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20 de mai de 2009

A MULHER DOS CABELOS MOLHADOS

Fim de festa. O dia clareava quando saí do apartamento de um amigo na Avenida Atlântica. Cansado, mas sem vontade de ir pra casa , resolvi andar pelo calçadão para respirar ar puro. Enquanto exibia um rosto exausto do sono perdido na farra, os adeptos da vida saudável se exercitavam á beira mar. Logo os primeiros raios de sol começariam a diluir as lembranças da madrugada.


Caminhava distraído pelo calçadão, quando avistei Elisabeth vindo em sentido oposto. Alta, magra, vestida com uma calça de lycra azul clara que marcava-lhe o corpo esbelto e uma blusa de malha branca. Os cabelos pretos e presos em um rabo de cavalo, deixavam-na mais jovial e charmosa . Esperei chegar mais perto e segurei - a pelos braços :
- Não me reconhece mais ? Mudei tanto assim ?
Ela sorriu sem graça e tentou disfarçar o constrangimento:
- Estava distraída, desculpe ! Que cara é essa de cansado ?
- Saí de uma festa na casa do Alberto.
- É verdade, você é o homem das noitadas.
- E você a mulher das manhãs.
- Por isso que não demos certo. Os opostos nem sempre se atraem.
Para cortar o início de uma provável discussão, mudei o tom de voz e num gesto carinhoso fiz o convite :
- Vamos conversar um pouco ?


Sentamos num banco do calçadão de frente para o mar tomando água de coco. Durante alguns minutos ficamos em silêncio. Lembrei-me de como amei e ainda amava Elisabeth . Nos relacionamos durante dois anos. Fazíamos planos de casar e ter filhos. Apesar de amá-la, nunca fui fiel . Ela descobriu minhas aventuras e terminou nossa relação, faltando um mês para o casamento. Ferida , viajou para a casa de uma tia em outro estado. Um ano depois voltou para a casa dos pais . A saudade me fez perceber o quanto eu a desejava. Tentei reatar . Ela não me quis mais.


As lembranças me vieram a cabeça. Quebrei o silêncio e perguntei , tentando aparentar naturalidade, mas sem querer ouvir a resposta :
- Já casou ?
- Vou me casar.
- Quando ?
- Daqui a uma semana .
- Você o ama ?
- Estou feliz.
- Perguntei se você o ama.
- A felicidade não tem nada a ver com amor.
- Não ?
- Amei você e não fui feliz.
- Ainda me ama ?


Apertou os lábios e olhou para o mar fugindo da resposta. O sol nascia forte , denunciando a chegada de um dia quente e de muito calor. Peguei-a pelas mãos :
- Vamos caminhar.


Uma sensação de liberdade tomou conta de mim. A mulher que eu amava e perdera, estava ao meu lado. Caminhamos pensativos durante meia hora. Elisabeth quebrou o silêncio me convidando para recordarmos os velhos tempos. Perfeito. Passamos a manhã entre os lençóis . Meio-dia ela se levantou decidida:
- Preciso ir , minha família deve estar preocupada.
- Não quer ficar mais ? Podemos almoçar juntos ?!


Ela sorriu e entrou no banheiro. Quando saiu, estava com a roupa de ginástica e os cabelos soltos e molhados. Colocou os tênis e me olhou secamente. Seu olhar me gelou a alma. Não era mais aquela mulher que vibrara em meus braços .
- Gostei do nosso encontro. Desejo-lhe tudo de bom . Seja feliz !
- Não vamos mais nos ver ?
- Não. Semana que vem serei uma mulher casada. – Sorriu sem vontade.
- Mas...
- Mas o quê ? Nosso encontro foi a minha despedida de solteira. Obrigada.
- Não sabia que você tinha se tornado uma mulher vingativa.
- Que palavra feia. Estou apenas vivendo os bons momentos. Não era o que você me dizia : “ Elisabeth, viva os bons momentos ?!”
- Podemos viver outros bons momentos se você quiser.
- Você conhece a palavra lealdade ?


Ela ajeitou a franja que insistia em cair nos olhos, jogou um beijinho com a ponta dos dedos e saiu . Demorei para me recuperar da surpresa . Corri até a janela e ainda a vi dobrar a esquina com os longos cabelos molhados .


Meu filho me sacudiu . Acordei assustado :
- Aconteceu alguma coisa ?
Ele sorriu:
- Pai, o senhor dormiu no sofá com a tv ligada. Depois diz que eu é que sou dorminhoco.
- É verdade – ri passando a mão pelos cabelos dele - ferrei no sono .
Desliguei a televisão e entrei no quarto. Deitei ao lado de Marizia. Ela fez um gesto com as mãos me procurando . Em seguida se virou para o lado e continuou dormindo.
Eu a conheci três meses depois do último encontro com Elisabeth. Casamos porque ela engravidou. Nunca a amei. Marizia é ótima esposa e excelente mãe. Nosso casamento é perfeito. Já dura oito anos. Tenho uma amante fixa há três . Ela não sabe. Acho.


Elisabeth é a mulher da minha vida. Nunca mais nos vimos. Ás vezes as lembranças são tão fortes que sinto o cheiro de seus cabelos molhados exalando um perfume suave pelo quarto. Feliz do homem que tem um grande amor para recordar.

16 de mai de 2009

ODALISCA DA MEIA-NOITE !

Era um tremendo machão. Não deixava por nada desse mundo a mulher trabalhar fora. A filha de 13 anos era vigiada e só ia às festinhas das amigas se ele pudesse pegá-la ás 10 horas da noite. Justamente quando a festa começava a esquentar.


Durante os almoços de domingo, com a família toda reunida, ele fazia questão de bater com as duas mãos na mesa e dizia para quem quisesse ouvir:

-Filha minha só vai namorar com 18 anos e assim mesmo aqui em casa, no sofá, comigo do lado. Essa juventude de hoje anda muito solta.


As amigas da menina chamavam Rosenvaldo de pitt bull. Já com o filho, Rosenvaldo era complacente. O menino de apenas 11 anos andava pra cima e pra baixo com o pai e Rosenvaldo , sempre que via uma gostosona passando na rua, cutucava o filho e dizia :

-Tá vendo aquela ali? Quando você estiver maior, bicho homem mesmo, como o teu pai e colar com uma dessas na rua, chama logo pra cama que ela vai fácil, fácil.


O menino ria das piadinhas do pai. Rosenvaldo fazia questão de ir ao futebol com o menino e ficava gritando da arquibancada:-Vai Julinho...dá logo uma porrada nessa cara ! Chuta a canela dele.


A esposa, dona Jurema, ás vezes ficava sem graça das grossuras do marido e dizia baixinho no ouvido dele :-Calma Rosenvaldo, isso é apenas um torneio de futebol.


O cara só faltava mandar a esposa para aquele lugar. Isso quando não mandava. Com o passar do tempo Jurema foi ficando acabrunhada......triste mesmo com as atitudes machistas do marido. A mãe de Jurema vivia dando conselhos à filha:

-Jureminha, minha filha, teu marido é um grosso...um machista inveterado, não sei como você agüenta ficar casada com um homem assim.


Jurema, conformada com sua situação de mulher submissa, dava de ombros e deixava pra lá. Não adiantava falar mesmo. No fundo ela achava que Rosenvaldo era um bom pai. Trabalhador, honesto, trazia dinheiro pra dentro de casa e educava bem os filhos. O que mais ela podia querer da vida? Tinha que aturar Rosenvaldo assim mesmo. Era o jeito dele. Afinal, ninguém é mesmo perfeito.


Na verdade, a única coisa que incomodava Jurema era o vício do marido: a Internet. Rosenvaldo passava os finais de semana colado ao computador, chegava a varar as madrugadas. Dizia que estava trabalhando. O que acabava causando uma pontinha de orgulho a ela, ao ver o marido tão dedicado ao trabalho. Porém, numa segunda-feira, quando a filha do casal fazia uma pesquisa escolar na Internet, e futucava o computador, gritou pra mãe :

-Mãe...corre aqui....que negócio é esse?


Jurema correu para o computador e deu uma bronca na menina:

-Minha filha....mexendo nos documentos do seu pai?

A menina tentou se defender:

-Estou não mãe....ele salvou essa pasta aqui, bem dentro dos meus documentos da escola. Eu abri sem querer, mas não estou entendendo nada.


Jurema pediu que a menina saísse e curiosa foi ler o que estava escrito. Ficou abismada . Eram chats de bate papo gay que o marido havia salvado nos documentos da filha. Jurema lia aquilo totalmente apatetada. Pelo papo que rolava, ela foi descobrindo que o marido era o tal de Odalisca da Meia-Noite e o outro com quem ele conversava era o Florzinha Enrustida. Os dois marcavam um encontro. Rosenvaldo dava o número do celular dele. Enfim, uma sacanagem só. Vermelha de tanta vergonha, Jurema apagou o que estava escrito e falou pra filha:

-Não era nada muito importante não.....pode continuar fazendo seu trabalho.


Depois que a menina foi para a escola, Jurema começou a chorar. E ficou pensando: “quer dizer que o marido com toda aquela pinta de macho não passava de um gayzão enrustido? Era por isso que sempre na hora que ela queria fazer sexo, Rosenvaldo tinha sempre uma desculpa na ponta da língua para fugir da raia . Agora tudo fazia sentido. As longas horas na frente da Internet...madrugadas....e madrugadas....”


Jurema adiantou a janta. Deu uma saída e quando voltou, estava com uma grande sacola. Depois que deu a janta das crianças, foi para o quarto e falou:-Assim que o pai de vocês chegar, diz que eu estou no quarto e preciso falar com ele, urgente.


Uma hora depois o marido entrava no quarto assustado:

-O que foi Jurema ? Tá passando mal ?

Ela colocou as mãos na cintura, franziu a testa e falou com o marido como nunca tinha falado antes:

-Senta aí que precisamos ter uma conversinha.....


A mulher soltou seu rosário de reclamações. Contou que sabia das salas de bate papo....do celular... Rosenvaldo foi ficando branco. Pego de surpresa, ainda tentou dar uma desculpa, mas pressionado acabou confessando:

-Eu gosto de homens!


Em seguida, feito uma criança, se ajoelhou aos pés da mulher e começou a chorar:

-Pelo amor que você tem aos nossos filhos, não conta pra ninguém. Se você fizer isso eu me mato.


Jurema deu um sorriso irônico, foi até a sacola que trouxe pra casa durante a tarde, pegou uma fantasia de odalisca e disse :

-Claro que eu não vou contar para ninguém. Mas façamos um trato: Toda noite você vai ter que se fantasiar de Odalisca na minha frente e dançar pra mim!


Assim foi feito. Toda noite Rosenvaldo se fantasiava de Odalisca. Jurema ficava deitada na cama vendo aquela cena e se borrava de tanto rir. O marido não reclamava. Pelo contrário, dançava com prazer. Afinal, trato é trato !

4 de mai de 2009

NA FILA DO PARAÌSO !

Final de noite. Renato e a namorada rodam a cidade de carro.

- Pára ali, Renato. Aquele ali.
-Tá cheio também, Heleninha. Olha a fila.
- Mas já fomos a quatro, todos cheios.
- Calminha, hoje é sexta-feira, lua cheia.

Heleninha fez biquinho.

- Droga, quero ficar sozinha com você.
- Então vamos parar naquele mesmo. Com sorte, antes de uma, a gente entra.


Renato deu a volta com o carro e parou na fila do motel. Três automóveis aguardavam a vez .
- Pronto, agora é esperar. Enquanto isso, amor, vem cá, me dá um beijo.

Heleninha empurrou o namorado com jeitinho e pegou a bolsa.
- Calminha. Quero mostrar uma coisa pra você.

Deu um sorriso malicioso, abriu a bolsa e tirou uma máscara, um perfume afrodisíaco e uma cinta–liga.
- Que tal? Gostou? Nosso presente de um ano de namoro.
- Você é demais! Vai ser uma comemoração inesquecível. Gostei, pensou em tudo.
- Fala a verdade, sou ou não sou a melhor namorada que você já teve?
- Deixa eu pensar. Hummmmm.
- Precisa pensar, Renato? Não entendi.
- Tava brincando. Deixa de ser tolinha
.-E a Silvia?
- O que é que tem a Silvia?
- Você ainda gosta dela?
- Pra quê tocar no nome da Silvia agora? Estamos tão bem aqui, nós dois. Tá chegando nossa vez. - Você esqueceu a Silvia? Responde, sinceramente.
- Que pergunta sem sentido!
- Mas você está demorando muito a responder.

O clima ficou pesado. A vez deles se aproximava e o mal-estar aumentava.
Heleninha era birrenta. Quando cismava com alguma coisa, se tornava chata e Renato, orgulhoso, não se rendia aos caprichos da namorada.
- Estou ficando irritado. Isso não vai terminar bem. Vamos parar.
- Naquele sábado que a gente brigou você ligou para ela, eu vi o número no seu celular, eu vi, Renato, não mente.
- Qual é Heleninha, inquérito agora?! Na porta do motel?!
- Só entro nesse motel se me disser a verdade.
- Tá bom! Liguei sim. Qual o problema? Somos amigos. A Silvia foi a namorada que mais gostei. Mas passou, acabou.
- Então eu tinha razão. Por isso que você não queria falar, né?
- Nada disso. Não queria tocar no assunto. Você que insistiu. Como não sei mentir...
- Não sabe mentir?! Me engana que eu gosto – debochou.
- Pára com isso! Esquece. Vem cá.

Renato puxou Heleninha. Ressentida, ela se desvencilhou e colocou o rosto para fora do carro.
- Gente, meu namorado não sabe mentir. É um homem sincero demais. Vocês acreditam em homem sincero?

A fila crescia. Nos outros carros, os casais comentavam. Renato envergonhou-se. Puxou a namorada.
- Olha o vexame! Nós estamos na porta de um motel! Isso é escroto.
- Escroto é você. Faz um ano de namoro comigo e pensa em outra.
- Mas quem disse que eu penso em outra? Você que começou com esse papo.

A vez deles chegou. Heleninha abriu a bolsa e jogou a cinta-liga, o perfume e a máscara no rosto de Renato.
- Você vai comemorar sozinho.
Saiu batendo a porta. A recepcionista deu a chave do quarto. Renato não sabia se ia atrás da namorada, se pegava a chave, se ia embora, se entrava no motel. Heleninha foi embora de táxi. Os motoristas dos outros carros começaram a buzinar.

- Bora, cara! Vai atrás da mulher. Sai da fila. A gente quer entrar!
- É isso aí. Anda. Ficou na mão. Se manda! Dá a vez para outro.


Furioso com a gritaria, entrou no motel de pirraça. Ligou para Heleninha, mas o celular estava desligado. Pensou durante alguns segundos e tomou coragem.
- Silvia, sou eu, Renato.
- Aconteceu alguma coisa? Ligar para a minha casa a essa hora.
- Tá fazendo o quê?
- Tava quase dormindo.
- Sabe onde estou?
- Sei lá! Não tenho bola de cristal.
- No paraíso.

Silvia se chateou e nem deixou o ex completar a frase.
- Você é muito cara-de-pau. Me liga do motel para me sacanear?
- Estou ligando para chamar você pra vir pra cá, recordar os velhos tempos.

Silvia se calou durante alguns segundos. Respirou fundo e decidiu.
- Me dá o endereço. Estou indo.
- Ah, sim, eu tenho aqui comigo uma máscara, uma cinta–liga...
- Tô indo. Até já!


Enquanto espera Silvia, Renato enche a banheira de hidromassagem, liga o rádio e sai dançando pelo quarto.
- Mulheres! Quem as entende?! Eu quero é mais! Ulálá!!