproximação. Telefonou para Reginaldo desculpando-se e dizendo que lembrara-se dele. Educado, ele agradeceu e falou, com ar vitorioso:

- Sabe que você me deu sorte quando não se lembrou de mim? Adorei sua amiga .

Lucineide ligou mais três vezes, convidando-o para um café num fim de tarde. Foi dispensada, gentilmente. Deprimiu-se, quando seis meses depois, recebeu o convite de casamento de Verinha e Reginaldo.

Nunca mais recusou uma dança. Nem dos parceiros baixinhos, barrigudinhos, sem charme, chatos e com mau-hálito.

Quando as amigas comentavam que ela mudara o nível de exigência, Lucineide respondia, tentando convencer a si mesma:

- Quem sabe não é minha alma-gêmea? O que importa é a pegada. Numa dança, tudo pode acontecer.

23 de jun de 2009

DEPOIS DO ENTERRO

O viúvo desatou o nó da gravata.
Suava até pelas narinas.
O dia era de muito calor.
Um amigo do escritório aproximou-se
para dar os pêsames.
A sogra desmaiou na hora do enterro.
A amiga da morta teve uma crise nervosa.
Ele saiu apressado do cemitério.
Passou numa salinha 3 por 4 no centro da cidade.
Entregou ao homem armado e mal encarado
o restante do dinheiro.
Pegou o carro e foi para o subúrbio.
A cunhada abriu a porta. Ele entrou.
Olharam-se cheios de cumplicidade.
Saiu antes do sol nascer.


16 de jun de 2009

NO ELEVADOR

Encontraram-se no elevador .

Olharam-se e sorriram.

Ele saiu primeiro. Trabalhava no sétimo.

Ela, no décimo.

Novo encontro na hora do almoço.

Trocaram telefone.

Final de expediente.

Marcaram uma saída.

Conversaram.

Beberam vários chopes.

Esticaram no motel.

Entregaram-se aos delírios da carne.

No dia seguinte, ele não foi trabalhar.

Ela chegou atrasada.

Quinto atraso no mês.

Foi demitida.

Nunca mais se viram.

7 de jun de 2009

NA ANTE-SALA DO TERAPEUTA


Rosemary ajeitou as meias finas, puxou o vestido e desceu do táxi. O céu estava escuro. A chuva fina prometia aumentar . Conferiu o número mais uma vez, entrou no prédio, pegou o elevador e saiu no quarto andar :
- 402. É aqui.


Tocou a campanhia . Foi recebida pela recepcionista :
- Boa noite . A senhora é Rosemary Marques ? Primeira consulta ?
- Sim . Acho que me adiantei . É a ansiedade.


A recepicionista foi simpática deixando-a menos tensa :
- Sente-se, por favor. O doutor Adriano vai chegar daqui a pouco...


Sentou-se num sofá vermelho em frente a um homem de terno cinza que folheava uma revista. Enquanto esperava, observava -o : traços finos, mãos esculpidas....
-Simpático – pensou.


De repente, ele olha para ela e pergunta :
- Primeira vez ?


Rosemary assustou-se . Estava distraída e não podia imaginar que o homem já a observava desde que ela entrara no consultório.
- Sim.
- Desculpe a curiosidade é que nunca a vi por aqui .
- O senhor vem sempre ?
- Tire o senhor, por favor . Faço terapia há um ano com o doutor Adriano.
- E ele é bom ?
- Pra ser sincero, não sei, nunca fui a outro.
- Mas o senhor....desculpe, VOCÊ não sentiu melhora no tratamento ?
- Seu nome é Rosemary ?
- Sim e o seu ?
- Meu nome é Ronaldo. Na verdade faço terapia porque meu chefe me intimou.
- Como assim ?
- Ele notou meu estresse depois da separação. Perdia a paciência facilmente com os clientes e gritava com eles no telefone . Fui intimado a procurar tratamento.
- O terapeuta foi recomendado pelo seu chefe ?
- Não. Vi o anúncio num folheto....
- Engraçado, eu também.
- Desculpe a indiscrição : mas por que procurou um terapeuta ?
- Sofro de insônia e minha irmã disse que sou muito desconfiada ... Devo ser paranóica, sei lá !
- Todo mundo é um pouco. Eu descobri um monte de paranóias que não sabia que tinha.....
- Então ao invés de se livrar das antigas descobriu outras ? Pelo menos não perde mais a paciência com os clientes, acertei !?
- É... agora quando tenho vontade de esmurrá-los corro para o banheiro. Aprendi a controlar meu instinto animal.
- Hummmm....e qual é a linha de tratamento do doutor Adriano ?
- Linha ?
- Sim.... a linha : lacaniana, freudiana , junguiana.... reichiana...
- Não faço a menor idéia. Não entendo desse assunto. Eu pago e ele me escuta.
- Nunca quis se aprofundar ?
-Na verdade, já disse , faço por causa do meu chefe. Tenho um amigo que entende bem desse assunto, faz terapia há uns 20 anos.....
- 20 ???? Viciado, hein !?
- O terapeuta dele é bom. Está no quinto casamento...mas o terapeuta é o mesmo.
- Quinto ? Então seu amigo é um casamenteiro compulsivo ?
- Descobriu na terapia que procura a mãe nas mulheres.
- Encontrou ?
- Pelo visto, AINDA não.


Rosemary olhou para o relógio impaciente :
- O papo está bom, mas cadê o doutor Adriano ?
- Ele não costuma se atrasar...aconteceu alguma coisa.....deve ser a chuva....
- É, aumentou.....mas você falava do seu amigo quando interrompi, desculpe.
- Então, como eu ia dizendo...fazendo terapia ele descobriu que procura a mãe nas mulheres. Mas agora quer descobrir outras coisas, adquiriu novas neuras ...sabe como é, a piora da melhora .
- Não entendi ! Piora ? Melhora ? Que outras neuras ?
- Você não paga para se descobrir ? Vai jogar dinheiro fora falando bobagem ? Tem que colocar pra fora...soltar as neuras !
- Será que não vou conseguir me livrar da insônia?
- Você quer fazer terapia só por causa da insônia ?
- Também por isso. Uma sessão de relaxamento seria interessante pra mim.
- O problema, Rosemary , é que descobrimos tantas outras neuras que dá até pra pirar ...ao invés de relaxar, você pode pirar.
- Você está me deixando com medo...
- Estou falando alguma mentira ? Somos todos neuróticos. Uns mais outros menos.
- É verdade....hoje em dia todo mundo é meio cheio de neuras....
- Já diz a letra da música do Caetano que de perto ninguém é normal....



Foram interrompidos pela recepcionista que se aproxima e avisa que o doutor Adriano ficou preso no trânsito por causa da chuva. Remarcam para a próxima semana. Ainda chovia muito quando chegaram na portaria. Ronaldo convida Rosemary para um café. Conversam por mais de uma hora sobre os benefícios da terapia . Descobrem que são geminianos, estudaram no mesmo colégio e adoram banana. Na despedida trocam telefone e e-mail.


Na semana seguinte, no horário do terapeuta, se encontraram na portaria e foram para um motel . Ronaldo passa a tratar os clientes pacientemente e Rosemary não tem mais insônia . Descobriram que, no caso deles, sexo é a melhor terapia .

1 de jun de 2009

O TELEFONE

Sofia estava na frente do espelho se arrumando havia mais de uma hora. Antes, tinha tomado um banho com sais, espumas, cremes , essências. Dava o último retoque na maquiagem. O cabelo impecável . Havia feito no cabeleireiro que frequentava há anos. No salão, enquanto fazia as unhas, conversava com a manicure:

- Sabe Genésia, dessa vez ele fica comigo pra sempre. Vamos finalmente viver como marido e mulher. Estamos juntos há 20 anos. Vi a filha dele crescer, se formar. Agora que as crianças estão com a vida encaminhada , finalmente ficaremos juntos.


Genésia, com a sabedoria das pessoas humildes, duvidou :

_ Mas será mesmo Sofia que dessa vez ele abandona a esposa ? Se em 20 anos não fez isso, vai fazer agora?

- Ah vai sim...eu dei uma prensa nele, estou com 40 anos, ainda quero ter filhos e ele me prometeu que levaria a mulher para a Fazenda deles em Campos do Jordão, contaria sobre nós dois, e hoje mesmo, por volta das 10 da noite estará chegando definitivamente para os meus braços.


Enquanto pensava no papo que teve com a manicure pela manhá , Sofia resolveu dar uma olhada no forno. Foi verificar se o frango estava no ponto. Ainda não. O ar frio da noite dava um tom melancólico a cidade. Choveu durante toda a manhã e fazia frio aquela hora , Sofia fechou as janelas, pegou um copo de vinho, sentou-se no sofá e ficou a recordar.


Sofia e Rodrigo se conheceram quando ela ainda estava na Faculdade. Ele era seu professor. Se apaixonaram e ela resolveu assumir seu romance com um homem casado. Abriu mão de tudo. Dos amigos, da família e até mesmo da vida profissional. Ele lhe deu o apartamento onde morava e ela se trancou ali, sempre esperando pelos poucos encontros que tinham. Muitas vezes se angustiava, chorava agarrada aos travesseiros, mas tinha certeza que se conseguisse se comportar como uma boa moça, seu esforço seria recompensado. Nas noites solitárias, muitas vezes ia dormir a base de Lexotan. Nos natais estava sempre sozinha. Mas aguentou como mulher firme que espera pelo homem amado.


Quando resolveu dar um basta na situaçao, ele então disse que iria se separar. Era só uma questão de colocar os pingos nos is com a esposa. Contaria tudo para ela agora que os filhos estavam crescidos e viveria com ela como marido e mulher. Tinham combinado que assim que ele voltasse de Campos do Jordão iria pra casa dela. Caso não chegasse até 11 da noite, é porque a esposa havia esperneado, tentado se matar e ele então não poderia abandonar tudo e daria mais um tempo. Mas antes, ligaria avisando sobre qualquer contratempo.

Sofia ainda retrucou:

- Mas...e se você não ligar ?

Rodrigo insistiu:

- Se eu não ligar é porque deu algum problema e teremos que adiar nossos planos. Mas eu tenho certeza....

Ela nem deixou ele acabar de falar:

-Adiar nossos planos ? Eu não aguento mais, adiei 20 anos da minha vida e não consigo adiar mais um dia.....


Os dois começaram uma discussão. E ele foi taxativo:

- Me espere. Se até 10 horas eu não chegar, por volta de 11 da noite eu te ligo para dar uma satisfaçao.

Ela sorriu e brincou :

- Olha lá hein....se você não aparecer e nem me ligar até 11 da noite eu acabo com a minha vida.


Ele riu , bateu no móvel três vezes e disse:

-O que é isso mulher ? Quero você vivinha para podermos aproveitar juntos a vida.


Sofia foi tirada dos seus pensamentos pelo cheiro forte do frango no forno. Correu para a cozinha. Colocou o frango em cima da mesa, arrumou a mesa, verificou a sobremesa, quase 10 da noite, acendeu as velas, pegou mais um copo de vinho e começou a andar de um lado para o outro nervosa, estalando os dedos. 10 da noite. Nem sinal de Rodrigo. Começou a ficar nervosa. 20 anos esperando por aquele momento. Tinha pressa. Não suportava mais esperar nenhum dia.


Tomou mais um copo de vinho, abriu as janelas. O ar frio da noite penetrou em todo o seu corpo e ela começou a tremer. Pegou a garrafa de vinho e começou a beber alucinadamente. Onze da noite. Nenhum sinal. Nenhum telefonema. Resolveu ligar para a casa dele em São Paulo. Ninguém atendeu. Ligou para Campos do Jordão. Nada. Celular na Caixa Postal. Quando o relógio bateu meia noite Sofia já estava completamente bêbada.


Foi até a janela. Morava no décimo andar. Na rua os carros passando tranquilamente de um lado para o outro. Ninguém parecia saber do problema dela. Teve vontade de gritar, sair correndo....Uma pressão enorme tomava sua cabeça. Olhava para a rua , veio a vontade de pular. Não via mais nada, não queria saber de mais nada. Quase uma da manhá .


Sofia tirou os sapatos, subiu no parapeito da janela e se atirou. Caiu no chão feito uma boneca de pano. Braço para um lado . Perna para o outro. Imediatamente a rua se encheu de gente. No apartamento vazio o barulho ensurdecedor do telefone cortava o silêncio da noite !