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27 de abr de 2009

O CORNO CIBERNÉTICO

Elisiane vivia a frustração de um relacionamento falido. Apesar da frustração, preferia continuar casada. Medo da solidão. Covardia. Não se sabe. Empurrava o casamento com a barriga. Etevaldo, o marido, não fazia o menor esforço para reconquistar a esposa. Se a comida estava na mesa, a casa limpa e as roupas arrumadas, ficava satisfeito. Nos finais de semana passava as tardes no botequim da esquina. Adorava se reunir com os amigos para tomar uma cerveja e jogar sinuca. A cerveja, o jogo e o bate-papo com os companheiros de copo davam prazer a Etevaldo. Ele era um cabeça fresca e só queria saber de se divertir. Enquanto isso, Elisiane reclamava:

-Poxa, Etevaldo, trabalhei a semana toda e mais uma vez, vou ficar mofando em casa no sábado.

- Qual o problema? Aproveita para descansar, arrumar a casa e ver televisão. Sábado é dia da minha sinuquinha e da minha loirinha gelada. Não abro mão.


Elisiane colecionava e engolia os nãos do marido. Uma decepção atrás da outra. Queria mudar de vida. Arrumar algo diferente para fazer nos finais de semana. Cansou de se humilhar para Etevaldo, enquanto ele bebia com os amigos no botequim. Na esperança de sair do tédio dos finais de semana e incentivada por uma colega de trabalho, comprou um computador. A colega, viciada em mundo virtual, apoiou Elisiane:

- Compra um computador. Eu dou o maior apoio! Coloca internet. Vai fazer novas amizades em salas de bate-papo. Eu tenho MSN. Podemos conversar no sábado pelo computador. Você vai esquecer da existência do seu marido.


Assim fez Elisiane. Enfiou-se enfiou numa prestação e comprou um computador. Ao ver a empolgação da mulher, Etevaldo debochou:

-Quer dizer que esse computador vai distrair você? E computador distrai alguém? É bom para trabalhar e só. Eu não perco meu fim de semana na frente de computador. Mulher só gasta dinheiro em bobagem!

- Ah, é?! Pois se algum dia você precisar usar, eu não vou emprestar.

-E pra quê eu quero computador?! Eu tenho a minha loirinha gelada! Já chega no trabalho mexer em computador. Cruzes!


A mulher deu de ombros. Instalou o computador. Colocou Internet e navegou por lugares nunca antes navegados. Entrou numa sala de bate-papo com o apelido de Mulher Carente. Arranjou admiradores. Fez amizades virtuais. Passou a trocar e-mails. Viciou. Final de semana já não se importava com as cervejas do marido. Acabava o serviço de casa e se enfiava na Internet. Varava madrugadas no computador. Nem visitava mais a mãe. A mãe telefonava para choramingar. Era Etevaldo quem reclamava com a sogra:

- A senhora tem que falar com a Elisiane. Agora ela só quer saber de computador. Nem passa mais minhas roupas direito.


Elisiane não tomava conhecimento das reclamações do marido. Virava noites teclando. Ia trabalhar insone. Arrumou um amante virtual. Tornou-se uma pessoa mais feliz. Cantava pelas ruas. Trabalhava com prazer, apesar dos olhos pesados de sono. Etevaldo ficou em segundo plano. Ignorado. Elisiane chegava do trabalho, tomava banho e jantava. Depois deixava o prato de Etevaldo pronto para ele colocar no microondas. Em seguida, se trancava no quarto do computador. Ficava horas no MSN. Saia do quarto com o dia clareando. Foi assim que tomou coragem para pedir a separação. Não tinha mais medo de ficar só. Foi direta com o marido.


Elisiane aproveitou para falar com Etevaldo no sábado. Ele chegou em casa embriagado. Havia bebido com os amigos. Sem meias palavras, Elisiane comunicou:

- Etevaldo, quero a separação! Apaixonei-me por outro homem.

Etevaldo não conteve a indignação:

- Apaixonada?! Impossível! Você passa os finais de semana no computador. Quando está em casa durante a semana faz a mesma coisa.

- Ele é do computador.

-Como é que é?! - gritou.

Elisiane respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo:

- Um amante virtual. Já ouviu falar? Tá na moda. Não o conheço pessoalmente, só trocamos e-mails e conversamos pelo MSN.

- Mas como você se apaixonou por alguém que não conhece?! Tá doida?! MSN?! O que é isso?! Morde?

Etevaldo beliscava o corpo e desnorteado falava, tropeçando nas palavras:

-Acho que bebi demais. Deixa eu me beliscar. Deve ser um pesadelo!

- Não estou doida e nem é pesadelo! Doida é continuar casada com você. Pinguço! Estou mais lúcida do que nunca e quero a separação - respondeu Elisiane, com a voz firme e sem paciência com Etevaldo.

Etevaldo mostrava-se surpreso:

- Você quer acabar com 12 anos de casamento e o motivo é um homem que você nunca viu?!

- E nem quero ver.

- Você está me dizendo que eu fui traído pelo computador?!

- Não, você foi traído pelo seu descaso e desatenção comigo! Agora é tarde! Não troco meu amante virtual por você.

- Mas quando você conhecer esse amante? Se não gostar dele?

- Conhecer? Não quero conhecer. Tá bom assim.

- Você vai namorar um computador pelo resto da vida?! Enlouqueceu mesmo! Vou chamar o hospício. Vou ligar para a sua mãe.


Etevaldo colocou a cara na janela e gritou:

-Dona Clarimunda, sua filha pirou!! Me corneou com um computador!! E agora quer a separação!


Elisiane não se intimidou com o deboche:

- E quer coisa melhor? Meu amante virtual não peida na minha frente, não enche a cara e nem sou obrigada a aturar o bafo de bebida dele. Não reclama que a comida está fria. Nem sei se ronca. É o homem perfeito.


Etevaldo se aproximou da mulher. Com ar sedutor, tentou virar o jogo:

- Vem cá, vem. Esse amante não faz amor gostoso, como eu faço. Você está com falta. É isso.

Elisiane empurrou Etevaldo com força:

- Sai daqui, bêbado!!


Etevaldo caiu no chão. Elisiane falava e humilhava o marido cada vez mais:

- Sexo?! Há quanto tempo que eu não sei o que é isso com você. Pelo menos meu amante virtual me ensina o caminho do prazer. E quer saber??? - gritou - NUNCA GOZEI COM VOCÊ! NUNCA!


Etevaldo se levantou, sacudiu a roupa e ficou pensativo, olhar perdido. Elisiane falava sem parar. Fazia discurso. Parecia político em época de eleição. Etevaldo não entendia essas coisas de paixão virtual. "Tinha sido trocado por uma máquina. Corneado por um computador. Essa era inédita" - pensou.


Enquanto isso, Elisiane despejava toda a frustração guardada ao longo do casamento sem amor. Ela falava sobre sexo e masturbação com desenvoltura. Elogiava o amante virtual. Dizia que era bom fazer sexo com ele, mesmo na imaginação. Etevaldo já não prestava mais atenção. Se fosse homem de má índole, talvez agredisse Elisiane. Ao invés disso, deixou a mulher falando sozinha. Bateu a porta com força e voltou para o botequim.


Encontrou dois amigos bebendo. Pediu mais uma cerveja:

- Essa é por minha conta. Vamos brindar a loira gelada. Essa loira é real e desce geladinha.


Os amigos concordaram. Etevaldo pediu mais uma rodada. Antes, porém, foi até o banheiro do botequim. Abriu a torneira da pia enferrujada, enfiou a cabeça e molhou os cabelos. Precisava refrescar as idéias. O dia estava muito esquisito.

17 de abr de 2009

AMOR ESOTÉRICO



Quando Adriana chegou na casa da amiga, foi atendida pela mãe :
- Boa noite dona Sônia. Raquel está pronta ?
- Não sei. Tá no quarto trancada o dia inteiro fazendo meditação.
- Posso ir até lá ?
- Claro. Vê se consegue tirar minha filha de casa.
Adriana bateu cuidadosamente na porta:
- Raquel, sou eu. Posso entrar ?
- Entra.
- Não está pronta ?
- Não vou.
- Clarice vai ficar aborrecida. É aniversário dela.
Raquel não escutava a amiga. Recolhia os incensos, gnomos, fadas, duendes e cds de música new age.
- Acorda, Raquel. Tá no mundo da lua ?
- Desculpe. É que acabei de praticar meditação...
- Posso saber o que tanto você medita ?
- Estou tentando um contato com a minha alma gêmea.
- Que história é essa de contato ?
- Fui numa taróloga e ela me disse que para encontrar minha alma gêmea preciso praticar meditação.
- Você e essas manias. Vamos a festa. Sua alma gêmea pode estar lá.
- Negativo. Não posso me contaminar com esse mundo superficial e festivo. Preciso me purificar para um encontro astral evoluído.


Não insistiu. Sabia das esquisitices de Raquel. Antes de sair , porém, falou com dona Sônia:
- É bom a senhora ficar de olho na Raquel . Anda estranha. Tá fanática com esse negócio de meditação, fadas, gnomos e etc. Vive no mundo da lua .
Todo esse interesse pelo mundo astral começou depois de ser abandonada pelo noivo. Faziam planos de casamento, mas o rapaz terminou para ficar com outra . Muito sensível, a jovem não suportou o golpe. Refugiou-se no mundo da fantasia.


Esperando encontrar respostas para sua dor consultou cartomantes , numerólogos e fez mapa astral. Nesta procura encontrou Madame Samantha. A taróloga convenceu Raquel a buscar a alma gêmea através da meditação . Era apenas uma questão de paciência . – Dizia.
Confiando em Madame Samantha passou a consultá-la para pedir conselhos . Ela virou uma espécie de guru. Raquel abandonou festas e passeios com as amigas para desvendar os segredos do universo. Quando estava em casa ficava no quarto meditando em busca de contatos astrais .
A busca virou obsessão. Meditava até para escolher a comida ideal.


Durante dois anos se envolveu num mundo fantasioso à procura de respostas, principalmente sentimentais. No entanto as respostas não chegaram e as consultas tornaram-se repetitivas . Ansiosa por novidades, pressionou a taróloga :
- A senhora disse que minha alma gêmea seria encontrada em pouco tempo. Dois anos e nada. Haja paciência !
- Sua ansiedade está lhe afastando do astral maior. Posso sentir.
- E o rapaz do restaurante ? A senhora me falou da possibilidade de sermos almas gêmeas , mas ele sumiu.
- Possibilidade não confirmada. Vai pra casa tranqüila. Semana que vem terei uma resposta definitiva .
Na semana seguinte, Raquel foi a consulta com o coração esperançoso :
- Alguma novidade ?
- Vamos ver o que as cartas dizem ?
Madame Samantha dividiu o baralho. Pediu para Raquel tirar uma carta. Fez suspense. Repartiu o baralho. Jogou as cartas na mesa, embaralhou-as . O suspense aumentava. Raquel esfregava as mãos suadas :
- Nada ?
- É preciso concentração. Concentre-se.


Mais uma vez pediu para Raquel dividir as cartas. Espalhou –as em cima da mesa e balançou a cabeça com os óculos na ponta do nariz :
- Infelizmente sua alma gêmea nasceu no Japão e você não irá encontrá-la fisicamente nesta vida . Mas mentalmente a possibilidade é grande .
Ficou decepcionada :
- O quê ? Japonês ? Por que nasceu tão longe ?
- Compromissos assumidos em outras vidas. Pendências a resolver .
Um problema geográfico. Continue mentalizando para encontrá-lo através do pensamento.


Desacreditada , Raquel pediu Madame para jogar mais uma vez :
- Não dá. É definitivo. As cartas não mentem jamais.
Insatisfeita , prometeu a si mesma procurar outras respostas. Queria ser tocada, beijada, não agüentava mais namorar em pensamento.


Antes de ir para casa, passou numa banca e comprou todos os jornais. Ansiosa, folheou os classificados.
Uma semana depois pegava um ônibus para a Baixada Fluminense. Se consultaria pela primeira vez com um pai-de-santo famoso pelas suas previsões e rituais.

13 de abr de 2009

O ENXOVAL



O Ennxoval, por Celamar Maione



Diva conversava com a irmã na cozinha depois do lanche da tarde, quando a filha Marianinha chegou da rua trazendo um pacote cuidadosamente embrulhado. Marianinha abriu o pacote na frente das duas e perguntou :


-Que tal a camisola? Não é um luxo?
Diva e a irmã se entreolharam com ar de desânimo.
Diva foi quem falou primeiro:


-Minha filha....pára de gastar dinheiro com bobagem. Será que você ainda não percebeu que o Beto não volta mais?


Marianinha fez beicinho, colocou a camisola dentro do embrulho e foi para o quarto. Diva era viúva. Morava com a filha e a irmã solteirona, numa ampla casa no Bairro de Santa Tereza. Seu maior desgosto era a filha Marianinha. Criou a filha sozinha desde que ela completara cinco anos e o marido morreu num acidente de carro.

Marianinha foi criada cheia de mimos. Aos 20 anos ficou noiva. Era apaixonada pelo noivo. Dois anos de namoro e marcaram a data do casamento. Faltando dois dias para o casório, Beto desapareceu sem deixar rastro. Marianinha ficou de cama durante três meses. Perdeu 10 quilos. Não comia quase nada.

Um dia a mãe varria o quintal, enquanto a tia passava aspirador de pó na casa. Marianinha se levantou da cama e com os olhos arregalados decretou:

-O Beto vai voltar. Sonhei com ele. No sonho ele me dizia para esperar por ele.

A tia foi até o quintal, onde estava a irmã e assustada falou para Diva:

-Tua filha enlouqueceu.
Desde este episódio, já havia se passado três anos, Marianinha aguardava a volta do noivo, como quem aguarda o resultado de um exame. Preparava o enxoval meticulosamente. Um quarto na casa de Santa Tereza era usado só para guardar o enxoval de Marianinha. Tinha de tudo. De camisola a pano de prato. Cada vez que Marianinha saia de casa, passava em alguma loja do Saara, no Centro da Cidade, e comprava alguma coisinha para o seu enxoval.

As amigas da jovem comentavam que ela havia enlouquecido:
-Depois que o noivo caiu fora, Marianinha pirou. Ela agora só gasta dinheiro com coisas para o enxoval.
-Ela está tãtã. Isso é obsessão das boas. Já falei para a mãe dela levar Marianinha a um Centro Espírita, mas não adianta, a mãe não acredita nestas coisas.

Os vizinhos também davam opinião:
-Isso é caso de psiquiatria. Do jeito que a vida está difícil, essa aí gastando dinheiro com pano de prato, calcinha, camisola, roupa de cama...coisa para um enxoval que ela nunca vai usar, com um noivo que ela nem tem.

A única pessoa que tinha paciência com os delírios de Marianinha e ficava horas a escutá-la, era o vizinho Wallace. Os dois se conheciam desde criança. Wallace nutria uma paixão secreta por Marianinha e achava a jovem a mulher mais romântica do mundo. Os dois costumavam fazer longas caminhadas pelo Aterro do Flamengo.

Nestas horas Marianinha aproveitava para desabafar:
-Wallace...você acha mesmo que eu sou louca só porque espero pela volta do Beto?
-Que nada Marianinha. Acho você uma mulher romântica que acredita no amor verdadeiro.
-Você acha que eu devia desistir de esperar? Será que ele volta?
-Não sei...se eu pudesse adivinhar o futuro..
-Eu fui à Igreja de São Judas Tadeu e fiz uma promessa. Para você eu posso contar...


Marianinha ficou na dúvida. Contava ou não contava a promessa? Parou de caminhar...começou a olhar as pessoas que passeavam também no Aterro. As crianças corriam animadamente. Não tinham problemas. Não sofriam decepções amorosas. De repente sentiu saudades da infância, era quando brincava com Wallace de pique esconde pelas ruas estreitas de Santa Tereza. Deu um longo suspiro.

- E aí, vai ou não vai me contar a promessa?
-Não sei...dizem que se a gente contar a promessa, aquilo que você quer, não acontece.

Wallace se calou. No fundo ele tinha esperanças de que um dia Marianinha esquecesse de vez o tal do Beto e olhasse para ele. Mas ela parecia obstinada. Tinha uma certeza quase neurótica de que o ex-noivo ainda iria voltar. A mesma certeza neurótica que ele tinha de que um dia Marianinha ainda olharia para ele com olhos de mulher apaixonada. Voltaram para casa a pé.

Aquelas caminhadas com o amigo, faziam bem a ela.Depois do almoço, Marianinha se trancou no quarto e ficou escutando música. Na hora do jantar a mãe foi procurar pela filha no quarto e não a encontrou. Foi falar com a irmã que assistia televisão:

-Cadê Marianinha?
-Tá no quarto do enxoval.
A mãe abriu a porta e lá estava a filha alisando as camisolas...as toalhas de mesa...os lençóis... Tudo embrulhado com muito cuidado. Como vieram da loja. Diva sentiu pena da filha. Resolveu que procuraria um psiquiatra naquela semana.Só que, justamente na semana que a mãe procuraria um psiquiatra, aconteceu o que todos achavam impossível.As três assistiam novela na sala, quando a campainha tocou. Marianinha se levantou de um pulo só e falou:

-É o Beto.Diva e a irmã deram um suspiro profundo.
Marianinha abriu a porta e deu de cara com o ex-noivo. Beto estava pálido...magro e com um sorriso amarelo:
-Marianinha...você me perdoa? Eu ainda te amo. Não consegui te esquecer durante estes anos...

Diva e a irmã solteirona foram para a porta. Se olhavam espantadas, pareciam estar diante de um fantasma. Beto, ofegante e emocionado, foi logo tratando de se explicar:

-Eu queria contar o que me aconteceu...porque eu fui embora...eu descobri que tinha câncer. Não tive coragem de contar para você. A gente ia se casar... fui me tratar...mas agora estou curado...e queria...e queria....
Marianinha colocou a mão na boca do noivo:
-Não precisa dizer mais nada. Eu acredito em você...vem que eu quero te mostrar uma coisa.
Puxou o noivo e foi até o quarto do enxoval:
-Veja como nosso enxoval cresceu. Eu tinha certeza de que você voltaria...cada calcinha que eu comprava, cada toalha que eu pagava, eu lembrava que valia a pena. Nós temos agora um enxoval para a vida toda.

Com a volta de Beto, a casa ficou mais alegre. Os dois marcaram a data do casamento. Tinha que ser na Igreja de São Judas Tadeu. A vizinhança ficou emocionada com a história do casal.Só que, estranhamente, faltando uma semana para o casamento, todos estavam felizes. Menos Marianinha. Ela sentia uma angústia. Uma saudade sabe-se lá de quê. Parecia que a vida tinha perdido o sentido. Mesmo assim resolveu levar os preparativos adiante.

No dia do casamento Marianinha pediu à mãe que fosse com a tia para a Igreja. Preferia ficar em casa sozinha e mais tarde iria com o motorista. Ficou sentada no sofá vestida de noiva.Enquanto noivo, família e convidados esperavam por ela, Marianinha estava em casa pensando. De repente saiu e falou para o motorista:
-Me leva para o Aterro do Flamengo...
-Mas dona...a senhora não tem que ir para a Igreja?
-Faz o que eu estou mandando.

Chegou no Aterro, dispensou o motorista. Ficou vagando em meio à grama e os coqueiros. O motorista correu para a Igreja e avisou a família.Wallace foi o primeiro a chegar .
Encontrou Marianinha sentada no gramado. Ele sentou-se ao lado dela e falou:
-Chegou o grande dia. Não vai se casar?
-Não. Descobri que não amo o Beto. O que me moveu estes anos todos foi a vontade de montar o enxoval. Mas na verdade, eu não pensei que meu sonho fosse se realizar.

Marianinha foi internada num hospital psiquiátrico. A mãe, de vez em quando, ia visitar a filha. Wallace era o único que passava por lá todos os dias, depois do trabalho. Encontrava Marianinha sempre bordando algum pano:

-Olha só o que eu fiz para o nosso enxoval.

Wallace sorria e balançava a cabeça concordando com Marianinha. Despediam-se com um beijinho estalado. O vizinho ia embora feliz. Decididamente Marianinha era a louca mais romântica do mundo

7 de abr de 2009

O PEDAÇO DE BOLO !


Ana Maria e Mariozinho já namoravam há mais de dois anos. Conheciam-se desde crianças. Costumavam brincar de pique-esconde, queimada, pique-bandeira. Quando Ana Maria completou 16 anos...Mariozinho com 18 pediu para namorar a jovem. Ela aceitou. Era um namoro de dar inveja a gente grande. Os dois eram apaixonadíssimos. Viviam grudados um no outro. Dava até nervoso. A mãe de Ana Maria ficava preocupada com tanta grudação:


-Minha filha, você não acha que está muito nova pra ficar pra cima e pra baixo com esse namorado? Você está na idade de estudar, de sair com as amigas, conhecer outros rapazes...


Nessas horas a jovem ficava contrariada com a mãe:


-Cruzes mãe..você devia agradecer por eu estar namorando um jovem de família. Já está fazendo até faculdade. Tem tantas moças que estão por aí passando de mão em mão e eu fiel ao meu namoro....


A tia encalhada apoiava a sobrinha:


-É isso mesmo Eugênia. Não vê eu...já com quase 40 anos e estou aqui, sem ninguém. Não tem homem na minha idade que queira namoro sério. E tua filha tá aí....namorando um homem de boa família.....devia dar graças a Deus.


A mãe então deixava passar. Mas que aquela grudação dava nos nervos de Dona Eugênia, dava mesmo. Ainda mais quando o marido enchia os ouvidos dela:


-Fica de olho mulher...qualquer dia Ana Maria aparece grávida.


Eugênia batia na madeira três vezes:

-Sai pra lá boquinha santa...ela tá muito nova pra ter filhos.


Alheios à discussão em torno do namoro, os pombinhos continuavam na maior lua-de-mel. Era cinema, shopping, praia, festas, tudo junto. Não se desgrudavam nem um minuto:


-Amor....vamos ao shopping amanhã...eu quero que você escolha comigo a camisa para a gente ir naquela festa....

E era assim. Um não dava um passo sem consultar o outro. Até mesmo na escolha de uma simples camisa. As amigas de Ana Maria babavam de inveja. Tinham até aquelas que secavam o namoro:


-Ana Maria...Ana Maria...abre o olho com o teu namorado....homem fiel não existe....ele te trata assim....mas olha, deve te trair....


-Me trair como? Estamos sempre juntos .


-Ué...quando ele vai para a faculdade....pode dizer que vai pra faculdade e não vai..ou quem sabe tem até uma paquera por lá.


Ana Maria era segura de si. Não dava ouvidos para as invejosas amigas. No fundo ria do veneno das meninas, todas encalhadas.Por sua vez, Mariozinho também ouvia piadinha dos amigos. Principalmente na faculdade:

-Cuidado hein cara! Vai se amarrar assim tão cedo? Não vê aquela loira que senta lá atrás? Tá te dando o maior mole.....e você nada...


Mariozinho, com aquela cara de homem sério respondia:


-Que nada cara...sou fiel.....sou o homem mais fiel do mundo. Amo a Ana Maria e vou me casar com ela.


E assim o tempo ia passando. Até que chegou o Natal. Mais um Natal juntos para Ana Maria e Mariozinho. Uns cinco dias antes do Natal, Ana Maria sentiu que Mariozinho estava meio triste, cabisbaixo...ela conhecia o namorado, .insistiu para que ele falasse. Mariozinho negou que tivesse acontecendo algo diferente:

-Você está se grilando á toa. Não tenho nada. Tira essa bobagem da sua cabeça..ah sim e não se esqueça, dia 25 eu quero comer aquele bolo que só você sabe fazer. E pára com essas bobagens, tá bom?


Mariozinho beijou a namorada e a paz e a confiança foram novamente seladas entre o casal. Dia 24, véspera do Natal, Ana Maria estava na cozinha toda descabelada, ajudando a mãe com a ceia....preparava também o bolo do namorado. Fazia com gosto o Bolo de Nozes que ele tanto gostava......Nisso Mariozinho entra cozinha adentro:

-E aí meu amor? Está preparando meu bolo? Amanhá quero comer esse delicioso bolo de nozes no almoço.....


Os dois conversaram um pouco. Mariozinho se despediu prometendo voltar no dia seguinte. Natal era sempre assim. O rapaz passava a ceia com os pais e no dia 25 almoçava na casa da namorada. Durante a despedida Ana Maria sentiu uma pontada no coração. Achou que era apenas impressão. Insegurança boba. Quando Mariozinho virou com o carro na esquina de casa, ela fechou o portão e continuou ajudando a mãe a preparar a ceia. De noite correu tudo bem. A família de Ana Maria brindou a chegada do Natal com uma ceia farta e muitos presentes. O tio guloso ainda quis comer um pedaço do bolo de nozes.


Ana Maria ralhou:

-Não senhor...esse bolo é para o almoço....é para o Mariozinho....


Dia 25. Ana Maria esperava o namorado para o almoço. Meio-dia e nada. Ligou para a casa dele, ninguém atendeu. Três horas da tarde e nem sinal do namorado. Todos já haviam almoçado. Ana Maria caiu em prantos. Andava de um lado para o outro. O bolo dentro da geladeira praticamente intacto.


Por volta de cinco da tarde a mãe de Mariozinho ligou para ela. As duas precisavam conversar. Ela foi até a casa do namorado. A mãe de Mariozinho entregou uma carta para ela:-Toma. Meu filho pediu que entregasse essa carta pra você.


Ana Maria leu com as mãos trêmulas. Era uma carta de despedida. Mariozinho dizendo que havia finalmente conseguido uma bolsa para estudar no estrangeiro. Era o sonho de sua vida e não podia deixar por nada. Não teve coragem de contar para ela. Quando ela lesse a carta, ele já estaria longe. Teria embarcado. O caso de amor deles terminava ali. Não tinha data para voltar. Talvez não voltasse nunca mais.


Ana Maria enlouqueceu. Ainda insistiu com a mãe de Mariozinho para que ela dissesse aonde ele tinha ido. A mãe não falou por nada desse mundo. Nem um mês depois, todos na rua comentavam que Ana Maria havia enlouquecido. A jovem agora falava sozinha. Não tomava banho. E detalhe: guardou um pedaço do bolo de nozes na geladeira. Ela jurava por todos os santos que ele ia voltar.


Não voltou nem cinco anos depois. Nunca mais souberam de Mariozinho. Ana Maria realmente saiu do juízo normal. Não havia psiquiatra que desse jeito.


Na geladeira, o pedaço de bolo, que ela guardara para o almoço natalino do namorado, ocupava um pequeno espaço no congelador. Todo dia ela ia até a geladeira, olhar para aquele pedaço de bolo velho. E ai que alguém quisesse jogar fora. Ela seria capaz de matar!

4 de abr de 2009

Miniconto - Coração Partido

Evaldo atravessava a Avenida Presidente Vargas quando viu Nicinha,

namoradinha de infância.

Impressionado com a beleza

da moça, não percebeu o ônibus que avançou o sinal. Morreu na hora.

O coração do morto foi jogado aos pés da ex.

2 de abr de 2009

O HOMEM QUE ODIAVA AS MULHERES


“A inteligência é o único meio que possuímos para dominar os nossos instintos”. (Freud)



Sou sangue quente, sexólatra e acho que toda mulher é sonsa. Trauma de infância. Eu tinha dez anos quando cheguei mais cedo do colégio e encontrei minha mãe na cama com o porteiro. Furioso, peguei a arma do meu pai em cima da cômoda e atirei. Os tiros acertaram a parede. Minha mãe se aproximou berrando e arrancou a arma da minha mão. O porteiro saiu vestindo as calças e eu gritei, horrorizado:

- Você é uma puta, mãe! Traindo meu pai logo com o Seu Antonio?!

- Não se mete em coisa de adulto. Você ainda é muito criança para entender.

- Eu sei muito bem o que vocês estavam fazendo.Vou contar para o meu pai!

- Se você contar, eu fujo de casa. Quem é que vai fazer seu almoço?

- Ah é? E você, vai viver de quê? De sexo? – mandei, irado.


Ela me deu um tapão na cara que me deixou zonzo. Trincando os dentes, puxou-me pelas orelhas e saiu gritando pela casa:

- Você vai ficar caladinho. Se pronunciar uma palavra do que viu, lhe enfio a porrada.

- Pode me bater, mas eu vou contar pro meu pai.

- Seu pai é um broxa, não consegue satisfazer uma mulher fogosa como eu. Quando você crescer vai entender o que é isso.


Me tranquei no quarto e me masturbei pela primeira vez. Chorava e me masturbava. Nunca contei nada pro meu pai. Eu e minha mãe não tocamos mais no assunto. Quando meu pai chegava do trabalho, com bombons, para agradá-la, eu ficava triste :

- Por que será que todo corno é cego?


Dia de domingo, quando íamos almoçar na casa dos meus avós e a família saía reunida, eu tinha a impressão de que na vizinhança todos sabiam do caso de mamãe com o porteiro. Me sentia uma ameba. Tornei-me um adolescente tímido, desconfiado e violento. Volta e meia chegava em casa arranhado. Apanhava e batia. Descontava a raiva no banheiro, me masturbando com foto de mulher pelada.


Transei pela primeira vez aos dezessete anos, com uma colega de sala na faculdade. Ela era bem vagabundinha. Deu em cima de mim no primeiro dia de aula. Eu sentia prazer em esnobá-la. Numa sexta-feira, na hora da saída, me pegou á força no banheiro masculino e desafiou:

- Se você não me comer agora, vou espalhar pra todo mundo que você é viado!


A transa foi selvagem. Eu gritava que ela era vagabunda, mordia-lhe o pescoço e quanto mais maltratava, mais ela gostava. A imagem da minha mãe fodendo me veio á cabeça. Meu sangue ferveu. Dei-lhe um tapa na cara com toda força.

Ela delirou:- Bate mais, taradão! Bate mais. Com força. Vai!


Deixei a vagabunda roxa. No dia seguinte tranquei a matrícula . Nunca mais vi a vadia. Ela foi a primeira de muitas outras. Até hoje, tenho vontade de vomitar quando penso nela gritando igual gata de boteco, no cio. Desconto no sexo meu desprezo pelas mulheres. Nunca escolhi idade, religião, altura, cor e nem estado civil. Basta olhar e já como em pensamento.


Minhas amigas massageiam meu ego. Adoram ir pra cama comigo. Nunca paguei por sexo. Atraio mulheres. Elas se oferecem. Jogam indiretas. Fazem de tudo para chamar minha atenção. Só tem um detalhe: gosto de maltratar. Todas viram vagaba nas minhas mãos. Me excita transar dando tapa na cara, beliscando e quando a trepada esquenta, tiro sangue.


Assim que é bom. Mulher tem que ser esculachada na hora do sexo. Detesto mulher puritana, metida a moralista. As mais fogosas me chamam de tarado. Amo. As mais tolas me acham anormal. O que é ser anormal? Se você aceita, nada é anormal. Anormal é não fazer o que se gosta. Mesmo que cause dor. A dor é sublime.


Adoro transformar sexo em filme pornográfico de quinta. Nunca tive namoradas. Só amiguinhas. Namoro acaba virando compromisso. Para se desvencilhar depois dá trabalho. Muitas amiguinhas especiais aceitam uma segunda mulher na cama. A vida só vale a pena quando satisfazemos nossos desejos. O ser humano completo é o que tem coragem de realizar suas fantasias. Elas acreditam nas minhas teorias. Sou mesmo é muito filho da puta, criativo, sedutor e ás vezes, me faço de coitadinho. Elas enlouquecem. Puro instinto maternal.


Me viro com duas, três amigas ao mesmo tempo. Até na mesma festa. Mulheres adoram ser enganadas. Manipulo-as bem. Mexo com a sanidade delas. Confundo-as. Dá certo. Ás vezes termino a noite com duas, três, na cama. Sexo é vital. Necessidade. Gozo pensando no próximo gozo. Já transei em cama de hospital, banheiro de avião, banco de igreja, feira de artesanato, festinha de criança .Cheguei aos quarenta, solteiro, tarado e seria feliz se a Marly não aparecesse na minha vida.


Quem me fodeu foi ela. Coleguinha de infância que reencontrei na rua. Declarou-se como uma loba no cio. Peguei. Saímos quatro vezes. Quando percebi que estava apaixonada, deixei de procurá-la e não atendi suas ligações. Ela passou a me perseguir. Mulher obsessiva é uma merda. Nunca desiste. Dei de cara com ela num churrasco, na casa de um amigo. Fingi que não a vi. Mas quando abracei uma amiga gostosona, ela se aproximou com os lábios trêmulos, segurando um copo de cerveja e enfiou o dedo na minha cara:

- Sabe o que você é? Um doente mental! Sacaneia as mulheres para se vingar da sua mãe. Tô sabendo.

- Marly, cala a boca! Nunca lhe prometi nada. Se iludiu à toa. Olha o escândalo.

- Você sabia que eu tava apaixonada e me usou. Só porque sua mãe é uma puta, você acha que toda mulher é puta também?

- MARLY, CALA A BOCA!!!

- Vai me bater por acaso? Além de filho da puta, é covarde?

- Sai daqui, tô perdendo a cabeça. Pára de falar merda!

- Você é um canalha. Quem sabe da sua vida é meu tio Antonio. Lembra dele?


Ensandeci. Passei a mão no espeto largado na churrasqueira. O barulho de chave me fez pular da cama. O carcereiro abriu a cela. Hora da consulta com a psicóloga. Sorri ironicamente e escondi o canivete na cueca . Preciso de sexo.

1 de abr de 2009

TRAGÉDIA CARIOCA


O sangue que saia do meu nariz se misturava ao asfalto quente da Avenida Presidente Vargas de uma sexta-feira, ás 5 horas da tarde. Eu não conseguia mover uma parte do meu corpo. Não sentia nada. O motorista do carro que me atropelara andava de um lado para o outro, com a mão na cabeça, gritando, desesperado:


-Eu não tive culpa! Ele apareceu de repente na minha frente!


Um burburinho se formou ao meu redor. Eu olhava aquelas pessoas se espremendo em volta de mim. Minha vontade era gritar que saíssem todas dali e me deixassem em paz. Porém, não conseguia articular uma palavra. Cada um dizia uma coisa:

- Leva logo para o hospital. A ambulância vai demorar.

- Alguém chamou a ambulância?

- Não pega nele, deixa como está. Ele pode ter quebrado alguma coisa.


Era uma gritaria. Uma mistura de vozes. Tinha de tudo ali, imaginei. Boys, empresários, advogados, donas-de-casa, idosas, até crianças.

-Que povo curioso esse!!

E tudo isso por causa de quê?Dela.

Da minha Dalva. Que mulher linda! Foi a minha desgraça.

Bem que meu amigo Tony me avisou.



A primeira vez que vi a Dalva foi num ensaio da Mangueira. Eu estava perto do bar, tomando uma cerveja, quando avistei aquela morena de parar até bateria de Escola de Samba. Filmei todos os movimentos dela. Tony notou meu entusiasmo e foi logo dizendo: - Cara, não se empolga não. Essa aí só gosta de gente com dinheiro e você é um duro. Tira o olho.



Mas cadê que eu conseguia? A morena era de arrepiar. Fiquei o ensaio todo encarando aquele corpo que se movia como uma bailarina no palco do Municipal. Já passava das 3 da matina quando Tony resolveu me puxar para irmos embora. O safanão me tirou daquele torpor que eu me encontrava por causa da Dalva:

-Cara, acorda, tira essa morena da sua cabeça. Vamos que eu tenho que dormir. É domingo, mas eu trabalho.


Antes, porém, passei perto da Dalva e com a cara e a coragem dei meu telefone pra ela e baixinho falei no ouvido da morena:- Me liga.

Foram dois dias intermináveis. Esperava a Dalva me ligar, como um cachorro faminto que espera um pedaço de carne. Quando o telefone tocou, eu nem acreditei. Era a Dalva. Aquela voz suave e macia encheu meu coração de amor. Minhas pernas tremiam, meu coração batia acelerado. Combinamos sair naquele dia mesmo, de noite. Demorei mais de meia hora no banho. Enchi meu corpo com uma colônia nova, especialmente comprada para o encontro com a Dalva. Peguei meu chevetinho velho e parti para a casa da morena, que morava no Irajá. Ela estava mais bonita do que naquele dia na Mangueira. O vestido preto, colado ao corpo, fazia até padre sair do sério.


- Oi gato, e aí, tudo bem com você?

Eu olhava para ela impressionado. Não estava acreditando que aquela morena de parar o trânsito estava bem ali, sentada no meu carro. Fomos até a Praia de Copacabana. Ela queria ver o mar. Disse que adorava o mar. Lembrava da infância, quando ia à praia com os pais e os três irmãos. Ficamos ali, conversando nem sei quanto tempo. Ela me contou que era recepcionista num escritório de advocacia na Presidente Vargas. Eu falei que trabalhava com computadores, mas que ainda não dava para tirar uma grana legal.


Quando vi, já passava de uma da manhã. Dia de semana. Dei um pulo:- Dalva, tenho que acordar hoje ás 6 da matina para pegar no batente. Vamos sair outras vezes?Ela balançou a cabeça afirmativamente. No sábado, combinamos de ir à Mangueira.Quando Tony me viu chegando com ela, falou no meu ouvido:

- Pô , nem acredito, pegou a morena. Mas olha, cuidado! Isso é chave de cadeia!!

- Chave de cadeia nada. Ela é um doce, um amor de mulher, você está é com inveja.



Saímos dali e fomos para o motel. Minha primeira vez com Dalva. Na cama, a mulher era um avião. Nossa, me deu uma canseira daquelas. Passamos o domingo juntos. Eu estava completamente apaixonado. Só via a Dalva. Só falava na Dalva. Queria chegar em casa, de noite, depois do trabalho, para ligar para a Dalva. Durante dois anos me senti no paraíso. Devoto de São Jorge, passei a fazer promessa ao santo para me casar com a Dalva. Nas conversas de botequim, depois do expediente, o assunto era um só: Dalva.



Os amigos pegavam no pé:

- Cara, não acredita em mulher. Controla esses delírios. Daqui a pouco, a morena te dá um fora, e você fica aí, chupando o dedo.

Não faltava gente do contra:

- Vai ficar é vendo navio. Segura sua onda.


E não deu outra. Parecia até praga dos mané. Um fim de semana, liguei para a Dalva e ela disse que não podia sair:

- Não vai dar amor. Tô cheia de dor de cabeça...

- Então eu vou aí lhe fazer um cafuné.

-Não, amor, não vem não. Eu vou tomar um analgésico e cair na cama


Sabe como é homem apaixonado. Desconfiei que aí tinha coisa. Peguei meu chevetinho e fui até Irajá. A mãe me falou que a Dalva não estava. Fiquei ali fazendo plantão, até ela chegar. Cinco da matina, me chega a Dalva, ao lado de um coroa, num Astra. Meu coração partiu ao meio. Meu sangue subiu. Minhas pernas bambearam. Saí do carro, o Astra foi embora e fiquei frente a frente com a minha Dalva:

- Qual é? O que significa isso? Me enganando? Me colocando um par de chifres?


A morena ficou branca. Tentou se explicar. Brigamos ali mesmo, no meio da rua. Mandei a mão na cara da Dalva. Entrei no carro e parti com tudo. Me senti o homem mais humilhado do mundo.


Depois deste episódio, tentei falar com a Dalva. Mas ela não atendia o telefone. Queria pedir desculpas. Acabei indo até o escritório em que ela trabalhava, na Presidente Vargas. Cheguei lá, toquei a campainha, foi ela que atendeu. Estava sozinha. Fui entrando. Dalva me olhou nos olhos e foi firme:

- Eu não quero mais nada com você. Por favor, não faz escândalo. Aqui é meu trabalho. Vai embora.



Começamos a discutir. Ela me colocou no chão. Me chamou de otário para baixo. Disse que eu era um pobretão e que só queria curtir comigo, mas que tinha acabado. O sangue foi subindo. Minha cabeça começou a girar. De repente, vi em cima da mesa da Dalva uma faca, ao lado de uma laranja. Peguei.

Ela gritou:-Tá maluco? O que você vai fazer? Ei!!!



Minha vista turvou. Não vi mais nada. Acho que foram mais de 10 facadas. Peguei o elevador e saí desnorteado pela Presidente Vargas. O carro me pegou e cá estou eu, no meio desta multidão curiosa. De repente, o barulho da ambulância chegava mais perto. Ouvi os transeuntes gritando:-Chama, diz que é aqui. A ambulância chegou.


Eu queria falar alguma coisa. Não conseguia. Acho que estava em estado de choque. Queria saber se a Dalva estava viva, se tudo não passava de um terrível pesadelo. Ela estava lá, jogada num daqueles escritórios da Presidente Vargas, e eu ali, estirado na Avenida Presidente Vargas.


Os médicos me pegaram com cuidado. Colocaram-me na maca. A roda se abriu. Eu olhava para todos e já não enxergava nada. Finalmente me ajeitaram na ambulância. Escutei um homem, todo de branco – devia ser médico, enfermeiro, sei lá – dizendo para o outro:

- Acho que esse aí tá mal. Não anda mais.


Desesperei-me. Mas não tinha reação. Resolvi fechar os olhos. Pensei em São Jorge. Quem sabe se ao abrir os olhos eu não estaria ao lado dele? O motorista da ambulância ligou a sirene. O carro saiu em disparada, abrindo espaço no trânsito caótico da Avenida Presidente Vargas.



Tudo voltou ao normal. Carros passavam, transeuntes também andavam apressados. Nem parecia que ali, cinco minutos antes, uma história de amor terminara em tragédia.